quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tem gente que conquista só pelo jeitinho


imagem: Elaine de Angelis (a caçula)

Agora é a vez de homenagear a caçula.
Eu tinha 7 aninhos quando ela chegou. Minha mãe disse que fiquei com ciúmes, mas só me lembro de como gostava de comprar coisinhas para minha irmãzinha, de brincar com ela etc.
O tempo foi passando e ela virou mulher; depois se casou e nos presenteou com duas gatinhas que dão muita alegria na vida da gente.
Hoje cedo mandei um torpedo romance (em 3 capítulos), lembrando do dia em que minha mãe foi para maternidade.
Era noite em São Paulo, chovia; o sofá cama onde Rose e eu dormíamos com aquele cobertor vermelho e aconchegante, sendo deixado para trás. Meu pai, nervoso, me vestiu com o sapato no pé trocado.
Chuva, rua de terra até chegar à avenida asfaltada e pegar o taxi e ainda passar na casa de nossa avó para nos deixar lá.
Aí que tudo virou festa porque eu adorava dormir na minha avó. E a pobre parturiente esperando no táxi...
Sempre bem vinda na nossa vida, irmãzinha.
Beijos.
Por Vera Lúcia de Angelis

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Parabéns, Modesto!


Uma mulher dinâmica - 5ª e 6ª partes

 
imagem: SARPAC - Sociedade Amigos do Residencial Parque Continental
 
Nos 5 anos que moramos na “quadra “B”, passagem “E”, várias ocorrências se manifestaram. A Myrte conseguiu transporte pra mais de 20 crianças, com escolas localizadas em vários bairros, sem nunca sofrer qualquer acidente e nem queixa de pais de alunos sobre qualquer inconveniência.
De minha parte, trabalhando muito como vendedor de embalagens, tinha, também, minhas tarefas concernentes as atividades da SARPC, (Sociedade Amigos do Residencial Parque Continental), entidade juridicamente constituída, fundada por mim e mais alguns vizinhos, como os professores da USP, Kazuko e Yogiro, do campo de física nuclear, prof. Ivo, Eduardo, Gessy, e mais alguns vizinhos de outras ruas. Na época, (hoje, nem tanto) estas formações eram permitidas e eram das poucas oportunidades que tínhamos em enfrentar uma empresa politicamente “incorreta”. A justiça, apesar dos pesares, punha um pouco de respeito.
Esta sociedade existe até hoje, completando 40 anos de bons serviços prestados a comunidade, pois, a Construtora Continental se indispunha muito com moradores queixosos, devido os constantes descalabros com algumas casas que não tinham acabamentos conforme rezava no contrato de compra. Se refugiavam com os próceres políticos e, apadrinhados por sectários da revolução, ameaçavam os que deixavam de pagar as prestações como protesto, com uma indicação de movimento contrarrevolução, movimento comunista, como chegaram a fazer em outro empreendimento. Por incrível que possa parecer, na época, nosso prefeito era o Paulo Salim Maluf.
Saindo da rua do Gasômetro, asfalto, barulho, cheiro de gás, (que os ingleses, diziam que era bom pra coqueluche... de suas ações nas bolsas londrinas...), a Myrte e eu não acreditávamos que estávamos vivendo num paraíso terrestre. Eu, louco pra bater uma bola cujo único lugar pra isso, no Braz, era o Parque D. Pedro ll, que já estava virando canteiro de obras do Metro.
Fiz um levantamento sobre jogar bola no terreno da Continental.
Como boa parte dos moradores gostava de futebol, nada melhor do que formarmos dois times e brincarmos, todos os domingos de manhã, no terreno ainda desocupado onde hoje se encontra o “Shopping Continental”.
Nestes 5 anos, além do futebol domingueiro, os vivinhos próximos começaram a se unirem mais ainda.
É evidente que novos vizinhos são como novos parentes, todos simpáticos, sem defeitos, corretos, a proximidade das casas permitiam troca de receitas de cozinha, de bolos, (menos de maridos), assistências médicas e a todas as vicissitudes que ocasionam desconforto.
Mais uma vez as iniciativas da Myrte vingam com a implantação das festividades no mês de junho, relativas às festas juninas de todos os anos. Conversando com as vizinhas, reuniu todas na preparação dos ornatos e obtenção dos bambus necessários pra um arco na entrada da ruazinha. Lenha pra fogueira, carnes pros churrascos de todo fim de semana, bebidas, salgados e doces específicos dos folguedos juninos. Pra estas preparações que exigiam procuras externas, ficavam a cargo da parte masculina. Outros vizinhos, de outras ruas, com o passar dos anos queriam, podiam e vinham colaborar e passar estas gostosas temporadas; divertimo-nos bastante e ficamos felizes com a certeza de que se devia aproveitar o máximo, pois estas são passageiras e que nunca se repetirão.
 
