segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Até breve, minha Mãe

Virginia Siquelli de Assis
(20.03.1929 - 09.10.2011)

Por que será que as mães são essas criaturas tão especiais? Talvez porque elas tenham características muito especiais.
Eu poderia ficar horas e horas falando sobre todas as qualidades das mães, sobre sua capacidade de renúncia e sobre o amor incondicional que elas têm por seus filhos. Mas, não vou.
Quero falar, apenas, sobre a saudade que os filhos sentem de suas mães... Mesmo quando elas estão presentes, mas, acima de tudo, quando elas estão ausentes... Quando já tiveram de voltar à Pátria Celeste, através da desencarnação... Quando elas deixam esta dor em nosso peito, pela saudade crescente, pela vontade de ouvir sua voz, de olhar seu rosto, de sentir sua presença, o calor de seu abraço, a proteção de suas mãos...
Vêm na mente, as cenas da infância... De nossa casa simples, na Rua Umuarama; das brincadeiras de criança; das festas de família; do cheiro das comidas; das broncas; dos castigos; dos lençóis; dos perigos; dos socorros; da voz; do ralhar; das canções; da primeira menstruação; dos bailinhos; dos namorados escondidos e aceitos com sua benção...
Onde foi parar o mundo do faz de conta, os castelos dourados, as fadas?
Eu cresci e não houve outro jeito...
Senti tanto sua falta, mãe... Queria você mais presente em minha vida. Mas, talvez, exigi demais.
Hoje entendo que não podemos exigir além do que as pessoas podem oferecer... E também entendo que era o que você podia oferecer... Era o tamanho de seu amor e o seu jeito de dizer e demonstrar.
Também entendo, hoje, que para o coração e para a alma compreenderem, não precisa dizer nada... A linguagem é outra.
Entendi que você também era especial, do seu jeito. Jeito seu de mostrar sua força, para cumprir sua missão de ser mãe.
É. Chegou o momento de você voltar lá pra mais perto de Deus.
Elevo minha prece, para que Jesus a receba, minha mãe, com as mais belas flores dos jardins celestiais e que lhe dê forças para prosseguir no trabalho que ainda está por vir.
Que você tenha um despertar bem tranquilo e serenidade para compreender os dois lados da vida.
Sou-lhe grata, minha mãe, pela oportunidade da vida. Um dia você me recebeu em seu seio e me deu a luz da vida... Sou eternamente agradecida.
Fique em paz, Mãe! Até breve.
Eu te amo. Muita paz!

Por Sonia Astrauskas

sábado, 8 de outubro de 2011

Parabéns, Suely!

Tudo de volta outra vez


“O que é preciso é ser-se natural e calmo tanto na felicidade e na infelicidade, sentir como quem olha, pensar como quem anda, e quando se vai morrer lembrar-se que o dia morre, e que o poente é belo, e é bela a noite que fica”. (Fernando Pessoa)

Tudo começou quando descobri um preservativo na carteira do filho mais velho, que na época tinha 16 anos. Depois, pararam de me pedir documento em filmes impróprios para 18 anos. Em seguida, deram de levantar para me cumprimentar e também para dar lugar no assento do ônibus. O ponto crítico: Outro dia, perguntei ao fiscal do Terminal Santo Amaro, onde era o ponto do ônibus que ia pela Avenida Adolfo Pinheiro. Ele me respondeu que era na plataforma A, do lado oposto. Eu perguntei se era pra subir a escada, e ele respondeu que a acompanhante de idosos me conduziria. Nem tive tempo de retrucar (aquela minha pergunta foi besta). Veio a mocinha, delicadamente me deu o braço, conduzindo-me por aquela portinhola dos mal formatados pela natureza e dos prejudicados pelo DNA vencido. Entretanto, eu poupei minhas pernas cansadas de guerra. As escadarias continuaram lá impávidas sem o meu contato. Entrei no ônibus. Conformada com a situação, acomodo-me no espaço destinado aos ”idosos, gestantes e pessoas com deficiência”. Divago.

