sábado, 13 de julho de 2013

O falso progresso




Ao depararmos com a violência que reina nas grandes cidades, (e nas pequenas, também), tem-se a impressão de que vivemos numa época em que o materialismo impera, com tal intensidade que, melhor seria não  ter nascido.
Em outros tempos não havia tantos crimes, assaltos, sequestros, latrocínios, com ou sem a participação de menores. Principalmente em São Paulo. Verdade, isso? Nem tanto.
Se atentarmos, só  com o aumento da população em 50 anos,  a poderosa e imbatível facilidade de informações resultante do espetacular progresso eletrônico, nós, dessa faixa etária podemos, perfeitamente, avaliar o resultado disso na proximidade que se nos depara com a facilidade de comunicar-se via oral, teleobjetiva, transportável, encurtando distâncias que, sendo geograficamente sempre as mesmas, se tornam tão acessíveis, de fácil alcance que tornam o mundo mais pequeno, “menor” do que antigamente.

Faço este preâmbulo em favor da grande e boa parte da população, seja aqui em São Paulo ou em qualquer cidade do Brasil, até mesmo de outros países, que mantém sua dignidade, sua postura, seu comportamento e seu desejo de formar um mundo melhor e mais humano.
Para ilustrar esta posição, como a maioria dos colaboradores deste BLOG, tenho alguns casos pra contar sobre o falso conteúdo de que no passado a vida era bem melhor e mais civilizada, onde imperava o respeito, educação, menos miséria, mais amor, mais alegria enfim, ser feliz custava bem menos.

No meu querido bairro do Braz, quando eu era garoto, década de 40 ou 50, presenciei uma orgia selvagem, protagonizada por garotos da mesma idade que eu.
Eu me conheço muito bem, posso falar do garoto de 8 a 12 anos com muita liberdade e sei dos meus limites, de minha coragem, de minha esperteza, da minha indolência, de minhas fraquezas, da minha gula, dos meus sonhos, fantasias, onde a realidade era um trampolim pra eu alcançar tudo o que eu amava e queria. Sempre tive bons amigos, sempre fui feliz, nunca me deixava levar por atitudes torpes, covardes, mantinha (e mantenho até hoje, graças a Deus) uma linha de conduta onde a maldade não tinha (e não tem) morada.

Gostava, como todo garoto nessa idade, de brincar, jogar bola, “esconde-esconde”, “uma-na-mula” e toda a parafernália de  jogos infantis. Colecionava figurinhas, jogava “bafa-a-bafa”, etc. Difícil entrar numa briga, tão comum nessa idade, tinha medo, não me atraia socar (e levar, também).

Numa tarde, junto com estes garotos, estávamos brincando quando apareceu o “valentão”, o Andó, de triste memória que, dentro dos limites possíveis e imagináveis de um garoto de nossa idade, praticar um mal, voluntariamente, era fácil, pra ele. Nas rodas da turminha, ele “ensinava” como nascia uma criança. Com tenra idade, contava com detalhes todo transcorrer de um parto. Isso na faixa de 7 ou 8 anos. Não acreditei e deixei bem claro que era impossível uma criança sair de “buraco” tão pequeno e estreito. (naquela época os ensinamentos sobre isso não passavam de uma horta ou uma ave que sustentava no bico um bebê, vindo do céu...). Havia tempo pra tudo e todas as informações vinham no devido momento. Mas, o Andó, tinha todas as informações. Esperto demais, sempre mais vivo e, com isso se vangloriava de ser o “bam bam” e, na maioria das vezes, com uma boa dose de maldade.

Uma ocasião, no meio da turminha, chegou perto de mim com um pedaço de barbante e me intimou a ajuda-lo num “servicinho” em que todos iriam colaborar. Consistia no que, essa missão? O Andó explicou: Um vizinho descobriu uma gata que acabava de parir um bom número de gatinhos e o tal  vizinho mostrou onde estava a ninhada, num descampado da rua Assumpção. Ele queria “limpar” o terreno e pediu ao Andó, que enfiasse todos os filhotes num saco e fosse joga-los no rio Tamanduateí, ali pertinho. “Se vocês me ajudarem, vamos fazer isso, ó”: - passou o pedaço de barbante no pescocinho do filhote e o estrangulou, caindo na gargalhada falando que era mais fácil  transporta-los, sempre acompanhado do resto da turma.

Fiquei horrorizado, corri pra minha casa em prantos, minha mãe quis saber a razão e falei. Minha mãe chorou comigo, amante da natureza com poucas, achava uma selvageria sem limites, iria falar com os pais do “valentão”.
De nada adiantou, “são crianças, querem só brincar...”, respondeu sua mãe ou seu pai, não lembro direito, acho que os dois.
Deixando transparecer, com essa resposta, uma educação pouco amistosa, fui me afastando deles, selecionando novas amizades.
Obrigado.




