terça-feira, 23 de abril de 2013

Memórias venturosas




imagem: Nydia Licia

O ano era nos primórdios da década de sessenta. Eu vivia, ainda, os eflúvios de uma juventude plena de aventuras e emoções.
Um dia, enchendo-me de uma segurança não muito comum, tomei a decisão de participar de uma seleção de atores que iria ser realizada no Teatro Bela Vista por Nydia Licia, a dama do Teatro.
Reconhecendo que a coragem não era tanta, resolvi convidar a Maria de Lourdes Seraphim - irmã do velho e querido Bola e uma de minhas atrizes do GATO (Grupo Artístico e Teatral Ozanan) – para me acompanhar nessa audaciosa e pretensiosa missão.
No sábado aprazado para o acontecimento lá estávamos, eu e ela, na plateia do teatro aguardando a hora de sermos avaliados. A presença de minha acompanhante era necessária para que eu não viesse desistir no momento do teste.
Pronto, Nydia Licia mais o administrador do teatro, Sr. Renato, e um magrelo que me foi apresentado como sendo o diretor Libero Miguel, devidamente a postos, iniciaram a chamada. Notei que os nomes eram chamados sem qualquer critério, não era obedecida ordem alfabética ou de chegada. A sorte lançada recaia em algum nome e, depois de alguns testes, recaiu no meu nome.
Levantei meio trêmulo e me encaminhei para a ribalta. O temor de ser avaliado, artisticamente, por uma musa do teatro, afogueava-me o corpo todo como se tivesse me acometido uma febre mortífera. Os joelhos amoleceram e teimavam em não sustentar as pernas. Respirei profundamente e me coloquei à frente dos meus examinadores.
Nydia Licia me perguntou, então: E aí, Miguel, trouxe alguma coisa preparada?
Sem me dar conta, respondi: Não, senhora. Não sabia que seria preciso.
-Não faz mal – ela disse- leia este texto; e me passou umas folhas de papel sulfite impressas.
Era uma poesia de Vinicius de Morais e li fazendo a melhor interpretação possível. Terminei a leitura e fiquei olhando para ela que, sem qualquer sinal de aprovação, pediu-me para sentar na plateia e aguardar.
Simplesmente obedeci e, em silêncio, passei a assistir os testes dos outros candidatos.
Eram muitos os que buscavam serem selecionados, além deles, outros já tinham sido escolhidos, entre eles estavam Osmar Prado, Marcelo Gastaldi, a cantora Tuca – cuja morte precoce abalou o meio artístico -, e o grande ator Alceu Nunes.
Olhando esses nomes, eu comecei a curtir a possibilidade da minha dispensa e, graças a Deus, ela não aconteceu. Ao final da tarde Nydia Licia me chamou e disse que eu fazia parte do grupo Teatro para a Juventude.
Aleluia!
Começamos os ensaios. Era uma revista com diversos temas e autores. A direção de Libero Miguel com a supervisão de Nydia Licia foi sensacional e, em poucas semanas, estávamos prontos para a estreia,
Chegou, então, o momento da divulgação e fomos escalados para uma entrevista na TV. Era um programa que deu o formato, anos depois, para o Programa do Jô.
O Programa Silveira Sampaio, no último horário da TV Record, já era sucesso e nós, eufóricos, nos dirigimos aos estúdios da Rua da Consolação para a tal entrevista.
Nydia e Libero, nos prepararam para dizer apenas o necessário e não quebrar o encantamento da estreia.
Estávamos todos dentro do estúdio, aguardando o Programa entrar no ar quando, na porta de entrada do estúdio, surgiu a figura de um sambista que estava na crista da onda na ocasião. Jair Rodrigues também seria entrevistado.
O sambista, como sempre alegre e saltitante, cumprimentou a todos e quando bateu os olhos na minha pessoa, parou e deu uma sonora gargalhada.
Eu, quando percebi sua presença, tentei me esconder, mas fui pouco criativo na tentativa.
Aqui, esta narrativa merece um pequeno parágrafo explicativo: Na época, eu boêmio inveterado, tinha como companheiro das noitadas uma penca de outros boêmios e, entre eles, Jair Rodrigues, que estava iniciando sua caminhada solo.
Não deu outra, a figura saiu do local em que estava e veio, a passos largos, abraçar seu amigo de noitadas. O ti-ti-ti foi intenso, as brincadeiras ruidosas e continuas.
A direção de TV pediu silêncio; nós não respeitamos e continuamos o papo e as risadas.
Não deu outra, o Miguel (pouco ou nada conhecido no meio) foi convidado a se retirar do ambiente e o Jair, avisado que se não fizesse silêncio, seguiria o mesmo caminho.
O programa foi para o ar, o Miguel perdeu a chance de aparecer na TV, mas ganhou muito cartaz como amigo íntimo de Jair Rodrigues.
Sei que hoje, depois da distância que nossos caminhos tomaram, a lembrança dessa amizade já não povoa a mente do sambista, mas a minha memória não se perdeu no tempo e eu me orgulho muito de ter sido companheiro desse patrimônio nacional.
Com ele tive várias passagens e, na medida do possível, escreverei sobre elas. Salve Jair, salve amigo, salve TV Record, salve Teatro para a Juventude, Salve a vida, salve tudo, salve o Chico Barrigudo.