Quero meu pescoço liso de volta. Barbelas zero. A boca carnuda que não parava de falar. As mãos lisinhas sem aquelas pintinhas marrons. Pés bonitos e saudáveis com unhas perfeitas. É querer demais? Quero meus cabelos negros, bastos e brilhosos. Afinal a medicina tem que evoluir! Dermatologistas com tempo e juventude pra estudar é o que não falta. Lembrei mais. Quero as pernas longilíneas prontas pra caber em calças 38. A volta do branco dos olhos e o brilho do amanhã para sempre estampado na cara de pau das reminiscências. Capacidade de ler a bula num relance, sem nenhuma lente. Dá pra devolver o riso inconsequente e o juízo indolente?

Querer é poder. E essa agora. Descobriram que a pressa é um dos fatores que estimulam a obesidade. Fui fazer os cálculos de dividir o peso pela altura e, o resultado pela altura. Embatuquei total na tal de massa corpórea. A epidemia da obesidade se agravando. Lições de meditação. Saborear uma única uva passa durante vários minutos. A quem pensa que está enganando? Dependência de informação. Dependências químicas? Isquemias? A avalanche de informação exterior a inibir a informação interior? Clico aqui, clico acolá. Checo e-mails e surfo na web. Posto no “face”. Desconecto-me para conectar-me com a dermatologista. Viajo. Só rindo.

 
Inspirada no texto do Saidenberg, fiz este acima.
 

Por Suely Aparecida Schraner

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Onde quer que você esteja


Sim! Com certeza, ao seu lado haverá um violão... Onde quer que você esteja.
Quando tentei aprofundar-me no fosso do passado, as recordações que vieram à tona eram gratas, mas não muito nítidas. Sua fisionomia estava distante; talvez, por não relembrá-la há muito tempo. Resolvi fazer uma experiência: retoquei as cores, reavivei os contornos, eis que surgiu você e pasme, escutei o som exato da sua voz!
Verifiquei, então que, se fechasse os olhos, poderia revê-lo com espantoso realismo, sentindo até a alegria e vivacidade que havia nos meus e nos seus olhos, naquelas noites recuadas no tempo.
Lembrei-me que, quando saía do meu trabalho, no prédio da Galeria Olido, você sempre estava lá, à minha espera. Vinha ao me encontro e me abraçava e esse abraço era tão bom, tão aconchegante, que eu sempre pensava que seus braços foram feitos na medida exata para me abraçarem. Mas o melhor mesmo era a mística, a poesia, a mágica que havia e que fazia com que a eternidade coubesse toda naquele segundo do seu abraço...
E os sonhos que juntos sonhávamos, quando não mais precisássemos nos despedir? Das viagens de trem que faríamos; das madrugadas que passaríamos acordados para, juntos, vermos o amanhecer? Os versos que fazíamos, as músicas que tocavam (bastava eu cantarolar baixinho) e você a transformava na mais linda canção?
Ah! As ruas que percorríamos para irmos embora: Dom José de Barros, Barão de Itapetininga e quando chegávamos ao Viaduto do Chá, começava o entardecer o sol refletia-se nos vidros dos prédios e você dizia que gostaria de ser pintor, para retratar tanta beleza... E eu o escutava, enlevada, sem dizer nada, para não quebrar a magia daquele momento. Sabe? Até hoje o procuro por lá... Procuro o passado e aqueles dias.
Recordo... Dei-lhe meus olhos, dei-lhe minha boca; gota a gota, dei-lhe meu sangue; dia a dia, dei-lhe minha vida; dei-lhe o embalo de meus pobres poemas; o tédio de meus dias longos, minhas noites de solidão...
Quem agora, silenciosa e amiga, ouve-o narrar um passado do qual não teve um dia sequer, perguntando-se com ciúmes, quem foi que chamou sua atenção para a beleza das noites e verões profundos, o gosto perfumado e longo dos caminhos solitários, a primeira viagem, a primeira noite em um trem e a primeira paisagem?
A quem pertence o coração que bate loucamente quando, em um momento de aconchego e abandono, lhe segura ternamente as mãos?
Fomos tão felizes... Você lembra?

