sexta-feira, 9 de setembro de 2011

De repente, a esperança.


Dizem que o verde é a cor da Esperança. Pois foi justamente assim que começou este caso.
Estávamos colhendo verde, não para plantar maduro, mas para examinar uma folha de parreira que pendia do muro da casa que fica na esquina das ruas Califórnia e Indiana, no Brooklin.
Foi então que ele se aproximou.
Os olhinhos vivazes, perguntou se íamos plantar. -Não, expliquei. Uva não pega assim. É que vou fazer uma bandeja no formato desta folha. -É para o Natal, disse minha mulher. E ele:- Mas o Natal está longe, ainda.
Acho que vocês são como eu, sempre antecipando as coisas. Afinal, tenho 93 anos e não sei até quando vou viver...
Fiquei pasmo! - Não está com jeito de quem vai morrer, disse eu. 93 anos! Dificilmente alguém lhe daria 80!
-Nasci em 1918. Advoguei por 71 anos, e por 71 anos estou com minha esposa.
Meus filhos, que já casaram e separaram várias vezes, dizem que sou um mau exemplo.
Era espantoso. O rosto, liso e corado, os olhos brilhantes, boa postura, baixo e troncudo.
Ninguém lhe atribuiria tal idade. Aliás, conheço gente que nem chegou aos 60 e está longe dessa vitalidade.
-Pois é, advoguei durante tantos anos e agora escrevo. Vocês gostam de ler?
-Sou também escritor, disse-lhe. Sobre quê está escrevendo?
-Bom, não sei o que vocês acham... É contra a Igreja Católica!
-Por nós, pode mandar bala, dissemos.
-Então vou deixar-lhe um livro na portaria. Moro naquele prédio, ali adiante...
Despedimo-nos e lá se foi ele, com seu andar firme. Nenhuma ajuda, nenhuma bengala, sequer um claudicar. Pois passaremos lá amanhã, para ver se cumpriu sua promessa.
Mas, levava todo o jeito que sim.
Então, é possível sim, mesmo com a vida problemática e agitada que levamos, chegar a uma idade provecta em boa forma física e mental!
Ali estava a prova viva disto, meus caros e lamurientos colegas. Ah, a Esperança!
Ele nascera no final da Primeira Grande Guerra, atravessara os loucos anos 20, a Grande Depressão, a Revolução Constitucionalista, a Segunda Guerra, a Revolução Cultural e a Contra Cultural, o fim do Comunismo que vira nascer, o Bug do Milênio e ali estava, firme, aparentemente intacto.
Tudo para dar-nos uma lição, ó homens de pouca fé. 93 anos e com um jeito de quem ainda vai longe.
A Esperança é mesmo a última que morre!

Por Luiz Saidenberg

16 comentários:

suely aparecida schraner disse...

O tempo não espera ninguém, diz o adágio. O encontro fugaz resultando na esperança de continuar lendo seus textos por "seculum seculorum". Adorei,Luiz!

Arthur Miranda - Tutu disse...

Li a historia maravilhosa como sempre, e no final fiquei curioso para saber ??? O que esse simpático e saudável cidadão escreveu contra a Igreja católica. Por favor Luiz me conta vá. Conta, Conta, Conta.

joaquim ignacio disse...

Assim como o Arthur (The King), eu também fiquei curioso e fiquei me perguntando o que o jovem macróbio teria escrito a respeito da Igreja Católica. Segredos que destruiriam dogmas? O retorno triunfal do Santo Ofício e suas fogueiras maravilhosas? Heim?
Enfim, longa vida ao causídico moemense e minhas congratulações pelo seu texto fluente e sério.
Abraço do Ignacio

Wilsonnatale disse...

Saidenberg:
Esta é a vantagem de ser advogado. Uma brecha na lei; aqui e alí, cabe recurso; um habeas corpus aqui, um novo alí... E São Pedro vai ficar esperando! Ahahahaaaa!

Ai está alguém forjado em aço de boa têmpera! Alguém do tempo dos poucos remédios, onde a natureza ajudava o corpo a recuperar-se.

Com diziam os velhos italianos, "não importa a idade, vive-se enquento houver juventude".

E o Brasil está envelhecendo e vivendo mais. Por isso, meu caro, vamos cuidando do corpo.

É o que eu faço. Minha bisa e biso passaram dos 100; meu passou dos 90, a nonna se foi aos 99.E assim, os tios-avos, os tios e, por ai vai.

Então eu vivo, "finché abbia giuventù"!

Texto ótimo!

Abração,
Natale

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Para mim, a esperança nunca morre.
Olhando a foto do Dr. Morrone ao seu lado, senti inveja...kkkkkkk
Uma inveja boa, de estar ao lado de uma pessoa vivida, experiente, com carinha de paz, bem tranquilo...
Muito bacana!
Adorei sua bandeja também. Ficou perfeito! Eu gostaria de vê-la pessoalmente, juntamente com suas outras obras.
Parabéns,Luiz...por sua arte e por seu texto!
Abraços no Dr. Morrone.
Muita paz!

margarida disse...

Saidenberg, alguns permanecem mais por aqui, outros vão mais cedo, como é o caso de minha sobrinha que acaba de partir com 47 anos. Acho que tudo depende do que foi combinado com o papai do céu. Seu amigo está aqui porque certamente é um mensageiro de Deus e tem muito a nos ensinar. Que ele tenha ainda muitos anos de vida e que Deus continue o abençoando.
Também fique curiosa sobre o que escreveu, venha nos contar. Um grande beijo.