Por Miguel Chammas 

domingo, 21 de abril de 2013

Sarita Montiel e outras lembranças




Na última segunda-feira, dia 8/4,  faleceu na Espanha a famosa artista e cantora Sarita Montiel; tomo a liberdade de transcrever um comentário feito pelo jornalista Ruy Castro, publicado na Folha de São Paulo, edição do dia 13/04/2013 sob o título "No Terraço Com Sarita":
"Sarita Montiel, cantora e atriz espanhola, morreu na segunda-feira em Madri, aos 85 anos, segundo as agências. Sarita, 85? Que mentira. Todos sabemos que ela nunca passou dos 31, 32 - quando sua beleza siderava as plateias em filmes como "A Última Canção", "La Violetera" e "Carmen de Ronda". Você perguntará: quem "sabemos"? Nós, os garotos que víamos Sarita no cinema, nas revistas ou nas capas dos LPS, e perdíamos o sono pensando em seus olhos verdes, cabelos castanhos, lábios carnudos  - e em seu decote (os adolescentes não são muito espirituais em suas fixações). Por Sarita, e apenas por ela, ficávamos até o fim daqueles horríveis filmes espanhóis, gemendo de inveja dos galãs e torcendo para que, ao cantar, ela arfasse ao tentar certas notas e seu decote revelasse mais um pouco do que pareciam duas pequenas obras-primas. O apogeu de Sarita foi entre 1958 e 1962. Os EUA a ignoravam, mas ela tinha a Europa, o México e a América do Sul. E, quando digo que Sarita nunca passou dos 31, 32, é porque, dali - a partir, talvez, de "Meu Último Tango"  ou "A Rainha do Chantecler" -, começamos a trocá-la por paixões mais próximas e palpáveis. Quem sabe sentindo-se traída, foi saindo das telas aos poucos e, com isso, poupou-nos de vê-la envelhecer. Mas, no auge do estrelato, Sarita veio ao Rio, e Ivan Lamounier, presidente da distribuidora Condor Filmes, deu-lhe uma festa em sua cobertura no Leblon. Todo pessoal do cinema foi convidado. A noite era de lua cheia; a música, ao vivo, e o implacável galã nacional Anselmo Duarte tirou Sarita para dançar no terraço. Nascia ali um romance? Bem, se o romance aconteceu, não sei. Só sei que, ao sair à noite nesse mesmo terraço, onde hoje moro, vejo Sarita e Anselmo  dançando ao luar e me surpreendo gemendo de inveja do Anselmo."
 
Assim meus amigos, como o jornalista, eu também me surpreendo sentindo saudades da noite de um sábado quando, na fila para tirar ingresso, estava ansioso para assistir o famoso filme "La Violetera" na tela do hoje extinto Cine Anchieta (ou será o Samarone?) não importa, o certo é que essa artista realmente mexia com nossas emoções.

Puxando pela memória não posso deixar de citar outra famosa artista (para mim a mulher mais bela que já vi); estou falando de Maria Félix a grande estrela do cinema mexicano. Ainda guardo em minha memória as cenas dos filmes "A Deusa Ajoelhada", "Quarta-Feira de Cinzas" e "Dona Diabla" nos quais ela contracenou com o não menos famoso Arturo de Cordoba, estes filmes eu assisti no também já extinto Cine Alhambra, lá na Rua Direta, junto com meu falecido amigo Fausto Rovella e, confesso a vocês: essa mulher também me fez gemer de inveja do Arturo e conseguia mexer com a libido nos meus primeiros anos de adolescência.
São doces memórias de personagens que, de uma forma ou de outra, fazem parte do nosso saudoso passado.



Por Leonello Tesser (Nelinho)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uma visão mais humana da fundação de São Paulo




imagem: missa evocadora da conversão do Apóstolo das Gentes, ato inicial da existência do pequenino arraial de São Paulo do Campo de Piratininga

O padre Manoel da Nóbrega estava nu e rodeado de índios guaianá que riam às gargalhadas de seu corpo mal cheiroso e cheio de pelos; André Ramalho, dos primeiros caboclos e filho de João Ramalho, notara que o padre não parava de se coçar desde que ele e sua pequena comitiva chegaram ao aldeamento comandado por seu pai, na entrada do planalto, na borda do campo. André deveria conduzi-los a um pequeno platô, duas léguas para o interior, conhecido pelos da terra como Inhampuambuçu (morro que se avista de longe) que, além de ponto de referência, ficava entre três águas - Anhemby, Anhangabau e Tamanduatey - e era bem protegido, como uma menagem, uma fortificação natural em acrópole.

