domingo, 26 de junho de 2011

Memórias de botequim II

 
Não tenho muito com que me ocupar no decorrer dos dias, então só me resta, como recurso extremo, lembrar de meu passado.
Faço isso com denotada alegria, mesmo porque, tal atividade pode me afastar do terrível alemão que ronda pessoas da minha idade, o grande facínora “Alzheimer”.
Pois muito bem, percebi que o meu texto sobre botequins teve plena aceitação entre os meus fãs; resolvi, então, fazer mais uma incursão ao passado e buscar outros botequins de meu real agrado.
Confesso, eram muitos, se fosse levar a cabo o registro de minhas Memórias de Botequim muitas e muitas linhas teriam de ser digitadas e editadas.
Por exemplo, tinha um botequim em Pinheiros, bem pertinho da Igreja de Pinheiros, onde eu cometia um enorme pecado ao longo de vários domingos do ano. Eu morava no Jaguaré e, acompanhado da mulher e filhos, saia mais cedo para o almoço dominical e fazia a primeira parada nesse bar, a Igreja tão próxima nem tinha o prazer de nossa visita.
Era uma casa de dimensões tão diminutas que a freguesia que não tivesse chegado cedo, ficava aboletada nas calçadas e fazia seus pedidos aos gritos. Lógico, todos eram atendidos, assim, enquanto segurávamos os copos com uma das mãos, a outra devorava as porções de tira-gostos (queijo provolone, linguiça calabresa seca, ricota seca apimentada, berinjela ao forno, sardella, aliccella, pão italiano).
A habilidade dos balconistas em preparar as batidas e caipirinhas era impressionante, a variedade de bebidas adicionadas a cada drinque era segredo de estado, não transmitida a ninguém. E nós, pouco interessados em segredos, queríamos, apenas, degustar aqueles acepipes e néctares, sem culpa na consciência.
Outra lembrança de botequim me ocorreu agora e, para não perder a oportunidade, passo a relatá-la.
O Antonio Capezzutto, um dos Duques de Piu-Piu, era funcionário antigo da Fábrica de Cigarros Sudam, instalada na baixada do Glicério, em nossa Sampa.
A nossa solidariedade era tanta que eu, trabalhando no 5060 da Avenida Celso Garcia (Penha) e o Antonio Settani trabalhando na Pontal, estabelecida na Avenida do Estado, altura do Cambuci, diariamente íamos encontrar o Capezzutto na saída do trabalho para, juntos, vencermos as íngremes subidas do caminho até o nosso querido Bixiga.
Porém, de quando em vez, sedentos, depois de um dia repleto de lutas e labutas, resolvíamos, antes de encetar nossa caminhada, visitarmos um botequim instalado na Rua Helena Zerrener, bem próximo da Sudam.
Ali, matávamos nossa sede com algumas doses de batidas de coco, de amendoim, ou então de caipirinhas, e para acompanhar essas delícias, pedíamos algumas porções de “Joana D’Arc”, essa delícia era preparada da seguinte forma: alguns gomos de linguiça calabresa fresca, acomodados em um recipiente e cobertas com álcool. Depois de acomodadas, um fósforo era riscado e o fogo ateado. As linguiças assavam ao fogo de álcool e depois eram servidas, tendo como acompanhamento, fatias de pãezinhos (no sul, cacetinhos).
Depois de abastecidos, iniciávamos a caminhada para o lar, vencendo as subidas da Rua dos Estudantes, Rua Antonio de Lima, Rua São Paulo, Rua Américo de Campos, Avenida da Liberdade, Rua Condessa de São Joaquim, Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, onde o trio se dissipava; eu ia para a Rua Major Diogo, o Capezzutto para a Rua 13 de Maio e o Settani para a Rua Santo Antonio.
Tempo bom, que não volta mais...

Por Miguel Chammas

19 comentários:

Luiz Saidenberg disse...

Caro Chammas, as lembranças dos botequins do passado, são mesmo, muito benvindas entre nós, da velha guarda.
Mesmo eu, que nunca fui muito chegado a tais libações, frequentei alguns, entre eles o citado- e célebre- das batidas, no Lgo. de Pinheiros.
Dentre eles, o que mais frequentei o foi o Bar do Leo, na Aurora, com seus acepipes e chopes magníficos, além de ótimos pratos do dia.
Isto quando trabalhava lá perto, na Senador Queirós. O Leo, talvez o mais famoso bar de S. Paulo, continua a plena caldeira(de chope), e cada vez mais cheio e inacessível. Quando num sábado, tentei um retorno, perdi-me na região, e ficou por isso mesmo.

Arthur Miranda disse...

Belas lembranças Miguel,parabéns. Mas tome muito cuidado,no caso de Alzheimer a pessoa começa perdendo a memória das coisas recentes,e durante um bom tempo só se lembra do passado.kkkkkkkk. Por falar nisso como é seu nome mesmo? rsrsrs.

Zeca disse...

Ôô, Miguel!

Belas lembranças desses botequins de outros tempos, onde se podia até levar a família. Eu não cheguei a frequentá-los, pois nunca fui muito chegado no álcool, mas durante uma boa fase da minha juventude, ia nos finais de semana, a alguns botequins (da moda) encontrar os amigos e jogar conversa fora, entre uma cerveja e uns petiscos e antes da saída para a verdadeira noitada, que geralmente eram os famosos "bailinhos", lotados de garotas à espera dos seus "pares"...