Por Modesto Laruccia

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Lei do Triunfo

Já éramos todos crescidinhos quando tudo começou. Minha mãe se encarregaria de orientar as meninas sobre as coisas da vida e os meninos, obviamente, seria missão do meu pai.
A estante que cobria a parede da sala de casa continha vários livros, sendo que a maioria dos assuntos fazia parte da profissão de Contador, a do meu pai, e outros tantos de assuntos variados. Psicologia, Pedagogia do famoso Piaget (livro que foi parar, depois de um tempo, na minha mão quando entrei para o magistério), a enciclopédia Barsa, alguns livros de inglês, dicionários e mais uma coleção intocável chamada de A Lei do Triunfo.
 Acho eu que era de uma edição bem antiga. Cabe lembrar que, naquele tempo, a obediência era sagrada e, pelas regras do nosso pai, só podíamos mexer nos livros que ele autorizava. E assim era feito; não tocávamos em nada que não nos fosse permitido.
Minha mãe, com toda sua simplicidade,  acho que até tinha a orientação do meu pai por de trás, fazia o que era possível e, dentro do seu conhecimento, nos explicava algumas coisas, quase nada de mais.
Mas, meus irmãos mal sabiam o que os esperava nas reuniões que meu pai havia programado, semanalmente, em seu escritório, às portas fechadas. Isso aguçou nossa curiosidade para saber o assunto tão sigiloso.
A cada encontro, perguntávamos a eles como tudo acontecia, mas por orientação do meu pai eles não contavam, uma vez que o assunto era dito só para os meninos.
Porém, como a curiosidade era grande, consegui descobrir que eles faziam leituras da coleção da Lei do Triunfo, onde alguns capítulos eram lidos e depois explicados, primeiro por eles depois pelo meu pai que fazia as devidas correções. Descobri, também, que estes encontros não eram feitos em um clima de muito prazer. Meu pai, muito autoritário, acabava inibindo e pondo muito medo nos meninos.
Com o tempo, tudo foi ficando chato e meu pai percebeu que eles não gostavam muito e acabou por terminar com estes encontros, deixando por conta deles a leitura dos tais livros.
Apesar de tão perto, nunca tive acesso a esta coleção por obediência ao meu pai, mas confesso que me dava muita vontade de roubar um deles só pra ler um pouquinho.
Certa vez, já todos grandes, toquei no assunto com meus irmãos, mas eles já nem lembravam mais, apenas me disseram que eram assuntos sobre o comportamento do homem.
A Lei do Triunfo, apesar de não ter lido, foi marcante na minha vida e, mesmo sem saber que assunto tratava, me baseava pelo titulo tão nobre. Questionava sempre comigo, porque só os meninos podiam triunfar.
Que injustiça!
Claro que meu pai queria fazer o melhor para todos, mas, na sua sabedoria, era assim a forma que encontrou para passar orientações aos seus filhos.
Não posso reclamar e agradeço a ele pela criação que recebi e pela garra de honrar o sustendo de toda nossa família. Ele triunfou!
 

