sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Memórias de um assassinato



imagem: a casa do texto, na Rua 21 de Abril, Brás - tempos atuais

Dia 26 de Maio de 1940, nascia na Maternidade São Paulo o primogênito do casal Tereza e Alfredo Chammas.
Primeiro filho de seus pais, primeiro neto de seus avós (paternos e maternos) e primeiro bisneto  de sua bisavó, uma   senhorinha de mais de sessenta anos na época, portadora de uma deformidade na coluna vertebral e com uma protuberância acentuada do lado esquerdo do corpo.
Por decisão de sua bisavó Joana Sito, a Dona Joaninha, como era costume da colônia italiana, ganhou uma infinidade de nomes na pia batismal.
 Miguel, em homenagem a seu tio avô, Salvador, homenageando seu avô, e Gabriel, em louvor a seu anjo da guarda.
Miguel cresceu no meio de parentes que o amavam e mimavam em excesso até que, 4 anos depois de seu nascimento, veio ao mundo seu irmão Antonio Carlos. O recém chegado, por ser novinho,lógico, arrebanhou atenções   especiais,principalmente da Dona Joaninha.
Anos se passaram e os dois continuavam sendo mimados e bajulados por todos da família Sito que os tinha  inteirinhos, uma vez por semana, às 5ª Feiras,quando sua mãe saia da Rua Augusta onde moravam e ia visitar seu pai e sua avó lá no Brás, na Rua 21 de Abril, quase esquina com a Rua Bresser.
Ali o Dr.Salvador residia e mantinha seu consultório  de prático dentista  e  seu laboratório de protético.  Era uma casa antiga onde ele e o irmão reinavam e traquinavam à vontade no quintal onde as atrações principais eram uma ameixeira de frutos dourados e melados, uma goiabeira produtora de enormes e vermelhas  frutas de sabor inigualável, mesmo verdes, e uma parreira que produzia lindos e vermelhos cachos de uvas.
Além disso, na rua onde ainda podia-se brincar, tinha as passagens obrigatórias do  vendedor de biju com sua infalível e sonora matraca de uma argola, do vendedor de sorvete em sua carrocinha amarela e vermelha puxada por um cavalo branco ou, ainda, do homem com o rebanho de cabras a vender leite fresquinho e apetitoso.
Tinha, ainda, algumas casas antes da casa do meu avô, a quitanda onde corríamos para gastar os centavos ganhos de “nonna” ou “nonno” comprando lindos e saborosos pedaços de coco conservados em um vidro com água, ou mesmo doces e bugigangas várias.
Ora muito bem, depois de tão extenso preâmbulo, vamos ao que interessa, ou seja, a narrativa da memória que originou esta crônica, o referido assassinato.
Estavam Miguel e o Carlinhos (forma familiar com que tratamos até hoje meu irmão), brincando na sala aos pés da nonna que estava sentada em sua cadeirinha entre a mesa e a cristaleira.
Quem sabe influenciados pelo ambiente do consultório dentário e do laboratório de próteses brincavam de médico e enfermeiro e a paciente, sem dúvida, era a nonna.
Depois de minutos da brincadeira, Miguel, empunhando um lápis de ponta afiadíssima, decidiu aplicar uma injeção na paciente e, sem qualquer outro aviso, lascou a ponta do lápis na perna da nonna que, assustada, quem sabe com a dolorosa pontada, mexeu a perna e pronto, quebrou a afiadíssima ponta, tendo permanecido encravada em sua perna um bom pedaço de grafite.
Aos brados de “assassino” “assassino” ela tentava extrair o pedaço de grafite da perna e, não conseguindo, continuava a gritar na sua voz fraquíssima, ”assassino”!
Dona Tereza acorrendo à “cena do crime”, depois de tratar da nonna, desinfetando o local e acalmando-lhe os nervos, foi até o ”assassino” e aplicou-lhe a merecida pena pelo crime cometido. Uma surra de tapas nos fundilhos que, garanto, doeram muito.
 Doeram tanto que até hoje, ao lembrar-se do castigo, Miguel evita sentar-se e termina este texto digitando em pé as últimas palavras.




Por Miguel Chammas

9 comentários:

Soninha disse...

Oieee...

Como sempre, boas lembranças de seus tempos de menino.
Cá entre nós, já começava a desenvolver algum instinto ruim, né? kkkkkkk
Mas, avó é tudo de bom ponto com, mesmo dando bronca.
Muita paz!

Miguel S. G. Chammas disse...

Sonia, meus textos ficam muito mais bonitos depois que são editados e ilustrados por você. Muito obrigado!

Darcy Borges disse...

Tapas? Deus me livre nos dias de hoje, vc não pode educar como nossos pais o fizeram, bater é crime, aí vira viciado e criminoso e não tem LEI.

Bernadete disse...

Miguel, achei que a pena foi muito pesada e doeu mais que o pequeno delito. Bom ter você e suas memórias de volta..Um abraço

Anônimo disse...

Miguel, você é mais prá anjo do que prá assassino. Imagine falar isso de você! Mas eu gostei muito do seu caso - como já era de se esperar - e desejo que as memórias dos tabefes lhe deem um descanso.
Só prá lembrar - fazemos aniversário no mesmo dia e isso me deixa bem contente. Um abraço, meu amigo. Vera Moratta.

Wilson Natale disse...

MIGUÉ: Então você deixou um autógrafo na perna da nonna! E prá toda a vida! Porca miséria! Inda bem qui voce num mi virô farmacêutico.Eita mão pesada, meu!!! Agora, qui ninguém nus iscuite, Dispois disso a nonna recebia vocêis cum revórver na mão?Ou chamava a Carrocinha prá levá vocêis
imbora?...Ahahahahahaaaaaaaaa!
Valeu pelo ótimo texto. E que esses seus, agora, 47 anos (leitura no espelho),tragam até você a realização de todos os seus desejos.
Abração,
Natale

Laruccia disse...

Oi Michele, de Arcanjo vc não tem nada. sua narrativa expõe, com todas as letras, o "assassino" de velhotas indefesas. Farabuto, cervelo di noce, tu sei il capo de la porta de la casa di belzebu.
Miguel, bela narrativa, notei que o Natale te cumprimentou pelo seu aniversário, eu também te cumprimento. Vc sabe que eu também, no dia 05\02 fiz 41 anos, (segunda fase). Agora inicio a terceira fase. Parabéns, Miguel.
Laruccia

margarida disse...

Miguel, um menino danado, bobeou levou.Coitada da nona ela não merecia isso, mas você mereceu os tapas que tanto te deixou dolorido.Valeu, um grande abraço.

Leonello Tesser (Nelinho) disse...

Miguel, você quase se tornou um "criminoso" ao ferir a pobre avózinha, abraçosa, Nelinho.