Por Modesto Laruccia

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Aniversário do blog



Neste último mês de Junho (2013), nosso blog completou 3 anos.
Muitos textos, muitas fotos, muitas histórias pudemos ver e ler aqui. Já são 679 textos publicados, recheados de emoções.
Não fosse a colaboração de nossos amados e respeitados autores, esta meta jamais seria alcançada. O blog ainda é o que é, graças aos textos geniais, às histórias fantásticas trazidas por estes escritores, contadores de histórias.
Ao criarmos este espaço humilde era nossa intenção agregar os amigos e amigas, autores do site São Paulo Minha Cidade que, havia algum tempo, estava parado. Hoje, percebo que, mesmo o site tendo voltado à ativa, com seus altos e baixos, os colaboradores do blog continuaram perseverantes também aqui no blog, acrescentando brilho a este trabalho e trazendo novos amigos.
Sou imensamente grata por tudo isto. E espero continuar recebendo estas histórias maravilhosas de todos os queridos autores deste blog.
Que Deus os abençoe com muita saúde, sempre... Sustentando a todos na palma de Sua mão.
Parabéns a todos!
Muita paz!


Por Sonia Astrauskas

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Luzes que se apagam




Estava demorando. Diria que a luz estava pisca piscante, e ameaçava sumir a qualquer instante. Há muitos anos que o Cine Lumiére estava ali, na Joaquim Floriano.
Simples, honesto, com bela seleção de filmes, um remanescente da nossa época de juventude, do cinema de rua, que existia em qualquer bairro, e também no Centro de São Paulo, estes majestosos e em grande número.
Vi muita coisa boa ali, na simplicidade do cine decente e barato. Quase todos Woody Allen que assisti, filmes franceses, argentinos, italianos e nacionais. Nem estacionamento pagava; parava na ruazinha bem próxima e, em poucos passos, lá estava.
E ainda pegava pouco trânsito; era só descer a Santo Amaro, subir para a Joaquim Floriano e logo veria a humilde fachada. Uma vez, faz tempo,  perdi durante uma sessão um belo relógio Fóssil, que havia comprado na Macy´s, de Nova Iorque.
Só me dei conta ao sairmos na rua noturna. Voltamos, avisei na gerência, mas sem esperanças. Pois não é que me ligam, no dia seguinte? O excelente baixinho bilheteiro, que ainda há pouco trabalhava lá, o havia encontrado, varrendo a sala.
Querem cine melhor do que este? Pois é, bom demais para acreditar e, por isto mesmo, não existe mais. O Lumiére claudicava. Certa vez fomos ver um belo desenho francês, O Mágico. Feito a mão, como nos bons tempos, com a história de um ilusionista decadente, inspirado em Jacques Tati, que só encontrava plateias vazias, como estava no momento a do velho cine. Antes de o filme terminar, o Fim chegou, pensei. Logo, cerrar-se-ão cortinas e portas do espetáculo.
Ainda assim, o cineminha aguentou mais um tempo, e chegamos a encontrar sessões quase lotadas. Quase sempre pelos mesmos frequentadores; pessoas da terceira idade do bairro, que iam mais pelo hábito, nem tanto pela programação que, volto a afirmar, eram de primeira.
Ainda voltamos a ele, talvez há um mês. Mas, agora, na sessão de reclamações do suplemento da Folha, o atestado de óbito. Um espectador saudoso lastima, e com razão; a última sessão do cinema fora no dia 20 de Junho.
Um dos últimos cines de rua, de uma cidade em que sair na rua é cada vez mais uma aventura para audazes. Mais um pedaço bonito do passado que se encerra.
O Lumiére, tênue chama que se apagou discretamente, como sempre existiu.



Por Luiz Saidenberg

terça-feira, 2 de julho de 2013

Desabafo




Pois é, amigos do recém falecido site, SPMC, assassinado por delinquentes da fauna "populista" que infesta nossa querida SP. Fomos derrotados pelos tentáculos desse maldito "polvo" que é a política. Um prefeito que nada tem haver com nossa querida cidade, caindo de paraquedas no trono municipal, ninguém sabendo de onde veio, comandado por um partido cujo patrono nem paulista é. Estávamos tranquilos em nosso cantinho, sempre dentro dos padrões impostos pela equipe, sem envolvimento com política; de repente, com a revoltante "compra de votos", se elege, vencendo até o Sr. Serra, sufragado pelos votos de "nossos queridos conterrâneos", que aqui vivem. Não tenho preconceito e nem sou bairrista fanático, (só um pouquinho), mas ter que "engolir" goela abaixo um estranho no ninho, deixando-nos sem o SPMC,  é demais, insuportável, indigesto; não podemos, simplesmente, cruzar os braços, este site é nosso, por direito adquirido. Eu sei que você tem seus afazeres, Sonia, suas atividades não podem sofrer interrupções, precisamos comunicarmo-nos no maior número possível de voluntários, a fim de aguentar até a coisa melhorar.
Já somos aposentados, com salários de "fome", atravessando uma faze da vida atingindo a idade provecta, (nem todos, evidentemente) limitados por dezenas de motivos, uma das poucas distrações que desfrutávamos, era este site.

