sábado, 13 de novembro de 2010

Saluti e maledizioni

Vendo uma foto de uma cantina, onde há uma saudação em azulejos, lembrei-me de outros restaurantes com coisas parecidas.
Deve ser um costume europeu, mais notadamente italiano. Português também, já que o azulejo faz parte da casa portuguesa, com certeza.


Aparentado com botar um capacho de "bem-vindo" à porta, esse hábito fica como uma marca registrada do restaurante, ou cantina,
e quando nos lembramos do lugar, o dístico está sempre presente.
Assim, se tivermos a sorte de conseguir uma mesa no tradicional Giardino di Napoli, somos recebidos pelo pitoresco dito, estampado junto ao balcão: "siammo tutti buona gente, ma qui nessun´ é fezzo".
É um humor bem napolitano, muito bem representado pelos Buonerba e, pelo sucesso da cantina, nessun´ é fezzo ali, mesmo.
Já no Capuano, o mais antigo da cidade, podemos avistar entre as generosas porções de orechitelli e braccciolas, um azulejo que adverte: "qui vuó o male a questa casa, che va crepá, prima che trase".

É puro dialeto napolitano e diz algo como: - "Quem quer mal a esta casa, que se exploda, antes de entrar!"
Lembro que no Gato que Ri, abaixo do simpático gatinho sorridente, outra legenda - "Qui se mangia sano". Faz tempo que não vou lá, mas acho que o dito permanece. Curioso, há também outro Le Chat Qui Rit, em Veneza, com o mesmo gatinho na cesta, mas sem o dístico do paulistano.
Numa época feliz em que lá estivemos, nos atrasamos para o jantar e, pelas tortuosas vielas, ao escurecer, todas as portas estavam sendo cerradas, às nossas costas. Infelizmente, dos bares e restaurantes também.
Foi quando, numa esquina, demos com o letreiro do gatinho sobre um pórtico iluminado, feliz e repleto. O bom Gato, ou Chat, único restaurante aberto naquelas paragens, um oásis de rumorosa alegria na calma noite veneziana.
Certa vez, em Londres, vi à porta de um pub a famosa frase "honni soit qui mal y pen
se", emoldurada pela Ordem da Jarreteira. E por aí vão os dísticos, slogans e dichotes do mundo todo.
Geralmente, não há por que pensar mal, você será bem servido no estabelecimento. Mas, por via das dúvidas, fique sempre de olho aberto. Afinal, nessun´é fezzo, como dizem os Buonerba!
Só tome cuidado se, à entrada, houver o letreiro "lasciate qui ogna speranza, o vuoi che entrate", e de lá do fundo vier um calor danado, com um bafo de fumaça sulfurosa.
Neste caso, recomendo dar meia volta e encarar o boteco da esquina, por mais sujinho que seja.

Por Luiz Saidenberg

10 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz, é muito prazeiroso ler seus textos e ficar, cada vez mais, bem informado.
As casas de pasto que voce mencionou são tambem minhas conhecidas, ou melhor, as paulistanas, as demais fiquei conhecendo apenas hoje mas me senti antigo cliente das mesmas com as tuas explicações.

Zeca disse...

Ah, Luiz! Como é bom lembrar detalhes de belas viagens, de gostosos passeios! E também é bom poder comparar esses detalhes com outros mais conhecidos, por estarem mais próximos e serem mais conhecidos. Gosto muito de ler sobre lembranças de viagens, pois assim, posso viajar mentalmente, um pouquinho, de carona no texto.
Abraço.

Wilsonnatale disse...

Boa lembrança, Saidenberg! Antes os tapetes, os azulejos, os Lemas eram verdades. Hoje, na maioria da vezes hipocrizia mascarando as palavras de Dante.
E é impressionante o apelo que tem o logo do Gato que ri! Subliminarmente ele nos abre o apetite. Até hoje, quando se fala no Arouche, antes de pensar em floricultura, ou a obra de Brecheret, o que vem a minha mente é o simpático gato sorridente.

Em Nápoles, tão importante quanto as palavras e lemas dos proprietários é a opinião dos fregueses.
Esta frase quem mandou foi meu primo:
Porta de banheiro de uma "Trattoria"
"QUI SI CACCA ABBASTANZA PÉCCHE SI MAGNA BEN E TROPPO, A POCCHI DENNARO".
Abração,
Natale

Arthur Miranda disse...

Parabéns Saidenberg, abri o Blog justo hoje domingo dia 14-11 as 11:00 e o seu texto alem de abrir o meu apetite ainda me deu muita saudades do Largo do Arouche e do Gato que rí.
Justo hoje a Denise não fez aquela macarronada e sim um virado a paulista. Maledeta. kkkk.

Luiz Saidenberg disse...

As palavras de Dante, colocadas à boca do inferno talvez seja o mais famoso dístico do mundo. Mas a citada pelo Natali tb é de lascar; nesse padrão, bem mais baixaria, cito o contado por um amigo, de um escrito num mictório público paulistano:
- Ruega por Diós, hermano,
que loque tienes en la mano no lo tiengas en el ano....
desculpem, leitores.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Comer foi, é e sempre será um dos maiores prazeres humanos. E, Sampa é riquíssima quanto a oferecer de tudo um pouco, para todos os gostos e bolsos...
Boas lembranças estas suas!
Realmente, além das flores do Arouche, também lembramos do gato que ri ao falrmos dele.
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

MLopomo disse...

DESDE GAROTO PASSANDO PELO LARGO DO AROUCHE, VEJO AQUELA LOGOMARCA DO GATO, COM SORRISO SIMPATICO. ERA O TEMPO QUE EU COMO MACACO DE AUDITORIO IA NA RADIO NACIONAL (RUA SEBASTIÃO PEREIRA. aGORA QUANDO O SAIDENBERG COLOCA UMA VELHA CANTINA ITALIANA NO TEXTO, EU ME LEMBRO DO GERALDO JOSÉ DE ALMEIDA, LOCUTOR ESPORTIVO QUE DIZIA "SALUTE CAMPARI".

Mô disse...

Luiz, no "Gato que Ri" tive o prazer de comer a primeira lazanha de minha vida. Gostosa, por sinal. Depois, como se fala de dístico nas entradas de restaurante,me lembrei uma de um cemitério, na cidade que não lembro o nome (estrada pra Ubatuba, não lembro o nome, também)que diz: "Nós que aquí estamos, a voz esperamos". Cordial convite que um dia vamos ter que aceitar naquele ou em qualquer "filial". Belo e pedagógico texto, Saindenberg, parabéns.

Luiz Saidenberg disse...

Acho que esta seria tb outra bela cantina, ao pensarmos em novo almoço. O Lgo. do Arouche, sempre tranquilo, tem farto estacionamneto. E o sorriso do Gato vale a pena...abraços.

pollybeam disse...

Obrigado por compartilhar as informações sobre este restaurante em São Paulo! Eu também já visitaram o de Veneza, e ter usado a imagem do gato como o meu avatar online desde então. Quando eu vir ao Brasil para a Copa do Mundo, vou ter que fazer uma peregrinação a este restaurante.

(Desculpas para o -Google Translate- Português - espero que isso não é tão ruim!)