sábado, 12 de outubro de 2013

Um príncipe na Mooca



Diante da onda avassaladora de fatos relacionados com homofobismo, homossexualismo, pederatismo, com as múltiplas apresentações de peças, shows, telenovelas, radiofonizações de caráter atrativo e pedagógico, explorando estes segmentos, lembrei-me de fatos que, na época não dei a importância devida, mesmo por que, não era muito apropriado a menção  desses fatores em qualquer redação ou menção em papos de esquinas.

Pelos jornais e revistas, pode-se sentir a enorme diferença  nas publicações entre aquela época,  (1940\50\60), e atual, a recorrência de termos que, outrora, por tabus ou receios da opinião pública,  não havia abuso. Simplesmente o redator recorria a um sinônimo ou, eufemisticamente mencionava, num texto qualquer,  rebuscava toda a seqüência da crônica afim de fugir da palavra correta mas, ofensiva aos leitores alheios a esta “ousadia”.

Com a permissão dos amigos leitores, vou  recorrer ao tempo verbal, presente, o que pretendo contar.
Todos os nomes citados são fictícios, por motivos óbvios e pra que eu tenha um pouco mais de liberdade. 

Pois bem, por volta dos anos da década de 1950, na eminência de casar, trabalho numa empresa de embalagens, Shellmar, empresa americana, que esta localizada na rua Pres. Batista Pereira, travessa da av. Presidente Wilson, entre a Moóca e Vila Prudente, conhecida como “ilha do sapo”,  na função de  desenhista. Como vizinhos, temos  uma indústria relativamente nova, a Kibon, fabricante e distribuidores de picolés, popularizando a venda em carrinhos, como fazem atualmente os ambulantes de guloseimas destinadas às crianças.
Temos, também,  a Lorenzetti, Arno, Cia Antártica e outras empresas de porte.

Na Shellmar, no setor de desenho, somos três funcionários, com a grande artista Anna, alemã  que relata a nós, as atrocidades sofridas na Alemanha, perseguida que foi por ser judia. Muito simpática, mas enérgica nas atividades correlatas, como  chefe da seção. O setor de gravação de cilindros, tem, como chefe, o gravador suíço, Sr. Henri, altamente técnico, favorecido pelo empirismo,  adquiridos em seu pais.
Os auxiliares do Sr Henry, são três, o Joaquim, com mais experiência é o imediato do chefe e os outros dois rapazes,  aprendizes. Os dois aprendizes, Edson e Ademir, são negros, o Joaquim, não. Poucos meses se passam pra eu ficar sabendo que o Sr. Henry é homossexual, tem visceral preferência por negros, como parceiros e os dois aprendizes, Edson e Ademir,  são tratados com todo cuidado, respeito, carinho e paparicados por ele, sr. Henry. Os dois membros do pequeno harém do Sr. Henry, são simpaticíssimos, educados e muito bem asseados, com vestimentas muito bem selecionadas, só da “A Exposição”.

O ambiente é sempre bem amistoso, há bons papos e boas situações irônicas, como o que aconteceu com um porteiro, Benedito, negro, alto, quase dois metros de altura, mas de uma simpatia quase infantil, tanto é sua inexperiência dos fatos da vida atual. Um dia, passo por ele e noto que está com uma lâmina apontando o que parecia ser um lápis. Ele me pergunta: “Seu Mudesto, meu lápis num escreve mais, acabou a ponta e não encontro mais o grafite, por mais que tento cortar essa madeira tão dura... o Sr. pode ver se consegue?”  Logo vi que o que ele tem em mãos é a recém lançada caneta esferográfica, sem gozação, conto a ele e ele fica admirado.

Um dia desses, soubemos que foi contratado mais um gravador, de nome Waldemar Costa, moço de uns 27 ou 28 anos, também negro.
Fomos apresentados, o Waldemar é muito simpático, educado tem, nas palavras proferidas, algo que foge um pouco do português comum. Exprime bem termos poucos usuais, delicada e corretamente, sem fugir de uma conversa sobre qualquer assunto.  É delicado nos gestos, nobre nas atitudes, de uma bondade sem igual, sempre pronto a servir quem dele precisasse.

Como fanático leitor de contos policiais e de mistério,  minhas eternas suspeitas de haver algo de, não errado, mas diferente nos dias que seguem, vou a fundo. Converso com Waldemar e ele se abre comigo.  “Modesto, não sou brasileiro, sou africano, meu nome, Waldemar, é o que recebi na pia batismal da igreja católica da Moóca, onde moro. Meu nome é Faissal, sou um... príncipe, descendo de  família imperial. Meu pai, preso pelo rei Farouk, está sendo julgado por posse indevida do protetorado de sua responsabilidade.
Meu tio, irmão do meu pai, foi fuzilado, perdemos nossos bens e fugimos, eu e minha mãe, viemos para Brasil. Minha mãe, não resistiu a separação, faleceu algum tempo atrás. Estou sozinho aqui, aprendi a gravação graças a minha mãe que gozava de boas amizades, não quis ser mais muçulmana, pra mudar meu nome, fui batizado com o nome cristão, Waldemar.”