Não vou perder a linha, tenho que respeitar meus colegas e a vc, principalmente, que sofrem comigo, mas, a vontade que tenho de berrar nomes de origem pouco decentes, aaah, isso eu tenho, vocês podem imaginar o que quiserem, mas a realidade é bem pior.



Por Modesto Laruccia

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ontem à noite sonhei




Para ouvir "A pequenina cruz do teu rosário" com Carlos Galhardo, clique no play


Texto original, sem edição da moderadora

Desliguei o televisor, fechei a janela, pois o ar frio que entrava por ela já estava me incomodando, meus familiares já tinham ido dormir e tudo estava em silêncio, sob a luz do abajour fechei os olhos e aboletado na poltrona acabei adormecendo e sonhei que estava na Av. Rio Branco tomando uma sopa de legumes no antigo restaurante Palladium, em seguida fui ao Táxi-Dancing Avenida para encontrar meus amigos, no momento quem executava as músicas era o conjunto de Tobias Troisi,  resolvi dançar e convidei uma dama que estava na primeira fileira à esquerda da entrada da pista, saímos dançando e lá no palco o crooner do conjunto cantava uma seleção de boleros...

                        "Garçon amigo apague a luz da minha mesa
                          Que eu não quero que ela note em mim tanta tristeza
                          Traga mais uma garrafa hoje eu vou me embriagar
                          Quero dormir para não ver outro homem em meu lugar...
a música segue e logo o cantor interpreta:
                          "Esta noche quiero vivir todos my suenos
                           Y en tus brazos quiero sentir que soy tu dueno
                           Ai, abrazame, convidame com besos, que junto a ti
                           Quiero dormir mi sueno eterno...
a seleção continúa...
                           "Malvada mi alma has destroçado
                             El amor que te di por otro lo has cambiado
                             Tú précio puedo haberlo pagado
                             Es demasiado tarde, muy caro lo has cobrado...
o cantor sai e entra a crooner cantando:
                             "Se quizer fumar eu fumo
                              Se quizer beber eu bebo
                              Não interessa a ninguém
                              Se o meu passado foi lama
                              Hoje quem me difama
                              Viveu na lama também...
ela segue cantando...
                              "Pintor nascido em mi tierra
                               Con el pincel extranjero
                               Pintor que sigues em rumbo
                               De tantos pintores viejos
                               Aunque la virgen sea blanca
                               Pintame angelitos negros...
retorna o cantor interpretando...
                               "Percal...
                                Te acuerdas del percal?
                                Tenia quinze abriles,
                                Anhelos de sufrir y amar,
                                De ir al centro, triunfar
                                Y olvidar el percal...
 para terminar a seleção de boleros ele canta...
                                "Rosa de maio
                                 É meu desejo
                                 Mandar-te um beijo
                                 Nesta canção
                                 Rosa de maio
                                 Neste poema
                                 Tu és o tema
                                  É a inspiração...
a cena no sonho muda e agora estou no táxi do meu amigo Batanão, é madrugada e no rádio do carro o Galhardo canta....
                                  E sempre que eu a via recordava
                                  Do nosso amor a fantasia louca
                                  Todas as vezes que a pequena cruz beijava
                                  Eu beijava febril a tua boca...
logo muda para um samba que o Alcides Gerardi cantava...
                                 Ô Antonico vou lhe pedir um favor
                                 Que só depende da sua boa vontade
                                 É necessário uma viração pro Nestor
                                 Que está vivendo em grande dificuldade....
a patroa acorda, vem na sala e diz para eu ir dormir na cama, levanto do sofá e vou para o leito feliz e contente por ter tido um sonho tão agitado. 
                                                             



 Leonello Tesser (Nelinho)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

MEMÓRIAS FÚNEBRES



Sou partidário da opinião que o homem começa a morrer imediatamente após o seu nascimento. Esta convicção é real e totalmente coerente. Não quero, com ela, afirmar que sabemos quando iremos morrer, apenas sabemos que a morte é inevitável, inexorável, e cada vivente está sujeito a morrer desde o primeiro instante de vida. O grande barato é não termos, absolutamente, nenhuma pista de quando se dará pó fim de nossa vida, a menos que decidamos, em ato extrema covardia ou desespero, darmos fim a ela com nossas próprias mãos.

