terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Bom dia, minha São Paulo (2011)

Hoje eu esqueci a pressa que tu mesma me ensinaste a ter. Hoje não importa o urgir do tempo e nem o sucessivo e preocupante despegar dos dias no calendário. A agenda que apr
isiona o meu tempo foi esquecida na gaveta. Neste momento sou teu. E tu és minha.
A paixão surgiu, acredito, quando abri os olhos para vida.
Deve ter sido, provavelmente, naquela viagem dentro de uma velha Dodge, da maternidade para a minha casa que eu, através da

janela, te espiei. E me espiastes. Enfim, nos espionamos, medindo possibilidades...
Hoje, 62 anos depois estou aqui, para falar-te do amor que sinto por ti. Amor sempre intenso e igual – assim, do primeiro ao meu último dia.
Ainda há pouco, lembrei das velhas canções que fizeram para ti. Canções que desvelavam a sua vida em um tempo que eu não conheci...
Não conheci “teus sobrados de longos telhados”, caiados com o ocre e o branco retirados da tabatinga, nem as tuas ruas estreitas, solarenga às vezes, ou lavadas por tempestades, nem mesmo as vi envolvidas em tua garoa intermitente que, do mês de junho prolongava-se até dezembro. Não conheci, ao longo da Rua de São Gonçalo, próximo à Velha Sé, o casario em cujos quintais predominavam jabuticabeiras e cambucís.
Ah! Tu eras qual uma menina moça a sonhar sonhos, perdida entre os perfumes da luxuriante vegetação que te envolvia... Esperavas na esperança e sonhavas felicidade.
Como sei de tudo isso sobre ti? É que li o relato de tantos outros, teus amantes, a revelar-te para mim. Vi as aquarelas que fizeram de ti. Vi as fotos do Militão Augusto de Azevedo, o primeiro a fotografar-te, desnudando teu corpo, fixando tua imagem para a posteridade... Eu deveria ter ciúmes. Mas não tenho. Afinal, é impossível não amar-te.
Não conheci os teus Lampiões de Gás, mas, mesmo assim, tenho saudades. Nostalgia do tempo que, em ti, os jovens faziam serestas ao luar; tempos em que, principalmente no Brás, a luz mortiça dos lampiões iluminava as festas de rua, onde se bailavam “flamencos” e “tarantelle” ancestrais. E de tuas outras luzes falaram-me os teus amantes: Contaram-me que sob tocheiros de óleo de baleia, a tua gente dançava lundus e cantava acompanhada pela viola, músicas dolentes; sob as luzes dos lampiões de querosene, os estudantes da Faculdade de Direito, embuçados, movimentavam-se em ti, maquinado e executando suas brincadeiras, ou entrando em certas casas do Piques para visitar damas que, à luz do dia, não se visitava nunca...
Estás tão corada, minha linda! Afrontei teus pudores com o que disse? Pudores... Tu, depois de tantos séculos ainda os tens! Tu me desconcertas! Pois tu mesma me ensinaste a não me arrepender nunca pelo que fiz de bom ou de ruim, nem mesmo daquilo que não fiz e poderia ter feito. Disseste-me que tudo é aprendizado.
Esqueça! Fica o dito por não dito. Eu também tenho cá os meus pudores e certo moralismo...
Não te vi brilhando às luzes dos lampiões, como também não te vi guerreira, revolucionária, ao som de “Paris Belfort”, exigindo a Constituição. Não caminhei pela Barão de Itap
etininga gritando por ela e formado barricadas. Não invadi o PPP e não fui ferido à bala. Não te dei o meu sangue. Pena!
Tantos fatos que tu viveste e que eu não vivi em ti... Fazer o que? Eu vim depois.
E vim de longe! O meu gene transpôs um oceano para que eu nascesse em ti e cumprisse o meu destino.
Muita coisa não vi em ti. Mas vi teus brilhos de luz elétrica, andei nos teus bondes remanescentes. Não te vi Vila, não te vi Cidade. Tu já eras Metrópole! Mas te vi transmutar-se em Megalópole... És tão grande. Magna et magnífica! O quê devo ainda esperar de ti?
Corada outra vez? Incomodam a ti as lisonjas merecidas? Tu sempre me surpreendes! Agora tu estás ai, a provar-me que não és fria e insensível como dizem... Corada estás, que fique então. Tenho mais a dizer.
Eu te vi linda, esplendorosa naquele dia 25 de janeiro de 1954! Brilhavas como o sol, diante dos teus amantes que te homenageavam e te aplaudiam ao som de Mario Zan, tocando o “São Paulo Quatrocentão”.
A Espiral Ascendente, símbolo dos teus 400 anos, serve-me até hoje para revelar a dimensão do meu amor por ti. Crescente sempre! Ad infinitum...
O tempo a passar, leva-me a cumprir em ti o meu destino. Cresci, tornei-me adulto e, muitas vezes, me adulterei por condições e mesmo por desculpas... Vive-se e se aprende. Eu aprendi.
Em ti encontrei os meios de sobrevivência. Lá me fui a fazer parte daquele universo que ad aeternum sustenta a cidade e se sustenta: “São Paulo que amanhece trabalhando, São Paulo que não para de crescer. (...) Na reza do Paulista, trabalho é o Padre Nosso. É a prece de quem luta e quer vencer”!
Trabalho! Trabalho! Vivi e vou vivendo contigo. E tempo, cadê o tempo que eu sempre tinha? Não tenho tempo! Como não? Então, reinvento o tempo!
E passei a ter tempo. Tempo de sair por ai, viver de ti, viver contigo. Sair por ai a cantar “São, São Paulo, meu amor”...
Agora, aqui estamos nós em perfeita simbiose. Sem ter que pedir perdão ou desculpas um ao outro. A frase do poeta nos define bem: “A gente nasce para o que se é”. O que i
mporta é que me amas e eu te amo.
É um momento importante este. Pois quero reafirmar o imenso amor que tenho por ti. Um amor que nasceu no século XX e continua pelo século XXI. Um amor perfeito que saiu do milênio passado, entrou neste e seguirá pela eternidade.
Amo-te por tudo o que me deste, pelo que não me deste. Peço-te apenas que nunca me deixes. Foste o meu berço. Não me negue em ti a sepultura.
Feliz Aniversário, minha linda! Fazes 457 anos. Eu, dois dias depois de ti faço os meus 63. Como assim – estás velha? Que diferença de idade? Não dramatize, por favor! Acaso esqueceste que és eterna? Que eu sou eterno em ti? Tu és a minha São Paulo. Eu sou o teu Paulistano. Somos eternos, não temos idade.