- Carrapatos, padre!... Carrapatos, pulgas, piolhos, muquiranas e sei lá mais o quê... (esses padres estão podres, e como fedem! André pensou...), vou precisar queimar essa pelagem toda...
- Vais  me queimar, Mestre André!...Por Deus...!
- Non, padre, vou passar a tocha de fogo sem tocar seu corpo, que é prá queimar esses pelos e matar esses carrapatos..., mas vossa mercê precisará tomar vários banhos para sarar essas feridas que se abriram; tanto vossa mercê vem se coçando (e prá melhorar esse cheiro!)...
- Banho? Non! Nunca, jamais!... Só tomei 4 banhos em minha vida e foi para cura de doenças...banho e sangria, banho e sangria, banho e sangria, banho e sanguessugas, ordens dos irmãos médicos...
- Vossa mercê e seus companheiros, padres e freis, estão carecendo de banho, de lavar essas feridas, de se livrar dos carrapatos e pulgas; será em nome da cristandade, hay de ser um pequeno sacrifício para atingir as portas do céu, vós que viveis pedindo que nos sacrifiquemos pelo Senhor...!
- Vou pensar...
- Non hay que pensar; são muitos os da terra e poucos são vossas mercês, curas, e como vedes, os da terra estão se preparando para jogá-los dentro do Tamanduatey ou do Anhangabau... São um rór e vós sois poucos..., vale o sacrifício, padre! Tudo em louvor a Deus...
- Estou a ver que seu pai, mestre João, não vos ensinou a respeitar a santíssima igreja de Jesus e seus representantes na Terra...

As argumentações do padre Manuel da Nóbrega de nada adiantaram: profecias bíblicas, tradições europeias, frio, "banho-me com as águas que o Senhor nos agracia, com as gotas da chuva abençoada", etc, etc... A um sinal de André Ramalho, dezenas de caboclos e índios avançaram para o grupo de jesuítas e, aos gritos e às gargalhadas, os foram tangendo em direção à margem do Tamanduatey, fingindo armar seus arcos com flechas de dois metros e ponta serrilhada ou cutucando-os com tangapemas, bordunas e chuços, até que, aos gritos de desespero, todos entraram dentro d'água e foram, literalmente, derrubados, mergulhados, esfregados, lavados pelos índios e pelos primeiros paulistas ...:
- Ai Jesus! Que vamos todos a morrer - “vamos orar irmãos para que o Senhor nos acolha no paraíso dos mártires da santíssima madre igreja”... - "Ave Maria, gratia plena, Dominus te cum...”.

Claro que ninguém morreu e nem foi levado pela correnteza para finisterra, fosse lá onde ficasse essa tal de finisterra, ou para os braços do cramunhão ou ainda, para o Hades infernal de Lucifer; foram ajudados a sair da água e saíram, não agradecendo a Deus pelo fato de não terem morrido levados pelas águas, mas imprecando inter-dentes em latim, grego, espanhol, galego, catalão, português; nenhum dos padres quis confessar abertamente, mesmo entre si, mas todos sentiram uma sensação gostosa após o banho forçado, uma refeição quente de carne de capivara moqueada, mandioca e cabaças de cauim; ao término do dia, orações e todos foram para debaixo da tapera e dormiram imediatamente, bem alegrinhos, de pilequinho eclesiástico; dormiram toda uma noite sem sonhos...
Na manhã do dia seguinte, 29 de agosto de 1553, o padre Nóbrega celebrou a 1ª missa no local onde seria erguido o Colégio dos Jesuítas, marco inicial da cidade de São Paulo dos Campos de Piratininga, dando início aos projetos de cristianização do gentio e a construção de um local que pudesse abrigar àqueles que viessem do aldeamento de João Ramalho, Santo André da Borda do Campo.

