sábado, 11 de agosto de 2012

Vocês ficam tão bonitos de branco

imagem: Hospital das Clínicas da FMUSP

- "Juca, chegou sua hora; vai descansar na Sala de Material; o Valdomiro bolou um esquema, fez uma caminha com umas caixas de soro, já tem um lençol e uma manta lá..., vai que a gente segura os pepinos...tem uma térmica com chá e outra com café, tem uma cesta com pão com margarina...
3 horas da manhã, meu colega, com o rosto estremunhado, com o sono ainda restando, vem me substituir nos cuidados com os pacientes, graças a Deus.
Estou me segurando.
Nó na garganta, as lágrimas quase aflorando.
Vou para o banheiro fumar.
Queimo dois cigarros em poucos minutos. Não vou para o 'repouso', vou passar a minha hora no terraço olhando a escuridão...
Hospital das Clínicas da FMUSP, 22:00h, Clínica de Neurologia, 5º andar
Hora de assumir meu plantão, e não sei para qual função vou ser designado.
Esperar.
Passagem de plantão, Enfermaria após enfermaria, leito após leito, a procissão de Enfermagem se desloca pelo corredor da ala norte, as Enfermeiras Encarregadas à frente, seguidas pelas Enfermeiras de Cabeceira recém formadas e ainda aprendendo, e nós, arraia miuda, estivadores, fechando o grupo dos que estão entrando e dos que estão saindo...
A passagem do plantão dura, em média, 20 minutos; em seguida vem a distribuição das tarefas para a noite. "Fulana e Beltrano na Medicação, Cicrano nos sinais vitais e no controle de gotejamento dos soros, a Fulaninha, grávida, fica no Encaminhamento quando necessário, ou em alguma troca ou banho até 00:00h...".
Quem está saindo, faz um relatório verbal, sucinto, a respeito das condições dos pacientes sob sua responsabilidade. Exemplifico:
Luis (um colega):
- O paciente do leito 11...
Enfermeira:
- "Seu" Luis, o paciente não tem nome? Por acaso ele entrou em óbito ou está comatoso?, o nome dele não está na papeleta?
- Desculpe, Enfermeira: (retoma o relatório verbal)... O paciente do leito 11, Sr. Francisco, está lúcido, mantém diálogo lógico, aparenta moral elevado, está atento, orientado no tempo e no espaço, normotenso, normotérmico, anictérico, necessita de auxílio para exoneração fecal, diurese por Folley, deambula apenas com auxílio, recebe eletrólitos por flebo em membro superior direito, em jejum para craniotomia às 7:00h...
Comigo aconteceu o que eu mais temia:
- ...o "Seu" Joaquim vai ficar com as crianças da neuropediatria, cuidados gerais!
Vou ter que encarar alguns casos de Coréia, Doença de Wilson, hidrocefalia e o caso de duas recém nascidas, siamesas, unidas pela região occipital... Bem, para ser mais exato, já que eu quero falar de um plantão específico, vale uma explicação: naquela ocasião as siamesas já tinham sido separadas e uma delas evoluira para óbito na UTI de Neurocirurgia, de maneiras que eu iria cuidar da sobrevivente.
Sinceridade? Nenhuma hipocrisia? Nada de falso heroismo e desprendimento? Pois bem: em minha opinião (que, afinal, não contava no frigir dos ovos) a gestação tubária, teratogênica, daquelas crianças deveria ter sido interrompida quando do primeiro ultrassom, mas quem sou eu, o que é que eu sei das coisas? Eu não sou e nem era santo, não posso e nem podia interferir na evolução dos acontecimentos...
01, 01:30h da madrugada, chamo o plantonista; a criança pós-operada, apesar de entubada, está lutando contra o respirador 'bird' e, além do mais, está febril, 39ºC...
- (Médico)...essa febre é do SNC, condição neurológica, não há muito o que fazer. Vou acertar o ritmo do respirador e vamos fazer um X de tórax prá ver como estão os pulmõezinhos e, só depois, tomar conduta...
- Vou chamar o pessoal da gasoterapia; não dá prá desconectar do bird...
- É mesmo!...chama, chama..., diz que é urgência, caso importante..., vou preencher a requisição...
Como ninguém atendia ao telefone da gaso, desci aos infernos dos subterrâneos do HC para ver o que estava acontecendo e deixei o médico e as enfermeiras procurando acertar o ritmo e as misturas gasosas do bird, situação crítica!
Quando voltei para a clínica com os técnicos e o respirador portátil, pelo menos uma parte de nossos problemas começaram a ser resolvidos e conseguimos começar a descer para a radiologia. Não podíamos ficar muito tempo fora de um ambiente controlado, claro e nem pedir que um técnico em raio X subisse para a Neuro com um equipamento portátil. O tempo era importante!; no entanto, já no elevador, a criança começou a convulsionar...:
- Essa criança está parando! Está parando! Vai parar com a gente... Vamos descer no PS... Precisamos espaço...
Saimos para o corredor do PS com a criança parada... Começamos a tentar a ressuscitação massageando seu peito com a ponta de dois dedos.
Formou-se um circulo em torno do berço.
Algumas colegas começaram a rezar em voz alta, enquanto outras pediam que chamassem o capelão, outras choravam...
Um professor do PS foi chamado e chegou assumindo os procedimentos:
- 'Tá bom, 'tá bom...já fizeram sua parte, já chega!já chega! É muito sofrimento, chega!...chega! Vamos deixar a natureza seguir seu cuso... eu assumo daqui...
**********
Estou olhando para a escuridão; acendo cigarro após cigarro...
Finalmente amanhece. O ambiente na ala norte está alegre e triste ao mesmo tempo, se é que me entendem.
Fim de um sofrimento.
Das meninas e nosso, nós profissionais...
Passamos o plantão para o grupo que entrava.
Procissão pelo corredor.
Leito "fechado" na Neuropediatria.
11:00h da manhã, tomo um banho demorado e começo a me preparar para pegar plantão no Hospital Iguatemi. Faço um lanche/almoço rápido. A Odete já está trabalhando em seu Salão de Cabeleireiro que está com algumas clientes. Uma delas, ao me ver, sorri:
- Eh, 'seu' Ignacio... Tenho inveja do senhor... Trabalho leve, um curativo aqui, uma injeçãozinha ali, roupa branca... vocês ficam tão bonitos de branco... se eu fosse enfermeira iria trabalhar com criança... adoro crianças...
- Que bom, que bom...porque você não faz o curso?... serviço não falta... bem, 'tou indo... até logo, senhoras... tchau Odete!
- Vai com Deus...
- Amem!
Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

