quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O milagre

Praça Júlio Mesquita – Teatro Natal, ano 1965, eu encabeçava, juntamente com o saudoso Lilíco, um grande elenco de atores, atrizes e vedetes como Wilsa Carla, Brigite Darling, Celeste Aída, Regina Day, Geraldo Gambôa, Paulinho Corrêa, Chaguinhas, entre outros.
A Revista musical tinha por título “O Negocio é Mexer”, do também saudoso autor, Luiz Felipe Magalhães (Almirante), apelido este devido ser essa a sua patente militar, antes de ent
rar para a reserva.
Ao lado, na mesma praça, estava o Teatro Esplanada, apresentando um espetáculo musical super inédito no cenário artístico brasileiro, o famoso “Le Girls”, que estreava em São Paulo depois de um enorme sucesso no Rio de Janeiro, com a participação dos travestis mais famosos e badalados da época, Jean Jaques, Carlos Gil, Marquesa, e a estrelíssima Rogéria.
Mesmo vivendo o começo do seu fim, o Teatro de Revista e o Burlesco ainda atraiam muitos fãs e, com a estréia de Le Girls, a Praça Júlio Mesquita estava revivendo seus grandes momentos.
Após os espetáculos, os elencos de vários shows de teatro juntavam-se no Antigo Restaurante PAPAI da Praça, trocando idéias e batendo papo. Na realidade, apenas fazendo hora e aguardando o momento para caminhar para mais um trabalho nas Boates da cidade.
Certa noite, numa badalada destas, estávamos em frente ao Edifício Século XX (famoso Treme-Treme) na época, ao lado do Restaurante Papai, conversando e aguardando o horário para os nossos shows em boates. O espaço embaixo das marquises do Século XX era utilizado por mendigos e sem tetos co
mo refúgio noturno. Estávamos no mês de Julho, o frio e uma garoa gelada que sempre caracterizou São Paulo, assolava a todos. Penalizado com a situação de um sem teto, deitado no chão frio, sem nenhuma proteção ou agasalho, deixei o papo com o grupo, me aproximei do homem no chão e ofereci meu paletó de lã, que eu usava para interpretar um caipira no show, juntamente com o cômico Lilico, fazíamos na Boate Lá Vie Rose, na Major Sertório. Cobri carinhosamente o sem teto e entreguei a ele um copo plástico, contendo café com leite mais um misto quente, que mandei comprar para ele.
Fiquei de longe, vendo aquele homem sofrido, bebendo seu café com leite e comendo aquele pequeno sanduíche, me sentindo compensado e muito feliz interiormente por ter tomado a atitude que tomei.
Porem, foi exatamente quando eu desfrutava do meu melhor momento de felicidade, que aconteceu o inesperado. Outro mendigo, que deve ter assistido a cena e por inveja, ciúmes ou mesmo alguma rixa, chegou apoiado em uma muleta e começou a fazer xixi em cima do sanduíche e do paletó que eu acabara de doar ao pobre coitado que estava sentado comendo.
Fiquei revoltado, ofendido, tomei as dores e fui falar com o atrevido malvado.
- Cara qual é a tua e por que fazer xixi em cima do coitado?
Ele sempre apoiado na muleta, me respondeu: - Eu faço mesmo e daí?
Eu, revoltado, mesmo notando que se tratava de um deficiente físico, retruquei:
- Me dá uma vontade de te dar uma bordoada.
E ele bem na minha frente falou.
-Dá...

- E eu dei, sem dó. Peguei a maleta que eu sempre carregava com as roupas para o Show e joguei na cara do infeliz (com a mesma violência que o Felipe Melo pisou no holandês, antes de ser expulso, no jogo da Copa); ele caiu, com o sangue escorrendo do seu supercílio.
Nessa altura, os amigos deram um chega pra lá, me levaram para dentro do Restaurante e eu muito desolado, com muito receio e remorso por ter agredido um deficiente físico.
Nesse momento, notei que havia um alvoroço e um corre-corre lá fora, na Praça. Era o “deficiente” com a muleta nas mãos, andando de um lado para o outro, me procurando. O Lilico, gozador, gritando na praça:
- Milagre! A mala do Arthur é milagrosa! Fez o deficiente andar! Milagre ! Milagre! Milagre!
Não é que o malandro não era deficiente coisa nenhuma.
Melhor assim; fiquei com a consciência menos pesada.


