Semana
passada, fui ao centro para umas comprinhas de Natal e, nesta época, recuso-me
a ir até a Vinte e Cinco. Para o que eu precisava, a Rua Direita resolveria meu
problema.
Desci do
ônibus na Quintino e, andando até a José Bonifácio, entrei pelos fundos das
Americanas (que merecem um capítulo à parte), onde comprei o que precisava e
saí pela frente da loja, na Rua Direita. Ah, a Rua Direita! Era passagem
obrigatória quando ia ao centro, ou melhor, para a cidade, como costumávamos
dizer, minha tia para pagar as contas de água, gás e luz, nos guichês das
próprias fornecedoras. Não havia “débito em conta”, nem se pagava em bancos e
as lotéricas ainda não existiam. Era tudo pago direto na empresa.
A Companhia
de Gás ficava na Rua Roberto Simonsen, o DAE (água) era nas imediações da Praça
da Sé e Largo São Francisco, e a Light, na Praça Ramos; então, pelo menos uma
vez por mês, pegávamos o bonde ou o ônibus, descíamos na Praça Clóvis,
andávamos até a Praça da Sé e pronto: lá estava a Rua Direita à minha espera,
com o vai e vem na sua estreiteza que me fascinava, pois já antevia o que
encontraria pelo caminho até a Praça do Patriarca e, quem sabe até a Praça
Ramos, depois de atravessar o Viaduto do Chá. Agora, o interesse é a Rua
Direita (da Igreja da Misericórdia até a Igreja de Santo António).
No início da
rua havia um aviso dizendo: “CONSERVEM A DIREITA”. Eu não sabia exatamente se
era para me manter à direita da rua, ou se era para manter a limpeza da (rua)
Direita, que, cá pra nós, era bem suja. Pelo sim, pelo não, fazia a minha
parte: disciplinadamente, andava pela direita da rua e obedientemente, não
jogava lixo no chão.
No primeiro
trecho não havia muitos atrativos para meus olhos de menina; isto só começava a
acontecer a partir da primeira esquina à esquerda, onde a Rua Direita se
encontrava com a Quintino Bocaiúva e daí com a José Bonifácio, formando um beco
onde ficava a Farmasil Amarante (depois Drogadada), que funcionava no subsolo
e, coisa maravilhosa, tinha escada rolante! Um pouquinho mais para dentro
ficava a Loja do Ceylão, com mercadorias fora do comum: tinha até lanterna
japonesa. Mas o principal dessa esquina era o prédio onde ficavam a Casa
Bevilacqua e a Rádio Record (A Maior). Dois lugares que faziam minha imaginação
voar: a primeira, com todos aqueles instrumentos e partituras na vitrine,
permitia que eu viajasse para o mundo da música, e a segunda, bem a segunda... Me
levava, via Revista do Rádio, para os programas de auditório que ficaram só na
minha imaginação. E voltando para a rua, do outro lado ficava o Largo da
Misericórdia e, na esquina com a Direita, eu me perdia nas vitrines da
Joalheria Worms que mostrava joias, relógios e “presentes finos”, como se
dizia.
A partir daí,
ficava o trecho mais interessante, onde estavam as lojas mais atraentes: a
Marcel Modas - Direita 1-4-4, como dizia a garota-propaganda da TV Tupi; tinha
a Galeria Paulista que, mesmo se eu andasse olhando só para o chão, saberia
onde ficava porque o piso de sua calçada era de pastilhas formando mosaicos. Era
única. Entretanto, o ápice da caminhada estava na outra calçada: Lojas
Americanas, onde haveria a esperada parada para o bauru e o tão sonhado sundae
(muito raramente se tornava realidade). Quando não dava para comprar o bauru da
Americanas e muito menos o sundae, íamos à Casa Scaff, de tecidos, que dava um
sorvete de groselha de graça, num copinho muito sem graça.
A Americanas
era popular, mas o que havia de loja chique por lá... Havia a Casa Henrique (as
vendedoras usavam saia preta e blusa branca), a Casa Kosmos – camisas e
gravatas, a Tecelagem Francesa, a Lutz Ferrando e... Chique mesmo era a Casa
Sloper.
