quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Memórias por um ditado


Já lá se vão muitos anos. Estávamos no curso dos anos “tenta”, possivelmente “tenta e cinco”. O solar da família Chammas era em um apartamento no oitavo andar de um prédio da Rua Rocha, esquina com a Rua Itapeva, lógico, no meu idolatrado Bixiga.
O titular daquele núcleo familiar, eu, era um orgulhoso profissional da área de Consultoria Empresarial de O&M que, naquelas alturas, já colecionava uns tantos trabalhos de sucesso em todo o território nacional. Meu sucesso não era medido pela remuneração um tanto aquém do merecimento natural, mas era, sim, medido pelos trabalhos realizados com todo o denodo e com seus resultados devidamente comprovados.
A família, por sua vez, sentia com minhas ausências profissionais já que, por força de trabalhos distantes, era eu obrigado a me ausentar por períodos de três semanas a cada fim de semana retornando, mas mesmo assim íamos vivendo com dignidade respeito e muito carinho.
O apartamento era alugado; veículo, tínhamos um Ford Corcel II vermelho flamejante, naquela altura, um tanto quanto necessitado de melhorias.
Estava desenvolvendo, no período, um trabalho em São Paulo o que alegrava a todos. Fiquei nesse trabalho por algumas semanas e, utilizando o carro com maior frequência, fui reparando todos os seus defeitos e necessidades.
Resolvi, então, depois de pesquisar orçamentos, mandar arrumar o nosso transporte. Seriam verificados e reparados os pequenos defeitos mecânicos e, lógico, os defeitos da carenagem e consequente pintura.
Aceite, para tal, trabalhar um período sem condução própria, utilizando serviços de taxi para meus deslocamentos.
Na última semana do meu trabalho em São Paulo a reforma do carro estava sendo terminada, e contente, eu poderia passear no final da semana com toda a tropa, coisa que já não fazíamos havia algum tempo. Mesmo por que eu já sabia que na semana seguinte estaria assumindo uma nova tarefa no interior e estaria ausente, quem sabe, por mais algumas semanas.
Fizemos o planejado passeio. Fomos almoçar na Cantina Veneta, nossa predileta, que ficava na estrada de M’boi Mirim.
Como de praxe, no carro já estavam acomodadas a minha mala de viagem e minha maleta 007 com os materiais de uso profissional (naqueles tempos noteboock não era nem conhecido por estas plagas), pois após o almoço, a “dona patroa” me desembarcaria na Rodoviária da Rua Duque de Caxias para início de minha viagem profissional e retornaria à casa com nossas filhas.
Pronto, final de semana perfeito, embarquei com destino ao interior e na segunda-feira, iniciei um novo trabalho. A distância dessa nova tarefa não era grande e isso me permitiria retornar a cada sexta-feira.
A semana passou rápida e me permitiu um retorno mais cedo para casa. Desembarquei em São Paulo por volta das 14h00 e de taxi fui para casa.
Minha ideia era chegar em casa, largar a bagagem, pegar o carro e ir buscar minha esposa (esqueci de contar que ela, no intuito de ajudar as finanças domésticas trabalhava, como escriturária, no Hospital Menino Jesus também no Bixiga) fazendo-lhe uma surpresa.
Se assim pensei, assim procedi. Só que ao descer na garagem do prédio e localizar nosso carro na vaga a ele destinada, levei um susto. Meu corpo gelou da cabeça aos pés. Aquele carrinho, quase novo., pintadinho de vermelho estava, agora, ostentando um nobre e profundo amassado na sua trazeira.
Cego de raiva embarquei e quase desmontei o carro tal a violência usada para bater à porta. Sai cantando pneus e só parei à frente do Hospital. Buzinei algumas vezes e, finalmente, ela e a prima que com ela trabalhava, apareceram na janela.
Ela fez um sinal me pedindo para aguardar e eu já percebi que a desculpa estava pronta e convincente. Tratei de me acalmar e quando ela se aproximou já foi dizendo: “-a culpada fui eu...não percebi a mureta do estacionamento e bati fazendo a manobra...”
Um pouco mais calmo disse que ela fosse para casa por que eu iria tentar resolver o problema do carro... Fui e resolvi.
Levei o carro até a Loja Ford Sonnerving que existia na rua Frei Caneca, pedi uma avaliação do carro no estado, perguntei o preço de uma Belina Ford LE Branca, que era meu sonho e havia me encantado desde a entrada, negociamos a troca e o financiamento do valor excedente e, às 19h30 este consultor, extremamente satisfeito, já com seu novo troféu estacionado na garagem, usou o interfone da portaria para chamar toda família e com eles festejar a nova aquisição que, diga-se de passagem, foi aprovada e comemorada por todos.
Em seguida, todos embarcados, fomos passear e mostrar nosso carro aos parentes mais próximos.
Lembrei dessa passagem hoje ao ler hoje em algum lugar um ditado que dizia “Há males que vem para o bem.”


Por Miguel Chammas

2 comentários:

Memórias de Sampa disse...

Olá, Miguel!

Recordar é viver. recordas nossas conquistas, mesmo que elas contenham adversidades, também nos faz rir e chorar, emocionar e contar.
Valeu!
Muita paz!

PS: Só não gostei de ver o "tropa" para falar da família. Tropa é coletivo de cavalo.

Mais paz!

Sonia Astrauskas

MARGARIDA PEDROSO PERAMEZZA disse...

Hahaha, muito legal esse momento de sua vida. Coisas que acontecem e que temos que encarar além de solucionar. Nada mal um carrinho novo pra família, realmente há males que são para o bem.