quinta-feira, 28 de março de 2013

Memórias Augustas





Já lá se vão mais de 60 anos e, sem muito esforço, essas memórias ainda povoam minha mente.
Corriam, de forma acelerada, os anos 50. Eu moleque, torcia para que eles corressem cada vez mais sem desconfiar que no futuro, na segunda década do século XXI, eu iria chorar pedindo a Deus que os dias andassem  de forma lenta para me permitirem ficar por aqui um pouco mais de tempo.
Sabendo que não poderei interferir, nunca, nessa decisão, me deixo levar pelos pensamentos e vou me encontrar menino, ainda usando calças curtas e sapatos de pneu de caminhão, brincando, despreocupado, nas calçadas da “movimentadíssima” Rua Augusta, no quarteirão compreendido pelas Ruas Caio Prado Jr e Marques de Paranaguá.
Estou defronte ao numero 291 que, coincidentemente, é a casa onde moro. Olhando para frente, na calçada oposta da que estou, posso distinguir os portões da Escola Santa Monica, onde estudo todas as manhãs e, uns poucos passos depois, um aparelho estranho, enorme, fincado na calçada. Era a bomba de gasolina recém inaugurada, de propriedade do sapateiro estabelecido nessa mesma rua Augusta, na calçada de número impar, bem na esquina da Rua Marques de Paranaguá e, lógico, em frente à bomba (ou seria geringonça?). É preciso esclarecer que naquela época, no pós-guerra, inexistiam os Postos de Serviço como atualmente, mesmo por que estávamos saindo da situação de uso dos carros à gasogênio que, por sinal, eu cheguei a conhecer.
Bem, voltemos ao tema central desta narrativa.
O sapateiro, proprietário da bomba de gasolina atendia pelo nome de Pedro Sernagiotto, recebido na pia batismal, porém era muito mais conhecido por seu famoso apelido “Ministrinho”, craque alviverde da época do Palestra Itália, o primeiro futebolista a fazer nome no exterior, no Juventus de Turim (Itália).
Ponta direita veloz, depois de fazer nome  na Europa voltou ao Brasil em 1934, jogando pelo Palestra até 1935, jogou depois na Portuguesa de Desportos e no São Paulo e encerrou sua carreira nos anos 40, então Palmeiras.
Esse homem, franzino, sapateiro remendão, tinha por mim um carinho especial, éramos palmeirenses de coração, coisa que o Serginho, seu sobrinho e meu amigo  não era, pois torcia para o tricolor, naquela época do Canindé.
Ministrinho, embora levando vida humilde e regrada, não abria a mão de comer bem. Assim, encomendava seus almoços diários, e os recebia no mesmo horário, do Restaurante Transmontano, tradicional casa paulistana que estava estabelecida em frente ao prédio dos Correios, no vale do Anhangabaú.
As cenas que relato neste texto estão vivas e à cores na minha mente e fico triste por não ter poder narrá-las com mais fidelidade e clareza. Mas, dentro dos meus  limites, acho que consegui fazer um pequeno esboço da saudade que sinto no peito.



Por Miguel Chammas

5 comentários:

Soninha disse...

Oieeee...

Parece que foi ontem, né?
Nos pegamos lembrando, sentindo, nos emocionando com fatos que estão ainda tão frescos em nossa memória, que parece ter acontecido ainda ontem.
Vem aquela saudade enorme... vontade de rever algumas pessoas, abraça-las... enfim...
Belas recordações, Miguel!
Valwu.
Muita paz! beijossssss

joaquim ignacio de souza netto disse...

Grande Miguel, lembro-me bem da sapataria na esquina da Augusta, o Ministrinho com o 'pé de ferro' sobre as pernas, tachinhas na boca.
Embora eu nunca o tenha visto jogar (craro cróvis!)o Ministrinho era uma espécie de ídolo de quem conhecesse sua história e a dos pioneiros que foram jogar na Itália: Filó, De Maria, Ministrinho, Rato..., espécie de futebolistas de outro planeta. Se não estou enganado o Minisrinho foi campeão do mundo pela mussolínica Itália em 1934. Confirma?
Abraço do Ignacio

margarida disse...

Miguel, como é bom por para fora as nossas lembranças e sentir-se tão perto do passado....quantas emoções brotam em nossos corações. Percebi emoções no seu. Um abraço e uma Feliz Pascoa.

Laru disse...

Feliz lembrança, Miguel, principalmente por envolver o Ministrinho famoso craque palestrino. A rara combinação de um tema palpitante com sua escrita, dá um sabor diferenciado, proporcionando leitura gostosa de saborear. Bela recordação, Miguel, parabéns.
Laru

Wilson Natale disse...

Miguel:
A arte de escrever nossas memórias é fixar as lembranças para os outros e, claro, para nós mesmos.
Um dia a gente lê o que escreveu e relembra outras coisas, transformando nossas memórias em rememórias. Quer coisa melhor que isso?
Ótimo texto. Passeei junto com você.
Abração,
Natale