25 de janeiro de 1554. O noviço ilhéu espanhol José de Anchieta, após a missa de fundação celebrada pelo padre Manoel de Paiva, num portunhol misturado com termos bascos e castelhanos, oficializa a fixação de 130 pessoas, homens, mulheres e crianças curumins no Inhampuambuçu, numa espécie de terreno aplainado, como um páteo, em frente ao Colégio; nem Nóbrega, nem Anchieta, nem Manoel de Paiva, nem Aspilcueta Navarro, nenhum dos fundadores, ninguém, poderia imaginar que aquele aldeamento cercado e protegido pelos índios guaianá de Tibiriçá e Caiuby, chegaria aonde chegou mais de 500 anos depois, São Paulo das águas e dos montes, do Tamanduatey de 7 curvas, do Anhemby, do Anhangabau, do Saracuraçu, do Itororó, do Jurubatuba, da pedra gigante do Jaraguá, lá longe, onde o mundo acaba...
O hermano Joselito de Anchieta, pertencia a uma família abastada de cristãos-novos bascos, que, devido à atuação do Santo Ofício na área de Castilla La Vieja, por via das dúvidas, migrou para as Canárias, razão pela qual foi enviado para estudar em Portugal, país mais condescendente com judeus e cristãos novos àquela época. Sua vinda para o Brasil, a vinda de Manoel de Nóbrega e dos outros jesuítas deveu-se a uma missão a ser cumprida, missão com conotação de evangelização, fixação de alguns degredados e postura estratégica militar pois a Companhia de Jesus era (é?) uma espécie de Ordem dos Templários light.
José de Anchieta chegou ao Brasil com 19 anos de idade e deve ter sido tratado melhor, embora tenha passado pelos mesmos problemas pelos quais passaram Nóbrega e seu pequeno entourage; Anchieta tinha uma escoliose bastante acentuada, problemas respiratórios e era um rapaz bastante fraco... Os índios e caboclos devem ter aliviado a mão... O "trote" deve ter sido mais suave.
**************
Como esse texto baseia-se em alguns fatos históricos sobre a fundação de São Paulo, dei asas à imaginação e criei umas situações que bem poderiam ter acontecido, pois nossa cidade foi fundada não por super homens, mas por seres humanos, com fraquezas, manias, superstições, cultura e comportamentos ibéricos quinhentistas.
Pensando bem, não vejo porque os acontecimentos 'inventados' não devam ter acontecido, afinal de contas, São Paulo desde o começo sempre foi diferente, é uma cidade única em todo o planeta!




Por Joaquim Ignacio

Parabéns, Yvonne!


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Casos do passado





imagem: Rua Antonio Lobo - Penha

Era muito trabalho para Dona Linda, minha mãe, por esta razão a tia Maria, que morava no Jardim Penha, estava sempre em casa para ajudá-la a cuidar dos seus nove filhos. Morávamos na Rua Antônio Lobo, no bairro da Penha de França, e minha mãe não dava conta de lavar, passar, cozinhar, limpar e tantas outras atividades que uma família grande como a minha precisava, ainda bem que esta tia podia ajudá-la a tomar conta do pequeno batalhão. Claro que meu pai havia combinado um salário, a condução e outras coisas que ela viesse a precisar, afinal de contas, tínhamos seu carinho com muita exclusividade.
Elas conversavam muito, minha mãe e a tia Maria que estava sempre alegre a nos ajudar em tudo que precisávamos.  Muitas vezes eu as via conversando baixinho, mas eu estava sempre atenta nestas conversas que certamente minha mãe não queria que escutássemos.
Certa vez, ouvi em uma destas conversas que uma vizinha apanhava constantemente de seu marido. Eram surras que judiavam e marcavam física e moralmente esta mulher. Isso acontecia porque ele parava em um bar para beber uma birita após o trabalho, mas acabava bebendo em excesso. Depois, ele descia a nossa rua cambaleando e as paredes das casas funcionavam como guia e apoio ao mesmo tempo. Alterado pelo álcool e já em casa, falava mal, batia em sua mulher e, depois da discussão, ainda jogava com desprezo o prato de comida que com certeza era feito com carinho, no chão.
Depois de um tempo, quando estávamos maiores, minha mãe acabou nos contando casos que haviam acontecido no passado com algumas mulheres que moravam na redondeza e dois deles ficaram retidos em minha memória. No primeiro, a mulher levou tantos chutes de seu marido nas costas que acabou com um rim danificado que precisou ser retirado. O segundo caso foi o de uma mulher que sofria maus tratos e que, para piorar a situação, acabou pegando tuberculose, então seu marido a abandonou levando sua única filha. Depois de um tempo, essa mulher sem tratamento algum, sem recurso e na miséria, acabou morrendo. Esta mulher chamava-se Ana; nunca esqueci seu nome. As lágrimas sempre marejavam os olhos de minha saudosa mãe quando comentava sobre este fato.
Outro caso era o da mulher de um advogado que era mantida presa em sua própria casa. Ela saía raramente e apenas na companhia de seu marido e nunca cumprimentava as pessoas, pois seu olhar era fixo no chão, acho que por ordem de seu marido. Ela tinha uma aparência muito estranha apresentando certa palidez. Os cabelos pretos eram presos e cobertos por uma tela e suas roupas eram sempre escuras com mangas e saias longas, chegava assustar a todos.
Naquele tempo, as mulheres eram usadas para o trabalho domestico ou então para trabalhos de baixo escalão e sem segurança alguma quando precisavam ajudar no sustento da família. Totalmente desprotegidas e sem leis que as amparassem, não tinham muita saída a não ser aguentar tudo isso.
Todos estes casos contados pela minha mãe eram, na verdade, o produto de uma sociedade machista e que desvalorizava descaradamente a mulher.
Graças à união de muitas mulheres e muita persistência as nuvens negras foram-se diluindo e, aos poucos, foi surgindo uma nova sociedade, transformada com o decorrer da história e que hoje reconhece, dignamente, a mulher como a grande doutora nos diversos setores da vida e da nossa sociedade. O respeito aos seus direitos, ao seu trabalho e a sua vida ganharam um enorme espaço.
Hoje presto uma homenagem em especial àquelas mulheres que sofreram e lutaram por uma vida melhor e mais digna e que hoje já não se encontram mais aqui.
Aproveito para estender os parabéns àquela mulher que não foge a luta, não tem medo de assombração, nem de escuridão. Àquela de sabedoria única, de força, de paciência grandiosa e que não teme esconder sua afetividade que flui livremente dentro da sua alma.
O dia que foi dedicado à mulher é um marco de muita tristeza, mas que reflete a nossa maior alegria pelo espaço ganho e que foi construído ao longo de tantos anos.
Um abraço com carinho a todas as mulheres da cidade de São Paulo.