Por Arthur Miranda (tutu)

7 comentários:

Wilsonnatale disse...

Ahahahaaaaa
É o teatro das ruas, Arthur! E o que não falta e enm faltará são os comediantes.
E você encontrou um senhor ator (risos). Tanto que, se não fosse revelada a fraude, o remorso estaria deorando você até hoje.
Ótimo texto, trazendo de volta as minhas lembranças do teatro de revista, o Papai e a "fauna" da praça e entorno da S. João.
E lembro muito bem do OBA-OBA (não a revista) que Les Girls causou no falso puritanismo desta paulicéia desvairada. Não vi esse happening. Mas vi o outro "escãndalo moral" pervertendo essa paulicéia tão "pura" (risos) Fui ver o Dzi-Croquettes.
Depois dessa peça, encarei até os milicos, indo assistir O Balcão, Cemitério dos Automóveis e outra tantas peças polêmicas.
Abração,
Natale

Miguel S. G. Chammas disse...

Tutu, que linda lembrança. Pena que os tempos correram e a memoria da população se deteriorou.
Imagine que, batalhamos muitona busca de imagens para ilustrar teu texto e pouca coisa conseguimos.
Nada de fotos do Teatro Natal, daPraça Julio de Mesquita apenas uma foto, e assim vai...
Mas tuas lembranças aquecerammeu coração saudoso.
As Revistas Teatrais eram realmente muito queridas por todos.

Luiz Saidenberg disse...

Eis que a Praça, risonha e franca na época, vira cenário de palco teatral! Belas ações, e atuações, Tutu, e ainda que fossem tempos mais amenos, vê-se que os mendigos já abundavam por ali. Hojem devoraram até as belas lagostas da Praça.
Não sei como o velho Moraes ainda resiste....eu é que não vou lá! Abraços.

Zeca disse...

Arthur,

acho até que já disse isso antes, mas creio que você deve ter um fabuloso arquivo de memórias, que poderia ir abrindo aos poucos, contando-nos essas histórias que mostram um pouco a história do desenvolvimento do lado artístico de nossa cidade. Eu viajo nos seus relatos e, alguns fatos mexem também com as minhas memórias. Lembro perfeitamente do "Les Girls", com a Rogéria, que foi a primeira vez em que vi travestis atuando. Pena que, em minha mocidade, o teatro de revista já dava seus últimos suspiros, mas ainda vi alguma coisa com a Derci Gonçalves e uma ou outra vedete que não queriam deixar que essa manifestação artística morresse. Bons tempos aqueles, onde imperavam a criatividade e o improviso, mostrando os verdadeiros valores artísticos de quem, nos palcos, se desdobrava para manter viva a arte de representar.
Abraço.

Soninha disse...

Olá, Arthur!

Hoje,o que se nos apresentam em shows ou prgramas de TV, são bem diferentes das coristas e vedetes de outrora...
É um festival de bundas e seios turbinados,artificiais, que não tem nada a ver com a sensualidade de ontem,não é mesmo?!
Em minha juventude não vi nada do teatro de revista e rebolado...não existia mais.Mas,meu pai e mãe nos contavam e nos mostravam revistas e fotos com estas musas de antigamente...
Sobre sua atitude de ajudar ao morador de rua, foi 10. Mesmo tendo que reai com o outro mendigo invejoso.
Ontem e hoje vemos os golpistas de rua, fingindo doenças e anomalias,para conseguire esmolas dos que passam.
Mas, graçasà sua mala milagrosa, a região da praça Julio Mesquita ficou com um mendigo aleijado a menos...rss
Valeu, Arthur!
Obrigada.
Muita paz!

MLopomo disse...

Batendo Bumbo...Tempo bom, que não volta mais,saudade.Quanto tempo faz...

Modesto disse...

Recordações teatrais, Tutu são tão atraentes porque encerram, quase sempre, episódios pitorescos a respeito de arte. Por mais desinteressado que seja, o leitor vai encontrar alguma coisa que diz respeito a seu passado. A mim, por exemplo, lembro tanto de um como de outro show, sem ter visto nenhum dos dois. Gostei da sua reação sobre o mendingo. O velhaco não tem classe social. Pode ser milionário como pobretão. Parabéns, Arthur.
Modesto