sábado, 20 de julho de 2013

Quando a TV chegou



Fiquei pasma quando vi o que minha televisão atual é capaz de fazer. É uma máquina poderosa, praticamente igual a um computador, de tela fina de led, fácil de carregar, de uma imagem muito precisa onde podemos assistir programas em 3D.
Olhando para meu novo monumento aqui na sala de tevê acabei por lembrar-me da primeira televisão que ganhamos quando ainda éramos crianças, lá no bairro da Penha. Da marca SEMP preta e branca, era formada por uma grande caixa com uma tela finalizada com um tubo, além de muito pesada tinha um seletor de canais barulhento e toda vez que girávamos ele fazia um tlec, tlec. Às vezes produzia um chiado e a imagem sumia restando apenas faixas horizontais que podiam ser arrumadas nos botões de sintonia fina.
Bem, na verdade era um trambolho se compararmos com as televisões dos dias de hoje, mas, para nós, era a melhor televisão do mundo, pois sabíamos que iríamos assistir os desenhos animados que eram apresentados dentro da seção “Zás Trás” e que a garotada da rua compareceria em massa em casa, pois éramos a única família a ter uma televisão, o que era uma grande novidade para todos.
Nossa alegria foi imensa quando a TV chegou, minha mãe achou melhor colocá-la sobre um móvel da sala e sentávamos no chão para assisti-la. Aos poucos, fomos nos familiarizando com os canais, com o seletor barulhento e com nosso novo horário de lazer. Meu pai era muito controlador e claro que controlava também os programas que podíamos assistir.
Lembro-me das dos desenhos alegres e deliciosos, eram uma atração infantil e que nos divertiam muito, inclusive os comerciais que passavam nos intervalos entre os desenhos. Nossos olhos eram praticamente colados na tevê para não perder sequer uma imagem, tudo era importante e bem vindo, tanto é que deixou uma marca gostosa de ser lembrada.
 O comercial que eu mais gostava e que dava água na boca era o do Biscoito São Luiz, tinha uma música fácil de memorizar e ao mesmo tempo aparecia uma linda lancheira cheia de biscoitos, que eu imaginava serem os mais gostosos que existiam.
Outros comerciais também eu gostava, como a do Cobertor Parahyba, aquela musiquinha que acompanhava , marcava minha hora de dormir.
Alguns dos comercias eram feitos com desenhos animados e uma boa sonoridade para fisgar as crianças.  Ainda me lembro de um comercial em forma de desenho animado da VARIG, ele contava a historia do Brasil, tinha “jingle” fácil e era de interação com público. O outro comercial também da Varig mais tocado na época do natal, tinha uma apresentação com uma estrelinha da companhia e o “jingle” era de Natal, tudo muito bonito para meus olhos de criança.
Desta forma, a televisão entrou em minha vida e também naqueles televizinhos da Rua Antônio Lobo, local em que eu morava. Com o tempo ela foi barateando e outras pessoas foram adquirindo. Com o tempo a TV se alastrou e hoje faz parte de todas as casas dos paulistanos, inclusive nas mais humildes desta grande cidade de São Paulo. Temos TVs de última geração até as mais simples, mas estão todas ali, fazendo parte do cotidiano das nossas famílias, entrando nas casas e na vida de todos os paulistanos.




Por Maragarida Peramezza

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bolivianos



“ Compadre, vengo sangrando desde los puertos de Cabra. Si yo pudiera, mocito, ese trato se cerraba. Pero yo ya no soy yo, ni mi casa es ya mi casa” [Federico García Lorca, Romance Sonámbulo, em Obra Poética Completa]

Explosão de cores e buzinas, a pontilhar tarde invernal paulista com numerosos pontos de luz. Acordes andinos. O grupo com suas vestimentas típicas, toma de assalto a calçada da esquina da Praça Floriano, em SP. Munidos de suas quenas (flautas) e zampoñas (flautas de Pã), rasqueados de violões, charangos, e  marcações rítmicas de bombos lagueros.
Pintar a vida de imigrantes, com cores e acordes de sonhos mutantes. Eles estão por toda parte.  Por vezes, são confundidos com índios ou japoneses. Gente de pele morena, cabelos lisos e olhos puxados. Movidos a sonhos de melhores oportunidades. Fugindo da miséria em busca de oportunidade. Precariedade. Segunda maior comunidade de migrantes na cidade. Atrás apenas de portugueses, e superior a chineses e peruanos. São Paulo, cenário de passos e descompassos. Cidade que abraça e também sufoca.
Expressões sérias, solenes. Ainda pulsa a lembrança do menino assassinado por chorar e também porque os pais não tinham mais dinheiro. Residência provisória em cubículos. Tirar o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), só com emprego regular e renda. Por trás das máquinas de costura muito suor e sangue. Na luta contra o preconceito vencendo dificuldades. Um medo travado que paralisa a voz e suga a crença na justiça. Violência a estancar a fé e motivar a meia volta. Volver à terra natal. O que mais se deseja: “La paz”.
Dias de angústia e silêncio. A violência que fascina e tange. Violência grátis sem necessidade de passaporte. Em acordes dissonantes.