Ora muito bem, no intuito de melhorar os fluidos e o ambiente, desanuviemos um pouco este texto tétrico, cabe-me o dever de explicar minhas intenções.
Resolvi abordar o temo “morte” e, mais especificamente, dissertar dobre “velórios”.

Atualmente, não sei por que carga d’água evita-se falar ou mesmo mostrar às crianças, sobre mortes e seus rituais.

Já me disseram que se faz assim para salvaguardar os representantes infantis, de assuntos cruéis e que representem perdas inevitáveis. Vamos contar às crianças que aquele avô que lhe enchia de balas e guloseimas, se transformou em mais uma estrelinha no céu, que aquela tia rabugenta, agora está voando entre os planetas com asas feitas de penas de espanador (será que elas ainda sabem o que é um espanador?).

Para se evitar choques, tomamos a decisão de não mostrar os mortos, devidamente encaixotados, mesmo que transformados em jardins floridos, mesmo que os ambientes dessas mostras sejam salas de velórios públicos, bem iluminados e arejados.

Eu, sou remanescente dos anos 40 quando as famílias não tinham tais preocupações, muito menos tinham à sua disposição salas de velórios publicas.

As mortes eram choradas e sentidas dentro dos limites das suas próprias residências. Para tal, as famílias locavam nas funerárias a ESSA (estrado de madeira para apoiar o caixão do defunto) e a armavam, de preferência na sala de jantar, juntamente com os demais acessórios.. Enfileiravam ao redor dela várias cadeiras para que as pessoas pudessem se sentar e enfrentar todo o ritual do velório, que normalmente, atravessava uma noite inteira e parte do dia posterior, até que o féretro fosse conduzido ao cemitério.

Na sala onde aconteceria o velório, as janelas eram cobertas com cortinas pretas ou roxas, debruadas em dourado e também locadas da agencia funerária. As coroas de flores também eram alocadas ao lado do caixão. Os quatro cantos do caixão eram guardados por quatro castiçais enormes e com velas mais enormes ainda, que ardiam durante toda a cerimônia.Tinha também um aparelho elétrico que ligado à tomada ozonizava e desinfetava  o ambiente.

Como parte oficial do velório, as mulheres sentavam-se na sala, confortando-se umas às outras, ora rezando, ora conversando aos sussurros. As crianças corriam e brincavam, desobedecendo  as ordens das mães que queriam vê-las quietas respeitosas (doce ilusão), mas não se impressionavam em demasia com o acontecimento.

Os homens, em grupos, se colocavam à entrada da casa ou no quintal dela, perto porém, da garrafa de cachaça ou do bule de café quentinho, que eram na certeza, as bebidas mais consumidas na ocasião.

A família, além de prantear o morto, era incumbida de preparar os comes e bebes, por que velar o morto carecia de dar trabalho aos dentes dos presentes. Então, durante a madrugada, servia-se uma canja forte, uns lanchinhos de pão com mortadela e ou outro recheio qualquer.

Eu posso afirmar que participei de alguns velórios lá na casa da Rua Augusta. Que eu me lembre, foram os velórios de minha avó, do meu avô e da minha tia e nunca me impressionei pelo ritual.

Aliás, as mulheres de antigamente, quando sabiam que uma pessoa tinha medo de velório recomendava que ficasse de frente aos pés do defunto, segurasse nos pés do dito cujo e fizesse, um pedido para  ele levar seus medos para as profundas dos sete palmas. Diziam que era uma simpatia prá lá de boa. Não posso afirmar a eficiência a  pois nunca precisei fazer uso desse expediente mágico.

Bem, depois dessas divagações todas, eu me pergunto, será que vale a pena toda essa blindagem moderna às crianças de hoje?



Por: Miguel Chammas

terça-feira, 11 de junho de 2013

DE COMO VESTIR UM DEFUNTO, SER AMEAÇADO DE LINCHAMENTO E QUASE PERDER O EMPREGO.



Manhã fria, garoenta, em São Paulo, não lembro datas, dia do mês, nada, mas creio que foi em 1978 ou 79 que se passaram os fatos que de vez em quando vem atazanar meu sossego de aposentado caraminholando minhas lembranças... tem ocasiões que eu rio dos acontecidos, mas não é sempre...
Íamos, eu e meu colega Fernando, começar a desembrulhar o 'pacote' que estava nos esperando no primeiro terço do túnel do HC; a maca com o corpo estava a uns 20 ou 30 metros da grande porta de madeira que dava para a Radiologia...
6:40 de la matina, começo da passagem de plantão na Neurologia. Desço do elevador no 5º andar, vindo do vestiário. Noto que as colegas que trabalharam à noite, quando me veem, sorriem e dão um suspiro de alívio, um grande 'ainda bem' ou um 'graças a Deus'.
"Aí tem coisa", pensei... e tinha!