Por Margarida Peramezza

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

São Paulo chegou pelo correio

Nessa segunda feira dia 28-01-2013, depois de ter feito um corte de cabelo diferente, e de achar que fiquei muito parecido com o famoso ator norte americano Leonardo DiCaprio, mas no futuro, daqui uns 50 anos, estava eu sentado em um sofá, tomando um belo saboroso suco de maracujá bem gelado, assistindo pela Globo News e Band News, condoído diante das tristes notícias do incêndio que enlutou um grande numero de famílias na cidade gaúcha de Santa Maria.
Meus pensamentos estavam longe, pois meditava revoltado, sobre como e por que esses tristes acidentes continuam acontecendo em nosso país, como também em outros lugares do mundo sem que, na maioria das vezes, os culpados sejam responsabilizados por suas irresponsabilidades.
Absorto em meus pensamentos e meditações, fui despertado de tudo isso pelo som de palmas no meu portão, seguido do grito: CORREIOOO.
Saí ao encontro do carteiro, recebo um envelope branco, diferente de toda a correspondência da qual já estou acostumado; voltei para a minha poltrona, imaginando: será que já é o imposto de renda, (fiquei na malha fina)? Ou será o IPTU?
Abri o envelope ansioso, curioso e medroso, afinal, que correspondência seria essa? E quem a teria enviado?
E então, para minha surpresa, uma enorme beleza, não era o IPTU, mas era uma correspondência enviada pela equipe do SPMC (São Paulo Minha Cidade)... E quanta coisa bonita nela eu recebi.
Um belíssimo calendário de mesa, falando e mostrando todos os eventos que acontecerão em São Paulo nesse ano de 2013.
Como se isso não bastasse, roteiros temáticos, como: Cidade Criativa, Arquitetura pelo centro histórico, Independência do Brasil, O café e a história da cidade, futebol, e um roteiro afro, que envolve até história de nossas Escolas de Samba. (Senti falta da presença da minha escola querida, na freguesia nascida, lá na Vila Brasilândia, tão popular e famosa ROSAS DE OURO).
Roteiros com lindos textos e belas fotografias tiradas de ângulos diferentes, de dar água na boca de qualquer amante de fotografias, lindo, lindo. E então acabei sentindo, não sei se não li direito, mas não vi nenhuma referência sobre nosso Pico do Jaraguá.
Mas, como ainda não terminei a leitura, continuo lendo tudo, me sentindo o Rei da cocada, com baita orgulho de ser paulistano e viver nessa pátria amada.
 
Obrigado equipe querida, obrigado, obrigado, obrigado,
fiquei tão feliz e emocionado,
que acabei esquecendo aquele incêndio malvado,
e daqueles jovens estudantes que morreram queimados.
Rezemos agora por eles, nós todos juntos aqui irmanados.
 
Por Arthur Miranda (Tutu)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Às vezes eu penso

