segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Ministério da Saúde informa: Trabalhar feito louco faz bem pra saúde!


Meu nome é Joaquim Ignacio, sou Técnico de Enfermagem aposentado e acho melhor explicar logo que diabo de texto estou tentando escrever. Estou imaginando falar sobre meus últimos empregos e a luta que foi minha vida. Vou pedir desculpas antecipadas por, a partir de agora, escrever na 1ª pessoa.

De repente as luzes se apagaram. Gritos, palavrões, ameaças de quebrar tudo, “...funça vai morrer!”
Os plantões no Hospital Central do Sistema Penitenciário, no Carandirú, podiam ser tudo, menos monótonos; nós, os ‘funças’ (funcionários), vivíamos com os nervos à flor da pele – perdão pela frase clichê; clichê, mas a única que pode definir corretamente a maneira pela qual passávamos aquelas 12 horas do plantão, pois o medo de uma rebelião, ou fuga em massa dos reeducandos da Penitenciária, ou da Detenção e invasão do hospital, era permanente. Os médicos, a maioria residentes da área de Infectologia, eram provenientes do Emílio Ribas e viviam ainda mais assustados do que a gente; examinavam os pacientes em suas celas enfermarias, acompanhados de ASPs (Agentes de Segurança Penitenciária), armados de fuzil ou pistola. As médicas sofriam ainda mais devido àqueles temores femininos, medo de estupro, de homicídio. Muitas passavam o plantão chorando, apavoradas, maldizendo aquelas horas, com medo de tudo, com nojo de vômitos, sangue, fezes. Confesso que, pelo menos da parte dos pacientes, fisicamente, não havia nada a temer; eram todos soropositivos para HIV e 90% deles estavam morrendo. Os 10% restantes, melhoravam, recebiam alta do hospital, voltavam para seus ‘barracos’ (celas) na “Penita” ou na Detenção, se entupiam de drogas, não cumpriam as medidas terapêuticas e acabavam por voltar para o hospital, já prontinhos para serem plantados em alguma cova rasa da vida (ou da morte).

HISTORIAS E ESTÓRIAS
Acredito que a maioria das pessoas não faz idéia de quanto ganha um profissional de Enfermagem em São Paulo. Não sabem, né? Pois eu digo: a remuneração é uma miséria, daí a necessidade de 2 e, às vezes, 3 empregos. Claro que eu, pai de 5 filhos, atolado em contas para pagar até a hipófise, não poderia fugir à regra; na ocasião eu trabalhava no Ambulatório do “Leite Paulista” no Brás, no Hospital Sabóia do Jabaquara e no Hospital Central do Sistema Prisional. Não me perguntem como é que eu dava conta de 3 empregos e alguns bicos que apareciam vez ou outra, que até agora eu não sei explicar, mas, nunca dei mancada, nunca faltei a nenhum plantão, mesmo porque eu precisava; meu filho mais velho estudava na UNESP, em Franca, e eu mandava dinheiro e meus vales refeição para ele que não conseguira emprego na cidade; ajudava os outros filhos pagando colégio, cursinho e o diabo à quatro. A Dona Odete, minha amantíssima esposa, também segurava uma barra; já não tinha mais o salão de beleza que fundara, devido a um enfisema pulmonar adquirido graças aos compostos químicos usados para tintura de cabelos, permanentes e procedimentos correlatos. Então, aprendeu a fazer apliques de cabelos, mega hair (acho que é esse o nome da técnica), e conseguia tirar algum dinheiro com essa ocupação, o que nos ajudou muito.
Um dia eu percebi que ia travar e saí de férias no Saboya, precisava ter uma noite de sono normal, nada de cochilar por uma hora, ou menos, em cima de caixas de soro, dentro de salas de material contaminado, nada de atender uma ala semi-intensiva com mais de 40 leitos, sem condições nem de parar para urinar ou beber água; essas coisas tinham de ser feitas naquele tempinho reservado ao descanso. Gostei de estar em casa e resolvi que não morreria por ter apenas 2 empregos, portanto, ”adeus Saboya”.
Fiquei apenas com o Leite Paulista e o Hospital da cadeia e, eventualmente, dava aulas para cursos de formação de Atendentes de Enfermagem, mas isso era café pequeno.
Uma bela noite, quando cheguei para o plantão, alguém me avisou: - Fica esperto Joaquinzão! Os homis começaro a mandar a bandidagem barra pesada prá interná ca gente.
- Mas aqui só tem aidético, fulano. Aonde vamos por essa gente? Isso é um perigo, meu!
- Us cara num qué nem sabê. Diz que hospitar é hospitar. Diz que vai virar hospitar gerar...