Por Modesto Laruccia

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Retornando

Olá, amigos autores e leitores deste blog!
Estamos voltando com as postagens dos textos preciosos de todos os autores e colaboradores deste humilde espaço, que tem como objetivo divulgar as belezas e peculiaridades de Sampa, sob a ótica dos próprios autores.
Nossa ausência se deu por excesso de trabalho profissional que nos levou a muitas viagens fora de Sampa. Mas, agora, já mais tranquila pela finalização de todos os projetos de 2013, posso atualizar o blog.

Conto com a valorosa colaboração de todos vocês e, também, com a presença e comentários em todos os textos.
Estou aguardando a foto da pequena Helena, filha de Marcos Aurélio e Isabel, nascida recentemente.

No mais, deixo-lhes com o texto de nosso querido Arthur, logo abaixo.
Com meu carinho de sempre.
Muita paz! Beijosssssss

Sonia Astrauskas

É Campeão!



Ser corintiano é ser consciente
Que sempre ter-se-á pela frente
Muitos radicais opositores,
Que são também como nós
Fanáticos torcedores
De outros times rivais.
Que sempre estarão unidos,
Para  torcer contra nós.

É também estar consciente
Que teremos muitas alegrias
E até algumas tristezas,
E por fim, tal e qual acontece agora.
Chegaremos a grandes vitórias,
De um titulo Mundial.
E então como melhores do Mundo
Sentir que aqui nesse planeta
Não existe nenhum esquadrão
Melhor que o nosso TIMÃO.

Ganhamos o Brasileirão
Invictos a Libertadores
E também esse Mundial,
E se um dia houver um campeonato
Na lua ou em outro planeta qualquer.
A fiel vai estar lá presente
Seja lá onde for
Haverá invasão corintiana
Com uma bandeira na mão
Esse enorme Bando de Loucos
Irão gritar como poucos
Em frente! Oh, poderoso Timão.

Depois desses anos seguidos
De magoas e desilusões,
Muitos horríveis apelidos
Tivemos que suportar.
Faz-me rir, arroz brejeiro,
Tou limado, e até o tal Gambás.
Mais o castigo dessa tal segundona,
Fazendo a Fiel toda chorar.
Então veio essa volta por cima.
A libertadores, e também o Mundial

Nosso time rodou a baiana
A atual Nação Corintiana
Verdadeiro Bando de Loucos
Tomou de assalto o Japão
Trazendo lá do estrangeiro
Para o nosso torrão brasileiro
Esse titulo de Campeão.

E agora essa festa nas ruas
de nossa bela capital
é o Corinthians nos braços do Povo
com o titulo de Campeão Mundial,
nessa bela manhã paulistana
o preto e branco domina a cidade,
são crianças, jovens e adultos
alegria jamais teve idade.
todos querem saldar o Corinthians
e gozar essa felicidade.
Gritando bem no meio da rua!

È !!!  CAMPEÃO.




Por Arthur Miranda (tutu)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Viaducto Santa Ephigenia - 100 anos 26/07/1913 - 26/07/013