Por Margarida Peramezza

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Como destruir um casamento bem rápido





Metro lotado, desde o Terminal Jabaquara, como todos os dias.
Eu vinha da Praia Grande com meu carro e o deixava num estacionamento, ali perto do terminal e utilizava o Metro, linha azul, até a Estação República, fazendo a baldeação para a linha verde na Estação Ana Rosa.
Naquela manhã eu vinha pensando em como conciliar o trabalho que eu vinha realizando e as viagens de treinamento nos postos Poupatempo em vários municípios paulistas, quando encontrei uma amiga que não via há muito tempo, a Selma.
Depois dos cumprimentos saudosos, notei que ela estava triste, com a fisionomia sorumbática, fui logo perguntando se ela estava bem de saúde e se estava tudo bem em sua casa, com seus familiares.
Era exatamente essa a “deixa” que ela queria ouvir e, sem pestanejar, foi logo me contando sobre a péssima situação conjugal que estava vivendo.
Depois de tanto tempo separada e sozinha, ela encontrou um homem bom, também separado que, depois de algum tempo de namoro, resolveram morar juntos. Tudo corria bem no início, mas depois de certo tempo, ele se acomodou e se transformou num verdadeiro “muro de lamentações”, só reclamando de tudo.
Ela já não via mais no companheiro o homem gentil, romântico, solidário, cúmplice de antes.
Todos os dias eram recheados de “uis” e “ais” sem fim... Dores daqui, dali; não havia parte do corpo que não doesse.
Não bastasse isso, aquele companheiro que era só elogios para toda e qualquer comida que ela fizesse, hoje só colocava defeitos em tudo.
Acomodado, preguiçoso, sem iniciativas para nada, estava transformando a vida dela numa frustração muito grande, deixando-a cada vez mais decepcionada e triste.
Ela exercia sua atividade profissional exaustivamente e, quando voltava para casa, ainda tinha de cuidar dos afazeres domésticos e de seu companheiro reclamão.
Por mais que eu tentasse animá-la com aquelas velhas frases feitas, ela não melhorava. Disse-me que, além de tudo isto, tinha de ouvir, constantemente, de seu companheiro, ser chamada pelo nome da ex-esposa do dito cujo, coisa que a humilhava por demais. Tive de concordar.
Quando nos aproximávamos da estação Ana Rosa, tive de me despedir de minha amiga Selma. Com um abraço bem apertado, desejei que tudo melhorasse em sua vida.
Ao embarcar no outro conjunto de vagões, fiquei pensando como algumas pessoas conseguem estragar tudo tão rápido.
Relações humanas são complicadas, eu sei... Por isso precisam ser cultivadas, cuidadas... Precisam de olhares especiais, de trato, de carinho, de comprometimento, de respeito...
Homens e mulheres acabam gastando um tempo tão precioso e perdendo, acima de tudo, a oportunidade de serem felizes.
Vale pensar a respeito, né?
Muita paz!




