Ao depararmos com a violência que reina nas grandes cidades, (e nas
pequenas, também), tem-se a impressão de que vivemos numa época em que o
materialismo impera, com tal intensidade que, melhor seria não ter
nascido.
Em outros tempos não havia tantos crimes,
assaltos, sequestros, latrocínios, com ou sem a participação de menores.
Principalmente em São Paulo. Verdade, isso? Nem tanto.
Se atentarmos, só com o aumento da
população em 50 anos, a poderosa e imbatível facilidade de informações
resultante do espetacular progresso eletrônico, nós, dessa faixa etária
podemos, perfeitamente, avaliar o resultado disso na proximidade que se nos
depara com a facilidade de comunicar-se via oral, teleobjetiva, transportável,
encurtando distâncias que, sendo geograficamente sempre as mesmas, se tornam
tão acessíveis, de fácil alcance que tornam o mundo mais pequeno, “menor” do
que antigamente.
Faço este preâmbulo em favor da grande e boa
parte da população, seja aqui em São Paulo ou em qualquer cidade do Brasil, até
mesmo de outros países, que mantém sua dignidade, sua postura, seu
comportamento e seu desejo de formar um mundo melhor e mais humano.
Para ilustrar esta posição, como a maioria dos
colaboradores deste BLOG, tenho alguns casos pra contar sobre o falso conteúdo
de que no passado a vida era bem melhor e mais civilizada, onde imperava o
respeito, educação, menos miséria, mais amor, mais alegria enfim, ser feliz
custava bem menos.
No meu querido bairro do Braz, quando eu era
garoto, década de 40 ou 50, presenciei uma orgia selvagem, protagonizada por
garotos da mesma idade que eu.
Eu me conheço muito bem, posso falar do garoto
de 8 a 12 anos com muita liberdade e sei dos meus limites, de minha coragem, de
minha esperteza, da minha indolência, de minhas fraquezas, da minha gula, dos
meus sonhos, fantasias, onde a realidade era um trampolim pra eu alcançar tudo
o que eu amava e queria. Sempre tive bons amigos, sempre fui feliz, nunca me
deixava levar por atitudes torpes, covardes, mantinha (e mantenho até hoje,
graças a Deus) uma linha de conduta onde a maldade não tinha (e não tem)
morada.
Gostava, como todo garoto nessa idade, de
brincar, jogar bola, “esconde-esconde”, “uma-na-mula” e toda a parafernália
de jogos infantis. Colecionava figurinhas, jogava “bafa-a-bafa”, etc.
Difícil entrar numa briga, tão comum nessa idade, tinha medo, não me atraia
socar (e levar, também).
Numa tarde, junto com estes garotos, estávamos
brincando quando apareceu o “valentão”, o Andó, de triste memória que, dentro
dos limites possíveis e imagináveis de um garoto de nossa idade, praticar um
mal, voluntariamente, era fácil, pra ele. Nas rodas da turminha, ele “ensinava”
como nascia uma criança. Com tenra idade, contava com detalhes todo transcorrer
de um parto. Isso na faixa de 7 ou 8 anos. Não acreditei e deixei bem claro que
era impossível uma criança sair de “buraco” tão pequeno e estreito. (naquela
época os ensinamentos sobre isso não passavam de uma horta ou uma ave que
sustentava no bico um bebê, vindo do céu...). Havia tempo pra tudo e todas as
informações vinham no devido momento. Mas, o Andó, tinha todas as informações.
Esperto demais, sempre mais vivo e, com isso se vangloriava de ser o “bam bam”
e, na maioria das vezes, com uma boa dose de maldade.
Uma ocasião, no meio da turminha, chegou perto
de mim com um pedaço de barbante e me intimou a ajuda-lo num “servicinho” em
que todos iriam colaborar. Consistia no que, essa missão? O Andó explicou: Um
vizinho descobriu uma gata que acabava de parir um bom número de gatinhos e o
tal vizinho mostrou onde estava a ninhada, num descampado da rua
Assumpção. Ele queria “limpar” o terreno e pediu ao Andó, que enfiasse todos os
filhotes num saco e fosse joga-los no rio Tamanduateí, ali pertinho. “Se vocês
me ajudarem, vamos fazer isso, ó”: - passou o pedaço de barbante no pescocinho
do filhote e o estrangulou, caindo na gargalhada falando que era mais
fácil transporta-los, sempre acompanhado do resto da turma.
Fiquei horrorizado, corri pra minha casa em
prantos, minha mãe quis saber a razão e falei. Minha mãe chorou comigo, amante
da natureza com poucas, achava uma selvageria sem limites, iria falar com os
pais do “valentão”.
De nada adiantou, “são crianças, querem só
brincar...”, respondeu sua mãe ou seu pai, não lembro direito, acho que os
dois.
Deixando transparecer, com essa resposta, uma
educação pouco amistosa, fui me afastando deles, selecionando novas amizades.
Obrigado.
Por Modesto Laruccia