Por Lia Beatriz Ferrero

sábado, 1 de outubro de 2011

A hora e o lugar errados


Tem-se falado, neste site, de acontecimentos estranhos, que fogem àrazão, à lógica.
Visões entrevistas, pressentimentos, estranhas sensações em lugares de passado tenebroso.
Sim, pois eles existem em toda parte e São Paulo não foge à regra.
Meu caso, porém, não trata de nada disto. O que não lhe tira a estranheza. Não vi vultos, nem ouvi vozes sussurradas em becos sem saída.
Ainda assim...
Apenas como citação, no belíssimo filme de Woody Allen,"Meia Noite em Paris" (se não viram não sabem o que estão perdendo), o personagem principal, após ter estado num bar dso anos vinte com Hemingway, retorna logo depois, para não achar mais bar nenhum, apenas uma moderna lavanderia.
No livro "Memórias, sonhos, reflexões", Karl Jung relata ter estado em Ravenna, em companhia de uma amiga. Lá visitaram a antiga tumba de Gala Placidia, onde se maravilharam com os numerosos afrescos internos. Até que um dia retornou a Ravenna, para descobrir que a tumba não tinha, nem jamais havia tido, afresco algum.
Alucinação? Mas, e aí, ainda por cima compartilhada?
Pois bem. Márcia e eu caminhávamos, como fazemos quase todos os dias, pelas ruas do Brooklin, todas elas velhas conhecidas. Mas neste dia, passamos por um espaço que nunca me havia chamado a atenção. Uma larga entrada, com vários carros estacionados. Um deles, uma bela e impecável Alfa Duetto, conversível vermelho, com placa preta de 1974.
Embora um dos carros tivesse placa de vende-se, nada mais constava no local deserto, nem na Alfa. Nenhum letreiro comercial, ninguém para atender. O prédio fechado, como se jamais houvesse sido aberto.
A Alfa era um belo espetáculo; e sou fã dessa marca italiana, da qual, em tempos mais amenos, cheguei a ter uns exemplares. Mas, agora, no meu pobre status de aposentado, nem pensar! Ainda assim, sonhar é grátis e, quem sabe um dia eu pego um bolão na Mega Sena, aí sim, vocês vão ver!
Noutro dia, novamente passeando pelo bairro, desta vez só, tentei rever o belo conversível. Mas, onde? Não o encontrei, nem sequer o pátio onde estava estacionado. Girei e revirei as ruas, bem familiares. Nada! Fôra nesta? Ou naquela outra? Na Guararapes? Na Nebraska? Na Indiana? Onde, que rua, afinal?
Tenho boa memória, principalmente visual. Localizo-me facilmente, como se tivesse um GPS interno e sempre, instintivamente, acho o lugar buscado.
Mas, não desta vez. Como se o carro e o lugar nunca tivessem existido, a não ser na minha imaginação. Será o Alemão, aproximando-se aleivosamente? Mas, a Márcia estava junto e não me deixa mentir.
Tento novamente achar o lugar perdido, só para tirar a teima? E não achando, como é que ficamos?
Mais um episódio da série “Mistérios de São Paulo”.