Virando uma esquina hoje, perto de casa, tive a sensação de estar sendo observado por alguém. Olhei para trás e vi a banca de jornais e revistas, sem ninguém por perto, apenas o dono da banca, sentado em seu banquinho, entretido na leitura de um jornal. Será que ele estava me observando, disfarçadamente e, quando olhei para trás, escondeu o rosto atrás do jornal aberto?
Como nos filmes de aventuras. Segui o meu caminho mas a sensação permanecia.
Depois de uns vinte, trinta metros, olhei para trás novamente. A banca de jornais já havia sumido atrás da esquina. Ninguém mais à vista, a não ser os motoristas dos carros que passavam por mim, mas nenhum deles devagar o suficiente para estar me observando. Será que estou ficando louco? Desenvolvendo algum tipo de neurose? Como posso me sentir vigiado se não vejo ninguém por perto? Será que já inventaram a invisibilidade e eu não fiquei sabendo?
Continuei meu caminho, meio cabreiro, olhando para os lados, para trás de vez em quando e... nada! Ninguém me seguindo, nenhuma pessoa andando pela mesma calçada ou mesmo pela calçada do outro lado da rua. Aliás, a rua estava estranhamente vazia, não fossem os automóveis que passavam por mim na direção contrária, a impressão era a de um dia depois do fim do mundo, onde eu fosse o único sobrevivente. Quase dava para ouvir meus próprios passos na calçada, não fosse ela esburacada, como a maioria das calçadas de São Paulo, que me obrigava a andar devagar, olhando para onde iria pisar... por pouco não pisei num cocô de cachorro! Esse povo mal educado que sai com seus cães para fazerem as necessidades fisiológicas na rua mas não levam o necessário para recolher as fezes e jogá-las na lixeira mais próxima!
Finalmente, cheguei em casa! Quero dizer: cheguei ao prédio onde moro! Fui recebido com o sorriso mecânico do porteiro, que abriu os portões e grades que nos aprisionam e trocamos um comentário gentil sobre o calorão que tem feito ultimamente. Como se já não estivéssemos em pleno verão!
Entrei no elevador e o espelho retribuiu meu olhar meio envergonhado, pois todo mundo, quando entra num elevador e não tem mais ninguém dentro, dá uma olhadinha no espelho! Ou não dá?
A sensação de estar sendo vigiado misturou-se com a reprodução da minha imagem no espelho. Aquele cara não parecia comigo em nada! Era um sujeito meio gordinho, com pneus e barriga saliente, cabelos grisalhos denunciando os muitos anos de vida e a barba mal feita, ou feita há dois ou três dias! Eu não sou ele! Preciso falar com a síndica para que verifique o espelho do elevador, que está com algum tipo de defeito, distorcendo tanto as imagens que acabamos vendo outra pessoa do outro lado do vidro.
Será ele que anda me vigiando por aí? Mas, não! Não posso falar com a síndica, senão ela vai descobrir que eu também, homem já feito, com certa idade, costumo dar uma olhadinha no espelho do elevador. Melhor ficar quieto.
Pronto, cheguei ao meu andar. Saio do elevador e dou de cara com o faxineiro passando um pano molhado com um produto extremamente perfumado no chão. O aroma do produto é tão forte que me provoca espirros. “Saúde, doutor!” “Obrigado, meu filho!”
Enfio a chave na fechadura, confiro o número na plaquinha pra ver se não estou abrindo a porta errada e, após girá-la, entro para o conforto do meu lar. A sensação de estar sendo observado, curiosamente, desaparece assim que fecho a porta.
 
Por Zeca Paes Guedes

domingo, 27 de janeiro de 2013

A Rua Guarapuava, seu entorno e um "donnnaiolo"

 