Por Wilson Natale

9 comentários:

Arthur Miranda disse...

Natale assim não vale, o que vou falar de São Paulo, depois dessa sua cronica!
Que torna São Paulo mais linda,e até mais grandiosa do que realmente ela o é.
Um texto assim todo ano
é de fazer carioca
desejar ser paulistano.kkk
P A R A B É N S .

Miguel S. G. Chammas disse...

Natale, a bronca já te deu o Tutú, le também te deu o elogio. eu apenas te dzrei um forte e sincero abraço.
Somos, ambos os dois ou tres, paulistanos de nascença (graças ao bondoso Deus) que aqui nos fez nascer.
Caben-nos agradecer, diariamente, nossa cidadânia paulistana, e adorar essa terra da garoa (que já não mais existe)e das chuvas torrenciais.
Parabéns Natala, parabéns ´Tutu, parabéns Miguel, parab´ns para todose, inalmnte, parabéns SÃO PAULO!

Laruccia disse...

Natale, belo, un vero paulistano, che parla, parla, in ginochio da te, io me fermo.(Natale, um verdadeiro paulistanu, que fala, fala, de joelhos, eu me calo)Wilson, vc derramou sinceros votos de amor por uma cidade extraordinária. E ela merece, merece tanto que, se possível fosse todos estariam externando seus sentimentos, com a mesma exltação. Parece incrível mas ela, a cidade de São Paulo, amada e querida por milhões, retribui, não com a mesma moeda mas com muitas vantagens, enriquecendo essa querência de forma positiva, amável e sincera. É só querer, ela abre os braços pra todos.
Homenagem de deixar a gente embevecido de tanta beleza. Parabéns e auguri, Natale mio.
Laruccia

Zeca disse...

Natale,

precisaria repetir o que já disse no comentário sobre o texto do Laruccia.

O que mais se pode dizer diante de tão belo Poema de Amor a uma cidade que cresce para todos os lados, para cima e para baixo, só para poder, em sua grandeza, abraçar a todos que a procuram, a todos que nela depositam seus sonhos e seus amores?

