quarta-feira, 3 de outubro de 2012

DAS DOENÇAS DE INFÂNCIA, DAS 16 AVÓS, DO VERDADEIRO BEXIGA




Das doenças de infância, lembro de algumas.

Da doença que nos trouxe, a mim e a meus pais, definitivamente, do interiorzão para São Paulo, um problema renal bastante complicado que rendeu internação na Santa Casa, verdadeiramente não lembro, 'cayó en el olvido'; eu era muito pequeno, mas sei que foi coisa séria, quase que bati os sapatinhos de tricot, conforme rezam as lendas que são contadas e recontadas no seio da família Souza Leme...

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Tive coqueluche, acho que em 1944, período da guerra, do racionamento de tudo, da fome mal disfarçada. Do cheiro de gás, das náuseas, dos vômitos, da tosse que não cessava e me deixava extenuado, com um cansaço infinito, disso me lembro bem:

- Esse menino está com 'tosse comprida'; precisa levar ele no gasômetro, lá no Parque D. Pedro prá respirar gás. Lá tem 'que nem' um parque infantil, tem balancê, escorregador, tem um jardim e tem um coreto coberto que é prá não tomar chuva se 'tiver' chovendo ou se 'tiver' muito sol... quando tem sol é melhor porque as crianças podem andar um pouco, brincar... leva marmita porque passar o dia lá dá fome...

- ...mas cheirar gás?! não é perigoso? toda hora a gente vê desgraças, pessoas morrendo quando tem escapamento de gás... sai na A Hora, no O Dia, no Correio Paulistano, na A Gazeta, no Diário da Noite, se ouve no rádio...

- ...faz não! Bobagem... Agora, se você tem medo de levar o menino no gasômetro, faz promessa pro Sto Antoninho da Rocha Marmo... ele morreu tuberculoso, escarrando sangue e com tosse comprida em 1918, no tempo da 'gripe espanhola'; sempre ajuda...

Minha mãe, por via das dúvidas, fez as duas coisas: gás seguido de rezas e promessas pro menino azarado e canonizado pelo povo; prá garantir e arrematar, d. Luzia, uma siciliana de vastos bigodes e uma verruga de bruxa na face esquerda, vinha todo dia fazer uma benzedura, falando orações num italiano ininteligível e bocejando o tempo todo, enquanto aspergia uma aguinha com um galho de arruda sobre minha cabeça e pescoço. A coisa toda funcionou pois acabei me curando da tal de coqueluche, mas me senti bastante enfraquecido por algumas semanas.

Passados dois ou três anos acordei com um gosto horrível na boca. Naqueles meses gelados de inverno, anos 1940s, meus pais calafetavam todas as frestas da porta e janela com jornais para que o ar frio não entrasse quarto adentro. Eu dormia numa cama Patente colocada ao lado da cama do casal após anos dormindo no chão em um colchão de crina: a cama fora comprada de 2ª (3ª?) mão em uma loja de móveis usados da Conselheiro Ramalho... Fazia muito frio. Nossa cidade de São Paulo, 60, 70 anos atrás, era muito fria, garoenta.

- Mãe, eu acho que 'tô cum febre!

- 'xovê... (as costas da mão em minha testa por alguns segundos. Procura a "pera" para acender a luz...) Meu Deus, como você está quente, como você está vermelho... (chama a vizinha do quarto ao lado) D. Maria Capuano, vem aqui ver meu filho, por favor...

Minha mãe não sabia nada de como cuidar de uma criança, casara-se com 17 para 18 anos e vivera até então em uma pequena cidade no interior, portal do sertão. Aos poucos ía aprendendo a viver; dependia muito das vizinhas...

- Zezé, é sarampo, rosolia, capito?...

- Sarampão? Sarampo brabo?

- Ecco!

- Quequeu faço, D. Maria?

-Chama il SAMDU...

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-"Mas sarampo mata, doutor? Eu sei que o sarampo pode deixar o doente surdo..."

-”Surdo e mortinho da silveira se não fizer o resguardo direito”...