Por Sonia Astrauskas

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ele é o cara




Quero dizer que pouco me importa hoje ser o dia do aniversário de Kofi Annan, dos 40 anos da morte de Picasso, se é Dia dos Correios ou se a Margareth Thatcher morreu...O que importa é que meu pai, Fernando Martins Pizo completa hoje 75 aninhos - com corpinho de 60! Ele é "o CARA" 

Pai,

Você me ensinou que homem chora, que homem beija homem, que pais pedem perdão aos filhos, que a casa da gente é o melhor lugar do mundo, que os livros nos levam a qualquer lugar.
Mostrou-me que o mundo pode ser transformado com atitudes, que devemos nos indignar contra as injustiças e que tem um Deus bondoso em algum lugar.
Nem mesmo quando estivemos apartados por algum tempo consegui me desvencilhar de você. Nosso mármore é o mesmo, esculpido por um artesão irônico, que continua a sua brincadeira de arte no meu sucessor.
Nossa história tem momentos pitorescos que levarei para sempre na minha memória: nós dois, eu muito criança, andando de mãos dadas no centro de São Paulo vendo você enfrentar com gritos de “fascistas...calhordas..” os membros da TFP, com seus estandartes; nós dois, eu já menino, sentados no chão do Tuca assistindo Ivan Lins; nós dois, eu adolescente, de camisetas amarelas engrossando o coro das Diretas-Já na Sé e no Anhangabaú; nós dois, eu homem barbado, vivendo minha transição de filho para pai .
Lembra do disco voador que só nós dois vimos naquela noite de maio de 1983, voltando do show no Morumbi? Daquele café da manhã com Toquinho e Vinícius em 1979, depois do espetáculo da véspera? Do abraço quando o Moreira foi embora? Do nosso pranto na lanchonete da Maternidade de São Paulo quando a Dani nasceu?
Esses momentos e muitos outros foram só nossos, serão só nossos para sempre. Só nós dois sabemos o quanto nos amamos e o quanto somos iguais, mesmo nas diferenças.
Tenho um orgulho imenso de você, da sua força para enfrentar o mundo, do seu otimismo desmesurado, da sua determinação inabalável e do seu amor gigantesco.
Vejo em você um pouco do velho José Arcadio, e em nossa história, um pouco do círculo vicioso daqueles Cem Anos de Solidão. Imagino, daqui há dezenas de anos, você no estúdio – como se fosse o carvalho do quintal dos Buendía -, absorto nas imagens dos gols do Divino, nas curvas da Jayne Mansfield, nos passos de Fred Astaire, nas caretas de Ernest Borgnine, num tempo sem fim...
Meu pai, parabéns pelos seus 75 anos bem vividos, pela sua graça, pela sua contagiante alegria de viver intensamente. Amo você.




Por Marcello Pizo Moreira Martins

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Esse chato sou eu


 http://youtu.be/jFgNJ7wNvno

Para ouvir, clique no play


     O cara que amola você toda hora

     Pergunta onde foi se você demora
     Que está todo tempo pegando no pé
     Não te dá sossego 1 minuto sequer
     E no meio da noite na cama
     Puxa a coberta e te descobre toda
     Esse chato sou eu
     O cara que pega você pelo braço
     Insiste prá você apressar os seus passos
     Não desgruda de ti um momento sequer
     Comparando você com outra mulher
      Por você diz que corre perigo
      Pode até maltratar teu amigo
      Esse chato sou eu
      O cara quer mudar o seu jeito
      Que depois do amor quer dormir no seu peito
      Não acaricia  teus cabelos, não fala de amor
      Te fala outras coisas, que te causam dor
      De manhã você acorda infeliz
      Com a cara feia que fiz
      Esse chato sou eu
      Esse chato sou eu
            
      Eu sou o chato certo prá você
      Te faz infeliz toda hora
      Que ri na tua cara quando você chora
      Esse chato sou eu
      Esse chato sou eu
      O cara que sempre vive criticando
      Pede prá não bater a porta do carro
      Quando você vem vindo
      Não te beija nem diz que é feliz
      Entediado te olha e te diz
      Que cansou de esperar e reclama
      Não diz que te ama
       
       Esse chato sou eu

       Esse chato sou eu

      Espero que os nossos amigos gostem da paródia.




Por Leonelo Tesser (Nelinho)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Um dia de cão



imagem: Serra do Mar - Via Anchieta - 1970

Em 1971 levado pelo empresário de artistas Cabral Jr., fui participar de um show no Ilha Porchat Club em Santos, aonde iria me apresentar juntamente com a cantora Maria Odete.

Fui juntamente com mais três amigos, e viajava ao lado de um amigo chamado Joaquim que estava no volante, almoçamos no antigo Restaurante Papai da Praça Júlio de Mesquita, e depois rumamos para a Avenida do Estado para seguirmos depois pela Avenida Nazareth no Ipiranga e depois a Via Anchieta para Santos. 

Era um belo sábado ensolarado e como acontece ainda hoje havia muito trânsito seguindo esse mesmo destino, (ainda não havia sido inaugurada Rodovia dos Imigrantes). 