Por Suely Schraner

terça-feira, 16 de julho de 2013

O estouro da "boyada"



(A hora e a vez das feministas)

Boyada: – Bando, agrupamento de Office-boys (risos).

Fui um adolescente paulistano em plena Ditadura!
Ah! Os anos 60... Foi assim: Juscelino deixou a Presidência do Brasil ainda em clima de festa. Secou os cofres públicos, mas nos legou Brasília, a nova Capital Federal. A “Corte” saiu do Rio de Janeiro e mudou-se, mui a contragosto, para o Planalto Central. E o Rio de Janeiro - Distrito Federal - virou Estado da Guanabara.
Pois bem: Saiu o “Jusça”, ainda no “porre” da inauguração da “Novacap” e em seguida, subiu a rampa o Jânio Quadros, o homem que pretendia nos governar por “bilhetinhos” e de uma forma absoluta, ditatorial e paternalista. E o homem fez das suas no poder. Até condecorou o Cheguevara! E isso deu o que falar... Isso e a situação do Brasil fizeram com que as Forças Armadas começassem a se articular. Então, qual criança mimada e petulante, o Jânio resolveu renunciar, achando que “logo voltaria nos braços do povo”. Não voltou!... Ahahahaa! Assumiu o seu Vice, o João Goulart. Ai, a coisa degringolou de vez. Suas medidas salvacionistas e populistas (que uns diziam socialistas e, outros, comunistas) acabaram por levar o país à Revolução de 64. O bom do governo “Jango” foi Maria Theresa Goulart – a Primeira-dama mais “gostosa” que o Brasil já teve desde Nair de Teffé (Anos 10. Esposa de Hermes da Fonseca). E viva a Ditadura! Mas não por muito tempo. O “namoro” durou pouco...
Nos anos 60, a boyada “estourava” pelo Centro da Cidade, rumo aos seus compromissos e, no corre-corre, atropelava os transeuntes. Com os “milicos no poder”, transitar pelo centro de São Paulo era um misto de terror e prazer, êxtase e agonia. E sustos! Assalto a bancos, invasão do Martinelli que estava se transformando em um cortição vertical, onde os milicos acreditavam que havia “células” e terroristas (Puro mito.); suspeitas de bombas nos bancos e órgãos públicos. Os terroristas roubavam, matavam e morriam. E os sequestros?! Era o terror ganhado espaço na cidade.
Mas, um Office-boy era acima de tudo um otimista. “Borravam-se” de medo, mas se divertiam muito. E os boys transformavam a pichação “Abaixo a Ditadura” em “Abaixo a Dentadura” e “Abaixo a ‘Dita’ Dura”... Não! A ‘dita’ dura, não mesmo! Tem que continuar dura!
E havia repressão por toda parte. E passeatas. Passeata da turma do TFP, pedindo assinaturas contra todos e contra tudo. Estudantadas políticas, conflitos. Enfim, reprimia-se tudo, rebelava-se contra tudo. E estavam na moda os cassetetes de borracha – a grande estrela urbana do período!
A Cidade sufocada, quase em Estado de Sitio, voltou a uma normalidade incerta. Os “reaças” ainda faziam das suas; as greves se intensificaram e muitas, muitas passeatas relâmpago. Reação e Situação ainda  se enfrentavam. O governo então “endureceu”...
A turma da Ordem Política e Social mantinha o povo sob controle, tanto que a cidade deu uma aquietada. Mas, para não cair na ociosidade e perder “a mão”, o DOPS inventou mil e uma maneiras de repressão. Veio então, a “Moralizadora”. Começaram por vigiar a “Boca do Lixo”, os puteiros femininos e gays de Santa Efigênia e Campos Elíseos. Mas, não bastava: eles foram atrás das “meninas de luxo” que “trabalhavam” em boates do tipo “La Ronde” e “Michel”; perseguiram as prostitutas que “faziam a vida” pelas ruas; as lésbicas do Ferro’s Bar e os travestis da Avenida São João.  Era a vez das mulheres. Perseguiram até a Cassandra Rios e a Adelaide Carraro! E volta e meia, os “porta-jóias” (camburões) levavam as “táxi-girls” dos “dancings”, as “vedettes” e “show-girls” dos teatros de revista. Então, o  mulherio começou a “chiar”. E a se organizar, agrupar-se e sair para as ruas reivindicando os seus direitos... E, claro, direitos negados! Também iam presas. E “camburão” da Vadiagem era o que mais se via pela cidade...
