quarta-feira, 1 de junho de 2011

Crendices da vovó


Dias atrás, caminhávamos pelo jardim da praia, Miguel e eu, fim de tarde, luar aparecendo tímido, mostrando um fiozinho de lua e iniciando mais um ciclo de lunação. Logo me lembrei de minha avó. Quando crianças, ela nos fazia saudar a lua nova, toda vez que esta acontecia. Dizia que era para nos dar sorte e era uma forma de respeito pelos ciclos da vida.
Ela aconchegava junto de si os netos amados, lá no quintal de nossa casa, na Rua Umuarama ou na casa dela, na Rua Angelina Techio Cidro, na Vila Prudente, e nos ensinava os versos para saudar a lua nova:

Salve, salve Lua Nova
Três coisas quero te pedir
Livrai-me de dor de dente,
do fogo ardente
e da língua de má gente!

Não entendíamos muito bem a razão de tal estrofe, mas, repetíamos cada verso, assim que minha avó os dizia.
Coisas dos antigos.
Com isso fui recordando algumas das crendices de minha avó e de minha mãe e que, por muito tempo, foram nossas também.
Se, por um acaso, estivéssemos comendo um pedaço de pão e este caísse ao chão, vovó nos fazia recolher e dar um beijo no pão, para que não nos faltasse comida e porque no pão estaria Nosso Senhor Jesus Cristo.
Se apontássemos as estrelas com os dedos, dizia ela que nasceria verruga em nossa mão.
Quando contássemos uma mentirinha fazendo figa ou cruzando os dedos atrás, nas costas, não seríamos condenados por este pecado.
Nas festas da família, vovó não permitia que se brindasse com bebidas diferentes, para não inverter os desejos.
Contava-nos que era sempre bom ter um elefante de enfeite sobre um móvel qualquer da casa, pois evitaria a falta de dinheiro, mas, ele teria de estar com a tromba erguida e teria de ser colocado de costas para a porta de entrada... Só assim daria sorte.
Abrir guarda-chuva dentro de casa? De jeito algum! Dizia ela que isso traria infortúnios e problemas aos familiares.
Ensinava que era muito bom ter um ramo de arruda sob os travesseiros, para afastar maus olhados e atrair bons fluidos.
O tempo ia passando, deixávamos de ser crianças, mas, as crendices de vovó seguiam conosco.
Era tão engraçado quando íamos visitar alguma parenta, amiga ou conhecida que tivesse dado à luz... Tínhamos que avisar à parturiente caso estivéssemos menstruadas, para não lhe secar o leite. Se fôssemos visitar quarto de noivas, era bom sentar na cama do casal para nos dar sorte e arranjarmos também casamento. Já para as noivas sortudas, que já tinham agarrado seus futuros maridos, deveriam guardar todos os papéis dos presentes ganhos, embaixo da cama, para dar sorte aos nubentes. E ninguém era besta de duvidar... Não tinha uma noiva que desprezasse seus papéis dos presentes... Entufavam tudo sob a cama... Afinal, melhor pecar pelo excesso do que pela omissão.
Em dias de férias, quando a meninada toda se reunia para as brincadeiras costumeiras e desabava aquela chuva, lá vinha vovó, ensinando alguma reza ou simpatia para parar de chover. –“Joguem a peneira no meio do quintal. Logo passa esta tormenta”. Ou, senão: -“Coloquem o ovo (há quem diga que é sabão) para Santa Clara que a chuva logo passa”. Nem titubeávamos. Saíamos correndo a fazer as simpatias. E não é que dava certo?!
Quanta saudade! Eu ficaria horas, dias, meses, ou mesmo a vida inteira, lembrando das crendices de vovó... Quão doces recordações! Porém, limito-me a citar apenas algumas delas:

A pessoa que é pulada não cresce mais.
Cruzar com gato preto na rua dá azar.
Chinelo ou sapato com a sola virada para cima, o pai ou a mãe podem morrer.
Sol com chuva, casamento de viúva.
Mulher que tem o segundo dedo do pé maior que o primeiro, manda no marido.
Cortar cabelo na Sexta-feira Santa não cresce mais.
Vassoura atrás da porta espanta visitas.
Sexta-feira 13 é dia de azar.
Agosto é mês do desgosto.
Assobiar à noite chama cobra.
Comer manga com leite faz mal.
Jogar sal no fogo espanta o azar.
O número 7 é o número da mentira.
Quem passa debaixo do arco íris vira mula sem cabeça.
Quem come banana à noite, passa mal.
Quem canta na quaresma vira mula de padre.
Quem comer muito à noite terá pesadelos.
Passar debaixo da escada é má sorte.
Quebrar um espelho dá sete anos de azar.
Colocar bolsa no chão faz o dinheiro acabar.