O médico do SAMDU disse que não haveria muito a fazer: baixar a temperatura, banhos mornos; deixou uma caixinha de comprimidos de 'veramont'. "O sarampo, se veio, vai embora, minha senhora e se a criança não quiser comer, empurra a comida... tem de beber muita água"...

Na Ruy Barbosa, 468, coração do Bexiga, moravam 17 famílias de trabalhadores, um cortiço que fazia jus a seu outro nome sinônimo: colmeia, um núcleo de abelhas operárias, e eu, como única criança, tinha 16 avós e conselheiras, portanto uma infância maravilhosa, era quase que sufocado de tanto carinho. Tive avós italianas, avós negras, avós mulatas. Na doença, a cada meia hora, uma dessas avós vinha até a porta de nosso quarto: - Zezé, o Inácio ' tá melhor?

- Não, d. Nazareth... a febre não vai embora e ele não está conseguindo engolir nem água...

- É assim mesmo, mas vai passar.

Ah, d. Nazareth!, mulher do século XIX, com suas 4 ou 5 saias que roçavam o chão, pano cheio de cores amarrado africanamente na cabeça e cobrindo seu pixaim branco como a neve, obrigado!

Ah, d. Maria Capuano, minha avó italiana, de fala enroladíssima, quase que incompreensível, vizinha parede e meia, conselheira e que filava os programas de rádio que nós ouvíamos..., obrigado!

D. Maria Galvão, viúva de um negrão, italiana mãe de filhos mulatos, o Roberto, o Othelo, d. Lidia, d. Celina, d. Ida (que um milhão de anos depois eu cuidei na Neurologia do HC), e do estranhamente loiro de olhos azuis, o Zezinho, também conhecido como Ratinho...obrigado!

D. Luzia, que benzia em italiano, obrigado!

D. Sebastiana, d. Rosa, obrigado!... Agradeço a todas as minhas avós do cortiço que ajudaram minha mãe, ensinaram receitas de mezinhas, que rezaram por mim, que a minha situação era grave, eu estava morrendo...

Lembro de meu pai chorando, me carregando no colo, me levando para uma área ensolarada. Lembro até hoje do gosto de cabo de guarda-chuva na boca; lembro dos fogos na noite fria, era o mês de junho...

Mas, como disse d. Nazareth, tudo passou e eu comecei a melhorar, bem aos pouquinhos. Num domingo de sol meu pai me carregou até o belvedere do morro dos Ingleses e, lá do alto, vi nossa cidade até Santana e a Cantareira: - Pai, lá o que que é? São aviões, né?:

- É, são aviões... lá é o Campo de Marte...

- O senhor me leva lá um dia? Eu nunca vi um avião de perto...

- Levo sim, levo! Mas você tem de melhorar, ficar bom, com força para andar...

- O senhor está chorando de novo?

- Não, quem disse que eu estou chorando? Olha lá, 'tá vendo a igreja do Carmo? Você consegue ver as horas daqui?

- Consigo...

Sobrevivi ao sarampo por sorte e por amor de toda uma coorte de vizinhos amigos com seus carinhos e orações e não há como esquecer das lágrimas de meu pai e do desespero de minha mãe... Naquele ano morreram muitas crianças vítimas da doença quase epidêmica. Tive sorte.

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Não era minha intenção desenvolver esse tipo de narrativa, peço desculpas pelo aspecto quase mórbido do texto, mas as lembranças e as emoções foram muito fortes, não deu para fugir.

O texto não é meu, é de um menino do Bexiga, com seus 6 ou 7 anos, que tinha certeza que iria morrer no dia de São João e cujo estado febril, o levava a delirar:

- Alá um balão, pimpão!... cai aqui, te dou um tostão!

- Batizei!

- Crismei!

Aos bons tempos do Bexiga solidário. Obrigado!...mas estou sozinho, rodeado por todas as minhas lembranças.

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De todas as pessoas que citei e nomeei, mais ninguém! Foram-se todos.

Ontem levei minha mãe, com seus 92 anos, para um passeio pelo Bexiga, meu filho Marco Tulio dirigindo:

- Inacio, onde nós estamos?

- No Bexiga, mãe. Olha ali, 'tá vendo? Nós morávamos lá onde está aquele prédião...