imagem: Viaduto Santa Efigênia 1913 e 2013

Alguém, Paulista e Paulistano pode me dizer, em número de quilômetros, o quanto andou, percorrendo, indo e vindo, pelo Viaduto de Santa Efigênia?
Duvido que alguém saiba... Nem eu mesmo o sei. Com certeza foram muitos!
Quem, Paulista e Paulistano, hoje, ainda se lembra dele? Quero acreditar que, muitos ainda se lembram... Que não o esqueceram.
Mas, ao que parece, a Prefeitura, a Regional da Sé, a São Paulo Turismo, esqueceram dele.
Amanhã, ao que me parece, o Viaduto de Santa Efigênia completará  os seus 100 anos, sem bolo e sem festa. E sem convidados...
Sem festa, O MAIS ANTIGO VIADUTO EM USO DE SÃO PAULO está, como um velho hóspede de um desses depósitos, pomposamente chamados de Casa de Repouso, à espera de parentes que não virão.
_ “NATALE, VOCÊ SE ENGANOU! O MAIS ANTIGO VIADUTO DE SÃO PAULO É O DO CHÁ”!
_ “NÃO ME ENGANEI, NÃO! O PRIMEIRO VIADUTO DO CHÁ (inaugurado em 1892) FOI DESMONTADO Entre 1938-1939, QUANDO O SEGUNDO VIADUTO, EM CONCRETO, FOI INAUGURADO (1938). E O SEGUNDO VIADUTO AINDA NÃO CHEGOU AOS 80 ANOS”.
Penso com ironia no ano de 1992, quando se fez com toda a pompa e circunstância, as “festas de 100 anos” de um viaduto que tinha pouco mais de 50 anos...
Voltemos ao Santa Efigênia.
Ao contrário do antigo Viaduto do Chá, o Viaduto de Santa Efigênia é uma obra de arte.
Projeto de Júlio Micheli, parte metálica importada da Bélgica e montagem a cargo da Firma Lidgerwood Manufaturing Co. Ltd.
O peso do aço dissolve-se, na beleza do projeto, passando a impressão de leveza.  Arcos apoiados em pedra de cantaria finamente recortada. Os parapeitos da pista  é um fino trabalho de serralheria, estilo “Art Nouveau”. E neles, de espaço em espaço, afixadas luminárias no mesmo estilo. Nas calçadas, postes em forma de tridentes sustentando a rede elétrica dos bondes. E, do lado esquerdo de quem vai do Largo São Bento ao Largo de Santa Efigênia, uma escada levava ao sanitário público (local onde hoje está o mezanino da estação São Bento do metro). Um dos primeiros sanitários a ser cuidado, sanitizado e vigiado pela prefeitura.
Viaduto de Santa Efigênia. 100 anos embelezando a Cidade, poupando a ´população das agruras da Ladeira de São João e, mais que isso, 100 anos como testemunha da História de São Paulo, como as Revoluções de 1924 e 1932.
E 100 anos -  um século, de sua história pessoal:
No começo, os bondes eram “os senhores do viaduto”. Então vieram os automóveis. Velhos “landaus”, “coches” e suas parelhas foram aposentados. Bondes e automóveis! Bondes,  automóveis e – Meu Deus! – os “Omnibus” (ônibus)!... Bondes, automóveis, ônibus, lotações, utilitários, motos... Depois Lambrettas, Vespas, Volkswagens, Dauphines, Gordines, DKWs e, acredite, um trambolho de nome Romi-Izzeta!...
São Paulo, uma cidade evoluída, progressista. Da pra acreditar que ainda circulam carroças de entrega? Pois é!...
E o Viaduto, através das décadas foi sendo abalado na sua capacidade estática e rolante, necessitando, cada vez mais, de reparações onerosas. Quase desativado foi deixado ao Deus dará... As lindas luminárias desaparecidas há muito tempo, o banheiro em extrema decadência foi fechado. Agonizava o viaduto.
Durante e depois da construção da Estação São Bento do Metro, de passagem de pedestre, o Santa Efigênia foi tomado pelos ambulantes.
Com a revitalização do Vale do Anhangabaú, cogitou-se o desmonte do Viaduto. O clamor público fez com que o Patrimônio Histórico reagisse rápido tombando o Santa Efigênia. Restaurado, transformado em calçadão ele continua lá. Sabe Deus por quanto tempo!
Ele é velho, velhíssimo. Mas é tão Paulistanamente Paulista. Ele é São Paulo.
Alguém, Paulista e Paulistano pode me dizer, em número de quilômetros, o quanto andou, percorrendo, indo e vindo, pelo Viaduto de Santa Efigênia?...





Por Wilson Natale

quinta-feira, 1 de agosto de 2013



Olá, amigos!

Nosso querido colaborador Modesto Laruccia nos avisou sobre o falecimento de Izaura Marques Piffer, antiga atriz da Rádio Record, aos 93 anos.
Modesto escreveu, há algum tempo, um texto sobre ela, aqui mesmo no blog:

Que Jesus a receba e lhe proporcione um despertar bem tranquilo, na espiritualidade.
Nosso mais profundo pesar e respeito por ela.
Muita paz! Beijossss

Sonia Astrauskas - Memórias de Sampa

Como vê meu coração!



Recordo-te com as cadeiras na calçada, as brincadeiras de rua e do entardecer que suavemente anunciava o fim do dia. Lembro que à noite, apenas a luz da lua por muitas vezes era a nossa maior guia e como era bom tê-la como nossa companheira noturna sempre vigiando as nossas travessuras.
Os passeios de bondes, o coreto lá na praça, o circo de rua, o Grupo Escolar de avental branco e laços de fitas, as fogueiras de São João, as pipas lá no céu, o jogo bolinhas e de botões lá na calçada, são cenários dos inúmeros que guardo na lembrança e que o tempo não apagou.
A sensibilidade dos meus olhos percebem os pinceis mais nobres cobrirem todos os teus cenários com o colorido das pessoas e isso é o que Sampa tem de melhor.
Hoje, fico deslumbrada com os pedacinhos de São Paulo. Aos poucos a percorro e vão surgindo novos parques, novas estações do metro, edifícios com novos figurinos, lindas pontes suspensas, shoppings pra ninguém botar defeito, novas escolas, templos religiosos, centros esportivos e de lazer, praças, ótimos restaurantes, grandes avenidas, até fonte sendo restaurada e muito mais. Sampa tem muita coisa maravilhosa que surpreende meu olhar, mas tem outras que não gosto de ver.
São Paulo, todos sabem, é uma mistura de gente. Gente que trabalha ou não, que chora e que ri que cuida e descuida também. Gente que não sai do celular, do computador, da tevê. Gente pobre e rica também, gente que pede e muita gente que dá. Gente que destrói, mas que constrói também. Gente que apenas por aqui passa, mas tem os que ficam também. Gente que procura e acha e os que nunca acham. É gente de todas as zonas da cidade, gente de todos os cantos do Brasil, é gente de todos os lugares do mundo.
Hoje, minha querida São Paulo é assim que te vejo, com um coração que às vezes mergulha no teu passado, mas que na maioria dos meus momentos vive você no presente e te ama como você é com suas qualidades e seus defeitos.
Você tem sido o palco da minha vida e de tantos outros que por aqui vivem e daqueles que te procuram. São Paulo é minha cidade querida e minha paixão, me orgulho de aqui ter nascido. Parabenizo-te  por toda sua metamorfose e estarei com você sempre!




