quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Memórias setentinas



imagem: Restaurante Caravela (1978)

Corriam os anos setenta, mais precisamente o ano de 1978.
São Paulo já era uma metrópole cosmopolita. Trânsito inaceitável. A expressão que corria solta sobre o tema era: “São Paulo não pode parar, o trânsito, infelizmente já parou...” Aliás, ainda hoje essa expressão é largamente usada e, para tristeza dos “videntes”, São Paulo continua andando.
Tem horas que ela se arrasta em congestionamentos de 8, 10 ou mais quilômetros, mas se arrastando ou não, ela não para. Está viva e vibrante.
O trânsito não era o motivo deste texto quando me dispus a escrever, então, voltemos ao tema principal desta crônica.
A Avenida 23 de Maio, pujante, já era a principal artéria de ligação entre o centro e o bairro do Aeroporto.
Lembro-me que tive, no passado, motivos de sobejo para desgostar-me da sua construção. Entre eles, o principal era o nome escolhido. A data de 23 de Maio, para mim era apenas e tão somente o dia comemorativo do aniversário de meu amigo Zilando e eu acreditava ter sido escolhida para nomear a avenida em detrimento ao dia do meu aniversário, dia 26 de Maio. Só tempos depois fiquei sabendo que este nome tinha sido escolhido para homenagear a morte dos estudantes Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, mártires da Revolução de 32.
Muito bem, quem trafegava com certa assiduidade por essa avenida começou a notar que, do lado esquerdo dela, para quem seguia em sentido ao Parque do Ibirapuera, pouco depois do viaduto da Rua Tutoia, um grande canteiro de obras havia se instalado.
Novo arranha céu estaria sendo lançado?  O que seria ali construído? 
Esses questionamentos foram sendo respondidos no dia a dia. Por incrível que pudesse parecer, ali estava sendo construída uma caravela. Certo, uma imensa caravela, com todas as formas idênticas às vistas nos livros de História do Brasil, nas lições do Descobrimento da América e do Descobrimento do Brasil.
Novas questões foram levantadas: O que iria fazer uma caravela naquele espaço de terra sem águas cabíveis para navegar? Será que a caravela estava sendo ali construída para depois ser levada ao lago do Parque do Ibirapuera, único espaço com águas suficientes para aceitá-la?
Depois de algum tempo, tais questionamentos foram respondidos. Num empreendimento fabuloso, próprio da cidade de São Paulo, essa caravela foi construída para receber as instalações de um finíssimo restaurante.
A inauguração foi cheia de pompas e a frequência, depois da inauguração, não era viável às classes mais baixas. Era preciso ter “bala na agulha” para atravessar o portal daquele restaurante.
Eu, já casado na época, não tinha condições de ali fazer uma incursão gastronômica.
Tenho algumas memórias desse restaurante, mas por serem dolorosas e privadíssimas, decidi não escancará-las. Elas continuarão a fazer parte dos meus segredos.
O modismo do Caravelas foi se extinguindo e,um certo dia, suas portas se fecharam para sempre.
Em novembro de 1984, atendendo ao novo modismo da Paulicéia, depois de um investimento de quase meio milhão de dólares, no dia 7 de Novembro, foi inaugurada a LATITUDE 3001, danceteria que oferecia a seus frequentadores, no primeiro e segundo andares, com pistas de dança conjuntos hits da época apresentados em palco suspenso, restaurante e pizzaria, bosque, lago artificial, salão de jogos. Em certos momentos, piratas apareciam em sucessivos duelos. Enfim, o “new wave” e o roque brasileiro mandavam na casa e, como não era essa a minha praia,  nunca me interessei em frequentar essa casa.
Mas, a memória tinha de ser registrada e, cutucado por leitores, cumpri minha obrigação.


Por Miguel Chammas

9 comentários:

Soninha disse...

Olá, Miguel!

Poxa, eu gostaria de ter ido a este lugar, a este restaurante.
Deve ter sido muito chique mesmo.
Que exótico, não?
Sampa e suas extravagâncias, suas construções surpreendentes, em todos os tempos.
Muito bom.
Valeu!
Muita paz! Beijossssss

joaquim ignacio de souza netto disse...

Miguel, talvez vc já tenha percebido que eu procuro me furtar em comentar os textos dos amigos, não sou muito de usar lugares comuns do tipo 'aqueles eram bons tempos que não voltam mais' ou 'que saudades...' ou de 'confirmar o que já está confirmado', tanto é verdade que já foi escrito..., mas gostaria de fazer um comentário a rspeito da tal caravela: Ôôôô construçãozinha brega que era aquela! Não faço idéia da qualidade da comida vendida (se prá vc faltava bala na gulha, prá mim faltava até a agulha, quanto mais a bala!).Na Av Bandeirantes havia um restaurante especilizado em espanholagens (construção em forma de Plaza de Toros, mais boko-moko!) que também não vingou; mexeram na fachada e transformaram o local em churrascaria...
Outra coisa: Procuro sempre não parecer professoral ou ser dono da verdade, mas como 'nego véio', já beirando a senilidade, um conselho:
nunca date suas lembranças pois vc corre o risco de ouvir 'nooooossa, o Miguel só tem 72 anos!? Parece que tem muito mais! 'Tá bem sambado, coitado...
Miguel, releve a gozação deste seu amigo...
Abração do Ignacio

Zeca disse...