- "Não, esse não é o nosso bairro, não 'tou conhecendo nada aqui... Marco, leva a gente prá casa... Não quero ver mais nada...'tou cansada, 'tou chateada..."

Paro por aqui, não vou conseguir continuar escrevendo.

Estou com frio, muito frio!

Deixo correr minhas lágrimas de saudade!
 
 
por: Joaquim Ignacio

 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Somos todos "bipolares"


Somos todos “bipolares”... de uma maneira ou de outra, isto está em nós, seres humanos.
A vontade de esfolar, de bater, de esganar, de dizer coisas que possam ferir, muitas vezes cresce em mim, chocando-se com minha índole de pacificação.
Sim. Penso que qualquer ser humano pode fazer maldade. Basta termos oportunidade.
Sabendo que temos dois lobos em nossa consciência e que um deles pode ser mais forte que o outro, diariamente busco alimentar o lobo bom para que ele sempre se torne mais forte. Não fosse assim, com certeza o lobo mau já teria saído vencedor e eu já teria esmagado alguém.
Sampa tem destas coisas. Pode inspirar amor e ódio.
É aqui, em minha amada cidade de São Paulo que estou vivendo dias de tormento. Jamais poderia imaginar que, na minha idade, teria de experimentar uma perseguição tão cruel... A sutileza com que está sendo feita, a torna mais cruel.
Estou sofrendo. Estou sofrendo porque estou triste. É a tristeza que me causa sofrimento. Triste em ver uma pessoa tão inteligente agir de forma tão contrária ao que prega.
Não posso admitir que seja por conta da idade avançada, Não.
Penso que é porque esta pessoa tem nela tudo o que faz contra mim. Ela não sabe dominar o seu lobo mau e esquece-se de alimentar o seu bom lobo.
Deus... SOS! Me ajude a passar por esta fase o mais rápido possível e me dê força moral para superar as dificuldades.

Por Sonia Astrauskas

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O FILME DA MINHA VIDA



 
È engraçado que sempre fui movido a cinema, desde a infância. E, ao contrário do que poderia ter acontecido, não me tornei um expert no assunto, nem mesmo fui trabalhar em alguma área ligada à sétima arte. Se bem que, quando tinha por volta de 14 anos, rodaram um filme com algumas locações no prédio do colégio onde fazia o curso ginasial e fui o escolhido para ser o amigo do protagonista. O filme se chamava, se não me engano, “Entre Deus e os Homens” e contava a história de um rapaz (o protagonista) que estava dividido entre seguir sua vocação religiosa, entrando para o seminário, exatamente no momento em que conhecera e se apaixonara por uma colega de ginásio.

Foram horas e dias de preparação, maquiagem pesada (coisas da época) e ensaio das (poucas) falas que tinha nos diálogos com o protagonista. O diretor deixou um cartão com meu pai, dizendo que se eu quisesse tentar a carreira cinematográfica, ele teria o maior prazer em me ajudar, já que acreditava que eu tinha algum talento para a coisa. Mas, assim como o filme que nunca estreou, em casa também, as coisas esfriaram e, a minha vida seguiu sem maiores sobressaltos. Até minha experiência no teatro – no teatro do colégio, claro! – também não vingou. Estavam ensaiando a peça “Morte e Vida Severina” e eu fui escolhido para viver o Mestre Carpina. Começados os ensaios, eu peguei uma pneumonia muito forte e fiquei uns dois meses em tratamento, o que motivou a diretora da peça a colocar no meu lugar uma colega (uma colega!) Me trocaram por uma menina, veja só! Mas aí também morreu minha iniciativa como ator de teatro.

Já contei também que, quando criança, participava de um programa de calouros numa rádio que funcionava ao lado do Cine Maringá, no Jabaquara. E como cantor, essa também foi minha primeira e última experiência.

