quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Meus amigos voltaram

Fui com o “nonno” e “nonna” à Cidade!...

1954 – Em uma manhã de sábado, depois de muitas compras na Rua Direita, seguimos para a Praça João Mendes, rumo a Padaria Santa Teresa. Por eu ter sido muito bonzinho e obediente, eles deixaram que eu comesse duas tortinhas de creme, enfeitadas com morangos. Depois entramos na Igreja de São Gonçalo, onde vovó acendeu uma vela para o Santo e sentamos para descansar. Meia-hora depois, estávamos passeando pela Praça. Justo no momento em que o vovô apontava o local e lamentava-se com vovó a demolição da Igreja de N. Srª dos Remédios (demolida em 1943) que ali ficava, eu os vi, lá no fim da Praça, em direção da Rua Tabatinguera. Movido por aquela necessidade infantil de se confraternizar, interagir com outras crianças, larguei a mão da minha avó e corri até eles.
Foi assim que eu conheci aqueles meninos: um engraxate e outro, jornaleiro que pararam ali, para contar a féria do dia...

As décadas


E, contando a féria, os meus amigos se eternizaram naquele canto da Praça (Permaneciam ali, mesmo quando desapareceram por uns tempos). Eu criança, eu adolescente, eu maduro. Mudei, mudei, mudei. “Tempus fugit!” – “O Tempo foge”, dizia meu professor, no sentido de que ele passa tão rápido...
Mas, o tempo não passou para os meus amigos. Não mudaram. Continuam os mesmos, do mesmo jeito que eu os conheci. Estão lá, cristalizados em uma tarde fria qualquer de São Paulo, a contar suas parcas moedas.
Cena urbana obscurecida pela miséria, tragédia humana. O engraxate com a caixa e seus apetrechos, um menino negro; o jornaleiro ambulante com seus jornais, um menino branco. Frutos da escravidão e imigração – fatalismo... Mas há um lampejo de esperança que se revela no sorriso e no braço do jornaleiro amparando o engraxate; no aconchegar-se confiante do engraxate junto ao amigo, sente-se a solidariedade. Fraternidade. Sim! Há esperança ainda!

O Século XXI

Daquela Praça, onde estão desde os anos 50, meus amigos viram o alvorecer do século XXI.
Em fevereiro de 2002, uma tempestade violenta devastou a cidade e a Praça João Mendes. Ali, ela derrubou árvores e derrubou os meus amigos do s
eu pedestal. Depois, por pouco não foram levados por carroceiros, como se fossem sucata.
Recolhidos pela Subprefeitura da Sé, desapareceram por uns tempos. Mas, os meus amigos tinham – e têm – muitos amigos.
Interessante como a realidade causa mais inércia do que reação. A memória, as recordações, ao contrário, causam revoluções.
Começou o movimento “queremista” exigindo a volta dos meus amigos. Começam os por quê: Onde está? Sumiu?... Surge a Ação Local João Mendes e coube a Advogada Drª Carmen Patrícia Coelho Nogueira ir atrás desses por quês. E respondeu a todos eles.
Em 2007 meus amigos são restaurados pelo Patrimônio.
Em 2008 os meus amigos, novinhos em folha, voltaram ao seu pedestal. A Praça festejou, os amigos e povo festejaram.
Ah! A memória de doces lembranças. Festejamos a volta daqueles meninos que nunca partiram. Pois, naquele lugar permaneceram suas auras à espera do corpo físico.
E lá estão eles agora, dando vida ao Centro-histórico e à Praça. Eternamente contando a féria numa manhã fria da Paulicéia. As mesmas roupas ant
igas e largas, do tipo “o defunto era maior”, um com o velho chapéu desabado; os dois com pesados casacos e os pés descalços que certamente deixaram suas marcas nas frias e úmidas calçadas da velha São Paulo da garoa.
Até o sisudo Dr. João Mendes, agora de volta ao seu pedestal, parece sorrir, dando-lhes as boas-vindas...
Meus amigos, meninos das ruas. Esperança.
Tão diferentes dos agora, meninos de rua. Desilusão...

