sábado, 8 de outubro de 2011

Tudo de volta outra vez


“O que é preciso é ser-se natural e calmo tanto na felicidade e na infelicidade, sentir como quem olha, pensar como quem anda, e quando se vai morrer lembrar-se que o dia morre, e que o poente é belo, e é bela a noite que fica”. (Fernando Pessoa)

Tudo começou quando descobri um preservativo na carteira do filho mais velho, que na época tinha 16 anos. Depois, pararam de me pedir documento em filmes impróprios para 18 anos. Em seguida, deram de levantar para me cumprimentar e também para dar lugar no assento do ônibus. O ponto crítico: Outro dia, perguntei ao fiscal do Terminal Santo Amaro, onde era o ponto do ônibus que ia pela Avenida Adolfo Pinheiro. Ele me respondeu que era na plataforma A, do lado oposto. Eu perguntei se era pra subir a escada, e ele respondeu que a acompanhante de idosos me conduziria. Nem tive tempo de retrucar (aquela minha pergunta foi besta). Veio a mocinha, delicadamente me deu o braço, conduzindo-me por aquela portinhola dos mal formatados pela natureza e dos prejudicados pelo DNA vencido. Entretanto, eu poupei minhas pernas cansadas de guerra. As escadarias continuaram lá impávidas sem o meu contato. Entrei no ônibus. Conformada com a situação, acomodo-me no espaço destinado aos ”idosos, gestantes e pessoas com deficiência”. Divago.

Quero meu pescoço liso de volta. Barbelas zero. A boca carnuda que não parava de falar. As mãos lisinhas sem aquelas pintinhas marrons. Pés bonitos e saudáveis com unhas perfeitas. É querer demais? Quero meus cabelos negros, bastos e brilhosos. Afinal a medicina tem que evoluir! Dermatologistas com tempo e juventude pra estudar é o que não falta. Lembrei mais. Quero as pernas longilíneas prontas pra caber em calças 38. A volta do branco dos olhos e o brilho do amanhã para sempre estampado na cara de pau das reminiscências. Capacidade de ler a bula num relance, sem nenhuma lente. Dá pra devolver o riso inconsequente e o juízo indolente?

Querer é poder. E essa agora. Descobriram que a pressa é um dos fatores que estimulam a obesidade. Fui fazer os cálculos de dividir o peso pela altura e, o resultado pela altura. Embatuquei total na tal de massa corpórea. A epidemia da obesidade se agravando. Lições de meditação. Saborear uma única uva passa durante vários minutos. A quem pensa que está enganando? Dependência de informação. Dependências químicas? Isquemias? A avalanche de informação exterior a inibir a informação interior? Clico aqui, clico acolá. Checo e-mails e surfo na web. Posto no “face”. Desconecto-me para conectar-me com a dermatologista. Viajo. Só rindo.

 
Inspirada no texto do Saidenberg, fiz este acima.
 

Por Suely Aparecida Schraner

17 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Suely, o tempo é inexorável, nada o demove, então, faça como eu, relaxe e sinta-se bem vinda aos dias da "melhor idade".

joaquim ignacio disse...

Suely, como vai? Depressa ou devagar? Sensação de que estão respirando o seu ar, por isso que sente sua falta?
As coisas são assim mesmo (seja lá o que forem essas tais "coisas") Ainda bem que vc não está como eu que entrei na fase das próteses, óculos, dentes, bengalas eventuais e olhe que estou pensando seriamente em usar um aparelho para atenuar a presbiacusia de acordo com meu geriatra; enquanto não me decido vou procurando um aparelho que seja fashion...
Grande texto, Suely. Leve, gostoso, sutilmente irônico.
Ignacio

Wilsonnatale disse...

Suely: É nisso que dá atingir a plenitude (Risos).
Há muito tempo eu ao passar olhei no espelho e disse: MENTIROSO!Nunca mais falei com ele.
Há muito tempo, como se me dessem uma tijolada nos cornos, alguém levantou do banco do ônibus e me disse: "O SENHOR não prefere sentar-se"?...
Um dia me disseram que as rugas da face, cada uma, contava uma história de vida... Não acreditei e preferi pensar como a personagem de Calderón De La Barca e disse: Eu sou como as mulheres honestas. Não tenho histórias!...(risos)
Ai eu descobri o Pitanguy, o botox...E descobri que não preciso de plástica e sim, de funilaria.
Um Ford 1948 não se muda em Cherokee.
Então, o que me resta é cuidar de mim mesmo e envelhecer com dignidade, conservando dentro de mim toda a juventude que viví.
Amei o seu texto.
Abração,
Natale

Luiz Saidenberg disse...