Para passar o tempo e encararmos aquele congestionamento muito familiar e velho conhecido do paulistano já naquela época, fomos brincando e fazendo varias gozações pelo caminho.

Uma delas eram imitações de leitão, cavalo, galinha, e cachorro que fazíamos pela janela do Ford Landau dirigido pelo amigo Joaquim, imitações estas que eram também aceitas e retribuídas por outros motoristas brincalhões que também curtiam alegremente aquela lentidão da viagem.

Um pouco antes de chegarmos ao pedágio, resolvemos tomar um café e irmos ao banheiro, pois sabíamos que não mais haveria um posto em boas condições de nos acolher após o pedágio.

Desci do carro latindo e uivando, fingindo ser um cachorro, (coisa alias que faço com muito talento, modéstia a parte, algo de deixar muita cadela apaixonada), (risos). 

E assim brincando fomos ao banheiro, e ainda brincando tomamos o café e voltamos para o carro, na hora que o carro estava para sair, um moço todo risonho alegremente chegou ao lado da janela onde eu estava e me entregou um cartão de visita, dizendo:

- Olha!  Guarda esse cartão, e dê para o seu dono. Diga pra ele que se for para você eu faço desconto.

Quando eu li o cartão estava escrito: 

                                                               CASA DU-CÃO 
                   Tudo para seu animal de estimação, Ração, Coleiras, Correntes.
                   Bons preços, temos também medicamentos veterinários.       
                                                 Atende-se a domicilio.
       Rua General Couto Magalhães, (não me lembro do número) FONE: Idem.
                                            CAPITAL -SÃO PAULO - BRASIL

Então os amigos foram e voltaram me gozando, e todos morrendo de rir e é claro eu também.

Como no cartão havia o nome da pessoa que me abordou, resolvi não deixar barato, e na segunda-feira  às 10:00 da matina, eu liguei 
para essa Casa do Cão, pedi para falar com essa pessoa e quando ele atendeu, depois de alguns latidos alegres e amistosos eu agradeci a gentileza com granidos de alegrias. auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!



Por Arthur Miranda

6º BookCrossing Blogueiro




“Um livro pode mudar a sua via. Mais de mil livros podem mudar a sua e a de muita gente.”

https://www.facebook.com/events/464278640310039




Por Luz de Luma

domingo, 31 de março de 2013

São Paulo- Amor à terceira vista



imagem: Cidade Universitária - SP


Amigos, tendo nascido e vivido em uma cidade grande e bastante complicada, o meu critério de beleza é bastante questionável. Querem um exemplo? Gramado. É para mim uma linda e grande casa de boneca, mas eu jamais conseguiria morar lá. Dessa forma, vez por outra falarei sobre as cidades que eu gosto (ou não). Hoje a homenageada será São Paulo.
Fui a São Paulo ainda garota pela primeira vez e não sei dizer se gostei ou não porque fui do aeroporto direto para a casa de amigos do meu pai. A casa tinha tudo que uma criança poderia gostar e praticamente não saí de lá, mas não sei dizer o motivo de não ter gostado. Aliás, nem lembro ao certo.
Por volta dos 20 anos fui sozinha para fazer um curso e fiquei muito assustada com o tamanho. Não gostei de absolutamente nada. Gente esquisita com cara de bicho papão. Fui fazer uma visita a uma amiga paulistana que tinha acabado de sair do Rio para trabalhar na USP como professora mesmo. Conheci os seus amigos, curti muito, inclusive a vida noturna. O único senão é que no último dia fui a uma festa com essa amiga e ela tão logo chegou, saiu com um rapaz que tinha acabado de conhecer para ir transar (tentem imaginar essa situação para uma mocinha como eu era).
Fiquei sozinha e não houve uma única pessoa que chegasse perto de mim para falar uma palavra qualquer. Retorna a garota de banho tomado e cabelos molhados e lá fomos nós para a sua casa. Odiei aquela desconsideração e, naturalmente, São Paulo também.
No ano seguinte, conheci uma moça que foi ao Rio participar de um evento no banco onde eu trabalhava e ela me convidou para passar um final de semana em sua casa. Falei com ela sobre o meu trauma com relação à cidade e ela jurou, de pés juntos, que iria fazer de tudo para desfazer a má impressão. E realmente fez.
Prá começar, não fiquei na casa dela e sim em um apartamento imenso cheio de jovens de outros estados que foram tentar a vida na cidade e se juntaram para pagar um único aluguel. Todo mundo maravilhoso. Não só os que lá moravam como também os amigos que frequentavam o apartamento. Todos muito duros ,e por essa razão, ficamos enfurnados no local tomando cervejas, comendo coisinhas gostosas, ouvindo música até não poder mais e rindo bastante. Foi lá que conheci Elba Ramalho, quer dizer, o disco e não a pessoa ao vivo.
O único passeio interessante que fiz foi ir a uma feira em pleno sábado. Feira mesmo de legumes, verduras e frutas. E foi ali, ao ver aquelas pessoas, que eu captei o espírito da cidade. Aquele não era um programa qualquer; era O programa. Tinha gente de todo o Brasil, jovens e velhos. Tinha música, pastel, bagunça e gente animada. De noite, quando fui para o aeroporto e reparei mais uma vez nas pessoas que andavam pelas ruas, passei a adorar a cidade.
Voltei diversas outras vezes e todas as viagens que fiz foram muito agradáveis. Não voltei à feira, aliás, nem sei onde fica, mas conheci outros lugares ótimos. Curto absolutamente tudo, até mesmo a feiura que existe em alguns locais. O que mais me atrai é justamente o povo. São caras e culturas completamente diferentes e esse caldeirão de misturas é o maior patrimônio da cidade. Os paulistanos (nativos ou não) são muito mais fechados do que os cariocas, mas eu penso que quando a gente capta a energia do lugar, a conversa deslancha. Nunca tive problemas com motoristas de táxi, informações erradas ou descortesia de alguém. Até mesmo o meu "s" chiado e o "r" carregado foram motivo de gozações carinhosas por parte de uma senhora dona de cantina do Bixiga que me pedia a todo o momento para dizer determinadas palavras só para rir depois.
Tenho tido saudades, gostaria de ter ido no primeiro semestre, mas não foi possível.
Pois é, São Paulo não tem a beleza estonteante de muitas das cidades brasileiras, é triste em determinados momentos, mas tem um charme que é impressionante, especial e único.
Um viva para São Paulo!



