sábado, 11 de agosto de 2012

Impressionismo Paulistano

imagem: Centro Cultural do Banco do Brasil no centro da cidade de São Paulo
Após meses de readaptação à vida na capital de São Paulo, começo, finalmente, a me sentir mais à vontade, menos “estrangeiro” por aqui. Assim é que, para “inaugurar” esta nova fase, nada melhor que ir até o centrão, mais precisamente à Rua Álvares de Azevedo, visitar o belíssimo prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, onde, pela primeira vez na história cultural brasileira, podem ser vistas, em uma única exposição, 85 telas de grandes mestres do impressionismo, pertencentes ao Museu D’Orsay, em Paris. É a exposição “Impressionismo: Paris e Modernidade”.
O impressionismo foi um grande movimento artístico surgido no século XIX, com um grupo de jovens pintores que ousaram romper com as regras da pintura, até então vigentes. Eles passaram a pesquisar a luz e o movimento, através de pinceladas soltas, preferencialmente ao ar livre onde os artistas sentiam e captavam com mais intensidade e fidelidade as variações cromáticas presenteadas pela natureza.
E foi a minha paixão pelo impressionismo que me motivou a sair de casa hoje, uma terça-feira, para um merecido passeio – o primeiro que faço desde que voltei a São Paulo no início de fevereiro. Passeei pelas velhas ruas do velho centro da cidade, admirando turisticamente as fachadas dos edifícios, dirigindo-me ao prédio do centro cultural, num ensaio cultural daquilo que estava por vir.
Para maior brilhantismo dessa exposição, o belíssimo prédio onde funciona o centro cultural, teve seus andares adaptados, suas paredes pintadas nas cores usadas na época dos impressionistas, com o intuito de ressaltar a luminosidade de cada conjunto de obras, as quais retratam a vida na capital francesa, sob diversos ângulos: desde a correria urbana ao sossego no campo. As mudanças trazidas pela Revolução Industrial fizeram com que os artistas também mudassem a forma de olhar o mundo. Eles saíram de dentro dos ateliês e passaram a retratar o cotidiano e a natureza, valorizando a luz natural. Mesmo não agradando à maioria, suas obras causavam tantas sensações e impressões, que não passavam despercebidas e, assim, esses jovens e inquietos artistas acabaram batizados de impressionistas, nome pelo qual ficou conhecido mundialmente um dos maiores e mais importantes movimentos culturais do mundo. Não só os pintores, mas também escultores, músicos, escritores e outros artistas e intelectuais tiveram importância fundamental para o surgimento desse novo e instigante olhar sobre a vida e sobre o mundo.
A exposição está dividida em seis módulos, sendo três deles dedicados à vida urbana: “Paris: a cidade moderna”, “A vida urbana e seus autores” e “Paris é uma festa”. Nessa parte estão as cenas e vistas do rio Sena e da catedral de Notre-Dame de Paris retratadas por Pisarro e Gauguin; a vida burguesa retratada por Renoir; o cotidiano mundano das prostitutas em quadros de Toulouse-Lautrec; e as bailarinas de Degas.
Os outros três módulos são “Fugir da cidade”, “Convite à viagem” e “A vida silenciosa”. Nessa divisão estão artistas que buscaram a tranquilidade do campo como forma de inspiração, como Claude Monet, que se mudou para Argenteul, no interior da França, e depois para Giverny; Van Gogh, que decidiu seguir para Arles com a finalidade de formar uma colônia de artistas; Gauguin e Émile Bernard foram viver na Bretanha; e Cezanne que voltou a Aix-en-Provence para “redescobrir a luz”.
Uma das vantagens de ser maior de sessenta anos: as filas! Plena terça-feira, durante o dia, quando a maioria das pessoas se encontra no corre-corre dos seus afazeres, encontrei uma enorme fila contornando o majestoso edifício. As pessoas, pacientemente, aguardavam sua vez para entrar num mundo mágico de cores, formas, encantamento. Como uma das coisas que menos gosto é enfrentar filas, perguntei a uma funcionária que organizava aquela qual era a previsão de espera para entrar. Ela me disse que de cinquenta minutos a uma hora, aproximadamente. Assustado, titubeei e ela revelou que, para os funcionários, aquela era uma espera pequena, já que havia dias em que o tempo “de fila” era de duas e até de três horas. Mas, para minha satisfação, nesse rápido bate-papo, a moça me informou que havia a fila para pessoas maiores de sessenta anos! Aliviado, agradeci a informação e me dirigi para a entrada principal, onde havia uma pequena fila (talvez quize a vinte pessoas), onde acabei esperando por, talvez, quinze minutos para ingressar num mundo de sonhos.
O próprio edifício já é uma obra de arte, restaurado para manter as linhas originais do início do século passado, com seus arabescos art-nouveau. É um edifício de linhas ecléticas, localizado no coração do centro velho da capital paulista. A cuidadosa restauração trouxe conforto sem ferir as linhas originais, preservando a linguagem arquitetônica, e abrigando espaços diversificados como teatro, sala de cinema, livraria, café, restaurante e espaço utilizado para exposições.
Chegando ao prédio já começamos a nos sentir mais fora do nosso espaço, quase dentro de um sonho, onde nos é permitido fazer companhia aos grandes mestres, como Gauguin, Cézanne, Monet, Manet, Renoir, Van-Gogh, Toulouse-Lautrec, Pissarro, Degas e outros. É onde mais nos sentimos “cidadãos do mundo”!
Enquanto aguardava, fiquei admirando a arquitetura interna do prédio e me distraindo com um belo audiovisual mostrando várias fases do atual Museu D’Orsay, desde a construção da Gare D’Orsay, passando pela sua decadência e desconstrução, até a restauração e criação do atual museu.
Voltando ao centro cultural, o vazio central fechado por uma claraboia é o grande destaque interno do edifício. As colunas com capitéis, as luminárias, o piso de mosaico veneziano e as portas em latão completam o impacto visual que nos impressiona agradavelmente. A fachada é realçada pelas antigas janelas, totalmente preservadas e pelo estilo eclético do projeto, tão a gosto dos brasileiros no final do século XIX e início do século XX. No antigo subsolo, onde ficavam as caixas-fortes, foi criado um grande espaço para mostras, mantendo, entretanto, dois grandes cofres que preservam a memória do prédio, onde funcionou uma instituição bancária.
Enfim, pouco a pouco vou retomando o meu contato com a cidade onde vivi os primeiros dois terços de minha vida e relembrando que existe uma vida cultural e de qualidade ao alcance de todos. Além desta, existem várias outras exposições espalhadas pela cidade, gratuitas ou, se pagas, com dias onde pessoas com mais de sessenta anos nada pagam para usufruí-las. A próxima na minha programação é a recém-inaugurada “Caravaggio e seus seguidores”, no Masp. Esta, com obras do mais importante mestre do barroco italiano e seus seguidores, vai até 30 de setembro.
A exposição “Impressionismo: Paris e Modernidade” é gratuita e fica no Centro Cultural do Banco do Brasil de São Paulo até 7 de outubro, de onde seguirá para o centro cultural do Rio de Janeiro.