Mas fora essas esparsas experiências, sempre fui um fã do escurinho do cinema, que me proporcionava vivenciar sonhos, desde os infantis, passando pelos juvenis e, depois, sonhos de adulto mesmo. Não tenho a menor vergonha em confessar que sempre fui e continuo sendo um sonhador! Lembro perfeitamente das infinitas lágrimas que derramei assistindo (várias vezes) o filme “Marcelino Pão e Vinho”! E também chorei muito no filme “Bambi”! E até hoje, já sessentão, continuo chorando quando assisto filmes, seriados, novelas e até alguns programas de auditório.

Assisti muitos filmes nesses mais de sessenta anos de vida. Tantos que me sinto incapaz de fazer uma lista dos que mais gostei ou que mais me marcaram. Mas existe um que é uma espécie de marco em minha vida!

Talvez até mesmo um ritual de passagem! É um filme de 1964, que deve ter estreado por aqui, talvez dois anos depois, que era mais ou menos o tempo que as produções estrangeiras demoravam para chegar ao nosso país. Eu deveria estar próximo dos dezoito anos quando o assisti, e posso dizer que não conhecia os atores e atrizes, muito menos diretor ou autor. Fui vê-lo pela curiosidade de assistir um filme Greco-americano, que havia sido premiado em várias partes do mundo, mas não conseguiu nenhuma indicação ao Oscar, embora os críticos e o público o tivessem adorado. E eu fui imediatamente seduzido pelos encantos todos desse filme tão peculiar quanto diferente de tudo que havia visto até então no cinema!

A dobradinha Anthony Quinn e Alan Bates foi cativante. Bates é Basil, um jovem escritor inglês que chega à Grécia com a finalidade de tomar posse de uma mina deixada como herança por seu pai. Ele está passando por uma crise de criatividade e acaba embarcando nessa viagem em busca de suas origens mais por inércia do que por idealismo.  Enquanto espera para embarcar no navio que o levará a Creta, conhece um grego simples e muito entusiasmado que o convence a levá-lo consigo como intérprete e cozinheiro. Esse grego é Zorba e, a partir dessa amizade, várias experiências inusitadas levarão a vida pacata de Basil a uma reviravolta total. Ele vai passando de observador passivo do mundo a participante ativo de sua própria vida. Em contato direto com uma cultura totalmente diferente da sua, ele é chamado por Zorba à vida e aos seus prazeres e aprende que é o único responsável por suas escolhas e ações.

Esse filme mostrou a cativante representação de uma amizade improvável, colocando lado a lado maneiras opostas de encarar a vida: a de um veterano homem do povo, cheio de sede de viver e a de um jovem recatado e burguês, que se contentava em observar a vida através de uma janela. O desenrolar de conflitos através dos caracteres específicos de cada personagem foram explorados com gosto pelo elenco e se converteram em autodescobrimento e em louvor à vida em toda sua plenitude.  As presenças marcantes de Lila Kedrova (Madame Hortense) e de Irene Papas (a viúva que se comunicava mais com a fisionomia e com o silêncio do que com palavras) foram importantíssimas para o total entendimento desse filme.

E coroando tudo isso, a fabulosa “dança de Zorba”, que até hoje faz sucesso em todas as partes do mundo. O tema, “Sirtaki”, de Mikis Theodorakis, foi interpretado magistralmente por Anthony Quinn que, dançando na praia, chama o personagem de Alan Bates à vida, culminando em uma explosão de alegria e determinação. Não posso deixar de dizer que “Zorba o Grego” foi dirigido competentemente por Michael Cacoyannis, que soube extrair o melhor do reduzido elenco, criando um grande e inesquecível filme.

Saí do cinema num estado de encantamento pela vida que me deixou leve, como se estivesse flutuando. E esse encantamento me transformou num apaixonado divulgador, motivando muitas outras pessoas a assistirem o filme. E sempre que podia, lá ia eu, novamente, me deliciar com essa obra de arte.
Eu era um jovem moderno. Também era moderado. Talvez pelo passado católico e pela passagem pelo seminário, era discreto, estudioso e já gostava de escrever. Usava óculos, roupas sóbrias e, talvez por tudo isso, os colegas logo me identificaram com Basil, o jovem escritor do filme. Mas... como eu já usava - uma das novidades recém lançadas no mercado – as cuecas Zorba, acabei ganhando o apelido de “Zorba”, que me acompanhou ginásio afora.
Vieram outros (muitos outros) filmes, outros personagens, outras histórias. Mas de todos, o que jamais saiu da minha memória, o que mais mexeu comigo, o que mais me influenciou diante da vida, sem sombra de dúvida, foi esse: “Zorba o Grego)!