Fim de quinzena era um inferno para os Office - Boys. Perdiam-se horas de lazer na Secretaria da Fazenda. Minutos preciosos de ociosidade eram desperdiçados dentro dos Cartórios de Protesto. E, não bastasse isso, reunida, a boyada estourava pelo Viaduto do Chá e invadia a “Light”, para depois, seguir para a Companhia Telefônica Brasileira e para os escritórios que ficavam lá no prédio dos Diários Associados e prédios comerciais adjacentes. Um subir e descer escadas que não acabava mais. E foi num desses fins de quinzena que, andando pela Rua Sete de Abril, eu, em meio à boyada, me deparei com uma passeata inusitada.
O mulherio (cerca de 30 mulheres, ou mais) saiu da Praça da República e entrou na Sete de Abril. Formavam um grupo compacto  que caminhava em nossa direção. Era um absurdo conjunto de feministas gritando palavras de ordem contra a ditadura repressiva e pregando a libertação e os direitos da mulher. As mulheres do grupo caminhavam decididas - a líder, com um sutiã na mão, símbolo da libertação da mulher - e todas com a blusa aberta, mostrando e balançando a peitaria. Diante daquela visão, os pedestres ficaram paralisados e, claro, excitadíssimos! O transito ficou atravancado. E a boyada, sacana como o diabo gosta, começou a assoviar e a dizer “gracinhas”. O mulherio continuava a caminhada, enquanto uma a uma do grupo despia a blusa. A boyada enlouqueceu diante daquele presente de papai do céu: um montão de peitos dançando livres em plena luz do sol. E os boys que, naquele momento, eram zero por cento de consciência política e cem por cento de testosterona, começaram a gritar: “As calcinhas! Tirem as calcinhas, já”! E em seguida, em coro: ”Sutiã na mão, calcinha no chão”!...
A cavalaria saiu da Republica e entrou com tudo na Sete de Abril, tentado controlar a situação, empurrando todo o mundo contra as paredes e para dentro de lojas e prédios. Tomavam e quebravam as máquinas dos fotógrafos-jornalistas, e, quebravam a cabeça deles também. Os policiais da PM largaram as viaturas nas ruas vicinais e “enquadraram” o mulherio que, por sua vez, partiu para os palavrões, acusando a Cavalaria e a PM de ser machista e chauvinista, e, de “mastins raivosos a serviço dos usurpadores do poder”. Mais viaturas, desta vez os camburões do DEOPS fecharam todo o quarteirão. As libertárias recuaram, tentando voltar à República. Encurraladas, nada mais puderam fazer. Foram empurradas contra a parede.
A boyada ria, ironizava, divertia-se vendo como os policiais não sabiam o que fazer com toda aquela peitaria livre e solta. Estava difícil controlar e imobilizar com as mãos aquele mulherio raivoso e agressivo. Usavam o cassetete para mantê-las reunidas. E agrupadas ficaram até a chegada da Polícia Feminina.
O mulherio foi levado pelas policiais de volta a Avenida Ipiranga, onde foram revistadas no pouco que vestiam. E a boyada estava lá, junto, para conferir... Afinal, nunca se vira tanta peitaria “dando sopa” nesta São Paulo de Deus! A boyada continuava gritando: ”Sutiã na mão, calcinha no chão”! Chegaram mais policiais que, junto com a cavalaria e os cassetetes dispersaram os boys e a multidão. Aqueles desmancha-prazeres!
E, do outro lado da avenida, na calçada da República, vimos chegar mais camburões para levar o mulherio. E safada, com a testosterona a mil, a boyada se divertia, dizendo, a cada viatura que saia: “Está saindo o caminhão do Leite Vigor”... “Sai agora o caminhão do Leite União”... “Lá se vai o caminhão do Leite Paulista”... “ Com tanto buraco nas ruas todo esse leite vai virar coalhada”! Risadas, gargalhadas... De repente, acontece mais um “estouro” da boyada! Era preciso ligar para a firma e avisar que a cidade estava um caos. A boyada então disparou, levantando a poeira do chão, atropelando as pessoas, em busca de um telefone público... O dia tinha-se transformado em uma aventura e tanto!
À noite os telejornais mostraram o Brasil “cor-de-rosa”. Na manhã seguinte os jornais publicaram mais uma receita culinária que nunca dava certo. E fotógrafos e jornalistas cuidaram de suas feridas... Mas a boyada, ilesa, teve assunto para muitos meses.