Homenagem

Fica aqui a minha homenagem ao pai dos meus amigos, RICARDO CIPICCHIA (Roma, 1885 – São Paulo, 1969). Se ele não existisse, eu não teria tido o prazer de conhecer o engraxate e nem o jornaleiro. Não teria me maravilhado com O Índio E O Tamanduá (Praça Marechal Deodoro) e nunca teria me alegrado tanto com a visão do “ensebado” A Pega Do Porco (Ibirapuera).


Por Wilson Natale

8 comentários:

Arthur Miranda disse...

Natale, que maneira diferente e maravilhosa de falar de nossas estátuas e das belas obras de artes espalhadas por nossa cidade, Adorei. l000 quilos de Parabéns.

Luiz Saidenberg disse...

Wilson, como vc bem sabe , sou tb um amante da escultura e fã das poucas belas estátuas que ainda habitam nossa cidade. Volta e meia uma some, recolhida aos depósitos da prefeitura, outras são mutiladas, ou roubadas para vender seu material. Então, essa é mesmo uma ótima notícia, mesmo porque não conheço ainda esse belo grupo estatuário. Mas, vou fazê-lo, mais breve o possível. Belo e sensível texto. Abraços.

Mõ disse...

Natale, fratelo mio, que maravilha de homenagem as obras de artes da pça. João Mendes. Eu gostaria de perder algumas horas (isso não é perder, é ganhar...)e ficar admirando as poucas e belas esculturas espalhadas pela cidade. Principalmente a do Ramos de Azevedo, na USP, pertinho de casa. Quando passo lá, estou sempre acompanhado, esposa, filha, neta e sempre com pressa... Parabéns, Wilson.

Soninha disse...

Olá, Wilson!

Gosto das estátuas de Sampa.
Sempre que posso, passo para vê-las e admirá-las.
Muitolegal você ter falado sobre esta, de uma forma tão especial...
Achei quevc falava de amigos de carne e osso...me emocionei quando entendi sobre os amigos estátua. Adorei!
Valeu!
Obrigada.
Muita paz!

Wilsonnatale disse...

A TODOS:
São três as estáuas que me apaixonaram na infancia: Guanabara,Contando a Féria e o Semeador - que ficava no Parque D. Pedro II - e está hoje no Ibirapuera. Pura empatia!
A fascinação que elas provocavam ao Eu criança fez com que o Eu adulto olhasse para elas e visse além do que os olhos vêem. Pois há uma história, ou uma denúncia em cada uma delas.
No caso do CIPICCHIA, as impressões são mais intensas.É de um realismo impressionante, às vezes cruel.Outras vezes, divertidíssimo, como a Pega do Porco, retratando uma tradição - desaparecida - que consistia em besuntar um porco e soltá-lo pela rua nas festas juninas. Quem conseguisse pegá-lo seria seu dono.
SONINHA:O engraxate e o jornaleiro causam a mesma impressão em muitos dos que me são contemporâneos. Nos domingos é impossivel fotografá-los com calma ou em ângulos precisos. Tem muita gente em volta deles.
Abração,
Natale

Luiz Saidenberg disse...

É o que pretendo fazer, Wilson. Um domingo calmo e lá vou eu, com a câmera no bolso- antes se usava a tiracolo ! Conheço a do porquinho, desde os tempos em que ficava no Lgo.da Pólvora, e a do jornaleiro no Rio. São muito bonitas, no seu rude realismo, sem pretensões a obras barrocas, elegantes, estilizadas e de refinada composição. Como dizia Nelson Rodrigues, são "A Vida Como Ela É" !

Nelson de Assis disse...

São Paulo é rica em todas as artes e, as esculturas (muitas delas), ocupam notórios espaços e muitas vezes são ignoradas por nossos negligentes olhos. A estátua do 'Idílio', em frente à faculdade de direito do largo de São Francisco, 'Aretuza' e 'Nostalgia' no Trianon, 'Mãe Preta' no largo do Paissandu e tantas outras.
São obras que nos remetem à uma profunda reflexão.
Abraços

Zeca disse...

Natale, cheguei a me comover com a forma afetuosa com que falou sobre os "seus amigos", um jornaleiro e outro engraxate. Gosto muito de esculturas e sempre apreciei as que habitam nossas praças e parques, infelizmente, muitas delas sem os devidos cuidados que merecem e outras desaparecidas, sabe Deus se até sempre ou até quando.
Abraço.