A Sloper era
uma loja que se diferenciava das outras a partir das vitrines bem cuidadas. Era
lá que as moças compravam suas melhores bijuterias e as senhoras, os mais
elegantes vestidos e calçados. Não era uma loja para crianças, mas era aquela
que eu sabia que iria frequentar quando crescesse.
De um modo
geral, quando não havia conta de luz, a caminhada parava por ali na Praça do
Patriarca, que bem na esquina tinha A Exposição, onde bastava ser um rapaz
direito para ter crédito, em seguida vinha a Casa Fachada, que merecia uma
olhada na vitrine de perfumes importados, depois uma rápida entrada na Igreja
de Santo António, e a volta, sem parar, pela Rua Direita até a Sé e Praça
Clóvis para pegar o bonde 51 Rubino de Oliveira, ou o ônibus Alto do Pari, ou
Largo Padre Bento, direto para casa pensando na próxima
ida à cidade. Quem sabe para tomar um sundae na Americanas...
Por Teresa
Fiore
16 comentários:
Olá, Teresa!
Ahhh, que saudade dos tempos de outrora, quando podíamos andar pela Rua Direita e suas imediações, com "tranquilidade"... mesmo com aquele montão de gente era mais seguro ou menos perigoso.
As idas à galeria Pajé, o corre corre das ladeiras, a Vinte e Cinco e a incrivel Direita.
Eu sempre fazia questão de passar pela Americanas ou pela Brasileiras para o lanche e o sundae. Ainda sinto o aroma e o sabor... Que delícia!
Valeu, Teresa!
Muita paz! Beijossssss
Amiga Teresa, como somos da mesma época temos as mesmas lembranças. Ir a Rua Direita para as compras de Natal,masmo que fossem modestas,era um programa e tanto.Uma de minhas irmãs trabalhava num stand de maquiagem das Lojas Brasileiras. Eu adorava ir até lá para ve-la toda produzida,atendendo as clientes. Lembro-me da Loja do Ceylão e dos inesquecíves laches e sundaes da Americana. Também aproveitava o dia para ir ver a decoração do Mappin.
Lembranças maravilhosa de um tempo muito bom.
Um abraço amiga.
Bernadete
Belo texto Teresa, o mesmo levou-me de volta a velha Rua Direita que mesmo sendo meio torta, tinha quase de tudo, inclusive antes de chegar a altura da mesma, eu adorava passar pela XV de Novembro e olhar aos fotos de jogadores e craques de futebol da época em exposição em uma vitrine de um fotografo que ficava a direita da XV de quem vinha da Praça da Sé. ( O Miguel e o Nelinho devem ter lembranças disso). Parabéns e mande mais.
Olá, Teresa!
Que belo texto, bastante apropriado para nos levar a uma fascinante viagem ao passado! Eu passo sempre pela Rua Direita e, talvez devido à aura do passado, ainda sinto certo fascínio por aquela multidão andando para todos os lados, à procura, talvez, desse passado que tanta saudade nos traz!
Eu só não consigo me adaptar à "nova" Lojas Americanas! Ainda compro algumas coisas lá, claro, mas não me sinto à vontade como antigamente. Talvez a falta dos lanches e do sundae, que não podiam faltar quando eu era ainda um garoto!
Gostei tanto do seu texto que me atrevo a pedir que não deixe de enviar outros.
Abraço.
Terê, que passeio gostoso eu pude fazer lendo teu texto.
Eu semppre estavap asseando pela Rua Direita nos meus tenmpos de criança. Ora para ir à radio Record (a maior) , or5a para ir à firma onde eu trabalhava na Rua Senador Feijo e, ainda muitos anos antes, para ir ter com meu tio no Bar Viaducto e filar uma coxinhas deliciosas ao som do violinista pricipal da Sinfonica de São Paulo. Valeu te ler, fiquei com gostinho0 de queromais.com
FIORE:
Delícia de recordações!
A rua Direita marcou muito a vida de toda a gente que por ela circulou até os anos 60. Depois, veio a decadência.
Lembro dela com suas calçadas estreitas e asfalto e o "vatene e viene" da multidão que,pela esquerda. seguia para o viaduto; pela direita, seguia para a Sé...
