quarta-feira, 19 de setembro de 2012



RECORDAÇOES


Abrindo o Estadão, hoje, reparei numa reportagem sobre a Praça Roosevelt. Vão inaugura-la novamente.

Quantas vezes já inauguraram a famosa praça? Lembro-me da primeira ou talvez da segunda vez.

Muitas coisas relacionadas comigo lá aconteceram.

Por volta de 1963, lá funcionavam dois estabelecimentos de ensino.

O Colégio Porto Seguro, que era na sua maioria frequentado pelos filhos mais abastados e oriundos da colônia alemã e o Colégio Comercial Frederico Ozanam. Como o nome já dizia, era um colégio comercial, portanto, de frequência menos refinada e mais voltada ao profissionalismo já que os cursos de secretariado e contabilidade tinham o objetivo de preparar, de imediato,  o aluno para a luta do dia a dia.

Pois bem, morava eu na Rua Augusta entre os cines Regência e Maracha, portanto a dois quarteirões de ambos os colégios.

Vinha de uma má experiência no estudo noturno. Fora jubilado do Colégio Professora

Marina Cintra, na terceira série ginasial. Trabalhar a tarde e estudar a noite pra mim era uma festa, podia dormir até tarde e me esbaldar à noite. Escola nada.

Minha mãe, que não era alheia aos fatos, queria mudar minha rotina fazendo com que eu estudasse no período matutino e em um bom colégio.

Resolvido! Iria estudar no Colégio Porto Seguro, na Praça Roosevelt. Era perto de casa e, a meio caminho do Tabelião Veiga, meu trabalho, na Rua Líbero Badaró com Viaduto do Chá.

Isso dito ela foi ao colégio se informou de tudo e no dia seguinte me deu o dinheiro para matricula.

E lá fui eu bem cedo, na hora da entrada, para conhecer  meus futuros colegas.

Não gostei. Muito “almofadinhas” para o meu gosto. Aqueles uniformes azuis, calças curtas e tudo muito bem engomadinho. Olhei para o lado e ali estava o Frederico Ozanam, muito mais o meu perfil.

Seu Waldemar, bedel, na porta controlando a entrada e uma moçada que tinha tudo a ver comigo.

Entrei e fui muito bem recebido por todos, pessoal alegre, de bem com a vida. Conversei com o Prof. Negrão. Diretor e fui convencido que aquela seria a melhor opção para mim. Fiz a matricula, ficando de voltar para o primeiro dia de aula no dia seguinte.

Fui para casa e minha mãe perguntou: tudo certo? Lógico mãe, tudo certo.

Lógico que dois meses depois ela foi ao Porto Seguro saber como eu estava me saindo e soube que eu não estava matriculado.

Foi um reboliço, mas já estava feito e ela se conformou, pois foi ao Ozanam e também gostou do que viu.

Ai começou a minha convivência com a Praça Roosevelt. Foram alguns anos toda manhã, na entrada e na saída do colégio. Ali ficava conversando com os amigos fazendo hora para entrar no trabalho.

Com as novas amizades, quase todas do Bixiga, a praça virou ponto encontro, meio de caminho para mim e meus amigos.

Nos fins de semana nossa diversão eram os bailinhos de garagem e do CAFE – Centro Associativo da Fazenda Estadual, que ficava na Rua 13 de Maio, atravessando a Brigadeiro.

Além de muitas paqueras e “flertes” eu tinha uma namorada na escola e dois amigos inseparáveis, Aurélio e Newtinho. Juntos íamos pra todo lado. Com o Aurélio eram mais os bailes de formatura no Pinheiros, Fazano, Casa de Portugal, Aeroporto e com o Newtinho a noite era mais musical. Ele era um fã ferrenho da Bossa Nova e não aceitava a Jovem guarda. Então eu vivia os dois lados, pois gostava e gosto de ambos. Frequentava o Teatro Record na Rua Consolação tanto nas tardes de domingo como nas noites de O Fino da Bossa.

Sobrava um tempo ainda para os fins de noite. Algumas no Som de Cristal outras zanzando pelas boates do pedaço, Stardust, Cave,  Baiuca etc.

Falando da Baiuca, na Praça Roosevelt, ao lado da Baiuca funcionava um boteco de dois portugueses, chamado “Baiuquinha”.

Boteco desses de balcão de mármore, ovos coloridos, cachaça e duas mesas para os músicos desempregados que para lá iam à procura de emprego ou de alguma “canja” na falta de alguém, um musico doente ou qualquer coisa assim.

Foi numa dessas mesas que aconteceu um fato de que não esqueço.