Por Margarida Peramezza

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Memórias médicas



Sou um memorialista, não nego, mas nem todas as minhas memórias são de coisas agradáveis. Algumas poucas, bem sei, são amargas e dolorosas, mas não posso me furtar em lembrá-las.
A memória que originou este texto é recente. Aconteceu há poucos dias, mas tenho certeza, será lembrada com dor até o fim de meus dias.
Bem, sem mais delongas, sem rodeios e caminhos tortuosos, vamos ao registro desse episódio constrangedor a que me submeti recentemente.
Quando entramos na “melhor idade” somos obrigados a dar “melhor vida profissional” aos médicos e demais profissionais da área da saúde. Comigo nada é diferente.  Há poucos dias fui a uma consulta com a geriatra que controla minha vida, receitando drogas que possam me manter ativo e independente. Independente até a página terceira, pois ganhei de uns tempos para cá, a companhia constante de minha fiel escudeira em todas as entrevistas médicas que sou obrigado a comparecer.
Necessário registrar que não estou, de forma alguma, reclamando da companhia, mas na presença dela algumas mentiras, ou melhor, algumas ocultações de verdades não mais me são permitidas. Ela não permite e me desmente abertamente.
Pois muito bem. Nessa recente consulta eu já havia decidido que iria comentar de minha preocupação em reativar um acompanhamento urológico, mercê de pequenos probleminhas que vinham ocorrendo. Essa decisão veio à baila na consulta e, questionado, disse que estava inclinado, acreditando ser necessária uma consulta com o especialista da área.
Ela, de imediato recomendou uma colega especialista em Urologia e prescreveu os exames preliminares de sangue e urina que eu devia fazer para apresentar na primeira consulta.
Sabendo ser uma médica quem iria me atender, desarmaram-se as “restrições machistas”. Marquei a data, fiz os exames e esperei o momento da consulta.
Na data aprazada, nos encaminhamos, eu e minha fiel escudeira para o local onde a médica nos atenderia. Lá chegando, bisbilhotei e descobri que a doutora em questão era bem mais jovem do que eu imaginara. Assim sendo, fiquei ainda mais tranquilo. Na certa ela era adepta de procedimentos mais modernos e teria abolido as práticas hediondas de urologistas do passado.
Fui chamado e adentramos ao consultório. Sentamo-nos e o bombardeio de perguntas teve início. Respondia a todas lógico, evitando pintar de vermelho ou ser demais alarmista nas respostas. Evitava olhar para o lado da minha acompanhante para não ver o olhar reprovativo para algumas respostas menos esclarecedoras.
Pronto, a inquisição terminava sem maiores consequências. Analisando os resultados dos exames que eu lhe apresentara, a médica conclui que meu caso não era de extrema dificuldade. Uma acentuada perda de hormônios exigia uma reposição imediata. Outros pequenos problemas deveriam ser combatidos ministrando remédios paliativos.
Convidou-me a médica a acompanhá-la para o outro lado do consultório, sem a minha acompanhante e  pediu-me que deitasse numa maca. Confesso que no momento, dando vazão à minha veia histriônica, pensei, agora ela vai me “abusar”.
Deitei. Pediu-me ela então que soltasse minha cinta, abaixasse a calça e a cueca até os joelhos, dobrasse as pernas e relaxasse o corpo.
Disse, então, a frase mais indesejada “-Fique calmo, não vai doer nada!” e, de imediato, procedeu ao gesto odiado, mas claro, necessário.
Pensei: “até tu, doutora?”. Nem tive tempo de buscar uma resposta mais esclarecedora; ela, como se estivesse ministrando uma aula, foi apalpando, ou melhor, dedilhando e dizendo, aqui está a próstata, não tem nada de anormal, apenas está um tanto alterada devido sua idade.
Terminou a consulta, mandou que eu me recompusesse e disse, vou lhe ministrar uns remédios para o período de um mês e depois, no seu retorno, vamos ver como estará (acho que ela gostou de me dedilhar).
Recebi a receita, agradecemos e saímos. Comentei com a Sonia que tinha sido abusado com muito carinho, no que ela concordou.
E nos dirigimos à farmácia para comprar os tais remedinhos. Foi então que eu percebi que minha urologista era, realmente, uma grande tarada. Um dos remedinhos por ela receitado tinha o custo, absurdo de R$ 269,00. Prova mais do que clara que ela queria mesmo me F......., não comprei o remédio e estou pensando seriamente se irei ao retorno da consulta, uma vez que ainda sou um pobre e remediado aposentado que ganha pouco e não tem reposição de perdas há muitos anos.