Belo texto, Suely, e agradeço sua citação. É, o tempo passa inexorávelmente para todos. Mas, para, desculpe, falar novamente de meu texto, quando começo a me sentir assim lembro de longevo
Dr. Morrone. Quem sabe o destino nos reserva mais anos do supunhamos, então vamos em frente, pois tristezas não pagam dívidas. E estas continuam, mesmo post mortem. Um abraço!

Luiz Saidenberg disse...

Belo texto, Suely, e agradeço sua citação. É, o tempo passa inexorávelmente para todos. Mas, para, desculpe, falar novamente de meu texto, quando começo a me sentir assim lembro de longevo
Dr. Morrone. Quem sabe o destino nos reserva mais anos do supunhamos, então vamos em frente, pois tristezas não pagam dívidas. E estas continuam, mesmo post mortem. Um abraço!

Luiz Saidenberg disse...

Buáa! Saiu duas vezes meu comentário, e com o mesmo erro : DO longevo Dr. Morrone(93 anos).

Modesto disse...

A ingrata passagem do tempo se faz devagarinho mas, de forma inexorável. Seria bom se pudéssemos brecar esse fenômeno, esse desgaste natural que nos aborrece. Mas, pra quebrar a monotonia dessa passagem, a gente recorre ao prazer de expor nossas almas ao sabor do delicioso resquício de saber compor uma bela e fantasiosa poesia, como vc fez, Suely. Parabéns.
Modesto

Suely Aparecida Schraner disse...

Miguel, o tempo está passando. O bom é que passa pra todos. Daí chega a melhor idade da osteoporose, melhor idade da artrose e outras “cositas” mais. Grata.

Suely Aparecida Schraner disse...

Joaquim Ignacio, esses acessórios todos são muito bacanas. Melhor que “piercing” e alargador de orelhas, né não? Obrigada!

Suely Aparecida Schraner disse...

Natale, e já dizia, Raquel de Queiroz “a plástica estica mas não renova” . Ou como disse minha sobrinha Luciana, é problema de DNA (Data de Nascimento Antiga). Abração e muito obrigada!

Suely Aparecida Schraner disse...

Luiz Saidenberg, nada como ter-se a consciência da nossa vulnerabilidade. Ficar velho não tem nada de mais. Demais é ficar velho mal acabado e mal pago. O Dr.Morrone é uma boa inspiração. Um abraço! P.S.: Comigo também acontece do comentário sair truncado ou repetido. Faz mal não.

Suely Aparecida Schraner disse...

Modesto, bom fazer esta travessia em boa companhia, de gente sensível, leitora e que produz lindos textos como você. Muito obrigada!

margarida disse...

Suely, tudo é questão de VAIDADE...rsrsrs. Envelhecer faz parte da vida e o importante é entrar nesta etapa com felicidade e alegria no coração. Muito bom seu texto, um grande beijo.

suely aparecida schraner disse...

É isso mesmo, Margarida. Coração não tem idade. E viva o Dia da Criança que existe em nós. Obrigadíssima. Abraço.

Zeca disse...

Suely!

Mais um texto leve, com pitadas de ironia, descrevendo com exatidão o que todos nós fazemos: passear pela vida e, à medida que ela passa, sentir (e rir dos)seus efeitos.

E o brinde, qual foi desta vez? Mais um texto delicioso de ler, que nos deixa leves e alegres após o final da leitura.

Obrigado!

Abraço.

Suely Aparecida Schraner disse...

Zeca

Lembrando Fernando Pessoa: "O que é preciso e ser-se natural e calmo na felicidade e na infelicidade, sentir como quem olha, pensar como quem anda, e quando se vai morrer lembrar-se que o dia morre, e que o poente é belo, e é bela a noite que fica". Muito obrigada!

Anônimo disse...

Olá, Suely! Identifiquei-me com
seu texto! Quanta... mas quanta
verdade ele contém... percebo,
até, que tem verdade demais.
A realidade não dói, porém, assusta!
É muito bom estar com vocês.
Parabéns. Lia
´