**********
Um preso saudável fazia o papel de faxineiro, atendente e preparador de cadáveres; estava naquele esquema de 3 dias trabalhados, 1 dia a menos na pena. Nunca soube seu nome, mas seu apelido era Bronquite. Um dia, o Bronquite me chamou num cantão: - ...siguinte, ‘seu’ Joaquim! Tô pedindo prá vortá prá Casa de Pedra (penitenciária). Us cara tão bolando uma fuga no dia da visita e vai sobrá prá muita gente, iscrusive prá mim!... Fica ligeiro...
Sorte minha que no dia da visita eu estaria de folga, pensei. Naquela noite, conversando com Dona Odete, contei a conversa que tive com o Bronquite e fui logo ouvindo um discurso:
- Ignacio, isso não é emprego! No começo vocês só cuidavam de aidéticos, o que eu já acho um perigo do c... Agora estão cuidando de bandido com dor de dente, calo, caspa, quer dizer, prá essa corja o hospital é um spa! Qualquer dia desses eles avançam em vocês e fazem reféns ou matam alguém... Sai dessa merda de emprego!...
À noite tive pesadelos, sonhei que morria atravessado por um estoque numa rebelião na cadeia... Quando amanheceu, liguei para o Leite Paulista pedindo para o meu colega da noite cobrir parte de meu plantão na parte da manhã, que eu iria me atrasar um pouco. Fui para a Av. São João, na Administração Penitenciária e pedi demissão.
Mais tarde, fiquei sabendo que muitos presos conseguiram fugir do hospital simplesmente pulando muros, após abrirem buracos nas paredes das celas-enfermarias. Nenhum dos meus antigos colegas fora molestado ou ferido...
Em 1999 me aposentei gloriosamente, firme, forte, saudável graças a Deus.
Durante muitos anos eu vivi à base de descargas de adrenalina. Trabalhei na USP em plena época da ditadura, no HC, nas clínicas de Neurologia e MI (Moléstias Infecto-contagiosas), com suas doenças sem nome e desconhecidas (AIDS já estava grassando e era uma síndrome desconhecida), na Siderúrgica Aliperti, no meio do fogo, de minério derretido à 1600 graus, respirando monóxido de carbono 12 horas por dia... Passei por tudo isso e nunca me queixei de nada.
Foi parar com tudo e infartar... Sejamos sinceros: dá prá entender?

Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

13 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Amigo Joca, tua vida não foi bolinho não. No jogfo com a dama de preto você foi e é, um grande vencedor.
Trabalhar em locais infectos e salubres era tua especialidade.
Quanto ao infarto, só existe uma explicação, MOLEZA, parou de trampar e quase sifu...
Saravá mizi fio, ocê é fo.....

Soninha disse...

Olá,Ignacio!

Nossa! Que barra, heim?!
Uma história muito interessante, pois sei que a maioria dos brasileiros desconhecem o real perigo que passam os profissionais da área da saúde.
Felizmente muitos de seus colegas estão aqui para testemunhar e contar suas histórias, assim como você, que nos presenteou com este magnifíco texto.
Dramático, mas,sensacional.
Obrigada.
Valeu!
Muita paz!

Mário Lopomo disse...

Sônia seria bom colocar nomes nas fotos do que aparece no texto. A primeira eu sei, é o conjunto penitenciário, onde estive em 1960, não como preso, mas sim jogando futebol. A segunda sei que é uma entrada de algum estabelecimento, mas seria um Hospital, Escola, ou Super Mercado? Depois o Logo de um hospital perto da minha casa e, um belo prédio que seria o hospital das clinicas? (Mário Lopomo)

Wilsonnatale disse...

JOCA: Vidinha duca!... Como a de tantos brasileiros.
Muito trabalho, grana pouca; trabalhos extras, ou outros empregos e, no resumo da ópera, uma aposentadoria de fazer os deuses chorarem piedosamente.
Eu poderia dizer: Trabalhou na penitenciária? Que coragem a sua! Mas não vou dizer. Não vou porque sei que a gente vai aonde tem trabalho. Nõa é uma questão de escolha, mas de necessidade.
O que vale é que você venceu! Não saiu incólume dessa jornada, mas experienciou, aprendeu e, o melhor, sobreviveu a tudo isso.
Sobreviver, a qualidade mais importante dos brasileiros.
E, todos, aposentados ou não, vamos sobrevivendo neste Carandiruzão que é a Cidade, o Brasil...
Pena que, com esses diretores prisionais que temos em Brasília, nunca pensamos em rebeliões...
Gostei da sua narrativa. Principamente da narração sobre a vida nas enfermarias da penitenciária.
Abração,
Natale

Zeca disse...