Por Miguel Chammas

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Flagrado no ato


A cena é mais que clássica, e já se prestou a muitos contos e mesmo piadas. O cidadão vai para a cama com a amante, no apartamento dela, e eis que o marido volta, depois de perder o avião, ou desistir da viagem. E aí, o outro fica no mato sem cachorro, ou num apartamento sem saída, com uma sacadinha para o abismo, ou coisa assim.
É trágico, ou cômico, ou em dois exemplos, de Fernando Sabino e Luiz Fernando Veríssimo, tragicômico. Mas, no fim essas histórias terminam bem, o que deve ser difícil na dura realidade.Espera-se que este caso também termine numa boa, mas isto vocês vão saber no final.
Meu amigo trabalhava em publicidade, num agencia da Av. Brigadeiro Luís Antonio. Numa pitoresca galeria de esquina. Tinha algum dinheiro e lá o seu charme, e por isto a bela morena engraçou-se com ele. Ela vivia com um senhor considerávelmente mais velho, o de imediato já levanta suspeitas sobre seu caráter. E assim prosseguia o caso. Um belo dia...
Aliás, bela noite. Ficaram de se encontrar após o expediente dele. Mas não é de hoje que agencias de propaganda não respeitam limites de horário. Ele, louco para revê-la, o outro tinha ido para o hospital, e ela estava livre. E o serviço entrando, mais e mais. Tudo urgente, para amanhã.
Passava muito da hora combinada, e não conseguia desgrudar dali. Até que, a deshoras, terminou enfim sua missão. Ela devia estar furiosa, achou melhor ir até o apartamento, que ficava na Alameda Santos, ali perto.
Estacionou e entrou no velho prédio, sem complicações. Naqueles inícos dos anos 70 porteiro, câmera eletrônica, tudo isso era raridade. Chegava-se, e geralmente entrava-se dar sem maiores satisfações. Bateu à porta, e a morena apareceu de baby doll. Puxou-o para dentro.
Mais tarde descansava na cama do casal, e aí, como na história clássica...a chave girou na fechadura da sala! O dono da casa teria tido alta do hospital? Desistido do tratamento, que não era coisa grave? Não havia como escapar. Pior que na crônica de Sabino, em que havia uma sacada com persianas para se esconder, ali não havia nada. A grande vidraça nua dando para o vazio.
Para baixo da cama, se esconder no armário? Complicadas soluções. Na dúvida, aguardou o desenlace. Mas, então, graças, era só a irmã mais nova que voltava do colégio! Meu amigo suspirou de alívio. Recobrou o ânimo, e como escreveu Rubem Braga, " éramos rapazes "!
Respirou fundo, e partiu para o segundo tempo.



Por Luiz Saidenberg

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O mais longo dos dias (dentro de um cinema)