Por Yvonne Dimanche

quinta-feira, 28 de março de 2013

Memórias Augustas





Já lá se vão mais de 60 anos e, sem muito esforço, essas memórias ainda povoam minha mente.
Corriam, de forma acelerada, os anos 50. Eu moleque, torcia para que eles corressem cada vez mais sem desconfiar que no futuro, na segunda década do século XXI, eu iria chorar pedindo a Deus que os dias andassem  de forma lenta para me permitirem ficar por aqui um pouco mais de tempo.
Sabendo que não poderei interferir, nunca, nessa decisão, me deixo levar pelos pensamentos e vou me encontrar menino, ainda usando calças curtas e sapatos de pneu de caminhão, brincando, despreocupado, nas calçadas da “movimentadíssima” Rua Augusta, no quarteirão compreendido pelas Ruas Caio Prado Jr e Marques de Paranaguá.
Estou defronte ao numero 291 que, coincidentemente, é a casa onde moro. Olhando para frente, na calçada oposta da que estou, posso distinguir os portões da Escola Santa Monica, onde estudo todas as manhãs e, uns poucos passos depois, um aparelho estranho, enorme, fincado na calçada. Era a bomba de gasolina recém inaugurada, de propriedade do sapateiro estabelecido nessa mesma rua Augusta, na calçada de número impar, bem na esquina da Rua Marques de Paranaguá e, lógico, em frente à bomba (ou seria geringonça?). É preciso esclarecer que naquela época, no pós-guerra, inexistiam os Postos de Serviço como atualmente, mesmo por que estávamos saindo da situação de uso dos carros à gasogênio que, por sinal, eu cheguei a conhecer.
Bem, voltemos ao tema central desta narrativa.
O sapateiro, proprietário da bomba de gasolina atendia pelo nome de Pedro Sernagiotto, recebido na pia batismal, porém era muito mais conhecido por seu famoso apelido “Ministrinho”, craque alviverde da época do Palestra Itália, o primeiro futebolista a fazer nome no exterior, no Juventus de Turim (Itália).
Ponta direita veloz, depois de fazer nome  na Europa voltou ao Brasil em 1934, jogando pelo Palestra até 1935, jogou depois na Portuguesa de Desportos e no São Paulo e encerrou sua carreira nos anos 40, então Palmeiras.
Esse homem, franzino, sapateiro remendão, tinha por mim um carinho especial, éramos palmeirenses de coração, coisa que o Serginho, seu sobrinho e meu amigo  não era, pois torcia para o tricolor, naquela época do Canindé.
Ministrinho, embora levando vida humilde e regrada, não abria a mão de comer bem. Assim, encomendava seus almoços diários, e os recebia no mesmo horário, do Restaurante Transmontano, tradicional casa paulistana que estava estabelecida em frente ao prédio dos Correios, no vale do Anhangabaú.
As cenas que relato neste texto estão vivas e à cores na minha mente e fico triste por não ter poder narrá-las com mais fidelidade e clareza. Mas, dentro dos meus  limites, acho que consegui fazer um pequeno esboço da saudade que sinto no peito.



Por Miguel Chammas