segunda-feira, 16 de junho de 2014

Eu só estava assistindo




Era o ano de 1961, meu irmão Emmanuel Ferreira Leite em casa era conhecido pelo apelido de Nenê. Morávamos no Cine Clipper da Freguesia do Ó. Éramos três irmãos: Nenê com seis anos de idade, Isabel Virginia com dois anos, e eu Luiz, apesar de ser menor do que Nenê em estatura, tinha já meus sete anos. Na foto acima estamos, da direita para a esquerda, Nenê, meu pai e eu. A foto foi tomada diante de uma das portas de saída lateral do Cine Clipper que dava acesso para a Rua Bonifácio Cubas, a antiga rua da feira. A feira atualmente acontece aos sábados numa praça próxima à Escola Infantil Manuel Preto.
Nosso local de habitação era um pavimento que existia sobre o banheiro masculino cujo acesso era através de um pequenino hall. A porta que levava para onde morávamos dava para o interior da sala de expectadores, ao lado da porta do banheiro dos homens. O acesso para o pavimento sobre o banheiro masculino era feito por uma escada feita de madeira cujos degraus eram muito altos para mim e para meu irmão. Não havia cômodos e os ambientes eram distribuídos conforme o espaço permitia. Nossos pais eram zeladores do cinema. Meu pai, Manoel era também cobrador de ônibus e, durante algum tempo, também se incumbiu da da projeção dos filmes.
Aquela época era um sonho para mim. Moramos no cine Clipper entre os anos de 1958 e 1962. Era os tempos áureos do famoso Mazzaropi, do inesquecível Cantinflas, de Roy Rogers, dos famosos filmes de caubói americano, do cão Rin Tin Tin, do Vigilante Rodoviário e muitos outros. Como éramos pequeninos só podíamos assistir filmes nas disputadas matinês de domingo. Às vezes, aos sábados ocorriam alguns shows matinais com artistas populares, oportunidade onde chegamos a assistir “ao vivo” artistas como o sambista Germano Matias, Moacir Franco se apresentando como mendigo cantando “Ei você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!”, e ainda um dos nossos primeiros roqueiros: Carlos Gonzaga cantando “Diana”.
Voltando ao início do relato, era o ano de 1961 e, naquela época ocorria um evento que era um show carnavalesco onde se apresentavam algumas dançarinas mulatas em trajes mínimos, conhecidas como cabrochas. Não precisa dizer que a idade mínima para assistir a esses shows era de 21 anos! Eis que um grupo desses foi se apresentar no Cine Clipper! Maior alvoroço, coisa proibida para menores de 21 na cabeça da gente deveria ser algo inimaginável. Chegou a noite da primeira apresentação, minha mãe preocupada com os últimos detalhes de limpeza, meu pai atarantado com os detalhes de acompanhamento de instalação elétrica, som e outras coisas. Após terminarem suas tarefas eles subiram rapidamente para tomarem banho e se trocarem para assistir ao show que já estava começando. Em meio aos preparativos se deram conta que meu irmão Nenê não estava no aposento onde residíamos! Rapidamente desceram a escada e saíram para a plateia para começarem a procurar o filho perdido. E não é que deram de cara com o cara de pau que estava comodamente sentado em meio aos expectadores? Rapidamente retiraram Nenê do local e subiram a escada já dando um pito daqueles no meu irmão! E ele na maior cara de pau: “Ué .... eu só estava assistindo!”
Esse fato marcou a vida de nossa família, até mesmo em virtude disso ter acontecido numa época em que o então conhecido Juizado de Menores funcionava com muito rigor e a estória teria sido outra caso um dos comissários tivessem flagrado a escapada do Nenê.


Por Luiz Carlos Ferreira Leite

9 comentários:

Soninha disse...

Olá, Luiz Carlos!

Seja bem vindo entre nós!
Olha só as peripécias de seu irmão! Que situação de seus pais, heim?!
Mas, eu dei muita risada aqui, lendo seu relato.
Muito bom.
Espero outras histórias suas, ok?!
Obrigada.
Muita paz!

Bernadete disse...

Luiz Carlos,muito interessante e divertido seu texto.Fiquei aqui imaginando,que delícia morar em um cinema,numa época em que era nossa maior diversão...Um abraço.

Arthur Miranda disse...

Caro Luiz Carlos, nasci e vivi na Freguesia do Ó, até o ano de 1977. Vi o inicio e o fim do tradicional e saudoso cine Clipper, morei alguns anos aí ao lado da Cifa rua Martins Heredia atual Miguel Conejo, 332 Hoje um salão de festas infantis. acho que você também deve ter conhecido muitos amigos meus como o mané gordo do Bar ao lado do Clipper e de frente para a Antonieta Leitão e os Margines que tinham uma lojinha na Bonifácio Cubas em frente ao Bar do Famoso Caxambu. Gostei da sua historia, e antes do Cine Cripper ser construído o local era usado para a armação de circos muito famosos da época, como o Circo Artistas Unidos, Irmão Savalla, Circo Norte Americano, e o famoso Pavilhão Français.

joaquim ignacio de souza netto disse...

Luis, que cara de pau que era vosso irmão, heim? Um belo e gostoso texto.
Abraços do Ignacio

Teresa disse...

E o melhor de tudo, Luiz Carlos, era morar em cima do cinema. O que poderia haver de melhor que uma matinê de domingo garantida? Sem ter que pagar a entrada; no máximo, ter que gastar com uma pipoca americana que era tudo de bom.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz Carlos, deve ter sido uma infância bem divertida, morar dentro do cinema! e seu irmão Nenê apenas estava "assistindo" o espetáculo, parabéns pelo texto.

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz Carlos, teu irmão mostrou, pela pimeira vez entre tantas que acredito terem ocorrido, que ele era Nenê de nome mas não tinha Bobo como sobrenome. Gostei das memórias que também serviram para ativar a minha memória um tano quanto desmilinguida.

margarida disse...

Luiz, quantas peraltices, também o local de moradia proporcionava tudo isso.Se eu morasse em um lugar assim com certeza também ia ficar espiando.

Modesto disse...

Luiz, a preocupação de seus pais com vcs, tinha suas razões em cuidar das mazelas da época. Como podemos perfeitamente comparar com as distrações atuais, seu irmão não só poderia assistir como fazer parte do elenco do show. Seu texto é muito alegre e interessante, Luiz, parabéns.
Modesto