imagem enviada pelo autor, sem legenda

Houve um momento em minha vida que cinema era mais sagrado do que missa.
Aos 14 anos de idade já estava em processo de rompimento com a igreja pela falta de respostas às minhas perguntas ou a não divulgação das verdades desejadas.
Depois de estudar em colégio de padres e pela obrigatoriedade em assistir missas todos os domingos, acabei achando tudo meio sufocante.
Sempre tive um lado espiritual forte dentro de mim, mas que esbarrava nos dogmas e ainda ter que engolir a tudo de modo obrigatório.
Frequentava então as missas da paróquia de São Dimas na Vila Nova Conceição. Mas o que era imperdoável eram os comentários jocosos das beatas sobre as roupas repetidas e risinhos de deboches todos os domingos.
Tal comportamento acabou por me levar a romper com essa rotina.
Estudei na Escola Meninópolis (Brooklin) e no Colégio São Alberto (perto do Paraíso). Tentando buscar respostas acabei por encontrar novos caminhos... 
Morando no bairro de Vila Nova Conceição, éramos bem servidos no quesito de cinemas.
Eram cinco salas de exibições ao largo da mesma avenida: Cine Graúna -1960 (depois Chaplin), Cine Guarujá (depois Excelcior), Cine Bruni Vila Nova-1966 (depois Cinelândia II), Cine Vila Rica -1963 (depois Del Rey) e Cine Radar. No Brooklim havia ainda o Meninópolis e na Joaquim Floriano, o Cine Iguatemi.    
Ao entrar adolescência, não perdia uma matinê aos domingo. Com tal variedade de salas, dava até pra escolher.
Nessa época, os meninos andavam à caça nas matines especificamente para arrumar alguma namorada. Tentar era parte do jogo. Os resultados nem sempre eram satisfatórios.
No escurinho do cinema todos os gatos são pardos, então a ordem era atacar, enrolar ou puxar conversa mole e aproveitando para oferecer Dropes Dulcora ou Mentex para suavizar qualquer hálito. Se o papo colasse, era meio caminho andado. Quanto mais vivência, melhor era o aprendizado. A ordem era arriscar sob pena de ficar sozinho.
Com os hormônios fervendo éramos levados avante quase que sem perceber
Era a época da aproximação em relação às garotas e vive versa.
Garotas e garotos tinham seus medos e receios, mas também tinham vontades e desejos. Era a energia parecido com um imã.
Iniciada a sessão, o escuro dentro do cinema pouco dava pra perceber algum tipo de beleza. O que valia mesmo era a paquera. Uma gracinha bem colocada poderia render o céu é o infinito. Uma palavra mal colocada colocava tudo em risco.
Hoje sabemos que o bom humor é a chave na paquera.
Aceito a gracinha, era o sinal verde quase que imperceptível para seguir adiante...
Perguntas sobre o nome, onde moravam e estudavam, se estava gostando do filme ajudavam a pavimentar a conversa. Ficávamos a espreita de algum pequeno sorriso, que hoje sabemos que poderia de incentivo ou nervosismo.
Mas ali nada disso era sabido
Depois de alguma conversa, passava-se a segunda etapa, que era tentar aproximação das mãos.
A procura pelo contato das mãos, calor delas acabavam por misturar as ansiedades.
As tentativas eram muitas. Os resultados eram menores.
Mas quando davam certo, corações quase pulavam de corpo de cada um.
Apertar a mão de uma garota até então desconhecida era empolgante, gerava energia de calor, satisfação e de bem estar.
Nas primeiras vezes, dava vontade de querer parar o tempo e assim permanecer para sempre.
Amigos mais experientes já usavam a técnica de posicionar o braço por cima da cadeira e do ombro da menina.
Mas esse era um passo ainda futuro.
Passávamos o filme inteiro a esperar uma cena de amor para tentar algo mais arriscado, um beijo no rosto ou nos lábios...
Para aquele domingo escolhemos o Cine Excelcior, o filme não ajudava muito, passava Os Dez Mandamentos com 4 horas de exibição, era cansativo, mas dava mais tempo para se fazer diversas tentativas...
A sessão começou às 14 horas e terminaria às 18.
Após muitas tentativas que ocuparam quase 4 horas com poucos resultados, resolvemos ficar para tentar para a sessão seguinte.
Fracasso total, pois o público já era outro.
Ao invés de ir embora ficamos indo pra cá e pra lá sem ter certeza do que fazer.
A lotação do cinema era de 600 lugares. Éramos em 4 amigos.
Depois de muito perambular fomos novamente ao banheiro para fumar escondido.
Saindo do banheiro vimos algo no chão. Era uma carteira que aparentava estar bem gordinha.
A intenção era gritar, mas abafamos nossos gritos após abri-la.
Encontramos uma carteira com quase Cr$ 400,00. A entrada para o cinema custava Cr$ 10,00.
Ao ver tanto dinheiro assim ficamos excitadíssimos.
Resolvermos ficar sentados na segunda fileira para observar se o dono estaria à procura.
Assim permanecemos por mais uma sessão de quatros horas.
Aguardamos calados e ansiosos durante todo esse tempo.
Fomos os últimos sair da sessão ao final dessa sessão que terminou às 22 horas.
Na rua dividimos em quatro partes a grana e fomos para o Chico Hambúrguer na Galeria do Bruni. Hambuguers , milkshakes, bananas splits... Comemos até não poder mais...
Depois compramos cigarros e soltamos fumaças até cansar e ainda sobrou muito dinheiro que ficou para a outra semana...
Mais tarde, disfarçadamente, deixamos a carteira vazia, mas com todos os documentos na caixa do correio do cinema.
Sim, foi errado. Politicamente incorreto. Éramos jovens, imprudente e imaturos, mas foi divertido.
Com o tempo a gente amadurece e toma prumo.



Por Luigy Marques   

segunda-feira, 22 de julho de 2013

"E agora, José?"


Imagem: Museu do Ipiranga

Num tom levemente interrogativo, o meu pai nos convidava a dar uma volta pelos jardins do Museu do Ipiranga. Invariavelmente a resposta era positiva e rápida. Silencioso sempre, o meu pai olhava o entorno, provavelmente se lembrando da sua infância pobre no Ipiranga e eu, na minha meninice, olhava com respeito os jardins magníficos. De tão gigantesco e sagrado eu imaginava  que aquele espaço nem era meu. Especialíssimo demais para uma mortal que ainda dava os primeiros passos para algum entendimento.
Visitávamos o lugar com uma roupa melhor, com o par de meias mais branco e não comprávamos pipoca do carrinho e nem sorvete de groselha.
Tentei comprar um picolé uma vez. Aluna de quarto ano primário, a professora resolveu nos levar até lá. A turma caminhou por ali, observando todos os detalhes possíveis. Perguntei a ela se eu poderia comprar um sorvete, ela respondeu: “mas, Vera, eu não sou tua mãe”.  Não comprei.
Mas por ali rondava alguma poesia, melodias incrustadas  nas paredes, dentro de uma arquitetura singular para a historia do Brasil.  Com uma arquitetura  de inspiração renascentista e  a  busca da beleza mais perfeita,  a forte presença dos aspectos humanistas e a utilização sistemática da perspectiva marcaram a renovação artística. Uma renovação  nascida numa Itália economicamente próspera e que se desabrochara na grande produção do conhecimento. Do ponto de vista técnico, a arquitetura eclética também se aproveitou dos novos avanços da engenharia do século XIX, como a que possibilitou construções com estruturas de  ferro forjado e, além do uso e mistura de estilos estéticos históricos, a arquitetura eclética  se caracterizou pela simetria, busca de grandiosidade, rigorosa hierarquização dos espaços internos e riqueza decorativa.