Será?! rsss

Por Sonia Astrauskas

20 comentários:

Wilsonnatale disse...

Sei não, Soninha... Qué las hay, las hay... (risos)
Suas lembraças são gostosas!
Superstições e crendices populares assombravam e assombram ainda o nosso imaginário.
Então, acrescento às suas um pouco das minhas lembranças:
Chuva e Sol, casamento de espanhol.
Quem pula pela janela, vira ladrão. Então tem que "despular".
Assoviar à noite é chamar o Saci.
Quem muito rí no sábado, chora no domingo.
Pássaro preto pousado no telhado de uma casa é sinal de doenças ou desgraças.
"Bruxa" (Mariposa grande) pousada na porta de entrada de uma casa era aviso de morte.
E aqui vai a crendice das bordareiras e costureiras que serviam-lhe de vaticínio:
Dependendo do dedo que a agulha lhes furasse elas recitavam, tocando dedo por dedo, começando pelo dedão até o dedo mínimo: Gosto, desgosto, carta, convite, telegrama. Dependendo do dedo furado pela agulha ficavam felizes ou apreensivas.
Abração,
Natale

Soninha disse...

Wilson, amigo...
Putz...que delíííícia...É verdade. Eu nãolembrava destas que vc citou, mas,lembrei esta de pular a janela,minha mãesempre falava mesmo... E sobre rir muito,minha mãe sempre nos falava também,pois sempre ríamos desembestadas e ela se irritava, então, falava que iríamos chorar depois.
Esta das bordadeiras, eu desconhecia...que bacana! Gostei!
Obrigada.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Amor, que delícia de texto.
Vc me fez voltar ao passado e lembrar muito de minha mãe e de minhas tias, com quem tive mais contato, e que, diga-se de passagem, eram movidas às crendices do século passado.
Dizem que "quem conta um conto, aumenta um ponto..." e eu, metido como sempre, tambem vou dar o meu pitaco nessa lista de crendices. Lá vai:
- Entrar em ambiente novo, só com o pé direito à frente.
-Cachorro uivando à noite era sinal de má notícia.
-Entrar em igreja nunca visitada tinha que fazer 3 pedidos.
-Coruja piando à noite era sinal de mau agouro.
Pitaquei, quem quiser que pitaque mais....

Luiz Saidenberg disse...

Muito bonito, Soninha , com vc tratou essas crendices do passado- e olha que ainda hoje estão presentes em muitos lugares.
É a força da tradição, mas donde virão todas essas tradições? De mares de Espanha e Portugal, misturada à natural crendice do caboclo, certamente. E ainda outras influências, segundo qual e tal imigração....mas quase todas ingênuas, poéticas mesmo, compondo um belo e divertido quadro. Abração.

Arthur Miranda - tutu disse...

Sonia adorei a historia, voltei a minha infância e juntamente com minhas irmãs vivia uma batalha constante para não fazer nada que atraísse esses mal agouros,

Bom mesmo seria se surgissem crendices modernas como:

Quem roubar o dinheiro publico ou mentir, cai um dedo da mão, e fica proibido de se candidatar a Presidente da republica.

Quem pela TV, no horário gratuito tentar enganar o povo: Tudo o que ele tem na frente, no outro dia vai passar para traz, para que com isso ele sinta muitas dificuldades quando quiser sentar.

Quem falar que o Corinthians, jamais vai construir o seu estádio – Cai a língua. (O Lopomo e o Miguel tão ferrados). Kkkkkk.

Amigos aceito sugestões, mais interessantes. Colaborem .
Sonia parabéns, realmente adorei.

Soninha disse...

kkkkkkkkkkk...Adoreeeeeeeiii Arthur!
Só você mesmo!

E,Miguel, adorei também lembrar destas que você citou...é mesmo...o cachorro uivando,putz, dava até medo, de tanto que minha avó falava sobre isso. Sobre as igrejas, nossa...minha irmã e eu fazíamos questão de entrar nas igrejas que nuca havíamos entrado só para fazer os pedidos...kkkkkkkk
Valeu!
Muita paz!