- Seu Joaquim, tem um 'pacote' no túnel, logo na entrada, que precisa ser vestido e levado para o pessoal da Faculdade; evoluiu prá óbito logo no começo da madrugada...
- Desculpe, Enfermeira, mas porque os colegas do plantão da noite não levaram o corpo? Não tiveram tempo?
- Até que tiveram, mas no meio do caminho chegou um pedido do Palácio dos Bandeirantes... parece que o falecido tinha qualquer coisa a ver com algum figurão. Vai para um velório de bacana não sei onde e o caixão vai sair da Faculdade.Trazer o corpo de volta?... esquece! Naquela mala - apontou - estão as roupas prá vestir o cadáver...
- Já vi tudo... posso levar alguém comigo? Sozinho eu não vou conseguir.
- Leva o Fernando... vocês não estão sempre juntos?

O Fernando era um colega bem mais novo que eu, com seus 20 e poucos anos. De formação era Técnico Agrícola, mas como não conseguia emprego em Getulina, sua cidade natal, veio para São Paulo, onde prestou alguns concursos públicos e terminou por entrar no HC como Atendente; totalmente jejuno em Enfermagem, aproveitou muitíssimo bem o mês de treinamento - cuidados básicos com o paciente acamado e dependente banho de leito, abordagem e alimentação do paciente, condução do paciente em maca ou cadeira de rodas, auxílio na deambulação, um rápido curso para exercer a função de pau para toda obra dentro de um hospital...

- Vamos logo que tem um defunto esperando a gente no túnel...
- Dá um tempo, Juca, acho que vou tomar um café e fumar um cigarro e depois a gente vai...
- 'Num' dá, Fernando... Vamos acabar logo esse parangolé se não vai atrasar tudo, tem os banhos, troca de lençóis, o café dos pacientes, relatórios ...depois você fuma...!

Nos anos 60s e 70s (não sei como está a situação hoje) o túnel que liga o HC à Faculdade na Dr. Arnaldo tinha sua entrada na Radiologia, no 3º andar; uma grande porta de madeira, padrão bem antigo, solene, era a boca da caverna de horrores.

- Pegou as chaves do túnel?
- Peguei... a Enfermeirona-Chefe disse que as meninas que trabalharam à noite não teriam força prá preparar o corpo e...
- 'Tá bom, 'tá bom, 'tá legal... é muito blábláblá... no duro, no duro, a verdade é que sobrou prá gente... e, pelo que eu estou vendo, ainda vamos precisar higienizar o corpo... mão de obra prá c..........!

Começamos a expor o corpo que estava envolto em dois lençóis:
- "Vamos na manha, não sei se fizeram um tamponamento decente... pianinho, pianinho... devagar, devagar... xííí, o defunto já empedrou...vai complicar prá vestir a roupa... vamos dar uma lavadinha nele e ver cumé que fica esse negócio de terno, gravata, meias, sapatos...
- Vai vestir a cueca nele?
- Se tiver cueca prá vestir, a gente veste, uai!...

Afastamos os lençóis e expusemos o rosto:
-IIIh! Fernandão, não fecharam os olhos do morto; ele está com as butucas esbugalhadas...
- Deixa eu ver...
- Não olha nos olhos do morto, não deixa ele te encarar... melhor ir por trás da cabeça e fechar as pálpebras... vai precisar fazer uma forcinha e prender com micropore...
- 'Tá! Mas porque não posso olhar os olhos do defunto?
- Superstição, coisas da Enfermagem... encarar os mortos que estejam com os olhos abertos dá azar... faz você perder a coragem; amarrar as pontas dos lençóis prá 'segurar' vivos os terminais; não pronunciar certas palavras na presença de pacientes; começar os banhos de leito pelos rostos, sacumé, né?... você não precisa acreditar, mas é bom não abusar nem achar graça nesses procedimentos, vai que...!
- Bobagem, Juca!
- Ah é? Então faz um olho no olho com o falecido...
- Eu não...
- Não falei?...

Passada a parte mais fácil dos procedimentos, tratou-se então de vestir o defunto. Sabíamos do complicador que teríamos com o rigor mortis estabelecido; felizmente existe uma técnica para vestir a parte superior de um corpo numa situação igual àquela que se apresentava; essa técnica - ou truque - é executada com certa facilidade por pessoas com um mínimo de experiência; no entanto, da cintura prá baixo é que a porca torce o rabo; normalmente é difícil vestir um corpo em estado de rigidez total e, para complicar tudo, estávamos num subsolo, num túnel estreito, escuro, frio, sombrio, lúgubre, sem lenço, sem documentos e com um cadáver de uns 90 kg, seminu ou semi vestido, tanto faz como tanto fez!
Por não conseguirmos manipular o corpo sobre a maca bastante instável, foi preciso colocar o cadáver em pé para poder vestir a cueca e a calça em seu corpo endurecido; o Fernando, com a mão em seu peito, segurava-o encostado a uma parede enquanto eu, agachado, tentava terminar de vesti-lo...
Aconteceu então abrirem-se as portas do inferno... ou, dizendo melhor, algum alguém conseguiu abrir a porta da Radiologia e, como todo mundo está cansado de saber, a curiosidade matou o rato etc, etc; de repente umas 15 pessoas começaram a caminhar túnel adentro, conversando, fazendo piadas e rindo até darem de cara com a cena absurda formada por dois homens e um cadáver! Gritos, espanto, caminho de volta aos berros e na correria, burburinho, choro, comentários em todos os níveis, vozes, altercações, chamem os seguranças...!...