A cidade de São Paulo passou a ser o nosso maior retrato das grandes mudanças do final do mesmo  século XIX. A antiga cidade de taipa de pilão foi sendo gradativamente substituída por construção de tijolos, trazidos pelos ingleses e fabricados posteriormente por italianos. A grande produção do café dinamizou a economia e o progresso se tornou bem mais visível. A abolição da escravatura promoveu uma forte migração – do campo uma generosa massa de escravos libertos se deslocou para a cidade buscando um trabalho mais digno e longe do açoite. Italianos, portugueses, espanhóis e mais tarde japoneses, árabes, judeus e tantos outros vieram para uma cidade única, receptiva para o trabalho e capaz de conviver com as diversidades  culturais. Ou melhor, mesclando os valores para então gerar um saber mais refinado, ímpar, riquíssimo.
Foi o período da história em que o  desenvolvimento comercial, urbano e cultural se firmaram de modo inconteste . Com uma indústria nascente, aos poucos o operariado urbano  foi se formando e os bairros operários, com o Ipiranga, Braz, Mooca, Belém foram ganhando uma dinâmica própria, com as suas habitações pequenas, sempre ao lado da fábrica. E tudo na mesma cor.
E foi nesse momento histórico, no meio a transformações significativas e únicas, que surgiu a ideia de se erigir um monumento para homenagear um marco político daquele mesmo século: o episódio da Independência do Brasil ganharia o seu espaço cultural próprio, o Museu do Ipiranga.
Bem ali,às margens do riacho, onde foi teoricamente difundido  um imaginário coletivo apropriado para aquele tempo: a figura do herói, a valorização do ideal de nação.
Para a edificação do Museu,  foi contratado como  o engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi em 1884, somente inaugurando sua obra arquitetônica 6 anos depois.
E não há um estudante no país que não tenha se encantado com aquela história amarrada de romantismo: o herói deu um grito, foi aplaudido, passou a ser venerado e a nação passou a ser tecida com as cores  verde, sendo referência à casa de Bragança, da qual fazia parte D. Pedro I e o  amarelo simbolizando a casa dos Habsburgos, da qual fazia parte a princesa  Leopoldina, esposa do Imperador.
Com ou sem a influência da Escola Romântica, sempre pronta a idealizar, o monumento retrata uma parte da identidade nacional. Impossível se passar por ali indiferente. Tem história ali, tem vida em movimento. Centenas de operários  construíram um símbolo num trabalho envolvendo suor e um cansaço infinito. Ciência e paixão, sonhos e buscas. Tempo... ah, o tempo, sempre cercado da eterna musicalidade das almas inquietas, da necessidade imperiosa do contar e deixar o olho brilhar com o encantamento das conquistas...
E leio na Folha de São Paulo (edição eletrônica – 05/04/20l3)

“Os banheiros estão interditados por falta de condições, o mato invade os jardins, um resto de pipa está enroscado em uma das surradas estátuas dos representantes da independência do Brasil e a cripta com os restos mortais de d. Pedro 1º serve de "motel" para casais mais afoitos.
Os elementos formam o atual cenário do complexo dentro do Parque da Independência, com o Monumento à Independência, museu e áreas protegidas, no Ipiranga, na zona sul de São Paulo”.

E, apesar de todos esses pesares, atropelos de sentimentos, refletindo sobre a construção histórica do Brasil, é preciso resistir. Fabricar forças para que o conhecimento tenha espaço, saber que as críticas haverão de inundar as nossas almas, ferir sonhos, mas o projeto de nação não foi definido.  É preciso gritar, mas gritar muito, muito mais que o grito simbólico do primeiro imperador. Urrar, fazer acordar... acordar para o respeito aos trabalhadores do conhecimento, criticar apontando soluções, sofrer para a defesa do espírito. E jamais esmorecer. Que tenhamos vida, crenças e a sabedoria para não nos entregarmos à mesmice.
Por isso, cito Drummond:


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!