Por Wilson Natale

sábado, 13 de julho de 2013

O falso progresso




Ao depararmos com a violência que reina nas grandes cidades, (e nas pequenas, também), tem-se a impressão de que vivemos numa época em que o materialismo impera, com tal intensidade que, melhor seria não  ter nascido.
Em outros tempos não havia tantos crimes, assaltos, sequestros, latrocínios, com ou sem a participação de menores. Principalmente em São Paulo. Verdade, isso? Nem tanto.
Se atentarmos, só  com o aumento da população em 50 anos,  a poderosa e imbatível facilidade de informações resultante do espetacular progresso eletrônico, nós, dessa faixa etária podemos, perfeitamente, avaliar o resultado disso na proximidade que se nos depara com a facilidade de comunicar-se via oral, teleobjetiva, transportável, encurtando distâncias que, sendo geograficamente sempre as mesmas, se tornam tão acessíveis, de fácil alcance que tornam o mundo mais pequeno, “menor” do que antigamente.

Faço este preâmbulo em favor da grande e boa parte da população, seja aqui em São Paulo ou em qualquer cidade do Brasil, até mesmo de outros países, que mantém sua dignidade, sua postura, seu comportamento e seu desejo de formar um mundo melhor e mais humano.
Para ilustrar esta posição, como a maioria dos colaboradores deste BLOG, tenho alguns casos pra contar sobre o falso conteúdo de que no passado a vida era bem melhor e mais civilizada, onde imperava o respeito, educação, menos miséria, mais amor, mais alegria enfim, ser feliz custava bem menos.

No meu querido bairro do Braz, quando eu era garoto, década de 40 ou 50, presenciei uma orgia selvagem, protagonizada por garotos da mesma idade que eu.
Eu me conheço muito bem, posso falar do garoto de 8 a 12 anos com muita liberdade e sei dos meus limites, de minha coragem, de minha esperteza, da minha indolência, de minhas fraquezas, da minha gula, dos meus sonhos, fantasias, onde a realidade era um trampolim pra eu alcançar tudo o que eu amava e queria. Sempre tive bons amigos, sempre fui feliz, nunca me deixava levar por atitudes torpes, covardes, mantinha (e mantenho até hoje, graças a Deus) uma linha de conduta onde a maldade não tinha (e não tem) morada.

Gostava, como todo garoto nessa idade, de brincar, jogar bola, “esconde-esconde”, “uma-na-mula” e toda a parafernália de  jogos infantis. Colecionava figurinhas, jogava “bafa-a-bafa”, etc. Difícil entrar numa briga, tão comum nessa idade, tinha medo, não me atraia socar (e levar, também).

Numa tarde, junto com estes garotos, estávamos brincando quando apareceu o “valentão”, o Andó, de triste memória que, dentro dos limites possíveis e imagináveis de um garoto de nossa idade, praticar um mal, voluntariamente, era fácil, pra ele. Nas rodas da turminha, ele “ensinava” como nascia uma criança. Com tenra idade, contava com detalhes todo transcorrer de um parto. Isso na faixa de 7 ou 8 anos. Não acreditei e deixei bem claro que era impossível uma criança sair de “buraco” tão pequeno e estreito. (naquela época os ensinamentos sobre isso não passavam de uma horta ou uma ave que sustentava no bico um bebê, vindo do céu...). Havia tempo pra tudo e todas as informações vinham no devido momento. Mas, o Andó, tinha todas as informações. Esperto demais, sempre mais vivo e, com isso se vangloriava de ser o “bam bam” e, na maioria das vezes, com uma boa dose de maldade.

Uma ocasião, no meio da turminha, chegou perto de mim com um pedaço de barbante e me intimou a ajuda-lo num “servicinho” em que todos iriam colaborar. Consistia no que, essa missão? O Andó explicou: Um vizinho descobriu uma gata que acabava de parir um bom número de gatinhos e o tal  vizinho mostrou onde estava a ninhada, num descampado da rua Assumpção. Ele queria “limpar” o terreno e pediu ao Andó, que enfiasse todos os filhotes num saco e fosse joga-los no rio Tamanduateí, ali pertinho. “Se vocês me ajudarem, vamos fazer isso, ó”: - passou o pedaço de barbante no pescocinho do filhote e o estrangulou, caindo na gargalhada falando que era mais fácil  transporta-los, sempre acompanhado do resto da turma.

Fiquei horrorizado, corri pra minha casa em prantos, minha mãe quis saber a razão e falei. Minha mãe chorou comigo, amante da natureza com poucas, achava uma selvageria sem limites, iria falar com os pais do “valentão”.
De nada adiantou, “são crianças, querem só brincar...”, respondeu sua mãe ou seu pai, não lembro direito, acho que os dois.
Deixando transparecer, com essa resposta, uma educação pouco amistosa, fui me afastando deles, selecionando novas amizades.
Obrigado.




Por Modesto Laruccia

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Aniversário do blog



Neste último mês de Junho (2013), nosso blog completou 3 anos.
Muitos textos, muitas fotos, muitas histórias pudemos ver e ler aqui. Já são 679 textos publicados, recheados de emoções.
Não fosse a colaboração de nossos amados e respeitados autores, esta meta jamais seria alcançada. O blog ainda é o que é, graças aos textos geniais, às histórias fantásticas trazidas por estes escritores, contadores de histórias.
Ao criarmos este espaço humilde era nossa intenção agregar os amigos e amigas, autores do site São Paulo Minha Cidade que, havia algum tempo, estava parado. Hoje, percebo que, mesmo o site tendo voltado à ativa, com seus altos e baixos, os colaboradores do blog continuaram perseverantes também aqui no blog, acrescentando brilho a este trabalho e trazendo novos amigos.
Sou imensamente grata por tudo isto. E espero continuar recebendo estas histórias maravilhosas de todos os queridos autores deste blog.
Que Deus os abençoe com muita saúde, sempre... Sustentando a todos na palma de Sua mão.
Parabéns a todos!
Muita paz!