Se alguém quiser assistir à dança do Zorba, basta clicar sobre o link a seguir: http://youtu.be/6LmQtlPNcLA

 
por: Zeca Paes Guedes

terça-feira, 25 de setembro de 2012

 
LEMBRANÇAS DE UMA AVÓ
 
Minhas filhas, assim como todas as mulheres modernas, trabalham fora exercendo a chamada "dupla jornada”.
 
Por conta disso, estou sempre rodeada dos netos. Eles vêm em busca de um dengo, de ajuda nos trabalhos escolares e, principalmente, saborear alguns quitutes, típicos de "casa da vovó".
 
Mas, gostam muito, também, de ouvir as histórias que conto sobre minha infância. Desde o mais velho, com 20 anos, até o pequeno, com 7, divertem-se muito ouvindo os relatos das travessuras, das brincadeiras de rua, todas elas já conhecidas de todos nós. Eles gostam de saber os detalhes e já tive que contar a mesma história várias vezes.
 Outro dia, o menorzinho, Leonardo, hoje com 7 anos, olhou-me com tristeza e perguntou:
- Vovó, você não tinha play?
Expliquei a ele, que a rua era o play das crianças e ali nos divertíamos muito, brincando de "estátua", de "jogar sério" "jogar pedrinhas", brincadeiras que ele não conhecia. Inclusive, o teatrinho de rua, onde encenávamos pequenos roteiros ou sinopses, feitos pelos mais criativos. Também fazíamos as roupas dos personagens, com muito papel crepom, cola e purpurina. Tudo muito colorido.
Nossa plateia era formada pelos vizinhos, que traziam suas cadeiras e, ainda, nos aplaudiam muito. Depois, servíamos lanchinhos de pão de forma e água com groselha, comprada em litro, no Zé da venda.
 Meu netinho, ainda não satisfeito, tornou a perguntar: -E, também não tinha shopping?
Novamente tive que explicar que nosso shopping era ali mesmo, a céu aberto, aonde os vendedores vinham até nós para oferecerem seus produtos. Eram os mascates que vendiam roupas, vendedores de livros, os  verdureiros, o peixeiro, etc. Mas o que mais gostávamos mesmo, eram dos vendedores de  doce como o "quebra-queixo", "machadinha", "biju" e, principalmente, do vendedor de "sonhos e "maria-mole", com seu carrinho envidraçado e todo pintado de branco. Que delícia!
Além dos vendedores, tínhamos, também, os compradores. Uns compravam jornais e papelão, outros garrafas, metais, etc. 
E nós, (acho) iniciando a reciclagem, juntávamos todo esse material e ficávamos à espera dos compradores. Os cruzeiros e centavos, obtidos com essa transação, eram facilmente trocados por gibis, ou pelas delícias açucaradas descritas à cima.
Acho que hoje é difícil para uma criança, imaginar toda essa liberdade que tínhamos, pois as ruas, agora, são assustadoras.

por: Bernadete Pedroso

quarta-feira, 19 de setembro de 2012



RECORDAÇOES


Abrindo o Estadão, hoje, reparei numa reportagem sobre a Praça Roosevelt. Vão inaugura-la novamente.

Quantas vezes já inauguraram a famosa praça? Lembro-me da primeira ou talvez da segunda vez.

Muitas coisas relacionadas comigo lá aconteceram.

Por volta de 1963, lá funcionavam dois estabelecimentos de ensino.

O Colégio Porto Seguro, que era na sua maioria frequentado pelos filhos mais abastados e oriundos da colônia alemã e o Colégio Comercial Frederico Ozanam. Como o nome já dizia, era um colégio comercial, portanto, de frequência menos refinada e mais voltada ao profissionalismo já que os cursos de secretariado e contabilidade tinham o objetivo de preparar, de imediato,  o aluno para a luta do dia a dia.

