terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quarenta e um anos

Meu pai deixara este mundo. Quarenta e um anos, enfarte fulminante.
Elias, alto, corpulento, um charuto após o outro. Nascido em Mariopol, Ucrânia, viera para o Brasil com os pais e o irmão fugindo da Revolução Comunista, recém instalada. Vieram de navio, naqueles tempos difíceis.
No Novo Mundo, estudou muito e formou-se em Engenharia Agronômica, na Luís de Queiroz, de Piracicaba.
Lá conheceu minha mãe, Lucilla Camargo Simões.
Na profissão, continuaria viajando; era transferido de cidade, de tempos em tempos, para administrar diferentes sítios.
Bastos, Bauru, Pindamonhangaba, Tietê... Nem imagino, hoje, como poderia ser tal vida de mudanças. Teríamos de ter poucos móveis e haveres. Amigo de infância, para mim, nenhum. Não esquentávamos lugar.
Meu pai era pessoa muito calada. Preferia que as ações falassem por si.
Como sempre, retornávamos à Campinas, sede do Instituto Agronômico e do Serviço de Sericicultura, sua especialidade, minhas principais lembranças da infância e juventude são de lá.
Sempre nos dava presentes e tivemos muitos brinquedos. Nas férias escolares, íamos para a Praia do Gonzaga, em Santos.
Foi certamente num julho, o céu todo carregado de balões, que caiu um, em frente à pensão.
Como era bem alto, conseguiu apanhá-lo antes da molecada. Tentamos acendê-lo novamente, mas sua vida útil estava esgotada, e assim, o único balão que tentei soltar na vida não subiu.
Também de Santos, minhas primeiras lembranças de bar. Sob a marquise do Hotel Atlântico, meu pai tomava seus chopes nas mesinhas da calçada, enquanto acompanhávamos, no céu escuro, miríades de balões rumando para o mar.
Em frente, a fonte luminosa mudava de cores e de intensidade das suas águas dançantes.
Por isso, sempre tive uma ligação nostálgica com bares de calçada, certo fascínio, como se todos fossem badalados cafés de Paris, que conheceria muitos anos depois. Um certo pendor para a boemia, impossível de ser bem realizado na São Paulo como a conhecemos hoje.
Sempre declarou-se um livre pensador e, embora minha mãe fosse, por tradição familiar, católica fervorosa, nunca quis influenciar nossa educação religiosa. Era, portanto, muito flexível e tolerante, ainda mais para um estrangeiro.
Queria que os filhos escolhessem seus próprios caminhos, e assim foi feito. Como ele, hoje sou também um livre pensador.
Essas foram algumas coisas que puxei dele, além do hábito da leitura.
Ele lia constantemente e assim conheci a Coleção Terra, Mar e Ar, a Coleção Amarela e muita coisa mais, pois adorava romances policiais e de aventuras. Costumava, às vezes, ler para mim e Ivan, meu irmão. Como no caso dos Três Mosqueteiros, de Dumas.
Fazia-o por prazer nisto, pois desde os seis anos eu já lia perfeitamente.
Também o amor pelo cinema, desde tenra idade tornei-me um cinéfilo.
Como ao assistir a pavorosa transformação da Rainha Má em bruxa, em Branca de Neve, quase tive uma convulsão, minha mãe tinha feito a promessa de não mais ir ao cine, se eu sarasse.
Exageros religiosos... Mas assim, depois, quem nos levava às matinês de domingo, era meu pai.
Depois da sessão, parada com direito a empadinhas de palmito e refrigerantes no Bar Ideal, bem no centro de Campinas... Essas foram boas coisas que me marcaram para sempre.
E outras, para mim não tão boas, como seu hábito do fumo, que lhe seria fatal, e o jogo.
O bom Elias era mestre em carteado, principalmente pôquer; sinuca, xadrez, atividades que lhe tomavam muito tempo no Clube de Cultura Artística. Às vezes, noites inteiras, e muito dinheiro.
Hoje, nem posso ouvir falar em jogo, sequer Mico Preto e Dominó. Racionalizo isto como perda de tempo, mas, creio que as causas são bem outras.
Foi-se muito cedo e sequer tivemos tempo para um diálogo mais profundo e adulto.
Fica-se assim, tentando reencontrar o pai num parente mais velho, ou num médico, ou qualquer pessoa que demonstre segurança e autoridade. Até que descobrimos que esta pessoa reside em nós mesmos e aí estamos prontos para a árdua tarefa de ser pai também.
E para o ciclo recomeçar...