Por Sonia Astrauskas

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Luzes que se apagam




Estava demorando. Diria que a luz estava pisca piscante, e ameaçava sumir a qualquer instante. Há muitos anos que o Cine Lumiére estava ali, na Joaquim Floriano.
Simples, honesto, com bela seleção de filmes, um remanescente da nossa época de juventude, do cinema de rua, que existia em qualquer bairro, e também no Centro de São Paulo, estes majestosos e em grande número.
Vi muita coisa boa ali, na simplicidade do cine decente e barato. Quase todos Woody Allen que assisti, filmes franceses, argentinos, italianos e nacionais. Nem estacionamento pagava; parava na ruazinha bem próxima e, em poucos passos, lá estava.
E ainda pegava pouco trânsito; era só descer a Santo Amaro, subir para a Joaquim Floriano e logo veria a humilde fachada. Uma vez, faz tempo,  perdi durante uma sessão um belo relógio Fóssil, que havia comprado na Macy´s, de Nova Iorque.
Só me dei conta ao sairmos na rua noturna. Voltamos, avisei na gerência, mas sem esperanças. Pois não é que me ligam, no dia seguinte? O excelente baixinho bilheteiro, que ainda há pouco trabalhava lá, o havia encontrado, varrendo a sala.
Querem cine melhor do que este? Pois é, bom demais para acreditar e, por isto mesmo, não existe mais. O Lumiére claudicava. Certa vez fomos ver um belo desenho francês, O Mágico. Feito a mão, como nos bons tempos, com a história de um ilusionista decadente, inspirado em Jacques Tati, que só encontrava plateias vazias, como estava no momento a do velho cine. Antes de o filme terminar, o Fim chegou, pensei. Logo, cerrar-se-ão cortinas e portas do espetáculo.
Ainda assim, o cineminha aguentou mais um tempo, e chegamos a encontrar sessões quase lotadas. Quase sempre pelos mesmos frequentadores; pessoas da terceira idade do bairro, que iam mais pelo hábito, nem tanto pela programação que, volto a afirmar, eram de primeira.
Ainda voltamos a ele, talvez há um mês. Mas, agora, na sessão de reclamações do suplemento da Folha, o atestado de óbito. Um espectador saudoso lastima, e com razão; a última sessão do cinema fora no dia 20 de Junho.
Um dos últimos cines de rua, de uma cidade em que sair na rua é cada vez mais uma aventura para audazes. Mais um pedaço bonito do passado que se encerra.
O Lumiére, tênue chama que se apagou discretamente, como sempre existiu.



Por Luiz Saidenberg

terça-feira, 2 de julho de 2013

Desabafo




Pois é, amigos do recém falecido site, SPMC, assassinado por delinquentes da fauna "populista" que infesta nossa querida SP. Fomos derrotados pelos tentáculos desse maldito "polvo" que é a política. Um prefeito que nada tem haver com nossa querida cidade, caindo de paraquedas no trono municipal, ninguém sabendo de onde veio, comandado por um partido cujo patrono nem paulista é. Estávamos tranquilos em nosso cantinho, sempre dentro dos padrões impostos pela equipe, sem envolvimento com política; de repente, com a revoltante "compra de votos", se elege, vencendo até o Sr. Serra, sufragado pelos votos de "nossos queridos conterrâneos", que aqui vivem. Não tenho preconceito e nem sou bairrista fanático, (só um pouquinho), mas ter que "engolir" goela abaixo um estranho no ninho, deixando-nos sem o SPMC,  é demais, insuportável, indigesto; não podemos, simplesmente, cruzar os braços, este site é nosso, por direito adquirido. Eu sei que você tem seus afazeres, Sonia, suas atividades não podem sofrer interrupções, precisamos comunicarmo-nos no maior número possível de voluntários, a fim de aguentar até a coisa melhorar.
Já somos aposentados, com salários de "fome", atravessando uma faze da vida atingindo a idade provecta, (nem todos, evidentemente) limitados por dezenas de motivos, uma das poucas distrações que desfrutávamos, era este site.

Não vou perder a linha, tenho que respeitar meus colegas e a vc, principalmente, que sofrem comigo, mas, a vontade que tenho de berrar nomes de origem pouco decentes, aaah, isso eu tenho, vocês podem imaginar o que quiserem, mas a realidade é bem pior.



Por Modesto Laruccia

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ontem à noite sonhei




Para ouvir "A pequenina cruz do teu rosário" com Carlos Galhardo, clique no play


Texto original, sem edição da moderadora

Desliguei o televisor, fechei a janela, pois o ar frio que entrava por ela já estava me incomodando, meus familiares já tinham ido dormir e tudo estava em silêncio, sob a luz do abajour fechei os olhos e aboletado na poltrona acabei adormecendo e sonhei que estava na Av. Rio Branco tomando uma sopa de legumes no antigo restaurante Palladium, em seguida fui ao Táxi-Dancing Avenida para encontrar meus amigos, no momento quem executava as músicas era o conjunto de Tobias Troisi,  resolvi dançar e convidei uma dama que estava na primeira fileira à esquerda da entrada da pista, saímos dançando e lá no palco o crooner do conjunto cantava uma seleção de boleros...