Lembro das lojas citadas por você. Lembro também das Brasileiras, Beethoven, Electrolândia, etc.
As Americanas era, sem dúvida, o
paraíso de toda criança.
Lembrei que a garota-propaganda da Marcel Modas era a Malene Morel.
Revivendo as recordações, lembrei do lindo prédio estilo neoclássico de 1903,na esquina da direita com a São Bento, destruído por um incêndio, nos anos 60. Ficava alí, onde hoje é As lojas Marisa.
Vou lembrando a Garbo, a Clark e ou tas tantas...
E a Sloper, claro! com suas
bijuterias caríssimas!Caríssimas por que eram de folhação a ouro, ou então em ouro de 14 quilates (quase uma jóia).
Era e é tão famosa que o compositor João Bosco, na canção "Miss Sweter" a cita:
"... Feito Bijuteria da Sloper da alma..."
Abração,
Natale
Tereza, adorei te conhecer! Seu texto fez reviver nossa historia, principalmente desta rua que foi um ponto de referencia para todos nós. Um grande abraço.
Fiore, lembro de tudo o que vc mencionou nessa esplêndida narrativa e guardo "estomacais e digestivas" recordações do Bar Viaduto. Ahhhh, as cochinhas cremes, as esfolhatelas, os pastieri di grano, os pastelões, as empadas de palmito, camarão, carne, queijo, pizzas e... basta, per piaccere, basta, voglio vívere senza iluzione. La realta é bruta ma... questa é la vita!
Parabéns, Fiore.
Modesto
Não Natale você fez confusão, a famosa garota da Marcel Modas e que dizia Marcel Modas é uma só, direita 144. Chama-se Rosa Maria fazia também a Tentação do Dia e foi Miss Objetiva nos anos 50. Tenho absoluta certeza, Arthur.
MARLENE MOREL. que também é atriz foi minha colega nos humorísticos da Record.
Amigos novos e velhos amigos Miguel e Sônia,
Obrigada pelos comentários aos meus post.
E só para esclarecer (e confirmar): a garota-propaganda da Marcel Modas era a Rosa Maria. Ela foi a primeira profissional do ramo.
Teresa
Teresa, eu trabalhei na Rua Riachuelo e conheço bem os locais citados por você, aproveitei e peguei uma "carona" no seu texto e relembrei com saudade aqueles tempos, parabéns pelo texto, abraços, Nelinho.-
Tenho ótimas recordações da Rua Direita, lá pelos anos de 1968, eu tinha meus 5 anos de idade, e ia passear com meus país nessa rua maravilhosa, íamos visitar as Lojas Brasileiras e tudo terminava nas Lojas Americanas, onde havia uma lanchonete de primeira linha...meu Pai pedia pra gente, um delicioso Bauru com suco de laranja ou vitamina...brinquedinho + lanchinho e a companhia dos meus pais queridos...o que mais poderia ser melhor?
Por favor, há notícia sobre Teresa Fiore? Lindo é o seu texto que fez voltar à minha infância. Acabo de reproduzi-lo em meu "Face", obviamente creditando os créditos à este "Blog" e à competente autora do texto.
Aguardo resposta.
Olá, Guimaraes Edson!
Agradeço pela presença aqui no blog.
Teresa Fiore é nossa amiga pessoal e nos mantemos sempre em contato. Ela tem um perfil no Facebook, como Teresa Fiore mesmo>
Volte sempre. Irei em seu blog tb.
Muita paz!
Sonia Astrauskas
Hoje resolvi dar uma volta aqui pelo Memórias de Sampa e rever (reler) alguns textos meus, de amigos, de desconhecidos. Fiquei feliz por ver que gostam do que escrevo.
Ando meio sem inspiração, mas os elogios estão me dando novo ânimo. Vou pensar em alguma coisa interessante.
Obrigada, Sonia, Guimarães Edson, Serginho Caffé, Nellinho, Arthur, Modesto, Margarida, Wilson, Miguel, Zeca, Bernadete.
Volto logo. Me aguardem.
Tenho 31 anos, porém me fascinam estas histórias, obrigado por partilhar conosco tamanha joia. S2 emocionante os relatos, obrigado.....
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