Soninha disse...

Luiz, realmente, herdamos as tradições das várias culturas colonizadoras de nossa terrae de tantas outras que foram agregadas à nossa.
Mas, é engraçado como, até hoje,ainda há quem cultue tais crendices, né?!
Valeu!
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu porque vc jogou praga sobre minha continuidade sexual? Isso não se faz, é maldde e pecado viu?

Arthur Miranda disse...

Miguel, Ah,ah,ah,ah, Boa. Acho que agora eu aprendi que jamais devemos se meter com a lingua dos outros. ah,ah,ah,ah. rsrsrsrs.

Laruccia disse...

Sonia, gostei de recordar as crendices da vovó, lembrei, também de algumas. Quando vc falou do pão, enquanto minha mãe vivia ela sempre beijava o pão antes guarda-lo e não permitia que se pusesse ele (o pão) virado, com o corte da casca pra baixo. Ao subir no bonde ou ônibus, só com o pé direito. Tudo é muito bonito quando nos norteávamos pra fazer qualquer coisa. Outro dia (essa eu inventei e "pegou", pelo menos na família)quanda se sauda alguém por qualquer motivo, a bebida que estiver no copo ou cálica, deve ser degustada, mesmo que for um gole, se não o homenageado não terá sorte, o copo não deve ser colocado na mesa em seguida, falta de respeito. Gostei do seu texto, Sonia, parabéns.
Laruccia

ESTANISLAU disse...

D.Sônia, meus parabéns, gostaria de ter escrito o assuinto que abordou nesse site que sigo há alguns dias, não me lembrava de muitas supertições que foi narrada aqui, mas relembrei com satisfação e saudades e creio assim como a religião e essas crendices forjou muitas pessoas de carater, pois o "medo", respeito, a certas coisas ajudam muito, parabens,Estan.

MLopomo disse...

Tinha tantas crendices...comer manga com leite, comer pepino e tomar pinga. Tomar banho com a barriga cheia dava congestão e morria na hora.

MLopomo disse...

Tutu. Os homens que estavam dirigindo os tratores no Favelão Corintiano de Itaquera, eram palmeirenses e são paulinos. Certa altura os dois pararam desenbrulharam sapos mortos e enterraram no terreno.kkkkkkkk!

Soninha disse...

Olá,Modesto!

Bacana suas crendices tamém!
Sobre brindar, realmente,ainda usamos este seu critério...não colocar o copo sobre a mesa ntes de dar um primeiro gole.
Obrigada, Modesto.
Muita paz!

Soninha disse...

Estan...oieeeee
Somos nós, autores deste blog,quem agradecemos por sua visita e por seguir o blog. É uma honra paranós.
Obrigada pelo comentário. Com certeza, as crenças e superstições moldaram o caráter de muitos. Penso que foi bom também,nãoé mesmo?!
Volte sempre,viu!
E se quiser escrever suas histórias sobre Sampa, pode nos enviar que serão publicadas.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Soninha disse...

Olá, Mário!

Tem muitas crendices que não pude lembrar,com certeza.
Mas, a memórias de todos os auores só fizeram enriquecer ainda mais o texto e sou imensamente grata.
Obrigada.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

Soninha: Mais algumas crendices que lembrei:
Quem brinca com fogo, mija na cama.
Não se leva vassoura velha para a casa nova.
Não se entra em cemitério sem pedir licença.
Calçar o sapato no pé errado é sinal de dissabores durante o dia.
Andar de costas atrasa a vida.
Abração,
Natale

Soninha disse...

Ola,Wilson!
Nossa...é mesmo. Em casa falavam sobre estas que vc lembrou...putz!

Lembrei mais uma: quando o bebê olha por debaixo das perninhas, significa que vem outro(a)irmãozinho(a) por aí...kkkkkkk

Valeu!
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Oi, aqui vai mais uma que lembrei gorica mesmo: Colocar roupa do avesso sem perceber é sinal que vai ganhar presente.

Wilsonnatale disse...

Soninha:
Ahahahahaaaaaaaaaaa!
Essa do bebê lembrou-me a minha prima, mãe de 4 filhos. O mais novo resolveu olhar por baixo das perninhas e ela deu-lhe um chute no traseiro, dizendo: "Não adianta chamar outro, que com quatro estou bem servida"!... Ahahahahaaaaaaaaa!!!
Abração,
Natale