Voei até a porta escancarada e a fechei com força; dei duas voltas da chave na fechadura e fiz uma checagem com a maçaneta; a porta se abriu; fechadura quebrada. Fora assim que os falsos espeleólogos curiosos conseguiram entrar no túnel... as chaves só estavam funcionando pelo lado de fora...
Terminamos rapidamente nossa tarefa e saimos de volta para o ambulatório da Radiologia onde, evidentemente, não fomos recebidos com aplausos. Quase podíamos sentir aqueles dedos, quase físicos, nos apontando: "são aqueles lá!"... e aquele elevador que não chegava... "vão acabar linchando a gente"!
Voltamos para a clínica prontos para encarar uma demissão por justa causa, na melhor das hipóteses. Ao entrarmos no corredor da Neuro vimos que o rolo estava armado; a própria diretora de Enfermagem do HC, a nossa chefe e as Enfermeiras encarregadas estavam nos esperando, algumas delas com um sorriso de vírgula e um esgar sádico na face..."É hoje que o couro come", pensei; as mãos do Fernando tremiam...
No entanto, tudo acabou bem; conseguimos explicar os problemas da fechadura, das pessoas que, por curiosidade abriram a porta e entraram no túnel, o vestir o defunto em pé...
- É, 'seu' Joaquim, vocês deveriam ter checado se a porta estava fechada, realmente...
- Falha nossa, Enfermeira, reconheço... mas, se a Manutenção tinha conhecimento do problema, podiam pelo menos ter colocado uma tramela na porta...
- Tramela?... Faz-me rir...

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Um comentário final: Hoje em dia um acontecimento desse naipe seria inadmissível; funcionários não pertencentes ao corpo de Enfermagem são treinados para executar técnicas de preparação de óbitos e as próprias funerárias tem pessoal em suas dependências para vestir e maquiar os mortos sob seus cuidados... não podemos esquecer que o que foi narrado aconteceu 40 ou quase 50 anos passados... eram outros tempos e outros procedimentos...



P/ Joaquim Ignacio


quinta-feira, 30 de maio de 2013

O PEDIATRA




Pediatra nem sempre acerta. Quando minha segunda filha nasceu eu já conhecia o Dr. Luiz, por ser um medico de nome no bairro de São Miguel Paulista e por ter cuidado muito bem da minha primeira filha e dos filhos de meus amigos.

Logo na segunda semana após o seu nascimento, fui até seu consultório levando nos braços a minha pequena Mariana, que não estava aceitando o leite que o hospital havia recomendado (não sei bem porque, mas eu não tinha leite para amamenta-la). Após exame clinico, Dr. Luiz mudou o leite e me tranquilizou. Fui para casa com a esperança que ela iria devorar a mamadeira, com certeza devorou, mas por pouco tempo, regurgitava tudo que havia entrado.

 Volto ao medico para mais uma tentativa e nova mudança do leite, mas nada animador ela regurgitava toda vez que mamava. Dr. Luiz já não sabendo mais o que fazer, pediu então para que seu filho, também pediatra, pegasse o caso, mas não obtivemos resultado de melhora.

Como a situação estava ficando precária, resolvi levá-la ao hospital do Servidor Publico Estadual situado na Avenida Ibirapuera, 981, em Moema.

Neste hospital, minha pequena foi internada imediatamente, pois havia perdido muito peso. Fizeram vários exames e foi constatado salmonela, uma bactéria que os bebês podem pegar no local em que nascem nos informou a pediatra. Para que ficasse recuperada totalmente ela ficou nove dias internada.

Todos os dias eu e meu marido íamos vê-la para acompanhar sua recuperação. A pediatra responsável pelo caso era muito atenciosa e nos passava o relatório completo do dia e assim ficávamos confiantes de que tudo ia passar, até o dia em que pude trazê-la para casa novamente.

Decorrido um mês, veio uma recaída, então não tivemos duvida, voltamos ao mesmo hospital e lá deixamos a pequena por mais sete dias. Desta vez tivemos a sorte de encontrar o Dr. Roberto, um pediatra que realmente gostava do que fazia.