M00CA, ANOS 50.
Meu tio era de uma beleza mediana. O cognome “il bello” (o belo) ficava por conta do “corujismo” da família. Afinal, para os meus avós “todos os seus patos eram cisnes”!... Titio não era nenhum Amedeo Nazzari ou um Vittorio De Sica e muito menos um Marcello Mastroianni. Mas, tinha charme, magnetismo – o famoso “sex appeal” (Apelo sexual).
Que tio Amedeo fosse um “donnaiolo” (mulherengo), ninguém tinha dúvidas. Carismático, bem-falante e “sexy”, envolvia a mulherada ao ponto de cada uma acreditar que - para ele - ela era “l’única al mondo” (A única no mundo).
E, de vez em quando, essas “únicas” encontravam as outras “únicas” e descobriam que não eram “a única”! Iradas, aos gritos, iam até a nossa casa tirar satisfações com o “bello Amedeo” que, mui corajoso, trancava-se no quarto e deixava a ”bomba estourar” nas mãos de vovó. E a “nonna” com os nervos à flor da pele, vassoura na mão, saía para dispersar o mulherio. A vizinhança se deleitava.
Para um “donnaiolo”, nada melhor do que morar na Rua Guarapuava. Lá, titio sentia-se como “una volpe dentro il pollaio” (Uma raposa dentro de um galinheiro). Lá, tio Amedeo “nadava no mulherio”. Ah! A Rua Guarapuava! Tão próxima às grandes fábricas e a um mundo de mulheres. E o mulherio eram as operárias das fábricas.
Colado à nossa casa estava a Chocolates Gardano (Mais tarde, absorvida pela Nestlé); mais adiante, a Alpargatas Roda; andando em direção à Rua dos Trilhos estava o Cotonifício Crespi. Seguindo-se pela Rua Conselheiro Justino (hoje absorvida pela Radial-Leste), atravessando os trilhos da “inglesa” (Santos a Jundiaí), entrava-se na Avenida Alcântara Machado (que estava sendo rasgada para dar origem à Radial-Leste),virava-se à esquerda, entrava-se na Rua da Mooca e ia-se ter à Fábrica de Tecidos Labor. Mulheres, mulheres, mulheres!
E titio adorava “fazer ponto” sobre as passarelas da “Inglesa” (Santos a Jundiaí) das Ruas da Mooca e Visconde de Parnaíba, aonde ele flertava com um mundo de operárias que iam e vinham...
Além das operárias, a imediação da Rua Guarapuava estava cheia de belezas locais. Havia ainda, as espanholas dos cortiços da Rua Visconde de Parnaíba e as italianas dos cortiços da Rua Caetano Pinto.
E titio vivia a vida de “na zanzara ne’mmielle” (uma mosca no mel)...
Vênus é pródiga com o mortal a quem ama. Dá-lhe o dom de ser amado. E quando o mortal abusa desse dom, Vênus se vinga.
Na trajetória “don juanesca” do meu tio Amedeo, Vênus se vingou muitas vezes, criando situações terríveis para ele, mas que eram hilárias para nós. Ela colocou no caminho do meu tio, mulheres possessivas, dramaticamente ciumentas. Mulheres que vigiavam o titio e faziam escândalo na frente de todos, ameaçando se matar... E matá-lo também! Quando não era isso, aparecia na vida dele as “mulheres carrapato” – aquelas que grudam e não soltam mais. Eram perigosíssimas! Apareciam de repente nos lugares onde ele estava, seguiam o titio por toda a parte. Houve uma que, com ou sem o titio em casa, ela entrava e “estacionava” na nossa sala a conversar com vovó e minha mãe. Titio “chiava”, mas não fazia nada... Um dia, não aguentando mais o incômodo e a “conversa mole", vovó disse “um monte” à desavergonhada, pegou-a pelo pescoço e a colocou na rua e, ambas fizeram o maior escândalo... Para alegria da vizinhança, claro!
Vênus nunca estava contente com as vinganças. Titio precisava de um corretivo mais eficiente: Então, colocou na vida dele uma mulher do tipo – como diríamos hoje – atração fatal. E pior, atração fatalíssima, dela pelo titio Amedeo...
Ermínia – a espanhola fazia parte de uma família que recentemente se mudara para a Rua Frei Gaspar, quase esquina com a Rua Guarapuava. Era tão feia a coitada. Pequenina, parecia uma anã. E meu tio, sobre ela, dizia uma frase divertida: “ Se essa dai tivesse de peito o que tem de nariz, até que “daria para o gasto”.
Pois é, minha gente. Foi “isso” o que Vênus colocou no caminho do meu tio.