O que mais se pode dizer a uma cidade que acordou, no início do século passado, de um sono profundo que a manteve pequena e fechada sobre si mesma e, refeita após tanto tempo, não parou mais de crescer, até se tornar a maior e mais importante cidade de país e do continente? E uma das maiores e mais importantes do mundo?

Existe sim, muita coisa que ainda pode ser dita e vocês sabem bem o que é, pois colocaram em texto os seus sentimentos, a sua gratidão, o seu amor incondicional por esta nossa tão amada cidade!

Parabéns pelo belíssimo Poema em forma de prosa que você, tão gentilmente, ofertou a essa dama, que nos acolhe a todos e não sai mais dos nossos corações!

E parabéns também pelo seu próprio aniversário que, por apenas dois dias de diferença, não cai no mesmo dia em que aniversaria a cidade dos nossos amores!

PARABÉNS, SÃO PAULO!!!

Abraço.

MLopomo disse...

Natale. Uma pequena correção. Mario Zan tocou na sua sanfona o dobrado IV Centenário. São Paulo quatrocentão era um chorinho de autoria do Carioca Garoto, Chiquinho do acordeom e Avaré, que colocou a letra que Hebe Camargo gravou em 1954. Oh, São Paulo! Oh, meu São Paulo! / São Paulo Quatrocentão / Oh, São Paulo! Oh, meu São Paulo! / Você é o meu torrão / Oh, São Paulo ! / Oh, meu São Paulo! / São Paulo das tradições / Oh, São Paulo, o seu nome / Vive em todos os corações / Você é lindo, é / É a terra do melhor café, / Seu grande centro industrial / Representa o esteio nacional / Você é varonil / Orgulho deste meu Brasil / Oh, meu São Paulo / Você é forte, é colossal
Quem é que não vai visitar / Meu São Paulo no Quarto Centenário, / Quem é que não vai enviar / Parabéns pelo seu aniversário, / Quem é que não sente emoção / Ao saber que também vai participar / Da festa do meu São Paulo / Que pra sempre hei de adorar. NO MAIS, seu texto é muito bom.

Wilsonnatale disse...

LOPOMO: Eu fiz aqui uma alusão a Mário Zan, ao chorinho e à frase mais repetida dos anos 50: SÃO PAULO QUATROCENTÃO.
E que bom que você nos repassou informações adicionais e a letra do chorinho! Você enriqueceu o meu texto. Valeu!

A TODOS: Há muito o que se dizer sobre São Paulo. E todos fazemos isso contando as nossas histórias de vida nesta Cidade.
Nos comentários dos textos do SPMC falei muitas vezes da importância de cada texto, pois eles reavivam as nossas lembranças, acrescentam fatos e dados. Dados que resultam em novos textos.
E essa minha cronica tem um pouco da memória de cada um de nós.
Na crônica, um pouco da História, da nossa história e da minha história. Afinal, somos a Cidade!
Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá, Wilson!

Ao ler seu texto, ainda quando eu estavaeditando, fiquei emocionada...
E quis colocá-lo bem no dia do aniversário de Sampa.
Penso que os bons espíritos te inspiraram para que você pudesse ser o porta voz de todos nós, escrevendo tudo isso de uma forma tão sublime e emocionada,pois é o que todos gostaríamos de dizer a São Paulo.
Sampa também é meu berço esplêndido e a amo sempre.
Obrigada, Wilson, por estetexto sensacional.
Valeu!
Parabéns Sampa, querida.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

SONINHA: Obrigado! Realmente, no texto está um pouco de todos nós.E não deixa de ser, também, uma homenagem a todos aqueles que escrevem sobre a Cidade. Àqueles amigos dos sites SPMC, VIVASP e este tão gostoso - O MEMÓRIAS DE SAMPA! e também uma homenagem ao meu TIO MÁRIO, que me apresentou à Historia da Cidade de São Paulo através dos livros, através dos álbuns fotográficos fazendo nascer esse amor por essa terra.
E o que mais me encantou foi saber da vida dura dos primeiros paulistanos, da garra e tenacidade que tinham. E do orgulho que sentiam pela cidade - a primeira dentro do sertão.
Homenageio a eles e a multidão paulistane que se sucedeu nesses quase quinhentos anos.
Abração,
Natale

Luiz Saidenberg disse...

Realmente, lindo texto, Natale. Como disse o Tutu, depois dele, falar o quê? Vc falou, e disse!!!
Um abraço.