quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Manoel de Nóbrega - O criador da Praça

Em 1971, todo o elenco da Praça da Alegria estava reunido no Teatro da Record, na Rua Augusta, para os ensaios e gravação do programa. Além dos artistas e técnicos, contávamos também com a presença do censor federal que, naquela época, em plena ditadura militar, era presença obrigatória em gravações de programas de TV.

Presente todo o elenco de humor da Praça: Ronald Golias, Carlos Alberto de Nóbrega, Rogério Cardoso, Roney Rios, Maria Teresa e seu marido Floes, Murilo Amorim Correa, Borges de Barros, Consuelo Leandro, Simplício, Agnaldo Rayol, Walter Dávila, Viana Junior, Clayton Silva, Canarinho, Geraldo Alves, Durval de Souza, Cláudio Lupomo (o popular Toto), Valery Martins, Eu, e o grande criador e diretor da Praça, Manoel de Nóbrega.

Os ensaios seguiam com algumas paradas técnicas e outras provocadas pelo censor, o qual ia aos poucos retalhando todo o texto já decorado pelos atores e atrizes. Até que, um trecho em que uma atriz dizia que oferecia ao ator a pomba da paz, foi vetado pelo censor, que interpretou este trecho com
o ofensivo.

Nóbrega, então, questionou o porquê daquele corte, que arruinaria toda a intenção do texto. O censor, então, argumentou que o texto era de duplo sentido, pois a pomba em questão poderia ser a ave ou o órgão genital feminino e, segundo a sua opinião, os autores de humor sempre escreviam ou diziam as coisas com segundas intenções.

E assim, seguia o ensaio tenso, com os atores presos e sem a autenticidade necessária para uma boa interpretação (havia uma grande dúvida pairando no ar). Ensaiou-se a Velha Surda, o Mendigo, o quadro da Consuelo e seu marido Oscar, etc.

Até que, em novo confronto, levaram o censor a justificar mais um corte do texto, o qual argumentou que hoje estava ali para valer e iria cortar
tudo o que fosse preciso, mesmo que todo mundo metesse o pau nele... Nessa altura, Manoel de Nóbrega interrompeu a fala do censor e perguntou para ele como gostaria que fosse entendido por todos “mesmo que todo mundo meta o pau em mim”, nas primeiras ou segundas intenções.

Silêncio geral no ensaio; e este silêncio só foi quebrado pelos aplausos de todos os presentes.

A partir daquele momento, o ensaio foi direto até o seu final.

Por Arthur Miranda

9 comentários:

Modesto disse...

Doce lembrança de Manoel de Nobrega nos primórdios da "Praça da Alegria". A corrosiva presença da censura, inescrupolosa atividade dos "revolucionários" de 64. Gostei da resposta do Nobrega ao censor e da sua crônica, Miranda. Parabéns.
Modesto

Luiz Saidenberg disse...

Bela intervenção do Nóbrega, Tutu, num tempo que abrir a boca podia custar muito caro. E eles escolhiam mesmo chatos detalhistas, para não deixar nada passar, a não ser a mediocridade
necessária apra acalmar o povo...
Boa lembrança histórica, que revela a grandeza e o humor do saudoso Nóbrega. abraços.

Wilsonnatale disse...

Arthur, que gostoso lembrar os deliciosos dias da Praça!
Praça que, mesmo com a intervenção dos censores, nunca perdeu o seu "timing" que era a alegria.
Tento até hoje entender o perfil desses censores que, sempre me pareceu, desprovido de ética e moral universal.Cada um deles tinha o seu ponto de vista que era tranformado em verdade... Vai-se entender!
E, como fazer humor sem o "duplo sentido"? Duplo dentido que nasceu no Vaudeville, nos teatros de revista e que não se manifestava apenas no diálogo, mas nos olhares e expressões corporal.
Aquele foi um tempo absurdo. Felizmente os censores desapareceram e o humor está aí, intacto nas suas raízes. E a Praça continua, Agora com o humor mais explícito.Embora eu ainda prefira o "duplo sentido" que fazia um efeito melhor e provocava mais gargalhadas.
E ri muito com os duplos sentidos da Consuelo Leandro, com seu marido Oscar,e, como Petronilha da Boa-Morte; ri à beça Com a Maria Teresa.
E o que seria do Pagano Sobrinho não fosse o duplo sentido?
O que seria da Carmen Veronica que, por si só era o duplo sentido em pessoa?
Veleu, Arthur!
Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Tempos memoráveis!
Nesta época, ainda crinaça, lembro de meu pai e minha mãe nos explicando os cortes bruscos em determinados diálogos dos programas de televisão, que era a censura...
Sobre a praça....nossa! quanta saudade destes atores queridos nossos, que faziam um humor verdadeiro, sem os recursos da tecnologia moderna, mas a criançada rolava de rir, assim como os adultos também.
O legal era que toda a família se reunia, em frente a TV, para assistir ao programa Praça da alegria e tantos outros.
Saudade!
Valeu, Arthur.
Obrigada.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu, que beleza vc nos trazer esta lembrança permeada de nomes famosos do humor nacional.
Nobrega foi, realmente, um grande diretor e a Praça umdos melhores programas de humor qe eu já assisti. Infelizmente, nesse eu nunca trabalhei.
Sobre essas figurinhas ridiculas que ostentavam o titulo de censor eu assisti uma passagdmcom o famosos Costinha e até escrevium testo sobreo assunto, voutentar encontrá-loe reeditar neste nosso espaço.
Parabens amigo!

MLopomo disse...

A idéia de fazer a Praça da Alegria, veio por intermédio de Manoel de Nóbrega numa viagem que ele fez em 1957 na Argentina, quando na janela do hotel ele via um homem sentado na praça lendo jornal e conversava com todos que no mesmo banco sentava. Deu tão certo que o programa esta ai até hoje levado adiante por seu filho Carlos Alberto. Meu contemporâneo de quando eu era macaco de auditório da radio nacional.

Anônimo disse...

Arthur, fecho os olhos e parece que em minha sala estão todos os artistas que você brilhantemente relembrou, bons tempos! bons programas humorísticos, parabéns pela lembrança, abraços, Nelinho.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Arthur! veja, saíu comoi anônimo! errei a tecla, Nelinho.

Reinaldo Garrido Russo disse...

Olá Arthur
Eu me deparei com um autógrafo de Valery Martins em minha folha de autógrafos que fiz nos anos de 66 e 67 quando fazia parte do coral do Liceu Coração de Jesus. Vivíamos cantando nos programas e encontrávamos artistas da Praça no dia da gravação do programa do Corte Rayol show. Lembra-se? Fui, hoje, pesquisar sobre este nome (Valery Martins) e a única foto que encontrei estava apagada e bem antiga. Me dê uma dica dos papéis que fazia. A única luz que tive de infância foi a de uma professora de uma escolinha e havia um aluno chamado Burraldo. Ela, a professora, poderia ser Valery - creio eu.
Abraços
Reinaldo Garrido Russo - maestro