quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

De ruas e pensões


imagem: vista aérea da região da Consolação em 1935 (extraída da internet)

Durante muitos anos, quando estudante em São Paulo, morei em dezenas de pensões. Ora perdidas em distantes bairros, ora em antigas e históricas ruas próximas ao centro. Aquelas vetustas mansões, remanescentes da decadente aristocracia cafeeira, tiveram importante papel em minha vida.
Baronesa de Itu, Cândido Espinheira, Conselheiro Brotero, Monte Alegre, Veiga Filho, Alameda Glete, Conselheiro Nébias, Dona Veridiana, Helvetia, etc, foram alguns de meus endereços durante os longos doze anos em que resisti ao casamento. Nomes majestosos, solenes, bucólicos às vezes, seguramente de pessoas importantes, respeitáveis, que tiveram a glória de serem nomes de vias, logradouros ou avenidas na maior cidade do país.
Quem foram essas pessoas? Respondam, por favor, a este pobre, ignaro e desbussolado analfabeto urbano. Qual a origem de Chora Menino, Largo da Misericórdia, Lavapés, Ladeira da Memória, João Cachoeira, Aurora, Bela Cintra e tantas outras denominações impregnadas de lirismo e de poesia?
Mas o que eu queria dizer mesmo, é que as pensões foram para mim uma grande escola. Convivi com músicos, estudantes, jóqueis (só davam "barbadas" frias), professores e, numa delas, havia até bela e atraente dançarina de boate, que despertava desejos e sonhos inconfessáveis neste que "vos fala". Asseguro, todavia, que ela era de uma dignidade exemplar.
Entre os hóspedes, vindos dos mais distantes recantos do país, prevalecia uma saudável, fraterna e sincera camaradagem, e a palavra solidariedade fazia parte de nosso repertório. Com o músico - trombonista - fui conhecer o local onde ele exercia sua arte, integrando uma admirável orquestra - o Avenida Danças. Ali, na pista, brilhava o ruivo dançarino Ponce de Leon (lembram-se?), bom de bola e bom de samba. Com terno de linho, sapatos de duas cores, ele fazia incríveis coreografias, dignas de um Fred Astaire.
Com o professor, pela primeira vez, fui e adquiri o gosto pela magia do teatro (Moral em Concordata, no Maria Della Costa). Levou-me, também, a conhecer o Clube do Professorado Paulista, onde exercitei minha sofrível arte de dançarino de boleros. Lembra-se, Mário Lopomo? Um garçom paraibano era meu fiel escudeiro nas gerais do Pacaembu, em cujo gramado, Cláudio Cristóvão do Pinho, o "Gerente", dava sempre novas lições de futebol, ao lado de Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário. Inesquecível.
A memória me trai e não me lembro, perdoem-me, os nomes de todas aquelas generosas pessoas, parceiras e cúmplices nas rações insípidas e insossas das gororobas diárias. De suas ocupações, em busca da sobrevivência, na cidade imensa, eu pouco sabia, mas, ali, no convívio com os demais moradores, eram pessoas confiáveis, cheias de sonhos e esperanças, em busca de melhores oportunidades. Com eles aprendi lições de lealdade, coragem e simplicidade. Obrigado, amigos!





Por Deraldo Mancini

6 comentários:

Soninha disse...

Olá, Mancini!

Que bom vê-lo novamente por aqui.
Existem muitos casarões antigos em São Paulo. Alguns foram reformados e ganharam uso comercial e cultural. Outros se reinventam como habitação. Tantos desapareceram e quantos ainda há muito à espera de restauração.
São relíquias de nossa cidade, são versos de um poema chamado Sampa, são retratos de nossa história e, com certeza, provoca lembranças em todos os que viveram nos áureos tempos dos casarões... Das ruas e seu nomes de gente que fizeram história.. Sampa é recheada de coisas boas que temos a satisfação de recordar através dos autores que aqui trazem suas histórias.
Muita paz!

Asciudeme Joubert disse...

Mancini, li sua bela narrativa a qual fez-me recordar
do início de minha carreira na Xerox.
Trabalhei numa mansão antiga na av.Angélica quase
esquina com a Paulista. Não sei se ainda existe.
Lembrei-me da escalação do Corinthians, só que
na ponta esquerda era Jansen.
Parabéns e um grande abraço.
Asciudeme

Modesto disse...

Caro Mancini, uma volta a um passado que parece tão distante, mas ele está logo ai, na esquina da Consolação co a Paulista. Um retorno repleto de certezas e emoções, em cada pensão uma gota do saboroso licor do passado inebriante. Antigos hospedes, alguns bem conhecidos, outros, nem tanto, que marcaram sua participação, não por serem famosos mas sim, por terem compartilhado com Mancini. Se vc ignora a origem de certos nomes de ruas, Mancini, deixe assim mesmo, a memória não ajuda muito seus sonhos, quanto mais informações, menos motivos pra sonhar.
Uma narrativa prazerosa de se ler,
Mancini, parabéns.
Modesto

MARGARIDA PEDROSO PERAMEZZA disse...

Quando passeio por São Paulo, fico admirando os velhos casarões, antigas praças, seus monumentos e logo penso quantas histórias eles tem para contar.Lindo seu texto, meus parabéns e viva São Paulo!

Anônimo disse...

Deraldo, que bom te reencontrar por aqui. Você sumiu do SPMC, né?
Olha, gostei demais do seu texto, com um grande tom de acolhimento, doçura, companheirismo, sensibilidade e vida. Lindo relato, que me comoveu. Parabéns prá você, prá São Paulo, prá todos nós que ajudamos a construir esse rico pedaço de mundo. Um grande abraço, Vera Moratta.

Wilson Natale disse...

Mancini,
Boa lembraça, essa das pensões!
Poucos sabem da qualidade socializante das pensões. Alí, despia-se dos falsos preconceitos e prevenções. Alí, falso ninho, falso lar,mas, grande escola da vida, aprendia-se a ser mais sábio, mais complacente e mais humano. Dentro dela estudava-se e exercia-se a solidariedade humana.
Valeu!
Abração,
Natale