quinta-feira, 22 de novembro de 2012

UMA HISTÓRIA DO TEATRO DE REVISTA


 
No final do ano de 1964, famoso ano do Golpe Militar, eu trabalhava em uma Revista no Teatro Santana com texto de Max Nunes com produção e direção do saudoso e na época grande homem de teatro, J. Maia, ao lado de um grande elenco composto de Celeste Aída, Rodolfo Arena, Dino Santana, irmão do Dede e sobrinho do famoso Cole Santana, mais Maria Quitéria e Judite Barbosa.
Após a seção íamos invariavelmente para o Restaurante do Papai na Praça Júlio de Mesquita, ou o Restaurante Parreirinha e até mesmo às vezes para o Moraes, onde em contato com outros artistas, ficávamos sabendo das ultimas fofocas do dia, como também tomávamos conhecimento de novos shows e de novas piadas.
Depois aqueles que participavam de shows em casas noturnas iam para o seu trabalho, e então os mais famílias voltavam para suas casas, e os sem compromissos ou aqueles que não ligavam muito para esse fato, iam badalar pela noite até a madrugada e depois ainda faziam uma hora extra na Adega do Arouche ou no Restaurante do Eduardo no inicio da Rua Augusta.
Em uma dessas noites depois do jantar, alguém que eu não me lembro mais, me convidou para fazer um show com um bom cachê em Presidente Prudente, Fiquei estão em uma sinuca de bico, pois o cachê pago para esse show de duas horas era mais que metade do meu salário mensal no Teatro.
Fui para minha casa com a cabeça queimando entre o dever para com o Teatro, e a tentação de uma viagem com um belo cachê e então, combinei para dar a resposta logo cedo no dia seguinte
Acordei depois de dormir muito mal, e então na manhã seguinte cheio de remorsos optei pelo maior ganho e combinei o show em Presidente Prudente no ginásio do Estádio da Prudentina, depois de ligar para o escritório do Teatro e deixar o recado de que eu iria faltar por luto, e que minha mãe havia falecido.
E assim eu fui à Presidente Prudente faturei o cachê, e no dia seguinte fui para o Teatro, assim que cheguei novo drama de consciência. J. Maia e os colegas solidários vieram me abraçar e trazer suas condolências. Fiz a minha participação cheio de remorsos, foi mais uma noite de muito sofrimento e consciência pesada.
O tempo passou entrou o ano de 1965, e seis meses depois do triste episodio, e então minha mãe depois de um derrame veio a falecer de verdade enquanto eu estava trabalhando.
Quando voltei para casa e tomei conhecimento que o enterro dela seria no dia seguinte às dezessete horas, eu liguei para o Teatro dizendo que não iria trabalhar, e como não mais podia dizer que minha mãe havia morrido disse que a morta agora era a minha irmã.
Acho que J. Maia não acreditou muito em minha conversa e juntamente com um secretário, foi até a minha casa na Freguesia do Ò, para ver se a minha historia era verdadeira. Eles chegaram um pouco antes da saída do enterro.
Chegaram me abraçaram deixaram suas condolências, e foram embora.
No dia Seguinte assim que cheguei ao Teatro o porteiro me avisou para passar no escritório que a direção queria falar comigo.
Fui sabendo de antemão que haveria na melhor das hipóteses uma chamada de atenção, pois sábia que aquela minha mentira agora descoberta, não haveria de ficar barato.
Preparei o meu espírito, e parti para enfrentar a situação, que pelo zum-zum dos camarins, o meu "leite" estava fervendo na panela, já que todos os colegas estavam fofocando a meu respeito, os mais chegados solidários, mas a maioria condenando.
Cheguei no escritório com cara de deputado condenado pelo mensalão, sem encontrar nenhuma remota justificativa dentro de mim, que justificasse aquela minha conduta, de deixar um espetáculo artístico na mão, sem levar em conta o desrespeito para com os colegas que tiveram que improvisar as cenas das quais eu participava, pois o Lema do Teatro e: O ESPETÁCULO NÃO PODE PARAR.
Entrei na sala onde havia mais cinco pessoas, J. Maia me esperava e aos gritos como era e é da característica da maioria dos diretores de Teatro e de Televisão, perguntou como é que eu tinha feito uma coisa dessas com ele que me deu a grande oportunidade de participar de uma Revista musical, dizendo.
- Arthur porque você mentiu e disse que foi a sua Irmã que havia morrido, e não disse a verdade, que a morta era a sua mãe?
E eu todo sem graça respondi: - Seu Maia, eu falei que foi a minha irmã, por que a minha mãe eu matei o ano passado.
Para minha surpresa, todos os presentes caíram na gargalhada inclusive o saudoso e tão querido, J. Maia.
Infelizmente quatro meses depois J. Maia também deixou esse nosso mundo, em um trágico acidente automobilístico.
Livrei-me da multa contratual, mas paguei muito caro em minha consciência pela mentira, teria sido bem melhor ter resolvido isso, com a verdade.
Por: Arthur Miranda (Tutu)