Miguel S. G. Chammas disse...

Lu, que bom seeu pudesse chegar numa idade assim tão avançada, com toda a essa alegria de viver.
O azar seria da Soninha que teria de me aguenatr por tantos anos ainda.
Lindo texto, linda historia

Luiz Saidenberg disse...

Meus amigos, muito obrigado!
Esse encontro, para mim, que sempre fico pensando em quantos anos ainda viverei, foi mesmo um encontro com a Esperança. Imagine-se, ao 93 anos não ir a médicos, ter extrema lucidez, acrescida de fina ironia; andar sozinho, sem bengala, sequer usar óculos, exceto para leitura. E ainda por cima estar escrevendo seu segundo livro. Quanto ao conteúdo, sinto muito amigos católicos, mas o Dr. Morrone é anticlericalista ferrenho. Deblatera contra a corrupção do clero, a pedofilia, a atuação dos antigos- e até modernos- papas. Enfim, no passado seria queimado nas "santas" fogueiras da inquisição, e seus livros seriam postos no Index Livrorum Proibitorum, junto a Galileu, Copérnico e tantos mais.
Mas, fora essa indignação é pessoa inteligente, culta e gentilíssima, como pude comprovar novamente ao tomar, a seu convite, um bom café na padaria da esquina. E sua esposa, que o acompanha há tantas décadas, tem 91 anos, e tudo continua bem com o casal. Que inveja!
Abraços.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz, olha eu aquí de volta!!! após muito tempo os meus dedos já não doem tanto, espero em Deus viver por muito tempo para poder desfrutar da companhia dos meus amigos e poder comentar os belos textos como o seu, parabéns, abraços, Nelinho.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Luiz, olha eu aquí de volta!!! após muito tempo os meus dedos já não doem tanto, espero em Deus viver por muito tempo para poder desfrutar da companhia dos meus amigos e poder comentar os belos textos como o seu, parabéns, abraços, Nelinho.

Luiz Saidenberg disse...

Parabéns é para você, Nelinho, por sua rápida recuperação. Saúde e paz a todos, especialmente a você! Abraços

Laruccia disse...

Luiz, desculpe, esperei um pouco pra mandar meu comentário. Se não fosse vc o autor do texto, não faria comentário algum. Permita-me um pouco de liberdade em falar alguma coisa sobre este senhor; não o conheço, não posso fazer nenhuma avaliação sobre ele, física e moralmente. Acredito na sua descrição, física e intelectualmente, só não acredito que ele tenha 93 anos, ele é advogado, veterano no hábito da mentira. Minha suspeita se baseia em ele querer puxar um assunto com vc. Se ele tivesse essa idade, saberia que não se planta uma parreira com uma simples folha. Em seguida perguntou se vc gostava de ler. Ofereceu o livro que escreveu e espicassou sua curiosidade ao citer o conteudo livro e vc, respondeu: manda bala, (não gostei)Sua intenção era e foi alcançada, fazer prozelitismo sobre a religião católica. Sei de cor seu conteudo, já li vários trabalhos falando sobre o catolicismo. Este homem não sabe de uma coisa que já sei há muito tempo: não existe catolicismo, protestatismo, juadaismo, muçulmanismo, budismo e todas crenças que existe sobre a face da terra. O que existe é o mistério da naturesa e isso nem ele nem ninguém sabe explicar. Tá na cara que ele vai falar dos papas, do clero, da inquisição, abstendo-se de localisar o tempo das ocorrências destas formações. Atualmente, um dos inúmeros templos enriquece arrancando salários de pobres trabalhadores, resultando disso estações de rádios, de televisão e seu pastor vivendo nababescamente nos EEUU, levando uma vida de milionário. Vem falar da igreja católica, faça-me um favor, que ele gaste seu tempo em combater estas novas crenças. Desculpe, Saindenberg, apenas é esse meu modo de pensar. Sua narrativa é uma joia de encanto, como soi acontecer com sua escrita. Parabéns, Luiz.
Laruccia

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, caro Modesto.
Aqui temos, felizmente, liberdade de opinião e religião, e opinião não se discute: vc é a favor do catolicismo, ele é contra. Eu, felizmente, apesar de batisado no catolicismo, não tenho agora nenhuma religião. Não me preocupo com essas questões. Cada que qual seja feliz com suas escolhas. Abraços.

Luiz Saidenberg disse...

Desculpem, é CADA QUAL QUE.
VEJA errou!

Zeca disse...

Saidenberg!

Ler suas crônicas é sempre um grande prazer! Sua forma de narrar e comentar os fatos é única e simplesmente flui, facilitando nossa leitura e compreensão. Pena que sejam curtas! Poderia ler mais e ainda sair satisfeito. Parabéns!
Quanto à esperança, é ela que me sustenta, em todos os sentidos! Sem ela, creio, eu não teria chegado nem aos sessenta! Que dirá aos 93!!!

Parabéns!

Abraço.

Luiz Saidenberg disse...

Mais uma vez, muito obrigado.
Realmente, é a esperança que nos move, já em idade provecta. A esperança de continuarmos saudáveis e lúcidos, com direito a
um bom final, um "happy end".
Qto à polêmica religiosa, era esperada, vista o catolicismo fervoroso de alguns leitores.
Mas, religião não era de forma alguma o foco do texto. Apenas incidental, pois o extraordinário é o caso dessa fantástica, e autêntica figura, o Dr. Morrone. Abraços.