Estávamos tomando a “saideira” tipo duas da manhã de um sábado quando chega ao bar nada menos do que Jonny Alf.

Numa fossa muito grande. Não vale a pena aqui explicar o motivo. Sentou-se, começou a cantar junto com os presentes. Bebendo uma cerveja, pediu lápis e ali, naquele momento, escreveu em um guardanapo de papel a letra do que seria seu maior sucesso Eu e a Brisa. 

Ali também presenciamos João Gilberto querendo vender seu violão para comprar passagem para os EUA, pois aqui não via chances de sucesso, apesar de já ter gravado Chega de Saudade.

São recordações de uma época muito boa e vivida com muita alegria. Na maior parte vivida na Praça Roosevelt que será inaugurada novamente.

Fico contente que pelo menos, não me tirarão mais um lugar de recordações, mas garanto, não a deixarão com a mesma vivacidade de antigamente, isso não volta jamais a não ser nas nossas lembranças.

Por: Guilherme Carlos Graziano

7 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Guilherme, naqueles tempos você foi meu pupilo no GATO (Grupo Teatral Amad!or Ozanam). Agora inicia sua fase de autor memorialista no nosso blog.
Bem vindo

Zeca disse...

Guilherme!

Também tenho boas recordações da Praça Roosevelt, que será inaugurada novamente, assim como de vários outros lugares mencionados por você. Também frequentei o Teatro Record na Consolação, nas tardes de domingo para assistir "Jovem Guarda" e algumas vezes para "O Fino da Bossa", durante a semana e à noite. E tinha o programa do Ronnie Von, no Teatro Cultura Artística, na Nestor Pestana, logo alí, bem ao lado da Praça Roosevelt. Nem era fã do cantor, mas era um ótimo lugar para conhecer garotas e, quem sabe, dar uma voltinha... rs. Mas havia principalmente os concertos apresentados naquele teatro! Vi ali peças belíssimas, raridades no cenário musical brasileiro! Tudo isso sem esquecer das antigas boates, entre as mais famosas da época! Todo esse movimento acabava influenciando o movimento da praça, onde havia um supermercado, uma banca de flores e era ponto de encontro para namorados, numa época em que ainda não era perigoso um encontro em um local público, em pleno centro de São Paulo.
A época retratada por você foi mesmo "uma época muito boa e vivida com muita alegria". Uma época que deixou saudades.

Abraço.

Mara Capparelli disse...

Guilherme, que bacana seu texto. Adorei. Muito bacana esta sua iniciativa de escreveralgumas lembranças. Coisas assim não podem ser perdidas e devem ficar registradas. Parabéns!

Wilson Natale disse...

GUILHERME: Ótimas lembranças de um logradouro que nasceu para ser grande e que, paulatinamente, se transformou em ruínas e, por consequência todo o seu entorno foi-se deteriorando.
Minhas lembranças tem muito a haver com as lembranças do ZECA: O Teatro Cultura Artística me proporcionou grandes momentos com orquestras vanguardistas e espetáculos de dança e canto. Depois virou TV Excelsior, onde vi festivais, Brasil 66 apresentado pela grande Bibí Ferreira. Na Nestor frequentei A Galera dos Vikings que, se não me engano, foi um dos primeiros restaurantes "self service" de Sampa.
Na Praça Roosevelt, bem lá no meio dela, em cima do "queijão" (uma plataforma redonda de concreto)eu comemorei a Copa de 70!
Da Praça, depois de "trocar umas idéias" com a Senhora da Consolação, atravessava a rua - que já estava sendo alargada - e ia "tomar umas", lá no Redondo.
A Praça reformada vai ser reinaugurada. Que bom!!!
Reinaugurada, ela não trará de volta o passado. Mas, com certeza vai reavivar as muitas recordações de gente como nós que vivemos aquela Praça, ainda novinha em folha.
Gostei demais!
Abração,
Natale

Modesto disse...

Lembranças delicadas sobre a famosa praça, que, parece sua reforma vai até dezembro. Vamos aguardar, não é correto abandonar um logradouro tão bem localisado. Gostei da sua lembrança, Guilherme.
Modesto

margarida disse...

Guilherme, lindas suas lembranças desta praça que mais uma vez vai ser palco para outras historias, ainda mais de cara nova.Parabéns pelo texto!

Teresa disse...

Oi, Guilherme,
Só agora é que vi/li seu texto. Muito bom e melhores ainda suas lembranças daquela época. A Praça Roosevelt não é mais a mesma e, ainda que a fizessem igualzinha à daquela época, as cores da nossa lembrança a pintariam diferente.