Miguel!

Eu lembro muito bem dessa caravela. Encravada bem ao lado da 23 de maio, ficava provocando aqueles que gostavam de conhecer os novos bares e restaurantes, mas, como você colocou muito bem, eu também não tinha bala na agulha para conhecer aquela novidade. E me contentava só em observar aquela monstruosidade, mais cafona impossível, quando passava por lá. E quando fechou, sendo substituído por um outro tipo de empreendimento, já não me chamava mais a atenção. O monstrengo acabou se banalizando e ficando ali plantado, qual um elefante branco no meio da selva de pedras.
Aliás, só me lembrei dessa caravela devido a esta sua crônica. Valeu pela lembrança.

Abração.

Teresa disse...

Aquela Caravela era um lugar que sempre tive curiosidade em conhecer. Passava, olhava, mas não dava para ver os detalhes, pois a 23 de Maio exigia atenção e velocidade. Entretanto, o que mais ouvia de quem já conhecia a casa é que não era "lá dessas coisas", que era muito cara, etc. e eu, também sem bala na agulha, apesar de tudo, fiquei frustrada por não ter conhecido aquela casa que foi tudo até encerrar seus dias como bingo.
Valeu, Miguel. Um abraço.

Laru disse...

Meu bom e simpático amigo Miguel. De início, quero agradecer-te o envio das fotos da última rodada. Parece , por meio delas deduso, que foi muito alegre, fico triste por não ter participado.

Sobre suas memórias, quero dizer que fui, de gaiato, desarmado, (tinha só um aparador de unhas)e dei de cara com o "capitão", que me mostrou o cardápio e os .... preços. Falei com minha mulher (estavamos no tombadilho): está na hora de abandonarmos o barco. Só receio ter que ficar no trampolim e ser obrigado a me jogar no "mar" da 23 de maio. Com um prato bem modesto, saimos bem quietinho pra nunca mais voltar.
Gostei de sua memória setembrina, faça valer sua idade, Miguel, foi pra isso que continuamos VIVOS. Parabéns, Miguel.
Laru

Laru disse...

Desculpe, Miguel, o certo é: SETENTINAS e naõ "setembrinas", passei de setenta pra setembro.
Laru

margarida disse...

Miguel, lembro desta construção e do Restaurante, mas depois minha vida tomou outro rumo e não soube mais nada a respeito deste lugar. Uma pena que não deu certo, será que a danceteria continua lá? Boas lembranças. Um abraço.

Laru disse...

Miguel, seguindo as sugestões do Joaquim, estamos nos despedindo das leituras das crônicas pois, se estão ditas e confirmadas, não nos resta mais nada. E, cuidado, nunca diga sua idade, é um risco outros ficarem sabendo que vc alcançou 72 anos. (eu, então, sou carta fora do baralho). Ilustre professor e colega de site, essa foi a maior confissão de pouquíssima vontade de comentar os trabalhos dos colaboradores. Não espere, de todos, incluxive de mim, um perfeccionista em matéria de narrativa, somos quase neófitos na beleza de uma escrita, se vc espera preciosas crônicas pra ter o prazer de alastrar sua verbosidade, vai encontrar algumas mas, por favor não desprese na forma genérica, como vc disse ao nosso bom amigo Miguel, ..."aqueles eram bons tempos que não voltam mais...". Isso não é cafonisse, eu já percebi que vc não gosta de comentar, estou com vc, Ignácio, vou tomar as devidas providências.
Um abração, Miguel.
Laru

Mario Teixeira disse...

Olá Miguel , bom dia boa tarde ou boa noite a todos!!! Ontem passando de Onibus em frente ao hotel onde a seleção Brasileira está instalada pra o jogo de hoje q é da copa do mundo em SP . me toquei de onde é q se está falando. Quando menino eu passava em frente a esta caravela com minha mãe e dizia : Mãe se um dia o mundo for inundado de novo quero vir pro Ibirapuera. A gente entra nesse barco e se salva,coisas de criança. Eu nunca precisei de entrar nela mas quis o destino que muitos anos depois já casado eu viesse a trabalhar na casa dos antigos donos daquela bendita caravela.A caravela foi construída na época para fonte de renda e como eles eram descendentes de Portugueses fizeram a homenagem aos gajos mas com o passar dos anos tiveram vários problemas com ela. a maioria dos empreendedores que utilizaram o espaço , não faziam as manutenções para manter o lugar sempre com aparência de novo. e vocês sabem o que não se mantem com boa manutenção o tempo degrada e os inquilinos estavam sempre atrasando os Alugueis e eles então na época venderam o imóvel. Se alguem quiser saber mais alguma coisa meu email é marioteix@gmail.com