Abraço.

suely aparecida schraner disse...

Linguiças de fogo? E ainda cacetinhos? Eu, hein?
Essas lembranças das lambanças, sei não...
Eu gostei, abraço!

MLopomo disse...

Miguel: No tempo que eu enchia o caco, não tinha endereço certo, era ter uma porta de ferro aberta e lá estava eu tomando minha pinguinha. Eu gostava dela pura bem purinha. Meu compadre seu Manoel era expert, em Tatuzinho. Tanto prova que ele passava o dia trabalhando e cantando> AH, tatu, tatuzinho, me trás a garrafa e me dá um pouquinho! Não ficava de fogo porque bebia e comia pãozinho francês, com queijo e presunto no meio, chamado de misto, quente ou frio.

Luiz Saidenberg disse...

Aos habitués e mais chegados a um balcão, sugiro a leitura de Nervos de Aço e Fígados de Alumínio Anodizado, neste mesmo site. Abraços.

Wilsonnatale disse...

Miguel: Você sabe que eu sou uma pessoa refinadíssima. Nunca frequentei botequins.
Ia sim, a esses lugares populares, não me lembro o nome que lhe davam, mas era muito bom!
Lá eu tomava alguns conhaques, pinga com fernet,litros de batidas do tipo "meia de seda" ou "bafo de onça"; vez ou outra tomava uma caninha amarela, de Cabreúva que descia queimando. Antes de beber eu dava um pouco para o "santo" e, depois de beber, uma escarrada para o diabo.
E devorava também deliciosos tira-gosto: tremossos, amendoins, ovos de codorna, torresmino pururuca,
Lanches deliciosos como o pão com linguiça e sanduiche de mortadela.Claro que eu também bebia litros e litros de cerveja.
Na rua São Paulo havia um lugarzinho desses onde, nos fundos, rolava um dadinho, um carteado e postas de jogo de bicho.
Esses eram os lugares que eu frequentava. Pena que não conhecí os botequins...
Ahahahahahaaaaaaaa!
Adorei o texto! E "desenterrar" a SUDAN foi ótimo!
Abração,
Natale

Soninha disse...

Oieeeee...

Quem dera eu pudesse ter esta liberdade, quando adolescente ou mesmo em minha juventude!
Meu pai não nos permitia estes arroubos... Quando muito, íamos ao barzinhos mais perto de casa e muito rapidamente... Tinha um na Rua do Oratório, bem em frente ao ponto final do ônibus Oratório... Era o Bambu e tinha má fama, mas, quando tínhamos de marcar algum encontro, ele era a referência...rss
E esta tal linguiça? nunca tinha ouvido falar que serviam desta forma. Deu vontade...kkkk
Valeu!
Muita paz! Beijosssssss

Miguel S. G. Chammas disse...

Pois é Saidenberg, o velho Léo foi e ainda é um dos grandes bares da nossa Sampa.

Miguel S. G. Chammas disse...

Arthur, o meu nome é Miguel e o seu, é realmente Arthur ou Arthir? rsrsrs

Miguel S. G. Chammas disse...

Tempos bons aqueles Zeca, eu curti demais aquela fase.

Miguel S. G. Chammas disse...

No bom sentido Suely, tudo no bom sentido...........

Miguel S. G. Chammas disse...

No bom sentido Suely, tudo no bom sentido...........

Miguel S. G. Chammas disse...

Natale, é o ue eu sempre digo, ter amigos refinad[érrimos éoutra coisa rsrsrsr

Miguel S. G. Chammas disse...

Amor, fico lhe devendo uma porção de linguiças à La Joana D'Arc, e garanto, sei fazê-las muito bem!

27.miranda@gmail.com disse...

Miguel, Já disse uma vez e repito, não sou muito chegado a linguiça, Uma vez eu estava fritando uma linguiça aqui em casa e coloquei oleo de Amendoim... A linguiça ficou em pé na frigideira.
Ontem houve uma grande liquidação de linguiça na Av.Paulista, mas eu não vi nem pela televisão estive ocupado vendo o Timão vencer um tricolor desfalcado de jogadores e de torcida, estavam todos no desfile da Paulista,kkkk. Brincadeirinha! Viu

Luiz Saidenberg disse...

Linguiças em braza? Êpa! Esse texto está ficando mais obsceno que o meu sobre o Montepio Militar, he, he!

Laruccia disse...

Miguel, refinada memória dos botequins, organizada segundo as lembranças embranquiçadas do maior "bebum" da site "Memórias de Sampa". Não é crítica e nem menosprezo pelos seus hábitos gastronômicos e alcoólicos, é, simplesmente inveja. Não me envergonho de confessar, cada vez que leio suas crônicas a respeito destas dua preciosidades, me dá uma água na boca que chego a me engasgar. Nunca fui "habituê" de bares e botequins, por isso, hoje, minha tolerância em bebidas mínima. Questão de hábitos. Seu texto, como de hábito, está ótimo. Parabéns, Miguel.

Miguel S. G. Chammas disse...

Laruccia, comentários vindos de vc são sempre airosos e de muito grado. Mesmo sem ser apreciacdor de um bom trago, tim-tim!