Pois bem, morava eu na Rua Augusta entre os cines Regência e Maracha, portanto a dois quarteirões de ambos os colégios.

Vinha de uma má experiência no estudo noturno. Fora jubilado do Colégio Professora

Marina Cintra, na terceira série ginasial. Trabalhar a tarde e estudar a noite pra mim era uma festa, podia dormir até tarde e me esbaldar à noite. Escola nada.

Minha mãe, que não era alheia aos fatos, queria mudar minha rotina fazendo com que eu estudasse no período matutino e em um bom colégio.

Resolvido! Iria estudar no Colégio Porto Seguro, na Praça Roosevelt. Era perto de casa e, a meio caminho do Tabelião Veiga, meu trabalho, na Rua Líbero Badaró com Viaduto do Chá.

Isso dito ela foi ao colégio se informou de tudo e no dia seguinte me deu o dinheiro para matricula.

E lá fui eu bem cedo, na hora da entrada, para conhecer  meus futuros colegas.

Não gostei. Muito “almofadinhas” para o meu gosto. Aqueles uniformes azuis, calças curtas e tudo muito bem engomadinho. Olhei para o lado e ali estava o Frederico Ozanam, muito mais o meu perfil.

Seu Waldemar, bedel, na porta controlando a entrada e uma moçada que tinha tudo a ver comigo.

Entrei e fui muito bem recebido por todos, pessoal alegre, de bem com a vida. Conversei com o Prof. Negrão. Diretor e fui convencido que aquela seria a melhor opção para mim. Fiz a matricula, ficando de voltar para o primeiro dia de aula no dia seguinte.

Fui para casa e minha mãe perguntou: tudo certo? Lógico mãe, tudo certo.

Lógico que dois meses depois ela foi ao Porto Seguro saber como eu estava me saindo e soube que eu não estava matriculado.

Foi um reboliço, mas já estava feito e ela se conformou, pois foi ao Ozanam e também gostou do que viu.

Ai começou a minha convivência com a Praça Roosevelt. Foram alguns anos toda manhã, na entrada e na saída do colégio. Ali ficava conversando com os amigos fazendo hora para entrar no trabalho.

Com as novas amizades, quase todas do Bixiga, a praça virou ponto encontro, meio de caminho para mim e meus amigos.

Nos fins de semana nossa diversão eram os bailinhos de garagem e do CAFE – Centro Associativo da Fazenda Estadual, que ficava na Rua 13 de Maio, atravessando a Brigadeiro.

Além de muitas paqueras e “flertes” eu tinha uma namorada na escola e dois amigos inseparáveis, Aurélio e Newtinho. Juntos íamos pra todo lado. Com o Aurélio eram mais os bailes de formatura no Pinheiros, Fazano, Casa de Portugal, Aeroporto e com o Newtinho a noite era mais musical. Ele era um fã ferrenho da Bossa Nova e não aceitava a Jovem guarda. Então eu vivia os dois lados, pois gostava e gosto de ambos. Frequentava o Teatro Record na Rua Consolação tanto nas tardes de domingo como nas noites de O Fino da Bossa.

Sobrava um tempo ainda para os fins de noite. Algumas no Som de Cristal outras zanzando pelas boates do pedaço, Stardust, Cave,  Baiuca etc.

Falando da Baiuca, na Praça Roosevelt, ao lado da Baiuca funcionava um boteco de dois portugueses, chamado “Baiuquinha”.

Boteco desses de balcão de mármore, ovos coloridos, cachaça e duas mesas para os músicos desempregados que para lá iam à procura de emprego ou de alguma “canja” na falta de alguém, um musico doente ou qualquer coisa assim.

Foi numa dessas mesas que aconteceu um fato de que não esqueço.

Estávamos tomando a “saideira” tipo duas da manhã de um sábado quando chega ao bar nada menos do que Jonny Alf.

Numa fossa muito grande. Não vale a pena aqui explicar o motivo. Sentou-se, começou a cantar junto com os presentes. Bebendo uma cerveja, pediu lápis e ali, naquele momento, escreveu em um guardanapo de papel a letra do que seria seu maior sucesso Eu e a Brisa. 

