quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Memórias fúnebres

Anos 90, os Duques de Piu-Piu sobreviventes sofreram mais um grande baque. O velho Honório (Palhetão, para os Duques), pai do Aloísio e nosso parceiro nas noites de Caxeta ou Buraco, atendendo a um chamado imperioso, depois de alguns dias de internação hospitalar, muda-se para o andar de cima e abandona os seus camaradas. O óbito foi sentido por todos nós que, independente do parentesco, o tínhamos adotado como nosso pai e companheiro, nomeando-o, inclusive, o único Grão Duque de Piu-Piu. Feitos os rituais de costume, concluído o sepultamento, voltamos cada um de nós para o recôndito de nossas famílias. Como costuma acontecer nas famílias católicas, a missa de sétimo dia foi marcada. Seria realizada na sexta-feira pós óbito, às 19:00 horas, na igreja de N. S. Achiropitta. No dia aprazado, os Duques se fizeram presentes, chegando inclusive, um pouco antes do horário. Lá estavam o Aluisio (lógico), o Capezzuto, o Eu com minha exposa (grafia nova que adotei para citar minha ex), o Francisco (21) e a esposa, o Xiribi não estava por estar residindo, naquela época, em Vitória (ES) e o Romano, como o Toninho depois de recepcionar o Palhetão no portão principal do andar de cima, estavam espiritualmente presentes.
Diz o ditado que “porta de Igreja, quando aberta, deixa entrar até cachorro”. Assim sendo, a missa já estava prestes a começar quando vi adentrar à nave da igreja a Maria Preta (não sei se Maria era mesmo seu nome, mas era um dos nomes a que ela atendia). Era uma negra magérrima, muito educada, mesmo quando embriagada, que vivia nas ruas do Bixiga, sem incomodar quem quer que fosse. Quando a vi dentro da Igreja estranhei, mas, como o momento era de recolhimento e oração, desviei meu olhar e me concentrei no altar mor. Nesse mesmo instante, ouviu-se uma discussão ininteligível com respeito às palavras proferidas, mas, distinguindo-se, perfeitamente, uma voz masculina e outra feminina. A discussão durou breves segundos e em seguida ouviu-se um grito mais agudo da voz feminina e um barulho característico de um corpo caindo ao chão. Olhei para trás a tempo de ver a Maria preta caindo, segurando com uma das mãos o pescoço na região da carótida, o sangue jorrando por entre os dedos e um vulto masculino evadindo-se pela porta da igreja sem que ningu
ém o impedisse. O crime ocorreu quase junto à porta de entrada, ou seja, às costas de todos os presentes que estavam com a atenção voltada para o altar mor, onde seria celebrada a missa “in memorian” do querido Palhetão. Houve um momento de nervosismo geral; o Padre desceu do altar, acudiu a Maria, mas percebendo que nada poderia ser feito, solicitou a chamada das autoridades policiais, ministrou os últimos sacramentos à vítima, cobriu o corpo com uma toalha branca, voltou ao seu local de origem e deu continuidade à Santa Missa. Foi a primeira e (espero) a última vez que assisti uma missa de 7º dia com corpo presente.

Por Miguel Chammas

8 comentários:

Arthur Miranda disse...

Miguel, que ótima essa sua historia, você conseguiu fazer uma tragedia ficar bem engraçada. Na realidade você assistiu pela primeira vez uma missa 7º dia de corpo presente, que chegou andando e também veio sozinho.

Arthur Miranda disse...

Quero aproveitar para comprimentar todos os aniversáriantes do mês:
Lourdes Ciavata.
O querido Modesto.
O Navarro,como também o Saidenberg.
Desejando a todos eles,
muitas felicidades e muitos anos de vida

Luiz Saidenberg disse...

Cena de sangue numa ala da igreja de Achiropita! Desta vez, sem missa para esse corpo.

Wilsonnatale disse...

Miguel, a coisa seria comica, não fosse trágica! E o Bixiga tinha a sua cota de sangua e drama. De quebra-pau com vítimas - algumas mortais,no "Vesúvuo", assassinatos na Santo Antonio... Ma, dio santo! Na "Caropita"?... Menos mal, que pelo preço da missa do Palhetão, vocês "ganharam" um assassitato passional e uma extrema-unção... Ahahahaaaa!
Gostei muito do seu texto!
Abração,
Natale

Zeca disse...

Miguelito,
com seu jeito magnífico de contar "causos", consegue até transformar uma tragédia em comédia - levando-se em consideração, claro, a pompa e as circustâncias...
Tenho certeza que os seus amigos que já estavam no andar de cima acudiram e recepcionaram mais aquela alma que escolheu justamente aquele local sagrado para deixar para trás o corpo que, provavelmente, tanto sofrimento suportou em vida!
Abração.

Modesto disse...

Obrigado, Arthur, convidoo a tomar um chocolate quente na 5ª avenida esquina com Central Park, em NY. Sei que vc não vai poder ir, não tem importância porque eu TAMBÉM não estarei lá. Estou em casa, ainda pagando as prestações de Las Vegas.
Miguel, suas vagas recordações sobre a Maria Preta deixa uma fina suspeita de ser, esta história de fundo tétrico, apenas um ensaio de futuros contos de "terrror" que vc está preparando, não é? eu sabia, o Miguel tem destas surpresas deliciosas. Parabéns, Mcheluccio.
Modesto

Anônimo disse...

Teste

teste

suely schraner disse...

Miguel Chammas,
“tá lá o corpo estendido no chão”...Eu gostei da sua memória. Abraço, Suely