 Após a alta de minha filha, ele nos pediu para que fizéssemos o controle mensal de consultas durante o primeiro ano de sua vida no próprio hospital onde ele se ofereceu para ser o pediatra permanente. Claro que aceitamos apesar do hospital ser longe de casa, valia a pena pelo carinho e interesse do Dr. Roberto, que aos poucos foi ganhando nossa confiança e o carinho da nossa pequena.

Com a ajuda do Dr. Roberto, a Mariana foi se desenvolvendo e ganhado peso de uma forma saudável. Nunca o esqueci, hoje não sei mais onde ele se encontra, mas sou muito grata por tudo que fez pela minha filha.

Não sei como anda este Hospital atualmente, mas naquela época pude constatar que o setor de pediatria era um dos melhores de São Paulo. Nota dez para a higiene, limpeza, recursos, pelos ótimos médicos e o mais importante o carinho que seus profissionais tinham pelas crianças. Tomara que tenha continuado assim até os dias de hoje!

A Mariana cresceu com saúde e hoje ela é mãe da Lícia.



Por: Margarida Peramezza  

sexta-feira, 24 de maio de 2013

UM CASAMENTO DE “SONHO DE VALSA” COM “DIAMANTE NEGRO” - (de quebra, uma “prótese remendada”)


Por volta das décadas de 1960\70\80, minha atividade de representante comercial da Pan Brasil, indústria de embalagens, (já extinta), além de proporcionar satisfação pessoal e profissional, tinha, também a grata e sempre apreciada relações e conhecimentos com pessoas, das mais variadas procedências, etnias, atividades, cultores de vida regrada, extravagantes, sóbrios, arrogantes, modestos, simples, corretos, de destaque social enfim, dentro do universo imenso que o panorama oferece. Se formos traçar uma metáfora com  as mais diversificadas cores do arco-íres, recorreremos aos tons mais sofisticados, enriquecendo sobremaneira, a quem  interessar possa, ter conhecimentos do perfil humano que existe em cada um dos contatos.

Nestas emoções contatei com as mais expressivas empresas, principalmente de alimentação, o setor onde mais me identifiquei.  Apesar de contatar, também com laboratórios na venda de material pra blister, não foi muito profícua minha atividade nesta linha. Tinha a ventura de oferecer meus produtos a empresas do porte de uma Nestlé, Confiança, (na época, Tostines), Bela Vista, Mirabel, Sal Cisne, Neusa, Lacta, Wickbold, Pão Pullman, Bauducco, Chiclet Adams, Chocolates Pan, Arcor e algumas, de outros municípios e cidades, formando um leque de clientes de respeito e consideração.

Em cada um deles sempre tem algo de interessante pra gente contar. Alguns, com certa intimidade que recorremos ao silêncio, deixando pra uma ocasião mais propícia. Vou focar, de princípio a Lacta onde, além de vários funcionários, conheci o dr. Adhemar de Barros Filho, detentor, na época, da presidência da empresa, senador, personificação da simpatia, respeito e bondade em uma pessoa de prestígio.

Ao passar, hoje pelo local onde estava instalada a Lacta, na Barão do Triunfo, Brooklyn, com uma bela e impressionante área industrial, (hoje, só prédios de apartamentos, em vez do doce aroma de chocolate, aspira-se... bom, deixa pra lá)  dá vontade de chorar, lembrando de produtos populares como Bis, Diamante Negro, Sonho de Valsa, barras e Ovos de Chocolate Lacta, balas e outros bombons, todos identificados com São Paulo, cidade que os viu nascerem, desde a pequena instalação na José Antonio Coelho, na Vila Mariana.

Entre meus contactos na Lacta, lembro bem do Roberto Pascoal, do José Palhares, do Roberto Casagrande, do Codadá, secretário do dr. Adhemar, hoje meu vizinho, vários outros que a memória me escapa.
O grande desafio que os fornecedores de embalagens enfrentavam (ainda enfrentam...), era acertar a tonalidade do “rosa fanal”,  tonalidade do envoltório do bombom Sonho de Valsa, símbolo de uma era paulistana, cuja embalagem, até hoje conhecida, foi desenvolvida por José Tcherkasky, (Toga), uma das maiores industrias de embalagens da América do Sul. Além da tonalidade há o problema da fixação da tinta no celofane. Por isso essa cor é proveniente de uma anilina importada (na época) caríssima, depois da impressão, a transparência permite um vislumbre metálico, com o fundo de alumínio que envolve o bombom.  Se, porventura algum fornecedor, pra vencer uma concorrência, utilizar uma tinta mais barata, o material é testado em câmeras próprias, como se o bombom estivesse exposto numa vitrina, perde, de imediato a cor, o “rosa” desaparece e o celofane fica transparente. O material é totalmente devolvido e esse fornecedor perde o cliente, também. E com o restante dos produtos, ocorre o mesmo.