8 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Tuu, além da aventura narrada neste texto, eu me amarrei e fiquei com um baita apetite ao relembrar de todos os restaurantes por você mencionados e que, sem dúvida alguma, eram também por mim frequentados.

Mayara de Castro disse...

Muito boa a narrativa, muito boa a história. Parabéns!

Teresa disse...

Muito simpática a sua história. Aí li nomes de lugares que há muito haviam já saído das minhas lembranças e um deles é o Restaurante do Papai. Nunca fui lá, mas quando criança ficava imaginando como seria o "papai" dono daquele restaurante. Valeu a pena ter lido.

Zeca disse...

Arthur!

Muito boa a sua história e, pelo desenrolar, até que o final acabou não sendo infeliz! Só reafirma o que todos sabemos, embora nem sempre nos lembremos de que a mentira tem pernas curtas... rs.
Mas relembrar do Restaurante do Papai e do Eduardo, que eu gostava tanto, me deu uma baita saudade! O Morais é perto de casa e nosso grupo esteve lá há não muito tempo... mas o encontro deixou saudade também.
Até a próxima sexta-feira!

Abraço.

margarida disse...

KKKKKKk..., viu só o que dá ao mentir! Minha mãe já dizia que mentiras tem pernas curtas e que uma hora a verdade vem a tona. Legal que tudo terminou bem e agora chega de pagar pelo pecado, já foi de bom tamanho este peso. Lição aprendida e ganho de experiencia,muito boa a historia. Um grande beijo pra vocês.

Laruccia disse...

Tutu, em todos os acontecimentos da VIDA deparamos, sempre com uma lição, aulas de disciplima, respeito, bondade, honestidade e por aí a fora. Se atentarmos bem com as aulas, absorvemos o que nós interessa. Vc, demonstrando uma postura digna diante do que vc narrou, só tenho que elogiar e cumprimenta-lo pela sua confissão, não só por ter, humildemente contado aos seus leitores como pelo arrependimento que vinha te incomodando um pouco desde há muito. Pela minha experiência das coisas da vida, posso me dar ao luxo de conceitua-lo de forma bem positiva, pois só uma alma nobre e generosa como a sua, tem estas reações. sempre com a certza de que a sra. sua mãe e sua irmã, já te deram o aval de boa conduta. Parabéns, Arthur.
Laruccia

Wilson Natale disse...

ARTHUR:
Ahahahahahahahahaaaaaaaaa!!!
Bom demais!
O texto me fez lembrar daquele aluno que jurava à professora que havia feito a lição de casa, mas o cchorro comeu o caderno...
Ahahahahahaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
Um texto e tanto. Parabéns!
Abração,
Natale

Soninha disse...

Oieee...

História ótima e excelente passeio gastrnômico.
Valeu, Arthur!
Muita paz!