Ali também presenciamos João Gilberto querendo vender seu violão para comprar passagem para os EUA, pois aqui não via chances de sucesso, apesar de já ter gravado Chega de Saudade.

São recordações de uma época muito boa e vivida com muita alegria. Na maior parte vivida na Praça Roosevelt que será inaugurada novamente.

Fico contente que pelo menos, não me tirarão mais um lugar de recordações, mas garanto, não a deixarão com a mesma vivacidade de antigamente, isso não volta jamais a não ser nas nossas lembranças.

Por: Guilherme Carlos Graziano

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

BOCHA E BINGO

 
Noite fria, nos bons tempos do “bingo”, 5 ou 6 anos atrás.

Como fazíamos todos os fins de semana, eu e a Myrtes, juntos com casais amigos, Wanderlei e Iara, Joaquim e Tereza e Hercules e Gloria, em comum acordo, levávamos nossas companheiras até o bingo da Rua Aratãs, em Moema.

Ótimo passatempo, pra quem gosta, evidentemente, vez ou outra ganhavam alguma coisa, na maioria das vezes, perdiam, (não muito, eram prevenidas...).

Agora, um momento de prosa entre nós, a respeito do bingo. Essa proibição é por demais arbitrária contra os idosos. A grande maioria das pessoas que frequentavam os bingos eram já de idade avançada, tinham um passatempo relaxante, como jogar tômbola nos fins de anos, com a família. A hipocrisia maior é que, os bingos continuam clandestinos, sem nenhuma segurança e, alguns deles, com “amparo” policial. Bem, é melhor parar por aí...

Nós, os maridos, íamos direto pra um salão de sinuca existente nas redondezas. Jogamos sempre em parceirada, sorteando as duplas.

Sempre que houvesse repetição de parceiros, trocávamos no decorrer das partidas, num sadio e bem humorado passatempo.

Isso quase todas as noites de sextas-feiras, sempre amigos, apesar de nem todos serem vizinhos um do outro. Só o Joaquim mora perto de mim. Moramos no Parque Continental há mais de 40 anos. O Hercules mora no Brooklin e o Wanderlei, no Morumbi, conhecemo-nos quando adquirimos, quase que simultaneamente, casas em Mongaguá, há mais de 30 anos.

Fizemos boa amizade que dura até hoje; nas férias coincidia sempre em passar na praia juntos, depois de acertos por telefone. Como nossas casas distava ‘a poucos metros da praia, nosso passatempo matinal era futebol e nas tardes, bocha, além da praia, é claro.

Sim, bocha, reservávamos um trecho retangular, na areia, 3 a 4 m. X 10 a 15m. Na quadra improvisada, sempre preparada pelo bom esportista e grande ser humano, o Nico, já falecido, concunhado do Wanderlei, aproveitávamos o aclive natural e suave das praias, todos jogando do mesmo lado, as partidas eram jogadas por 4 pessoas, parceirada, 2 a 2. Quem conhece jogo de bocha, sabe o que eu quero dizer, não tinha as tábuas de retenção, a própria areia se encarregava de amortecer a velocidade das bolas. Era muito divertido e gostoso, saudável e desopilante, pois não faltavam as gozações, brincadeiras e, por que não, discussões a respeito da validade, pontos, distâncias não respeitadas e as partidas sempre terminavam com risos e gargalhadas. Bom tempo, ou melhor, ótimos tempos, estes sim eram aqueles em que éramos felizes e sabíamos, esta era a face amarga da situação, sabendo que aquilo não era pra sempre; coincidiu que vendemos as casas quase que simultaneamente, por motivos vários.
 
por: Modesto Laruccia

 

 

 

MEMORIAS DANÇANTES



 
Tarde de um domingo qualquer dos anos 50, na Escola Técnica de Comercio Frederico Ozanan, situada na Praça Franklin Roosevelt 129 em São Paulo.

Amplificador ligado, disco acomodado no prato, o braço do pick-up posicionado, a agulha assenta-se sobre os sulcos gravados e ouve-se, então, nos alto-falantes a melodiosa reprodução de “Moonlight Serenade” executada por Glenn Miller e sua Orquestra.