                        "Garçon amigo apague a luz da minha mesa
                          Que eu não quero que ela note em mim tanta tristeza
                          Traga mais uma garrafa hoje eu vou me embriagar
                          Quero dormir para não ver outro homem em meu lugar...
a música segue e logo o cantor interpreta:
                          "Esta noche quiero vivir todos my suenos
                           Y en tus brazos quiero sentir que soy tu dueno
                           Ai, abrazame, convidame com besos, que junto a ti
                           Quiero dormir mi sueno eterno...
a seleção continúa...
                           "Malvada mi alma has destroçado
                             El amor que te di por otro lo has cambiado
                             Tú précio puedo haberlo pagado
                             Es demasiado tarde, muy caro lo has cobrado...
o cantor sai e entra a crooner cantando:
                             "Se quizer fumar eu fumo
                              Se quizer beber eu bebo
                              Não interessa a ninguém
                              Se o meu passado foi lama
                              Hoje quem me difama
                              Viveu na lama também...
ela segue cantando...
                              "Pintor nascido em mi tierra
                               Con el pincel extranjero
                               Pintor que sigues em rumbo
                               De tantos pintores viejos
                               Aunque la virgen sea blanca
                               Pintame angelitos negros...
retorna o cantor interpretando...
                               "Percal...
                                Te acuerdas del percal?
                                Tenia quinze abriles,
                                Anhelos de sufrir y amar,
                                De ir al centro, triunfar
                                Y olvidar el percal...
 para terminar a seleção de boleros ele canta...
                                "Rosa de maio
                                 É meu desejo
                                 Mandar-te um beijo
                                 Nesta canção
                                 Rosa de maio
                                 Neste poema
                                 Tu és o tema
                                  É a inspiração...
a cena no sonho muda e agora estou no táxi do meu amigo Batanão, é madrugada e no rádio do carro o Galhardo canta....
                                  E sempre que eu a via recordava
                                  Do nosso amor a fantasia louca
                                  Todas as vezes que a pequena cruz beijava
                                  Eu beijava febril a tua boca...
logo muda para um samba que o Alcides Gerardi cantava...
                                 Ô Antonico vou lhe pedir um favor
                                 Que só depende da sua boa vontade
                                 É necessário uma viração pro Nestor
                                 Que está vivendo em grande dificuldade....
a patroa acorda, vem na sala e diz para eu ir dormir na cama, levanto do sofá e vou para o leito feliz e contente por ter tido um sonho tão agitado. 
                                                             



 Leonello Tesser (Nelinho)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

MEMÓRIAS FÚNEBRES



Sou partidário da opinião que o homem começa a morrer imediatamente após o seu nascimento. Esta convicção é real e totalmente coerente. Não quero, com ela, afirmar que sabemos quando iremos morrer, apenas sabemos que a morte é inevitável, inexorável, e cada vivente está sujeito a morrer desde o primeiro instante de vida. O grande barato é não termos, absolutamente, nenhuma pista de quando se dará pó fim de nossa vida, a menos que decidamos, em ato extrema covardia ou desespero, darmos fim a ela com nossas próprias mãos.

Ora muito bem, no intuito de melhorar os fluidos e o ambiente, desanuviemos um pouco este texto tétrico, cabe-me o dever de explicar minhas intenções.
Resolvi abordar o temo “morte” e, mais especificamente, dissertar dobre “velórios”.

Atualmente, não sei por que carga d’água evita-se falar ou mesmo mostrar às crianças, sobre mortes e seus rituais.

Já me disseram que se faz assim para salvaguardar os representantes infantis, de assuntos cruéis e que representem perdas inevitáveis. Vamos contar às crianças que aquele avô que lhe enchia de balas e guloseimas, se transformou em mais uma estrelinha no céu, que aquela tia rabugenta, agora está voando entre os planetas com asas feitas de penas de espanador (será que elas ainda sabem o que é um espanador?).

Para se evitar choques, tomamos a decisão de não mostrar os mortos, devidamente encaixotados, mesmo que transformados em jardins floridos, mesmo que os ambientes dessas mostras sejam salas de velórios públicos, bem iluminados e arejados.

Eu, sou remanescente dos anos 40 quando as famílias não tinham tais preocupações, muito menos tinham à sua disposição salas de velórios publicas.

As mortes eram choradas e sentidas dentro dos limites das suas próprias residências. Para tal, as famílias locavam nas funerárias a ESSA (estrado de madeira para apoiar o caixão do defunto) e a armavam, de preferência na sala de jantar, juntamente com os demais acessórios.. Enfileiravam ao redor dela várias cadeiras para que as pessoas pudessem se sentar e enfrentar todo o ritual do velório, que normalmente, atravessava uma noite inteira e parte do dia posterior, até que o féretro fosse conduzido ao cemitério.

Na sala onde aconteceria o velório, as janelas eram cobertas com cortinas pretas ou roxas, debruadas em dourado e também locadas da agencia funerária. As coroas de flores também eram alocadas ao lado do caixão. Os quatro cantos do caixão eram guardados por quatro castiçais enormes e com velas mais enormes ainda, que ardiam durante toda a cerimônia.Tinha também um aparelho elétrico que ligado à tomada ozonizava e desinfetava  o ambiente.