Por Luiz Saidenberg

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O que o nosso povo quer


Aqui em São Paulo não há como ficar indiferente ao que acontece na esfera federal. Sei que o nosso “Memórias” não se presta pra esse tipo de protesto, mas a corrupção está tomando conta de todas as dependências públicas e é chegada a hora de despertarmos para um desgaste que atinge, não só os assalariados, parcela mais atingida e sofredora de nossa nação mas, a nós, também, aposentados...
Não quero, absolutamente, levantar bandeiras em nome da moralização, apenas que não fiquemos totalmente alheios ao que está ocorrendo. Vamos sempre recordar passagens de nosso passado sem esquecer que, pra podermos continuar, precisamos cuidar do presente.
Não é possível mais conviver com essa situação.
No desfile do 7 de Setembro, a presidente Dilma Rousseff teve que assistir, também à Marcha Contra a Corrupção e deverá aceitar o que realmente o povo espera do seu governo: aplicação imediata da "Lei da Ficha Limpa", a anulação da constrangedora "absolvição" de Jaqueline Roriz e a continuação da "varredura" dos corruptos. O PT, que sempre se proclamou defensor da liberdade de expressão, luta, agora pra impor uma lei que controla a mídia, disfarce bem ridículo de uma censura à moda das republiquetas de triste memória. Para enfrentar os problemas com a saúde, a baixa remuneração dos aposentados, o ensino público e as emendas dispendiosas recorrem-se ao aumento de impostos. O país que mais arrecada imposto no mundo, com retorno em aplicações sociais inexpressivo, quer o que mais desse povo? Só com os últimos aumentos de salários vultosos que a grande trupe de políticos, de todas as esferas recebem, daria pra cobrir todos os problemas de saúde. Ganham muitíssimo bem, salários que muitos deles, na vida particular, se tivessem de trabalhar fora da esfera pública, nunca alcançariam nem a metade do que apuram. E, no entanto, roubam corruptos malditos.
Estão testando a paciência da população, querem impor um sistema de vida fazendo crer que a corrupção seja encarada como consequência banal na vida dos contribuintes.
A Marcha Contra a Corrupção foi pacífica, ordeira, educada e respeitosa. Mas, a angústia e a intolerância diante desse quadro de malversação dos bens públicos, isso falou alto, berrou, gritou, a dor dos injustiçados que sofrem depois de dedicarem suas vidas com trabalho e sacrifícios, em todas as categorias, pagando seus impostos na crença de que tudo vai ser para o bem público. A certeza de que não haverá movimentos das Forças Armadas como em 1964 dá a eles uma folga no aperto da justiça. A "absolvição" de Jaqueline Roriz é um exemplo disso. Vergonha danada, velhacaria nauseabunda, safadeza rasteira com odor putrefato de cadáveres em decomposição. Essa é a corja de políticos que brincam com o povo. Vagabundos, só pensam em viagens com "jatinhos" de empreiteiras. Com que cara ela e os outros envolvidos em corrupção vão enfrentar seus pares? Com as mesmas caras, pois sabem muito bem que o velho e safado ditado ainda funciona: "O roto não pode falar do rasgado". Farinha do mesmo saco. Pobre de nós.

Por Modesto Laruccia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vou Matar A Waldelice