Depois dos primeiros acordes, o microfone é aberto, o som da vitrola baixado e o locutor (no caso, eu) inicia sua mensagem:

 “-Com este prefixo musical, o Grêmio Estudantil Frederico Ozanam, inicia sua tarde dançante deste domingo, desejando a todos uma tarde de muita alegria. Vamos dançar pessoal?”

Aumenta-se o som da vitrola e a melodia volta, com todo seu romantismo, a preencher todos os espaços da pista de danças.

Daí para frente o operador de som iria enfrentar as três horas seguintes frente o pick-up, trocando discos e reproduzindo diversas musicas dançante. Seriam executadas artistas e orquestras tais como Waldir Calmon, Glenn Miller, Tommy Dorsey, Perez Prado, Frank Sinatra, Benny Godmann, Elvis Presley, Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Gregorio Barrios, Agostinho dos Santos, Cauby Peixoto e muitas outras estrelas musicais para que os convidados pudessem dançar e se divertir.

Quem chegasse naqueles momentos, sem ter tido qualquer contato anterior, não poderia imaginar o intenso trabalho que fora desenvolvido nas horas anteriores para permitir aqueles momentos dançantes.

Não saberia que no sábado, depois de terminadas as atividades culturais e esportivas habituais, por volta das 18h00m, os responsáveis pela Comissão de Formatura do ano e os diretores do Grêmio, se reuniam para dar inicio ao desmonte da classe para liberar espaço para o baile.

O salão era, sempre, o Escritório Modelo, onde o 3º. Técnico tinha suas aulas normais. Mesas e cadeiras desmontadas e empilhadas eram transferidas para outras salas de aula que não seriam visitadas pelo publico do baile.

Depois de desobstruído o salão, era a vez do Edson Gomes e do Newton Rubem Caggiano, colocarem suas habilidades em elétrica e eletrônica em uso. Caixas de alto falantes eram afixadas nas paredes, fiação era estendida com segurança por todos os espaços aéreos para permitir que os alto falantes pudessem reproduzir o som que seria transmitido da Central de Som instalada em algum lugar, de preferência não acessível por participantes do baile. Ali, só o disc. jockey seria admitido, para o tranquilo desenvolvimento de suas tarefas.

Mesas seriam colocadas no final do alpendre   que ocupava toda a lateral da escola para que ali fosse instalado o bar que, explorado pelos formandos do ano, teria a missão de vender os refrigerantes e arrecadar fundos para a festa final.

Por volta das 20h00 horas, com o trabalho em mutirão totalmente concluído, os participantes iam para casa, banhar-se para, depois, participarem de festinhas de garagem, sessões de cinema ou teatro ou outras atividades que bem lhes aprouvesse.

Domingo, dia do evento, após o almoço em família, os responsáveis iam para a Escola e depois de revisarem as instalações e nada encontrando para retificar,  espalhavam pela sala, já totalmente livre dos móveis, raspas de vela, para permitir que os bailarinos deslizassem melhor na desenvoltura de seus bailados.

Pronto, aguardavam a presença dos convivas e, no horário aprazado, davam início ao baile, sempre na forma com que esta narrativa foi iniciada.

Baile próximo do horário de encerramento. Novamente Glenn Miller era convocado e iniciava a execução de Moonlight Serenade, o som era baixado, o microfone novamente aberto e o locutor dizia:

“-Com este sufixo musical, o Grêmio Estudantil Frederico Ozanam, encerra mais uma de suas matines dançantes. Agradecendo a presença e esperando contar com a presença de todos nas próximas atividades, desejamos a todo um excelente final de tarde. Boa noite!”

Pronto. Tudo terminado? Claro que não. Assim que os convidados saíssem, o0 pessoal colocava, novamente, mãos à obra e desfaziam  as instalações preparadas na noite de sábado, remontavam a sala de aula para que na manhã de segunda feira os alunos pudessem retomar as aulas, e só depois, num bagaço só, iam para casa descansar.

Tempos der trabalho, dedicação, responsabilidade e muita diversão.

Foi muito bom tê-los vivido intensamente.  
por: Miguel Chammas