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Ignácio!

Estou surpreso e emocionado com essa história! Surpreso por não imaginar todas as dificuldades e toda a adrenalina que nortearam sua vida, emocionado pela bela narrativa que nos mostra uma outra face da vida dos profissionais da saúde, tão mal respeitados pelos "poderosos" (seja qual for o patrão, governo ou empresa!) e tão mal compreendidos pela população que, quando procura atendimento é porque está carente e necessitada de uma atenção que esses profissionais nem sempre estão preparados (por todas as demais dificuldades que enfrentam todos os dias) para dar. E por fim, vejo nessas palavras que, criteriosamente você usou para montar esse texto, o quanto existe de lutador e, principalmente, de vencedor em você. Parabéns! Não apenas pelo excelente texto, mas pelo conjunto da sua vida!
Abraço

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Arthur Miranda disse...

Ignácio,

Parabéns por esse belo texto, muito real. Sua caminhada não foi mole não.
Uma grande lição de vida, mais uma vez parabéns

joaquim ignacio disse...

Zeca, no duro, no duro, não era minha intenção escrever um texto tão pessoal, mas parece que de repente "outra pessoa" estava escrevendo sobre minha pessoa e minha profissão. A idéia era desmistificar algumas lendas a respeito da enfermagem, falar do dia-a-dia dos profissionais, seus problemas, a discriminação de que somos vítimas neste país -"É da enfermagem? Então não presta, é veado ou é puta!... Somos achincalhados nos humorísticos da TV, ameaçados por "acompanhantes" de pacientes -"vcs estão aqui prá atender na hora que eu tocar a campainha; 'tamos pagando!...
Zeca, a Enfermagem é para vocacionados e loucos!...
Obrigado pelas palavras gentís. Minha categoria profissional agradece!
Abraço comovido do Ignacio

Zeca disse...

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Ignácio!
Não precisa agradecer por nada, pelo contrário, quem agradece somos nós, pelo belo texto e pela excelente informação, da qual, muitas vezes, nem temos idéia.
Eu posso dizer que conheço "um pouquinho" do sistema de saúde paulista, por dentro, pois já trabalhei no Hospital Emílio Ribas. Não vou me alongar pois acabo de "receber" uma inspiração e vou preparar um texto a respeito desse período. Talvez não tão cheio de detalhes como o seu, mas contando um pouco do que vivenciei quando participei de uma intervenção da Secretaria de Saúde naquele hospital para fazer uma "faxina". Foi um ano inteiro de trabalho intenso e muito difícil, onde conviví com o pessoal que dá a base ao funcionamento de um hospital.
De qualquer forma, minha experiência não chega nem aos pés da sua! Parabéns mais uma vez.
Abraço.
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Laruccia disse...

Ho, Joaquim, sei disso pelas sua narrativa mas, não é difícil saber o que é a vida em contato com presos doentes, em tres empregos, procurando vencer as dificuldades que não são poucas. Sem fazer o juramento que os médicos proferem quando se formam, o sacerdócio da enfermagem chega a ser mais caústico, ainda. E com um salário irrisório, com todos os riscos que vcs correm. Deus me livre. Parabéns pela excelente narrativa, Ignácio.
Laruccia

Luiz Saidenberg disse...

Ô vida dura, meu caro Joaquim.
Vc passou por tantos dramas, viu tantas tragédias, salvou e ajudou a salvar tantas pessoas, para , no final, tb ter um infarto. Bem diz o ditado-o Trabalho DANIFICA o Homem ! Certamente não é bem assim, mas que deixa sequelas, isso lá deixa. Abraços.

joaquim ignacio disse...

Saidenberg, boa tarde. Tudo bonitinho?
Essa do "Trabalho DANIFICA o homem" foi ótima. Posso usar em meus textos quando a expressão couber?
Vc me fez rir, o que é um pouco difícil.
Obrigado e um abraço.
Ignacio

Luiz Saidenberg disse...

Claro, meu bom Joaquim. Use abuse, mas não fui eu quen inventou tal expressaõ. Deve ser um contraponto à invenção do trabalho, atribuida a nossos irmãos lusos. Grande abraço.

margarida disse...

Ignácio, que vidão você teve! Quando não se nasce em berço de ouro, a labuta é assim mesmo. Sua historia de vida me fez lembrar meu pai, com nove filhos para sustentar acabou por ter três empregos, não é fácil não!
Você foi um batalhador e honrou sua profissão, parabéns pelo mergulho firme e forte em tua vida, Deus não manda nada que não podemos carregar. Enfartou, mas continua sua vida por aqui, que presente de Deus! Um grande abraço, foi bom ler seu texto.