quinta-feira, 28 de julho de 2016

O reencontro

imagem: reencontro dos autores com feijoada no restaurante Guanabara em 16.07.2016

Manhã diferente, esta.
Após a feira orgânica para conhecer por onde anda e como anda o nosso mundo, fomos ao almoço.
Passeio pela cidade, calma, estranhamente calma, mesmo para um sábado de inverno, mas calma. Deixo a Silvia no ponto mais próximo possível do encontro, vou ao estacionamento, contorno o Largo do Paissandu, entro no cine Ouro, estaciono o carro. Sinto um piano tocando baixinho, vem o manobrista, entrego a chave, recebo o ticket, há um som de piano tocando baixinho.
Vou ao encontro de Silvia, passei pelo cine Paissandu, vejo o seu constante sorriso, olhamos a vitrine da loja; lembro do Marrocos mais adiante, no quartel do segundo exército um pouco antes, lembranças, de encantamentos e de correrias.
Descemos a São João. Passos lentos, meus passos guiados pelos dela, no ritmo que ela precisa. Foi ali que lanchamos aquela noite depois da reunião, diz ela, foi, respondo, seguimos. Ao nosso lado um alto falante berra como ninguém, chegamos ao prédio dos Correios, lembranças das filas e eu como “boy”, acostumado ao som do bater do carimbador nos selos das cartas. Hoje temos ainda correios, temos menos cartas, quase nenhum carimbador e nunca mais aquele prédio dos correios.
Chegamos. Uma pausa para descansar e eis que vejo a Teresa se destacando na multidão. O sorriso como sempre, a simpatia nunca perdida. Abraços, carinhos, beijos. O vento bate forte, resolvemos entrar, entramos e encontramos já parte dos amigos à nossa espera. A reunião da feijoada se inicia. Novos abraços, caipirinhas, chops, a insubstituível “Tônica” para a Silvia, mais amigos chegam e a mesa se completa. Almoçamos ou não almoçamos ? Almoçamos, mas o almoço é o de menos, o que vale é rever a cada um e ouvir o seu dia a dia, o seu momento, o seu passado, o seu rincão e ficarmos senhores do todo que a cidade nos proporciona ou nos proporcionou um dia. Há o discurso emocionado, a fala macia, o conselho compartilhado, a esperança renovada. Somos um grupo de pessoas fazendo a sua história, e, modestamente, por que não ? fazendo a história desta cidade, a historia deste País. O celular dispara, o facebook se atualiza e tal como nas antigas reuniões tudo se extrai para o bom e para o melhor. Somos um grupo de idealistas sonhando com o sonho dos realizadores, como só estes são capazes de conceber.
Mas, tudo tem um fim e o grupo se dispersa desta vez, ou melhor, um breve hiato, pois estaremos juntos mais vezes. Abraços, recomendações e sobretudo agradecimentos. Somos agradecidos pelo que temos e pelo que somos, lamentamos apenas por aqueles que desconhecem o que temos. A volta é feliz e nostálgica. Estamos satisfeitos, mas queríamos mais. Sempre queremos mais. Um amigo sobe devagar a São João, outra que se perde na multidão, eu e a Silvia voltamos na busca do carro. Faz frio, voltamos ao estacionamento, onde era o cine Ouro. Entrego o ticket e o manobrista vai buscar o carro. Eu olho as paredes, a Silvia sabe o que estou pensando, aperta minha mão como se fosse relembrar comigo. Nosso olhar de cumplicidade revela tudo. Encontramos nossos amigos, estamos felizes, mas há um som de piano tocando baixinho na minha cabeça. Vem o carro. O ruído do pneu abafa o piano, abro a porta e antes de entrar dou uma última olhada para o interior do estacionamento. Vejo o tapete macio, o balaustre de madeira, o porteiro elegante e me sinto como se assistir um antigo filme, fosse. Saímos à rua, o burburinho aumenta e eu calado. A Silvia passa a mão no meu rosto e murmura baixinho : Você também ouviu, não ouviu? Desvio do ônibus que chega muito perto, deixo passar a senhora que atravessou na nossa frente e penso baixinho : É; eu ouvi o piano também. 
Tarde diferente, esta.


Por José Carlos Munhoz Navarro

7 comentários:

Soninha disse...

Olá, José Carlos!
É sempre muito prazeroso ler seus textos.
Lamento não poder ter comparecido a este tão esperado reencontro, mas eu estava em Fortaleza, a trabalho.
Almoçar com amigos num restaurante tradicional de Sampa como o Guanabara foi um presente para todos, tenho certeza.
Outras oportunidades virão e, espero, estar junto com todos.
Obrigada.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Meu irmão José Carlos, se existe alguém de quem eu tenha inveja (da boa claro) este alguém é você.
Tenho inveja da sua inspiração, da sua maneira de emocionar o leitor, enfim, tenho inveja do seu texto no todo. Rezo para que os teus desaparecimentos sejam, cada vez mais, ausentes e, assim, não fiquemos privados desses momentos emocionantes de leitura.
Adorei ler este texto e tudo que vivemos nesse dia.
Obrigado!

MARGARIDA PEDROSO PERAMEZZA disse...

Oi Navarro, não fui ao encontro porque a nova data proposta eu já tinha um compromisso . Mas você descreveu tão bem esse momento que me senti como se lá estivesse. Quantas emoções sentidas neste dia! Li e reli seu texto com o gostinho de comparecer no próximo. Um grande beijo pra vocês .

Wilson Colocero disse...

O melhor tempero dessa feijoada está nas crônicas que cada um faz desses momentos, que acrescentam o sabor das saudades! Coisas boas de São Paulo que estão para sempre conosco!
Seria bom poder "saborear" outras crônicas desse dia...

Anônimo disse...

Delícia de crônica.
Caminhei junto com ouvidos atentos à melodia do viver.
Adorei saber disso.

ESTANISLAU disse...

Parabéns pelo encontro e pela crônica do Navarro, não pude comparecer por motivos alheios a minha vontade, não faltará oportunidade, abraços

suely schraner disse...

O anônimo sou eu, Suely Schraner.