Ermínia, quando viu o titio Amedeo pela primeira vez, apaixonou-se loucamente. Passava, repassava constantemente pela nossa rua, na esperança de ver o titio. Um dia, ela bateu de frente com ele. Fez caras e bocas, insinuou-se descaradamente e o titio, que não era cego e nem besta, saiu pela tangente, dizendo que já era comprometido e rápido foi saindo fora. Isso magoou Ermínia profundamente. Ferida pelo desdém do meu tio, cheia de ciúme e desejo de vingança, ela começou agir “nas sombras”. Vigiava, espionava o meu tio. Sabia de todos os seus passos. Mal ele começava mais um dos seus “namoros relâmpago”, a “namorada relâmpago” recebia uma carta anônima falando horrores e barbaridades sobre ele. Então, uma a uma, as “namoradas relâmpago” discutiam, ofendiam, jogavam a carta anônima na cara do meu tio, viravam-lhe as costas e iam embora. E o “donnaiolo” Amedeo desacreditado, desmoronou. Também, não era para menos. O mulherio fugia dele como quem foge do diabo! Ermínia devia estar exultante ao ver que as suas manobras maquiavélicas surtiam efeito. Mas, o “bello” Amedeo era um sortudo, nascera com o “rabo pra Lua”...
Vindo do trabalho, titio parou na porta da Celina, sua amiga de infância. Fazia um bom tempo que não se viam. Conversaram muito e meu tio despediu-se e foi embora. Na noite seguinte, Celina veio à nossa casa, trazendo uma carta na mão e contou ao titio que fora abordada por uma espanhola baixinha que lhe entregara a tal carta onde se lia barbaridades sobre ele. Celina não tinha certeza, mas achava que era a espanhola que morava na Rua Frei Gaspar. O rosto do meu tio passou da palidez à vermelhidão de quem está prestes a sofrer um ataque apopléctico. Ele agarrou a Celina pelo braço e saíram. Caminharam em direção à Rua Frei Gaspar. E eu atrás... Eu ia perder o “bafafá”? Nunquinha!
Lá, em frente a casa da Ermínia, o “bello” Amedeo fez um escândalo tremendo, discutindo com o pai da vilã! Pessoas abriam as janelas e se debruçavam nos parapeitos, para melhor apreciar o bate-boca. Outras apareciam nos portões e a criançada fazia um círculo em volta dos briguentos. Titio gritava feito um louco. Falava em ir à polícia; em processo por perseguição, difamação e calúnia. O pai da Ermínia, que era um homem com muita vergonha na cara, deu uns bofetões na filha e jurou ao meu tio que iria manter a malcriada com “as rédeas curtas”. Acalmado os ânimos, titio e eu acompanhamos Celina até a casa dela e voltamos para casa.
O escândalo da Rua Frei Gaspar rendeu muita fofoca e também comentários frutíferos. Tanto que as “namoradas relâmpago” começaram a escrever bilhetinhos, pedindo desculpas ao titio. E Ermínia reclusa, vigiada, parecia conformada com a “perda do seu grande amor”. As faladeiras diziam que ela pensava em entrar para um convento... “Vai tarde”! – Comentou o Titio, se persignando.
Passado mais de um mês, o “donnaiolo” Amedeo estava em plena atividade e feliz!... Foi quando começaram a aparecer as cartas, via correio. Chegavam duas a três, todas as semanas, sem remetente. E dentro do envelope apenas um lencinho branco, de papel fino, com a estampa de um beijo em batom vermelho e a frase: “Te quiero más que a mi alma”! (Quero-te mais que a minha própria alma!). Titio não tinha dúvidas. Eram cartas enviadas pela Ermínia! A letra era a mesma das cartas anônimas. O sangue subiu-lhe à cabeça, mas relaxou. Ele lera as primeiras, não leria as outras que, sabia, viriam.
As cartas foram acumulando e o acumulo começou a irritar meu tio. Então ele foi ao quarto de vovó, retirou alguns lenços de papel da caixa e foi ao banheiro “fazer as necessidades”. Limpou-se nos lencinhos e os dobrou delicadamente. Deu a descarga. Saiu do banheiro com os lencinhos “carimbados”, dobrados na mão. Foi para o quarto e os colocou dentro de envelopes; e os endereçou à Ermínia. Olhou para mim e disse-me, sorrindo: ”Já que a Ermínia não vai à merda, a merda vai até ela”! No dia seguinte enviou-as ao destinatário. Nunca mais ele recebeu cartas da espanhola enlouquecida.
E o meu tio aprendeu a lição!...
Não mesmo! Aprendeu sim, a ser mais cuidadoso, mais esperto!
“E Venere che se ne freghe! (E Vênus que se dane!)”.
 