Por Zeca Paes Guedes


6 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Linda demonstração de conhecimento das artes plásticas. Seja bem vindo Zecamigaço.

joaquim ignacio disse...

Um passeio pelo perfeito mundo onírico de pessoas geniais, diferenciadas. Fizestes, sem dúvida, um bom proveito.
Ignacio

Laruccia disse...

O roteiro "desenhado" por vc, Zeca, é uma peça de resultados brilhantes. Traz em seu bojo o teor de um pesquizador incansável e preocupado em oferecer, ao leitor, uma perfeita aula de sociologia.
Só uma observação: deve haver algum lapso no endereço, rua Alvarez de Azevedo era no Braz, que hoje é rua Polignano a Mare. Acho que vc queria dizer rua Alvarez Penteado. Em todo o caso, esse é um detalhe de menor importância. Parabéns, Zeca.
Laruccia

Zeca disse...

Caro Laruccia!

Obrigado pela leitura, tão atenta e pela correção. Talvez, no calor da emoção - já que escrevi o texto assim que cheguei em casa - cometi esse erro tão bem percebido por você. O endereço correto é Rua Alvares Penteado, 112. E se tiver oportunidade, vale muito a pena uma visita. Recomendo sem receio de me enganar; é um belíssimo passeio para todas as pessoas.

Abraço.

margarida disse...

Zeca, sua volta para Sampa foi em grande estilo. Adorei seu texto que para mim foi uma aula e mais despertando nossa curiosidade. Acato e confio na sua recomendação. Parabéns pelo texto, um grande beijo.

Wilson Natale disse...

ZECA:
Maravilha de passeio cultural! Maravilha de texto!
O Centro Cultural do BB nos oferece tesouros todos os meses do ano.
O próprio prédio é por si só uma obra de arte. Seu arquiteto, Gustavo Pujol está entre os grandes arquitetos do início do século XX e um dos ferrenhos defensor da arquitetura em concreto.
É de Pujol os edifícios Guinle, na Rua Direita,Rolin, na Praça da Sé (colado à Caixa Econômica), Theatro Pedro II e Hospital São Joaquim.
Além do CCBB, O Centro Cultural da Caixa Econômica (Sé) tem muito a oferecer em termos de cultura. E o Prédio tem muito a nos contar sobre a sua arquitetura.
Redescubra esta Paulicéia desvairada!
Abração,
Natale