Anos 70

O barulho da máquina nos meus ouvidos parece rir de mim. Zomba de mim, “tirando uma com a minha cara”. Os meus olhos estão cheios de lágrimas e a adrenalina está a mil. Não consigo ficar imóvel.
Penso: - Vou matar a Waldelice! Juro que vou!
O barbeiro desliga a máquina e me diz: “Qualé, maninho! Sossega esse rabo! Parece que ta sentado num formigueiro, pô! Não adianta pirar “Mané”. Não dá para consertar a cag... que você fez na tua “lã” (cabelos), “mermão””.
Esforço-me para permanecer imóvel. O barbeiro e a máquina voltam a fazer o serviço. E a máquina, a zero, derruba os meus cabelos formando montes em torno da cadeira.
“É! Vou matar a Waldelice”!
Ah! Os meus cabelos, tão lindos...
Cabelo liso, castanho-alourado, tão liso que o “chuca-chuca” não resistia por muito tempo. Nem mesmo com o Óleo de Lavanda Johnson. Quando eu era criancinha ele era cortado, como se dizia à época, “com uma tigela”. Era só usar a tesoura para cortar o excesso, aparar a franja e pronto!
Fiquei maiorzinho e meu avô me levou ao barbeiro para que ele fizesse o meu primeiro corte profissional. Vovô queria o corte “Príncipe Danilo”. Corte usado por algum tempo até que o meu pai, sem paciência de esperar pela feitura daquele corte demorado, pediu ao barbeiro que cortasse o meu cabelo à “americano curto”.
Com esse novo corte, pareceu-me que o Inferno mudara-se de mala e cuia para a minha casa. Vovó comandava a “diabada”. Cada vez que eu voltava do barbeiro , a “fornalha reacendia”. Não adiantava enfrentar vovó. Ela podia mais. Cansado, na próxima vez que fomos ao barbeiro o meu pai foi logo dizendo: - Faça o corte “americano cheio”, bem cheio no menino.
A máquina, com seu barulho de risos fazendo o seu trabalho, debocha de mim.
“É. Vou matar a Waldelice! Bem devagar! Quero que ela sofra muito”!
Finalmente, a idade de ir sozinho ao barbeiro, lembrei. Por minha conta, eu sempre protelava a ida. Ia somente quando o meu tio Amedeo dizia que o meu cabelo estava comprido, a ponto de se fazer trancinhas, e que ele iria comprar umas fitas para pôr nas tranças “da menina”. Numa dessas idas ao barbeiro, invejando o corte de cabelo dos meus primos mais velhos, entrei e disse ao barbeiro: - Corta à “escovinha”. E a máquina, no número um fez a limpa na minha cabeça deixando, no alto, apenas uma coroa de cabelos compridos e repicados. Quando cheguei em casa foi um escândalo. Ouço os gritos da minha avó até hoje dentro da minha cabeça. Aprendi que experiências capilares, nunca mais.
Estou encharcado de suor, sentado nesta maldita cadeira de barbeiro, ouvindo aquela máquina infernal fazendo a sua destruição. Cheio de raiva, pergunto ao barbeiro: - Já falei para você que eu vou matar a Waldelice? Já?E o corte à escovinha, além do transtorno que causou não fez o sucesso que eu esperava. Foi mal. De volta ao “americano cheio” fui reparando que os cabelos das outras crianças e dos jovens estavam ficando mais cheios e mais compridos; que, aqui e ali, apareciam jovens com topetes enormes e volumosos, e costeletas. Elvis explodia nas paradas cantando “Jailhouse Rock” e sua presença nos filmes causava mais impacto que a presença do James Dean.
O meu corte americano cheio foi ficando mais cheio, o meu topete quando molhado chegava até a minha boca. Só que nada de costeletas. A barba ainda não havia aparecido...
O barbeiro me cutuca e diz: “Aí, meu. Toma essa água que “cê” ta suando demais. Putz! Lá fora deve estar uns “trocentos” graus”.
Falo alto: - Vou matar a Waldelice! O barbeiro ri e me diz: - Mata mesmo! Se quiser ajuda, pode me chamar.
Um dia o Elvis perdeu seu trono capilar. É que apareceram uns rapazes de Liverpool e os meus cabelos conheceram o esplendor, apogeu e glória.
Eu não precisava fazer nada para ser um dos Beatles! Foi só abolir a brilhantina, voltar ao velho método “corte de tigela”. Era só repartir o cabelo de lado, ou não e deixar a franja solta. Nada mais a fazer ou a usar. A não ser, em certas ocasiões, usar um monte de “laquê” para manter o cabelo durão e no lugar. E sempre, nas festas, o terninho preto, como um verdadeiro súdito de Sua Majestade. Convencia... Até que eu abrisse a boca. Porca miséria! - Some! ‘Queima o chão’, Waldelice! To chegando ai”.
Eu causava inveja nos anos 70, com o corte “Pigmalião”. Depois, com o cabelão comprido, até as costas, tipo Jesus Cristo, super star. Mas, nos anos 70 tudo mudava mais rápido que nos anos 60. Os cabelos compridos começaram a ficar ondulados, crespos, cacheados. Aposentou-se a velha touca de meia de náilon que muita gente usava à noite, para alisar os cabelos.
Passa o tempo e eu “grilado” com os meus cabelos lisos. Uma noite, no Redondo, sentado com os amigos, comentei sobre esse incômodo. Waldelice, minha amiga, cabeleireira profissional, que há anos trabalhava na Rua Augusta, dispôs-se a solucionar o meu problema. Que eu fosse domingo à casa dela para fazer uma ondulação leve. Eu ia ficar uma lindeza!
Pergunto ao barbeiro:
- Comentei com você que eu vou matar a minha ex-amiga Waldelice? Ele riu...
Domingo, lá estava eu, na cozinha da Waldelice pronto para a transformação.
Cabeça lavada, o líquido da permanente, um “bobby” aqui, outro ali; uns “bigudins”, neutralizante, fixador. E toda aquela parafernália que exige uma, ou um permanente. Nunca lembro se é um permanente ou uma.
Finalmente, chegou a ora de olhar no espelho. Meu Deus! Pirei completamente. Não sabia se estava olhando para o espelho ou para um pôster do Leão da Metro! A textura do cabelo, então, parecia a mesma de um Bom-Bril. Toquei nos fios e percebi que a coisa era pior. Era palha de aço pura. Não ganhei ondulações suaves, nem suaves cachos angelicais. Ganhei sim o que nunca quis. Um pu... cabelão “Black Power” castanho alourado. Terror puro de se ver e de se ter. Nem a Elke Maravilha iria encarar um cabelão como o meu! Peguei as minhas coisas e sai da casa da Waldelice falando um monte. E fedendo a líquido de permanente!
Em minha casa, quando cheguei, causei terror. Foi um Deus nos acuda. Tentei de tudo para fazer o meu cabelo voltar ao normal. Pensei até naqueles alisantes afro. Nada. Só tinha um jeito. Começar tudo de novo.
Agora, eu estou aqui, sentado nessa maldita cadeira de barbeiro e com a cabeça raspada a zero, lamentando o dia em que conheci a Waldelice. Piero, o barbeiro retira a capa que me cobria, passa a escova em meu pescoço e diz: - Está feito! Agora é esperar crescer.
Olho-me no espelho e o quê vejo? Vejo o Dunga da Branca de Neve, com suas enormes orelhas de... de... Dumbo! E, atrás de mim, o Piero, esforçando-se para não cair na risada, pergunta-me: - Trouxe um boné? O sol está de matar! Claro que tinha trazido! Não pelo sol, mas pela vergonha de sair por ai exibindo o meu “aeroporto de mosquitos”.
- Some Waldelice! Desapareça do mapa. Eu vou te matar!

