terça-feira, 2 de novembro de 2010

Como não vender a casa em seis meses

Colocamos nossa casa à venda. Não queria fazê-lo, mas as circunstâncias, aposentadoria, pouco serviço, a "marolinha" do Lula... o dinheiro, afinal. O vil metal.
-Dinheiro, que é dinheiro, diz Woody Allen, com desprezo, num de seus fimes. Mas, repensa e diz- Dinheiro é bom...
Pois é. Dinheiro. Por dinheiro vende-se a alma. Não cheguemos a tanto, mas quase. Nossa bela casa do Brooklin, algo maltratada, é verdade, mas na qual moramos há mais de vinte anos.
Colocada às ordens de uma imobiliária, a maior do bairro, logo surgem fatores estranhos. São aventureiros, picaretas que, vendo a placa, procuram puxar a brasa para sua sardinha. Pelo telefone, ou interfone, vem o mesmo papo, já programado: - É que eu passei por aqui, e tenho uma cliente interessadíssima...
Não têm. E quando têm, a historia é sempre bem diferente. Seis meses de casa à venda. Exper
iência curiosa e muito instrutiva.
O que passou de bizarrices por aqui! Haja paciência, para arrumar a casa e esperar. Isto quando o corretor e o interessado vêm, pois até “levamos canos”.
Pintou um corretor, nordestino, terninho justo, todo arrumadinho, pouco cabelo na frente, mas, atrás estava mais para Roberto Carlos, que programou três visitas numa tarde. Uma delas era uma ex-colega de academia, que veio com o marido. Achou tudo liiiindo! Mas, ficou por isto mesmo.
Para a manhã seguinte, sábado, o tal corretor, que apelidei de Zé Bonitinho, anunciou mais três candidatos. Não ia topar, afinal era um sábado. Mas, três em seguida dão o mesmo trabalho que um. Então...não apareceu ninguém, nem ele deu satisfações e deletei o infeliz.

E assim continuou. Neste meio tempo, tendo visitado uma casa menor, mas toda ajeitadinha, resolvemos dar um jeito na nossa. Pintamos, arrumamos, maquiamos.
Agora, já não dava mais vontade de mudar. Principalmente quando soubemos que o preço adrede estipulado, do qual as imobiliárias reclamavam por ser alto, estava, realmente, muito baixo perante os novos e explosivos padrões do bairro.
Um corretor, da empresa oficial, anunciou que tinha um casal jovem, interessado. Na hora prevista, surge um luxuoso Hyundai I-30, negro, no portão. Desce gente bem diversa do que aguardávamos: dois homens de preto, como nos casos de OVNIs.
Casacos de couro negro, o mais jovem até de negros óculos fechados. Dois metros de altura, seus trinta e cinco anos, cabelos gomalinados de Elvis Presley. O outro de preto, com o dobro da idade, ficou mais como observador. Breve visita e se foram para, talvez, o mesmo estranho lugar donde vieram.
Ficamos sem entender nada; cadê o casal jovem que fora anunciado?
Mas, uma amiga, que trabalha com moda, parece ter matado a charada; era um casal, sim, mas gay! E disse que na sua área conhece muitos nessas condições.
Finalmente, o último para nossa tolerante paciência; o corretor traz uma mui falante senhora portuguesa, da qual o marido fora diretor para comerciais de televisão. Então, devo conhecê-lo, eu disse; e conhecia mesmo.
Ele trabalhava para uma produtora que fazia todos os filmes de certa agência , sem concorrência! Uma mamata que deu muito dinheiro; ele tinha luxuosos carros, entre eles alguns Alfa Spider, e, parece, esplêndida mansão na Rua Geórgia, aqui perto. Fiquei pensa
ndo que tortuoso caminho os trouxera à minha casa, confortável e bem localizada, mas modestíssima diante da tal mansão.
-É o tempo que corre para todos, disse um amigo, quando contei a história. As voltas que o mundo dá! E dá, mesmo. Tanto que , refletindo melhor, vimos que nosso ganho seria pouco, diante de tanta perturbação, e resolvemos ficar por aqui mesmo.
Seis meses à venda...Estamos aqui há vinte e dois anos, quem sabe fiquemos mais outros vinte e tantos. Dizem que o futuro a Deus pertence e mal sabemos do dia de hoje. Deixa estar, então, para ver como é que fica.

Por Luiz Saidenberg

9 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Luiz meu amigo, acho que vinte anos de vida em comum não podem ser dstruidos por qualquér corretorzinho marca barbante.
Aquiete o facho, mon ami, e continue nesse porto seguro que é sua casa.