Por Luiz Saidenberg

9 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Maravilhoso texto Luiz. Além de rememorar coisas e locais do passado (conheci muito bem as mesinhas inatingíveis, para mim, do Bar Atlantico), apresentou-nos suas opiniões e suas constatações sobre seu pai e sobre você. Tudo muitgo bem preparado como um drinque de finíssimo bom gosto.

Arthur Miranda - Tutu disse...

Que bela historia Saidenberg, a medida que lia viajava também pelas cidades e sítios com vocês,temos algo em comum e ao contrario de você, tenho repulsa por jogos, por que meu pai não jogava também e criticava muito o jogo e dizia, uma frase que eu nunca vou esquecer: Jogo significa que para um ganhar, muitos terão de perder, para um estar na graça , muitos terão que ficar na desgraça.
E ninguém pode ser feliz realmente com a desgraça dos outros.
Parabéns meu querido, e parabéns, sou seu fã sem carteirinha,kkkkkk.

Zeca disse...

Parabéns, Saidenberg!

Pelas belas lembranças que guarda de seu pai e, principalmente, pela bela construção literária que nos apresentou aqui! Seus textos têm mesmo esse sabor de saudade e de boas lembranças.
Eu também tenho minhas passagens pela cidade de Santos, onde aprendi a apreciar um chopinho nas mesinhas do Atlântico, ou os pratos deliciosos que ali eram servidos. Não sei se a cozinha ainda guarda a mesma qualidade, mas até minha última visita àquela cidade, há uns cinco ou seis anos, o bar e restaurante continuava lá, como sentinela vigiando o movimento da praia...

Abraço.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

"...Até que descobrimos que esta pessoa reside em nós mesmos e aí estamos prontos para a árdua tarefa de ser pai também. E para o ciclo recomeçar."
Este trecho é demais! Fechou!!!
Obrigada.
Muita paz!

Falcão do Morro disse...

Luiz, texto maravilhoso. Entendo que a possibilidade de um relacionamento adulto com o pai é fundamental para o homem, porém muitos como no seu caso não tiveram esta oportunidade, ai prevalece as observações de suas atitudes quando ainda éramos crianças. Grande abraço amigo.
Falcon

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado, amigos.
Santos....o Atlântico ainda lá está, com seus bons chopes e acepipes. Em frente, a fonte 9 de Julho ainda solta águas dançantes, mas a colorida iluminação há muito desapareceu. Existem tb o Leão
e a Leoa, em cimento, nos quais montávamos qdo pequenos, e crianças de outras gerações continuam repetindo o feito.
Qto a bares e restaurantes em
S. Paulo, à noite, continuam cada vez mais visados por assaltantes...não está dando para sair de casa! Adeus, boemia. Abraços.

suely aparecida schraner disse...

ue ótimo DNA, Saidenberg! A matriz é mesmo muito boa, como bons são os seus escritos.Adorei! Abraço.

Laruccia disse...

Numa resumida história de seu pai, Luiz já podemos aquilatar a grandesa de uma vida, com tantos percalsos e incertezas, sobrepujados com galhardia e surpreendente amor, depois de ter passado por situações cinematográficas para alcançar a liberdade, numa Europa oprimida e seus pais (seus avós paternos) conseguindo a liberdade. Sua narrativa, como sempre impecável, parabéns, Saidenberg.

Modesto

Wilsonnatale disse...

Beleza, Saidenberg!
Você reafirma aquilo que eu escreví nos texto "Feliz Dia Dos Pais", quando afirmo que o mais importante, o que fica, são as pequenas coisas, os pequenos cuidados de amor.
Abração,
Natale