segunda-feira, 11 de março de 2013

Enfermagem: Profissão Perigo

Quando toco no assunto 'Enfermagem', o texto acaba sendo meio que autobiográfico, não tem jeito. Sinceramente não quero que alguém pense que sou um sujeito pernóstico, egocêntrico, metido a besta; a verdade é que eu me conheço, eu sei quem sou e sabendo como costumo ser, não vou envolver meus antigos colegas vivos ou mortos, por ordenações éticas da profissão, nas narrativas que costumo escrever sobre meus tempos em hospitais e empresas. Que fique bem claro: não sou herói e nem pretendo ser protagonista em nada; apenas eu estava lá quando dos acontecimentos, só isso! e eu estou aqui para contar um pouco de minha experiência e minha atuação profissional.
Domingo, muito sol, quase 14:00h, plantão terminando. Peço para meu colega esperar que eu lhe daria uma carona até a Miguel Stefano, ou pelo menos até o relógio de ponto mas ele agradece:
-"Não precisa não, Juca! Vou subindo à pé ou pego carona em algum caminhão... fico esperando no relógio... Domingão?... Domingão é dia de mandar umas 'espumosas pa dentro' com uns tira-gosto de torresmo... vou ficar um pouco no botequim do japonês..."
- 'Tá muito quente, muito calor e você ainda vai passar pela aciaria e pela laminação...mas você que sabe!
Trabalhar em uma siderúrgica é trabalhar no inferno. Fogo prá tudo quanto é lado, ferro fundido passando sobre as cabeças, fornos a carvão, fornos a gás, altos fornos, silos, locomotivas, carvão, fumaça, pó de refratários, queimaduras horríveis, óbitos, Enfermagem do Trabalho atuando sem parar... É trabalho prá macho, no dizer da mineirada (90% dos tabalhadores em siderúrgicas vêm de Minas Gerais).
Acabei de escrever o relatório do plantão e fechei o grande cadernão de capa dura ao mesmo tempo que o telefone tocava:
- Corre aqui, seu Joaquim, tem acidente na aciaria...
- O que aconteceu? fala sem gritar, calma... respira fundo...
- ...Tem um eletricista pendurado no trilho da ponte rolante... a cabine está em cima da perna dele...
- 'Tou indo aí! O engenheiro já está aí?
- Engenheiro?
- É...! O engenheiro de segurança... bipa ele, pede prá ele chamar o médico, cazzo!...
A situação estava mais feia do que espancar a mãe por causa de 'mistura' na hora do almoço.
A ambulância não poderia entrar dentro da aciaria, um galpão enormíssimo e cheio de máquinas, pistas para a 'corrida' do aço, pórticos, trilhos ferroviários, fornos, lingoteiras, calor extremo; a 40 metros de altura, a cabine da ponte rolante parada numa posição estranha; o gancho da ponte segurando uma caçamba suspensa no ar com aço derretido a 1200ºC e assando, praticamente, o acidentado, quase que totalmente exposto à radiação. O que fazer? Simples: a) baixar a caçamba imediatamente até o chão . b) isolar o acidentado com mantas refratárias. c) prendê-lo ao trilho com cordas. d) preparar um balancim para baixar o acidentado quando tudo estiver resolvido. e) com o acidentado em choque, tomar o máximo cuidado ao manipulá-lo durante curativos e medicações para analgesia. f) afastar a cabine da ponte que, praticamente estava segurando o acidentado no espaço...
Como dá para se depreender, tudo muito simples, corriqueiro... O problema era chegar até lá! Pelas escadas em caracol eu não conseguiria pois a cabine estava a meio caminho sobre os trilhos; a saída foi fazer uma espécie de ponte feita com escadas de pintura, amarradas umas as outras e colocadas entre a plataforma de um alto forno e os trilhos da ponte rolante, num vão solto no espaço de uns 20, 25 metros.
Foi por essa ponte improvisada que eu consegui chegar até o acidentado me arrastando pelos degraus, com cinto de segurança, ganchos, mosquetões, mochilas com material para primeiros socorros, muita vontade de fazer alguma coisa mas morrendo de pavor. Em determinado momento de minha tormentosa travessia senti o bafo do Satanás queimando meu peito, estavam colocando a caçamba sobre o vagonete na ferrovia e o balanço fazia o aço derretido lançar baforadas que subiam até onde estavamos; olhar prá baixo? Nem pensar...
- Seu Joaquim, me mate... não vou aguentar muito tempo... pede pro guindasteiro passar com a ponte por cima de mim 'duma' vez... por favor...
- Para de falar merda, cala essa boca, meu... já-já a gente tira você desse sufoco...
A verdade é que não havia nada que eu pudesse fazer a não ser medicá-lo para dor e fazer o possível para que ele não perdesse os sentidos, mexendo com seus brios, fazendo-o reagir à provocações...
O rapaz acabou sendo retirado pelos bombeiros que trouxeram um super macaco para levantar a cabine e, em seguida, levado para o hospital que atendia Acidentes do Trabalho. Seu femur direito foi reconstruido pois fora esmagado e partido em quase uma dezena de pedaços... De alta no hospital voltou para Minas Gerais para se recuperar junto à família, e assim a vida continuou por algumas semanas.
Um dia ficamos sabendo que ele estava de volta e fazendo tratamento contra gangrena gasosa na câmara barisférica do metrô no Parque D. Pedro II.
Foi-nos transmitido pela Assistência Social que na sua cidadezinha, lá em Minas, estavam lavando a incisão no que restara de sua perna com urina de mulher grávida. Depois não tivemos mais notícias dele, apenas tomamos conhecimento que estava aposentado por invalidez e que perdera mais alguns pedaços da perna...conseguiram salvar alguma coisa...
**************
Cheguei em casa quase meia noite. A empresa me trouxe em um carro e outro motorista trouxe minha intimorata Brasilia. Fui recebido pela Odete:
-Ué, pensei que você fosse morar no emprego!... E ainda me aparece todo sujo, mais preto do que você já é!... Essa roupa que você está usando já pode jogar fora, não tem jeito dela ficar branca de novo... a empresa vai ter que te fornecer outra... cobra deles...
- 'Tá bom, tá bom, Dé... 'tô indo tomar banho... você não quer esfregar as minhas costas?
- Não! Suas intenções me parecem ser as piores possíveis!
- Eu? Com más intenções?
- É!! Eu te conheço...é assim que os rolos começam!
 