Como parte oficial do velório, as mulheres sentavam-se na sala, confortando-se umas às outras, ora rezando, ora conversando aos sussurros. As crianças corriam e brincavam, desobedecendo  as ordens das mães que queriam vê-las quietas respeitosas (doce ilusão), mas não se impressionavam em demasia com o acontecimento.

Os homens, em grupos, se colocavam à entrada da casa ou no quintal dela, perto porém, da garrafa de cachaça ou do bule de café quentinho, que eram na certeza, as bebidas mais consumidas na ocasião.

A família, além de prantear o morto, era incumbida de preparar os comes e bebes, por que velar o morto carecia de dar trabalho aos dentes dos presentes. Então, durante a madrugada, servia-se uma canja forte, uns lanchinhos de pão com mortadela e ou outro recheio qualquer.

Eu posso afirmar que participei de alguns velórios lá na casa da Rua Augusta. Que eu me lembre, foram os velórios de minha avó, do meu avô e da minha tia e nunca me impressionei pelo ritual.

Aliás, as mulheres de antigamente, quando sabiam que uma pessoa tinha medo de velório recomendava que ficasse de frente aos pés do defunto, segurasse nos pés do dito cujo e fizesse, um pedido para  ele levar seus medos para as profundas dos sete palmas. Diziam que era uma simpatia prá lá de boa. Não posso afirmar a eficiência a  pois nunca precisei fazer uso desse expediente mágico.

Bem, depois dessas divagações todas, eu me pergunto, será que vale a pena toda essa blindagem moderna às crianças de hoje?



Por: Miguel Chammas

terça-feira, 11 de junho de 2013

DE COMO VESTIR UM DEFUNTO, SER AMEAÇADO DE LINCHAMENTO E QUASE PERDER O EMPREGO.



Manhã fria, garoenta, em São Paulo, não lembro datas, dia do mês, nada, mas creio que foi em 1978 ou 79 que se passaram os fatos que de vez em quando vem atazanar meu sossego de aposentado caraminholando minhas lembranças... tem ocasiões que eu rio dos acontecidos, mas não é sempre...
Íamos, eu e meu colega Fernando, começar a desembrulhar o 'pacote' que estava nos esperando no primeiro terço do túnel do HC; a maca com o corpo estava a uns 20 ou 30 metros da grande porta de madeira que dava para a Radiologia...
6:40 de la matina, começo da passagem de plantão na Neurologia. Desço do elevador no 5º andar, vindo do vestiário. Noto que as colegas que trabalharam à noite, quando me veem, sorriem e dão um suspiro de alívio, um grande 'ainda bem' ou um 'graças a Deus'.
"Aí tem coisa", pensei... e tinha!

- Seu Joaquim, tem um 'pacote' no túnel, logo na entrada, que precisa ser vestido e levado para o pessoal da Faculdade; evoluiu prá óbito logo no começo da madrugada...
- Desculpe, Enfermeira, mas porque os colegas do plantão da noite não levaram o corpo? Não tiveram tempo?
- Até que tiveram, mas no meio do caminho chegou um pedido do Palácio dos Bandeirantes... parece que o falecido tinha qualquer coisa a ver com algum figurão. Vai para um velório de bacana não sei onde e o caixão vai sair da Faculdade.Trazer o corpo de volta?... esquece! Naquela mala - apontou - estão as roupas prá vestir o cadáver...
- Já vi tudo... posso levar alguém comigo? Sozinho eu não vou conseguir.
- Leva o Fernando... vocês não estão sempre juntos?

O Fernando era um colega bem mais novo que eu, com seus 20 e poucos anos. De formação era Técnico Agrícola, mas como não conseguia emprego em Getulina, sua cidade natal, veio para São Paulo, onde prestou alguns concursos públicos e terminou por entrar no HC como Atendente; totalmente jejuno em Enfermagem, aproveitou muitíssimo bem o mês de treinamento - cuidados básicos com o paciente acamado e dependente banho de leito, abordagem e alimentação do paciente, condução do paciente em maca ou cadeira de rodas, auxílio na deambulação, um rápido curso para exercer a função de pau para toda obra dentro de um hospital...

- Vamos logo que tem um defunto esperando a gente no túnel...
- Dá um tempo, Juca, acho que vou tomar um café e fumar um cigarro e depois a gente vai...
- 'Num' dá, Fernando... Vamos acabar logo esse parangolé se não vai atrasar tudo, tem os banhos, troca de lençóis, o café dos pacientes, relatórios ...depois você fuma...!

Nos anos 60s e 70s (não sei como está a situação hoje) o túnel que liga o HC à Faculdade na Dr. Arnaldo tinha sua entrada na Radiologia, no 3º andar; uma grande porta de madeira, padrão bem antigo, solene, era a boca da caverna de horrores.

- Pegou as chaves do túnel?
- Peguei... a Enfermeirona-Chefe disse que as meninas que trabalharam à noite não teriam força prá preparar o corpo e...
- 'Tá bom, 'tá bom, 'tá legal... é muito blábláblá... no duro, no duro, a verdade é que sobrou prá gente... e, pelo que eu estou vendo, ainda vamos precisar higienizar o corpo... mão de obra prá c..........!