Wilsonnatale disse...

Vender uma casa é fácil! Pode-se até dá-la por qualquer preço.
Vender um NINHO é dífícil. Parece que até os deuses conspiram contra.
No caso da venda de um ninho, sempre aparecem essas "pérolas" do mundo imobiliário. Os interessados em comprar agem como donas de casa em uma feira: olham tudo,apalpam, apertam tudo e dizem maravilhas, depois se retiram. Voltam mais tarde para fazer a xepa.
E que bom que você não tem disposição de ficar refém de corretores e compradores! Isso garantiu a sua estada no ninho (rs).
Texto ótimo!
Abração,
Natale

Modesto disse...

Luiz, por coincidência, estamos na mesma situação. Por mais de uma ano procuro vender a minha onde moro há 35 anos. Os filhos casaram, descasaram, amigaram mas aqui, não voltam mais (pra morar). E é isso mesmo, um tal de corretores trazendo interessados e descobrimos que o que ele querem é só ver ou mostrar a casa. Uma ocasião, mostrando a casa, ouvi o corretor falar bem baixinho, pra "interessada": "a sra. faz essa mesma reforma na sua, que te vendi" Convidei-os a deixarem minha casa. Oportuno seu texto, Saidenberg, parabéns.

Arthur Miranda disse...

Os corretores as vezes se parecem com agentes funerários,vendedores de jazigo em cemitério ou vendedores e compradores de carros usados. Mas por favor não me pergunte o motivo, pois não quero ficar mal com um primo meu que possui uma loja de revenda de automoveis.
Que texto bonito,Saidemberg, se eu fosse você colocava-o em um quadro e prendia o mesmo na porta de entrada, tenho certeza que você venderia a casa por um bom preço para alguem que iria ve-la com o mesmo carinho e do mesmo jeitinho que você a vê. Belo texto.

Zeca disse...

Pois é, Luiz!
Quem de nós ainda não passou por experiência parecida?! Há alguns anos, sempre motivado pelo dinheiro (ou a falta do dito cujo), resolvi vender o apartamento que mantinha em Sampa. Lá na Condessa de São Joaquim, entre a Liberdade e o Bexiga. Era um apartamento muito bom, com três dormitórios mais dependências de empregada; mas o alto custo do condomínio tornava impossível mantê-lo. Então, passei por tudo isso que você relatou para, no final, vendê-lo à vista, mas com um desconto de quase 20% sobre o preço que pedia. Recentemente, fazendo uma pesquisa pelo bairro, pois meus pais gostariam de trocar de apartamento, percebi que, com aquele valor (devidamente corrigido), não consigo comprar nem um bem pequeno, com um quarto e olha lá! Além dos humores dos corretores e "interessados", estamos também à mercê da especulação imobiliária que, quase sempre nos deixa na posição de vitimas.
Abraço.

Zeca disse...

Só complementando meu comentário:
ainda bem que vocês optaram por manter a casa onde vivem há tantos anos! Tenho certeza de que, com o famoso jeitinho brasileiro, conseguirão acertar as coisas, com a alegria de terem mantido e permanecido no "ninho", como bem descreveu o Natale. É uma nova etapa em suas vidas que, certamente, trará muitas novas alegrias.
Felicidades!
Abraço.

Falcão do Morro disse...

Eu já sabia.!!!

Falcon

Luiz Saidenberg disse...

Muito obrigado. Vamos ficando por aqui mesmo, sempre atentos às mudanças do clima e do mercado. Caro Modesto, repasso-lhe o conselho que recebi dos amigos do site: não venda seu patrimônio; nesta altura ele não tem preço. E chega de corretores picaretas e oportunistas. Não compensa a chateação. No fim, vc vê que, na melhor das hipóteses acabou trocando seis por meia dúzia, com grande desgaste e tristeza. Abraços.

Soninha disse...

Olá, Luiz!

Bom texto!
Passei por isso, recentemente...
Mas, vendi minha casa em São Bernardo do Campo....4 dormitórios,um deles suite, sala ampla, cozinha gigante, entre outras qualidades...snifffffff
Mas, foi preciso, por causa de partilha do divórcio.
Felizmente comprei outra casa, menor, aqui no litoral sul paulista, onde moro atualmente.
Mas, a maratona de visitações e conversa de corretores, passei pelas duas negociações...venda e compra...Tem que ter muito sangue frio e discernimento...afffffff
Valeu, Luiz!
Obrigada. E, parabéns por ter ficado com sua casa.
Beijinhos em Márcia.
Muita paz!