 
Por Wilson Natale

Parabéns, Wilson Natale!


sábado, 26 de janeiro de 2013

Mais um pouquinho de Sampa

 
Vista Aérea do Parque no dia da inauguração. Foto: Oswaldo Luiz Palermo
Ele não é o maior parque da cidade, mas com certeza é o mais badalado. O Parque do Ibirapuera é um paulistano tão típico que "nasceu" em 1954, ano do 4º Centenário da cidade. Deveria ter sido entregue em Janeiro, mas as obras projetadas pelo arquiteto Oscar Niemayer, em parceria com o paisagista Roberto Burle Marx, atrasaram e o parque dó foi inauguado em 21 de Agosto de 1954.

Queria ter-me inspirado para escrever algum texto sobre o aniversário de São Paulo, mas não me ocorreu nada de interessante. 
O que eu sempre lembro, quando chega 25 de janeiro, é que estive na inauguração do Parque do Ibirapuera, onde, à noite, vi um motociclista fazendo manobras no Globo da Morte; andei pela primeira vez no carrinho bate-bate; e assisti a um desfile no Anhangabaú no dia do IV Centenário e vi o Getúlio Vargas. 
Eu tinha 9 anos e meu cunhado (ainda noivo de minha irmã), funcionário da Prefeitura, fazia parte da Comissão de Festejos e eu, seguradora oficial de vela, ia aos programas noturnos com eles. 
Fatos inesquecíveis para mim e, é claro, não posso deixar de mencionar a chuva de triângulos prateados que caiu na noite da grande festa.

 
 
Por Teresa Fiore

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

São Paulo faz 459 anos


SÃO PAULO FAZ 459 ANOS.
 
25 de janeiro, 1554\2013

Nossa gigantesca metrópole aniversaria, ocupando a privilegiada posição de uma das maiores cidades do mundo. Sim, um trabalho gigantesco de brasileiros de todos os rincões e representantes de todos os paises do mundo.  

Pra formar esse paulistano trabalhador, puro, legítimo, casto, hercúleo, batalhador, bravo e intransigente diante de qualquer obstáculo, foi necessário amalgamar raças, credos e povos de origens estranhas afim de mostrar ao mundo o soberbo desenvolvimento de nossa bendita terra. 

A cidade que amamos, cultuamos, respeitamos e formamos nos devolve, com a beleza de seu perfil nunca sobrepujada, uma vida de progresso contínuo, em vastíssimos campos de quaisquer atividades.  

Altaneira e acolhedora de mãos interessadas no progresso e na liberdade, em qualquer recorrência, seja no campo industrial, comercial, escolar, intelectual e político.  

São Paulo alcança, nesse aniversário, um destaque precioso nas áreas da indústria, tecnologia, comunicação, saúde, (HC, o maior e melhor hospital do Brasil), no ensino, (USP, a melhor e maior universidade da América latina), desenvolvimento intenso no mercado imobiliário.

Novos bairros, ruas, viadutos, avenidas abertas, praças de lazer, monumentos, museus, edifícios majestosos, parques, esportes de todas as modalidades, o melhor e maior metrô do Brasil.

Nas artes, em todas as modalidades, destacam-se pinturas, esculturas, teatros, cinemas, músicas para todos os gostos e prazeres, gastronomia, vida noturna enfim, um mundo só nosso, um mundo paulistano por excelência, um orgulho de ser paulistano.

PARABÉNS A TODOS NÓS E VIVA SÃO PAULO.

 