Começamos a expor o corpo que estava envolto em dois lençóis:
- "Vamos na manha, não sei se fizeram um tamponamento decente... pianinho, pianinho... devagar, devagar... xííí, o defunto já empedrou...vai complicar prá vestir a roupa... vamos dar uma lavadinha nele e ver cumé que fica esse negócio de terno, gravata, meias, sapatos...
- Vai vestir a cueca nele?
- Se tiver cueca prá vestir, a gente veste, uai!...

Afastamos os lençóis e expusemos o rosto:
-IIIh! Fernandão, não fecharam os olhos do morto; ele está com as butucas esbugalhadas...
- Deixa eu ver...
- Não olha nos olhos do morto, não deixa ele te encarar... melhor ir por trás da cabeça e fechar as pálpebras... vai precisar fazer uma forcinha e prender com micropore...
- 'Tá! Mas porque não posso olhar os olhos do defunto?
- Superstição, coisas da Enfermagem... encarar os mortos que estejam com os olhos abertos dá azar... faz você perder a coragem; amarrar as pontas dos lençóis prá 'segurar' vivos os terminais; não pronunciar certas palavras na presença de pacientes; começar os banhos de leito pelos rostos, sacumé, né?... você não precisa acreditar, mas é bom não abusar nem achar graça nesses procedimentos, vai que...!
- Bobagem, Juca!
- Ah é? Então faz um olho no olho com o falecido...
- Eu não...
- Não falei?...

Passada a parte mais fácil dos procedimentos, tratou-se então de vestir o defunto. Sabíamos do complicador que teríamos com o rigor mortis estabelecido; felizmente existe uma técnica para vestir a parte superior de um corpo numa situação igual àquela que se apresentava; essa técnica - ou truque - é executada com certa facilidade por pessoas com um mínimo de experiência; no entanto, da cintura prá baixo é que a porca torce o rabo; normalmente é difícil vestir um corpo em estado de rigidez total e, para complicar tudo, estávamos num subsolo, num túnel estreito, escuro, frio, sombrio, lúgubre, sem lenço, sem documentos e com um cadáver de uns 90 kg, seminu ou semi vestido, tanto faz como tanto fez!
Por não conseguirmos manipular o corpo sobre a maca bastante instável, foi preciso colocar o cadáver em pé para poder vestir a cueca e a calça em seu corpo endurecido; o Fernando, com a mão em seu peito, segurava-o encostado a uma parede enquanto eu, agachado, tentava terminar de vesti-lo...
Aconteceu então abrirem-se as portas do inferno... ou, dizendo melhor, algum alguém conseguiu abrir a porta da Radiologia e, como todo mundo está cansado de saber, a curiosidade matou o rato etc, etc; de repente umas 15 pessoas começaram a caminhar túnel adentro, conversando, fazendo piadas e rindo até darem de cara com a cena absurda formada por dois homens e um cadáver! Gritos, espanto, caminho de volta aos berros e na correria, burburinho, choro, comentários em todos os níveis, vozes, altercações, chamem os seguranças...!...

Voei até a porta escancarada e a fechei com força; dei duas voltas da chave na fechadura e fiz uma checagem com a maçaneta; a porta se abriu; fechadura quebrada. Fora assim que os falsos espeleólogos curiosos conseguiram entrar no túnel... as chaves só estavam funcionando pelo lado de fora...
Terminamos rapidamente nossa tarefa e saimos de volta para o ambulatório da Radiologia onde, evidentemente, não fomos recebidos com aplausos. Quase podíamos sentir aqueles dedos, quase físicos, nos apontando: "são aqueles lá!"... e aquele elevador que não chegava... "vão acabar linchando a gente"!
Voltamos para a clínica prontos para encarar uma demissão por justa causa, na melhor das hipóteses. Ao entrarmos no corredor da Neuro vimos que o rolo estava armado; a própria diretora de Enfermagem do HC, a nossa chefe e as Enfermeiras encarregadas estavam nos esperando, algumas delas com um sorriso de vírgula e um esgar sádico na face..."É hoje que o couro come", pensei; as mãos do Fernando tremiam...
No entanto, tudo acabou bem; conseguimos explicar os problemas da fechadura, das pessoas que, por curiosidade abriram a porta e entraram no túnel, o vestir o defunto em pé...
- É, 'seu' Joaquim, vocês deveriam ter checado se a porta estava fechada, realmente...
- Falha nossa, Enfermeira, reconheço... mas, se a Manutenção tinha conhecimento do problema, podiam pelo menos ter colocado uma tramela na porta...
- Tramela?... Faz-me rir...

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Um comentário final: Hoje em dia um acontecimento desse naipe seria inadmissível; funcionários não pertencentes ao corpo de Enfermagem são treinados para executar técnicas de preparação de óbitos e as próprias funerárias tem pessoal em suas dependências para vestir e maquiar os mortos sob seus cuidados... não podemos esquecer que o que foi narrado aconteceu 40 ou quase 50 anos passados... eram outros tempos e outros procedimentos...



P/ Joaquim Ignacio