Os contatos sempre foram dentro do maior respeito e camaradagem, sem as inoportunas e malsucedidas negociações tão comuns, hoje em dia, na política. Tanto isso é um fato que mantenho amizade, até hoje,  com vários contatos desde aquela época. Todos sabem que quando as negociações são concluídas com distorções nebulosas, ambas as partes evitam, o máximo, um inesperado reencontro.

Dentre estes funcionários da Lacta, se encontrava o simpático e correto comprador José Palhares, moço, noivo preparando-se pra casar.
Numa ocasião, a Lacta, festejando 50 anos de fundação, celebrou, (não lembro o ano), oferecendo farta comilança e, de alegria, a voz do show-man, Toquinho, pela qual, recebi um convite pra mim e minha esposa. Formidável, pelo show e pela deferência, graças a interferência do Palhares, guardo até hoje um CD do Toquinho.

Chegou o casamento do Palhares, a ser realizado em Iacanga, sua cidade natal, localizada na região de Bauru. Palhares não só me convidou, me intimou a ir ao seu casamento. Disse a ele que não conhecia Iacanga, nem de nome quanto mais, chegar lá.  –
“É fácil”, disse Palhares, “vc vai pela Castelo Branco, até o fim, quando chegar a Bauru, ao invés de entrar a esquerda, entre a direita, pronto, já estas em território iacanguence. São “só” 400 quilômetros, (ou mais), não precisa se preocupar com a volta, (casamento num sábado), vocês vão pousar na casa da minha tia; na cidade tem algumas pensões, mas pra uma noite só, minha tia garante.”

Infelizmente não lembro do nome dessa tia do Zé mas, (vamos chama-la de dna. Vera,) da sua acolhida, sua recepção, seu carinho e gentileza, nunca mais vou esquecer. Que gente boa que existe nesse interior afora, meu Deus, dava a impressão de ser eu o noivo e não seu sobrinho. Com nosso Opala, pegamos a estrada bem de manhãzinha e completamos a viagem tranqüilamente.
O casamento foi realizado num descampado atrás da residência de dna. Vera, com aquela fartura que só estas famílias sabem proporcionar. Churrasco, a vontade e outras variedades de salgados, doces caseiros, bebidas acompanhada sempre de músicas populares e sertanejas. Um casamento pra nunca mais se esquecer.

Aí ocorreu o principal fato que obrigou minha memória a solidificar, mais ainda, essa lembrança. Estava com a Myrtes, saboreando uma deliciosa bisteca quando, ao morder o referido naco, senti, na boca, algo estranho, corri pra toalete, abri a boca e, apavorado, percebi logo o que acabava de acontecer: minha prótese inferior partiu, quebrou, “porca miséria”, como iria continuar a comer, como iria conversar, como explicar, que vergonha,  que raio de azar o meu.
Procurei logo o noivo e lhe contei o ocorrido.  –“Pô, Modé, tenho certeza que o nosso boi não era tão velho assim, acho que você mordeu o osso,” falou o Palhares, caindo na gargalhada. Eu, com a boca de “chupa-ovo”, não sabia o que falar e, aí veio em meu socorro a tia Vera. A pedido do Palhares ela indicou um dentista que estava no casamento.
O “tiradentes” me levou ao seu consultório, bem pertinho dali. De princípio, fiquei com receio, o pseudo consultório tinha de tudo. Galinhas, patos, pintinhos, um cesto com ovos, frutas, de várias espécies e... uma poltrona. Convidou-me a sentar e, vendo minha cara explicou: Tenho alguns pacientes sem condições de arcar com uma obturação ou qualquer outro servicinho e eles me pagam com espécies das mais variadas origens...

Em poucos minutos, arrumou a prótese e voltei a gozar da festa. Bem a noite, os noivos foram pra sua viagem de núpcias e nós, eu e a Myrtes, nos recolhemos a um dormitório aconchegante, lençóis limpinhos, cobertores perfumados, até. De manhã, (queríamos sair bem cedo), dna Vera, nos despertou com um café da manhã “5 estrelas”. Salgados, frutas, doces caseiros, bolos e um cesto, com as melhores guloseimas que dna Vera produziu. 


Quando reencontrei o Palhares ele me explicou que sua tia tem um “coração de ouro”, e que quando ele falou de mim, ela nem quis saber mais nada, “pode trazer seu amigo aqui, ele será bem atendido” E, fui... nunca vou esquecer essa bondosa e educada senhora, infelizmente, nunca mais voltei a Iacanga, o Zé Palhares sempre morou aqui em São Paulo. E vou dizer outra coisa, a emenda na prótese dura até hoje.


Por: Modesto Laruccia