Por Modesto Laruccia

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Memórias esfarrapadas

 
imagem: Os esfarrapados Miguel Chammas (sanfoneiro) e seus amigos
 
Estamos em janeiro de 2013, o ano acaba de começar, mas para a maioria do povo brasileiro, 2013 vai começar de verdade na quinta-feira depois do Carnaval, em plena quaresma. Até lá iremos levando os dias em banho-maria.
O verão está em plena atividade, o calor é insano, então por que iremos nos preocupar com a vida? Vamos esperar... como canta aquela modinha: “Prá quando o Carnaval chegar...”.
Dizem (mas não provam) que São Paulo não tem Carnaval, então pergunto o que aconteceu naquela segunda-feira de fevereiro do ano de 1947?
Explico: Precisamente naquele dia, um grupo de foliões de São Paulo, moradores do bairro do Bixiga, decidiu, na melhor forma de direito popularesco, organizar um bloco carnavalesco. Esse bloco que primava pela peculiaridade de não ter estatutos, diretores e demais burocráticas atitudes tão a gosto dos cultores de formalidades.
Foi ele batizado por “BLOCO DOS ESFARRAPADOS”, pois, de acordo com sua base estrutural, não defenderia cores, nem teria fantasias formais. Seria formado apenas por um grupo de foliões dispostos a desfilar pelas ruas do bairro, fantasiados, cada qual, com fantasias criadas por suas ideias, confeccionadas em papeis, em jornais, em roupas velhas ou o que mais fosse conveniente.
Ideia aprovada, saiu o bloco pela vez primeira naquela tarde de segunda-feira levando, de início, uns poucos adeptos e, entre eles, Armandinho Pugliesi (que o organizou por vários anos) a percorrer o bairro do Bixiga.
Em cada rua por onde ele passava, mais carnavalescos aderiam ,e ao final, centenas de foliões, na maioria homens, devidamente zonzos pelo desfile etílico que também se  instalara na passeata, terminavam a brincadeira já no início da noite.
Essa atividade foi se instalando no tradicionalismo do bairro e até hoje é motivo de orgulho dos moradores do Bixiga.
Eu, quando jovem e solteiro, também desfilei nesse bloco. Primava por me fantasiar com temas da época. Foram várias fantasias, de Palhaço, de Cruzeiro Novo, de Capanga/capenga, e muitas outras. Eu e os outros componentes dos Duques de Piu-Piu nos divertíamos prá valer e, lógico, bebíamos como gente grande.
O Bloco tem uma peculiaridade ímpar, permite que as pessoas com vontade de sair nele, mas sem coragem de irem ao ponto de concentração devidamente fantasiadas, esperem a passagem na porta de sua casa e, então, se incorporem à bagunça.
No meu entender, este é, realmente, o grande carnaval de rua, não requer luxo ou grandes aparatos, cada um vai do jeito que quiser e entra ou sai do bloco em qualquer lugar.
Hoje, residindo distante do meu Bixiga, tenho, por vezes, uma vontade enorme de me misturar aos componentes desse bloco, só não levando a cabo minha vontade, por saber que as pernas não mais me permitirão esse ousado desvario a transitar no carnaval.
Salve, então, o Zé Pereira que foi o primeiro “bloco de sujos”.  

Por Miguel Chammas

domingo, 20 de janeiro de 2013

Tô de olho no Sinhô

Esse era o bordão famoso que tornou conhecido o meu querido amigo e ex colega, Clayton Silva, no Brasil inteiro, através dos programas A Praça da Alegria, no passado, e A Praça é Nossa no presente.
Clayton foi um pioneiro na televisão paulistana, acompanhei seu trabalho na antiga TV Paulista, na TV Bandeirante, na TV Record, e no SBT. 
Entre 1967/68 quando trabalhamos juntos na TV Bandeirantes (programa Cidade de Araque), eu, minha família e a dele, as vezes nos finais de semana, saíamos de nossa São Paulo e seguíamos para a Via Raposo Tavares, na altura de Cotia e lá, a beira da estrada, fazíamos nossos churrascos e bebíamos água pura, diretamente da fonte que corria ao lado do local que, naquela época, era uma área de descanso, que eu nem sei se ainda existe hoje em dia.  
A estrada era tranquila, cercada de muito mato, tudo era mais barato, ninguém falava de assaltos, a gente se divertia, era feliz e não sabia. 
Depois de lutar contra um câncer por três anos seguidos, Clayton deixa esse nosso mundo, levando com ele a sua grande fortuna acumulada nesses anos todos de vida artística, que são: seu coleguismo, sua simplicidade, seu talento, sua fidelidade e a saudades de todo mundo que teve a oportunidade de conviver com ele, que mesmo estando há muitos anos radicado em São Paulo, nunca perdeu o jeitinho mineiro de ser.  
Clayton Geraldo Silva, nascido em Uberlândia em 06 de Fevereiro de 1938, faleceu em Campinas onde morava com sua esposa, no último dia 16-01-2013. 
Meus Deus! Que saudades estou sentindo.
 
Por Arthur Miranda