Por Vera Moratta

sábado, 20 de julho de 2013

Quando a TV chegou



Fiquei pasma quando vi o que minha televisão atual é capaz de fazer. É uma máquina poderosa, praticamente igual a um computador, de tela fina de led, fácil de carregar, de uma imagem muito precisa onde podemos assistir programas em 3D.
Olhando para meu novo monumento aqui na sala de tevê acabei por lembrar-me da primeira televisão que ganhamos quando ainda éramos crianças, lá no bairro da Penha. Da marca SEMP preta e branca, era formada por uma grande caixa com uma tela finalizada com um tubo, além de muito pesada tinha um seletor de canais barulhento e toda vez que girávamos ele fazia um tlec, tlec. Às vezes produzia um chiado e a imagem sumia restando apenas faixas horizontais que podiam ser arrumadas nos botões de sintonia fina.
Bem, na verdade era um trambolho se compararmos com as televisões dos dias de hoje, mas, para nós, era a melhor televisão do mundo, pois sabíamos que iríamos assistir os desenhos animados que eram apresentados dentro da seção “Zás Trás” e que a garotada da rua compareceria em massa em casa, pois éramos a única família a ter uma televisão, o que era uma grande novidade para todos.
Nossa alegria foi imensa quando a TV chegou, minha mãe achou melhor colocá-la sobre um móvel da sala e sentávamos no chão para assisti-la. Aos poucos, fomos nos familiarizando com os canais, com o seletor barulhento e com nosso novo horário de lazer. Meu pai era muito controlador e claro que controlava também os programas que podíamos assistir.
Lembro-me das dos desenhos alegres e deliciosos, eram uma atração infantil e que nos divertiam muito, inclusive os comerciais que passavam nos intervalos entre os desenhos. Nossos olhos eram praticamente colados na tevê para não perder sequer uma imagem, tudo era importante e bem vindo, tanto é que deixou uma marca gostosa de ser lembrada.
 O comercial que eu mais gostava e que dava água na boca era o do Biscoito São Luiz, tinha uma música fácil de memorizar e ao mesmo tempo aparecia uma linda lancheira cheia de biscoitos, que eu imaginava serem os mais gostosos que existiam.
Outros comerciais também eu gostava, como a do Cobertor Parahyba, aquela musiquinha que acompanhava , marcava minha hora de dormir.
Alguns dos comercias eram feitos com desenhos animados e uma boa sonoridade para fisgar as crianças.  Ainda me lembro de um comercial em forma de desenho animado da VARIG, ele contava a historia do Brasil, tinha “jingle” fácil e era de interação com público. O outro comercial também da Varig mais tocado na época do natal, tinha uma apresentação com uma estrelinha da companhia e o “jingle” era de Natal, tudo muito bonito para meus olhos de criança.
Desta forma, a televisão entrou em minha vida e também naqueles televizinhos da Rua Antônio Lobo, local em que eu morava. Com o tempo ela foi barateando e outras pessoas foram adquirindo. Com o tempo a TV se alastrou e hoje faz parte de todas as casas dos paulistanos, inclusive nas mais humildes desta grande cidade de São Paulo. Temos TVs de última geração até as mais simples, mas estão todas ali, fazendo parte do cotidiano das nossas famílias, entrando nas casas e na vida de todos os paulistanos.




Por Maragarida Peramezza

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bolivianos



“ Compadre, vengo sangrando desde los puertos de Cabra. Si yo pudiera, mocito, ese trato se cerraba. Pero yo ya no soy yo, ni mi casa es ya mi casa” [Federico García Lorca, Romance Sonámbulo, em Obra Poética Completa]

Explosão de cores e buzinas, a pontilhar tarde invernal paulista com numerosos pontos de luz. Acordes andinos. O grupo com suas vestimentas típicas, toma de assalto a calçada da esquina da Praça Floriano, em SP. Munidos de suas quenas (flautas) e zampoñas (flautas de Pã), rasqueados de violões, charangos, e  marcações rítmicas de bombos lagueros.
Pintar a vida de imigrantes, com cores e acordes de sonhos mutantes. Eles estão por toda parte.  Por vezes, são confundidos com índios ou japoneses. Gente de pele morena, cabelos lisos e olhos puxados. Movidos a sonhos de melhores oportunidades. Fugindo da miséria em busca de oportunidade. Precariedade. Segunda maior comunidade de migrantes na cidade. Atrás apenas de portugueses, e superior a chineses e peruanos. São Paulo, cenário de passos e descompassos. Cidade que abraça e também sufoca.
Expressões sérias, solenes. Ainda pulsa a lembrança do menino assassinado por chorar e também porque os pais não tinham mais dinheiro. Residência provisória em cubículos. Tirar o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), só com emprego regular e renda. Por trás das máquinas de costura muito suor e sangue. Na luta contra o preconceito vencendo dificuldades. Um medo travado que paralisa a voz e suga a crença na justiça. Violência a estancar a fé e motivar a meia volta. Volver à terra natal. O que mais se deseja: “La paz”.
Dias de angústia e silêncio. A violência que fascina e tange. Violência grátis sem necessidade de passaporte. Em acordes dissonantes.




Por Suely Schraner