**************
E foi assim que eu 'peguei'essa cabreiragem de andar nas alturas, pisando (ou me arrastando) em superfícies de 30cm de largura...
Ia esquecendo: a empresa não me deu outro uniforme. Precisei comprar outro, se não não poderia trabalhar!
Mas tudo rotina no desempenho da profissão... nada de novo no front ocidental. Como eu já disse, não sou heroi nem nada, sou até meio medroso (precavido?); as coisas aconteceram em meu plantão mas poderiam ter acontecido com outro colega. Sorte dele...
 
Por Joaquim Ignacio

6 comentários:

Soninha disse...

Olá, Ignácio!

Poxa, quanta aventura, heim?!
Mas, mesmo você não querendo ser herói, nem protagonista de nada, acabou sendo o nosso heróis desta história incrivel, juntamente com os bombeiros.
Coitado do eletricista. Tomara esteja bem, até hoje.
E, que tal você esfregar as costas da Odete agora? rsss
Valeu.
Muita paz!

Zeca disse...

Puxa, Ignácio!

Uma aventura e tanto! Talvez uma espécie de Indiana Jones tupiniquim... risos. É, meu amigo! Cada um protagoniza uma história com o que tem mais à mão! Li sua história com o coração na boca, suspense total, como o são todos os bons contos de aventura. Você poderia escrever um livro. Tenho certeza que faria sucesso!

Abraço.

joaquim ignacio de souza netto disse...

Amigos, agradeço as palavras elogiosas mas, como já disse, poderia ter acontecido com qualquer um que estivesse de plantão. Para que os colegas imaginem, atuei diversas vezes em situaç~es piores e cheguei a ser intoxicado por monóxido de carbono indo parar no hospital junto com peão que eu resgatei, quase dancei com a mais feia!Sem
trocadilho, trabalhar em siderúrgica é fogo na roupa! No Leite Paulista, por exemplo, os peões vinham ao ambulatório queixando-se: "seu" Joaquim, caiu um pacote de leite no meu pé; não dá mais prá mim trabalhar, vou me queixar no Sindicato, vou por a empresa no pau!(risos)
Procês verem... cada empresa, um tipo de acidente, um tip e peão....
Abraço abrangente do Ignacio

Miguel S. G. Chammas disse...

Ignacio, eita profissãozinha porreta sô!
Eu não iria aguentar um dia de trabalho, ou melhor, chegaria no meu primero dia com a carta de demissão no bolso.
Falando sério, já fui Gerente de uma Laminadora de Ferro, ví muita perna perfurada por barras de 3/16"
e autorizei muitos litros de cachaça em substituição ao leite que os forneiros deveriam ingerir.
Mas isso é uma outra historia, a tua já basta paa assustar a todos.
Parabéns

margarida disse...

Ignacio, que homem corajoso você foi e ainda é.Sua profissão lhe trouxe grandes experiencias e crescimento. Parabéns! Um abraço.

Modesto disse...

Partículas de uma profissão tão intensa como emocionante, esbarrando em perigos constantes. Parabéns, Ignácio.
Modesto