sábado, 7 de novembro de 2015

Molecagens

 
 
imagem etraída da internet: Rua Tuiuti - Tatuapé - década de 50 e 60
 
Tatuapé, parte de cima, década de cinquenta, a única rua calçada com paralelepípedos era a Tuiuti, a artéria principal do bairro, as travessas, ruas do Ouro, Platina e paralelas eram todas de terra.
 A molecada se divertia, as brincadeiras mudavam sem que ninguém percebesse, era tempo de uma coisa, de repente era de outra, tempo de pião, bola de gude, pipa, raquete. Cada bairro tinha sua peculiaridade. Num lugar os garotos empinavam pipa, noutros maranhão ou papagaio, nós empinávamos quadrado ou barraca.
 Uns jogavam bolinha de gude, outros burquinha, mesmo sendo o mesmo jogo. Nós jogávamos raquete, noutros bairros o mesmo jogo era betis ou taco. Mãe da rua, queimadas, palha ou chumbo, onde está fica. As únicas brincadeiras que não tinham seu tempo certo eram as peladas de futebol, entre nós ou contra os da rua de cima ou de baixo, que as vezes rendia belas brigas, coisa de que anos depois riamos a valer. E no mês de junho, os balões e fogueiras.
 Havia também o tempo de colecionar figurinhas, as famosas Balas Futebol,
 colecionávamos as figurinhas com a foto dos jogadores e jogava-se fora as balas, intragáveis de tão doces. Certa ocasião, por absoluta falta de dinheiro e excesso de imaginação, começamos a colecionar maços de cigarros, e como nas figurinhas, tinham os fáceis e os difíceis. Marcas como Continental, Belmonte, Macedonia, Beverly, eram os mais fáceis, tinham os mais ou menos, Hollywood, Luiz XV, Mistura Fina, e os mais difíceis eram os famosos cigarros ovais Fulgor, Castelões, Aspásia e o dificílimo
Caporal Lavado, havia também o Negritos, um cigarro com papel escuro adocicado e uma infinidade de quebra peito que naquele tempo não vinham com o aviso que cigarro faz mal e nem as fotos assustadoras de hoje, que parece, ainda não assustam ninguém. O bairro estava crescendo e com inúmeras construções, brincávamos no monte de areia, de caminhão, e o nosso "caminhão" era um tijolo.
Cada coisa no seu tempo, não sei dizer se era melhor ou pior do que nestes tempos de videogames, lan houses etc., mas lembro-me que o grande "bandido" da época era o Menegueti, uma espécie de Robin Hood, que nos dias de hoje seria um Franciscano, e o mais grave que acontecia com as pessoas, as adultas claro, era um "nervoso" que era curado com chá de cidreira. Não se ouvia falar em stress, depressão ou síndrome do pânico.
Como diria minha mama Angelina: Mária Vérgine, como era buono San Paolo nos  anos tchincoenta.
 
Por José Beira

5 comentários:

Soninha disse...

Olá, José!
Seja bem vindo ao blog Memórias de Sampa.
Seu texto me remeteu à infância, na Vila Prudente... Lembrei-me destas brincadeiras que você citou, quando meu irmãos e outros moleques brincavam. e, também, brincadeiras das quais as meninas também participavam.
Bacana!
Escreva-nos mais, ok?
Muita paz!

Miguel Chammas disse...

José Beira, quem bom ter você aqui com a gente e poder ler suas recordações dos tempos de garoto.
Eu também tive uma infância cheia de brincadeiras e ao ler seu texto voltei a reviver meus tempos de moleque.
Valeu amigo!

Teresa disse...

Delícia de texto. Minha infância foi no Brás, onde todas as ruas eram calçadas. Era o bairro fabril da zona leste. E eu, como menina, não tinha tanta liberdade para brincar na rua. Só um pouquinho à tarde, depois de fazer a lição de casa. Pular corda, barra-manteiga, lenço atrás, amarelinha, "boa dia, vossa senhoria, mando-tiro-tiro-lá...". Eu morria de vontade de empinar papagaio, jogar taco, mas naquela época, isso era brincadeira de menino. Dentro de casa, no quintal, aí sim, eu, minha irmã e meu irmãozinho brincávamos de mocinho, eu jogava bola com meu irmão. Bons tempos que você lembrou muito bem.

Glau Melo disse...

Penso que está muiiiito pior agora' a realidade de nossas crianças é bem triste.

Wilson Colocero disse...

Eu vivi minha infância no centro: Rua da Consolação quase esquina da Martins Fontes, lugar aonde hoje está uma praça, que nem sei se ainda tem o nome de Desembargador Mário Pires. Mas o lugar das grandes aventuras era a Praça Roosevelt, atrás da igreja da Consolação - eram alguns morros, com descampados e árvores, cenário ideal para o faroeste de mentirinha (que para nós era verdadeiro, até com pé de mamona para nos suprir de munição!), e dali voltávamos cheios de terra dos pés à cabeça, já ao anoitecer. Depois de alguns anos, por coincidência fui estudar no Frederico Ozanam, que ficava na Rua Olinda (que ladeava a praça). A evolução da cidade modificou completamente a Praça Roosevelt, mas não há uma só vez que eu passe por lá e não enxergue o "velho Oeste" escondido atrás da arquitetura de cimento.