4 comentários:

Zeca disse...

Caramba, Ignácio!

Já houve tempo, há muito tempo, em que eu pensava exatamente como essa senhora, cliente da sua esposa. Hoje, não! Por conta de ter sido "lançado" de cabeça nos cuidados com meus pais, acabei me acostumando a hospitais e cuidados em casa, onde aprendi que a "vida dos enfermeiros" não é cheia de glamur como fazem crer as roupas brancas, mas repleta de trabalho, suspense, preocupações, responsabilidade e sensibilidade.
Parabéns pelo trabalho realizado, pelo aprendizado que certamente o transformou ao longo da vida e o transformou nessa pessoa que consegue passar, com tanta sensibilidade, os dramas e as expectativas que pautam o dia a dia da maioria dos profissionais da saúde.

Abraço.

joaquim ignacio disse...

Apenas uma corrigenda: a primeira ilustração não é o HC, é a Faculdade de Medicina, a casa de Arnaldo. Aliás, apesar de ter lutado para a construção do prédio da Faculdade, o Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho não assistiu a inauguração de sua casa. Faleceu alguns meses antes de sua entrada em funcionamento.
A ilustração que mostra um jovem de "bico de pato" na cabeça e óculos "lentes de telescópio" é uma foto minha, ou seja, sou eu mesmo...
Abraço do Ignacio

Anônimo disse...

Correção de uma MANCADA HISTÓRICA!:
O Dr. Arnaldo morreu em 1920 e o prédio da Faculdade foi inaugurado em 1931. Sua luta foi para que existisse verdadeiramente uma Faculdade de Medicina em S.P. Em seu empo de vida as aulas eram ministradas na Sta. Casa e na Beneficência Portuguesa em seu hospital da Brigadeiro Tobias...
Confiar na memória não é muito bom; ainda mais em pessoas de idade provecta, como eu, o "pobrema" se acentua...
Mil desculpas...
Ignacio

Modesto disse...

Emocionante relato de rendimento de uma equipe num hospital, com seus entraves e a grande preocupação em salvar vidas. Vidas que são encaradas do principio de que, não importa ser quem mas sim, uma vida. E, acima disso, uma escrita de altíssimo e nobre efeito em matéria de construção. Até lirismo e poesia sente-se na tentativa de alcançar qualidade soberba. Não só atingida como ultrapassada, de uma espectativa, com era de se eperar de um texto do Ignácio. Parabéns, nobre escrivinhador.
Modesto.