 
Por Wilson Natale

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Sobrevivente


1974. Vivíamos já há dez anos sob a tutela do regime militar instalado no Brasil em 1964. Depois da queda do presidente João Goulart (Jango) que como vice-presidente, havia assumido o poder depois da renúncia do recém eleito Presidente, Jânio da Silva Quadros. A Censura Federal, então, passou a fazer parte dos programas da televisão, das peças teatrais e da imprensa falada e escrita da mídia nacional.
Vivíamos ainda o chamado “milagre brasileiro”, éramos infelizes e a maioria fingia que não sabia. Afinal de contas, o Brasil era Tri Campeão Mundial e o livro “Brasil Nunca Mais” ainda estava sendo escrito pelos seus personagens nos porões dos cárceres da “nossa” ditadura.
O Programa Silvio Santos com seus picos de 75 pontos no IBOPE ia ao ar pela Rede Globo, Canal 5, São Paulo, nas tardes de Domingo, seguido do programa do Chacrinha, fechando o fim de tarde e o início da noite Global.
Eu participava de dois programas humorísticos da TV Tupi paulista: Deu a Louca no Show, dirigido pelo saudoso Paulo Celestino (já falecido) e Agência LIG-PAG, dirigido pelo Wilton Franco.
No intervalo da gravação de um dos programas acima mencionados, reunidos no corredor de acesso ao estúdio, nós aguardávamos o reinício das gravações, no maior bate papo, recheados de momentos hilariantes de humor e imitações improvisadas, sem a tutela da irritante censura que éramos submetidos nos textos oficiais a serem gravados.
Nesse dia, me lembro da participação de alguns colegas como o Gilberto Fernandes (Gibe, já falecido), Vianna Junior (falecido), Rony Cócegas (falecido), Roberto Ronney (falecido), Ankito (falecido) Marcos Plonka (falecido), Ary Leite (falecido), Roberto Marquiz (Teobaldo), Clayton Silva, e outros que não me lembro agora e nem sei se ainda estão nesse nosso mundo.
Havia muita alegria, risos então eram intensos, quando um dos redatores dos textos do programa e também um dos responsáveis pela minha carreira artística, vendo aquela bagunça, resolveu brincar com o grupo e, dirigindo-se ao grupo disse:
- É pessoal! Aqui, fora do ar, vocês agradam muito... Quero ver vocês agradarem assim quando estiverem em cena.
- E na hora, como que combinado, ouviu como resposta de um coral ensaiado, no meio de muitas gargalhadas:
- Aqui a gente agrada muito por que, aqui, o texto tem qualidade; é todo de nossa autoria. Foi uma gozação só até o término das gravações, fazendo todos esquecerem que já fazia dois meses que ninguém recebia o salário.

Em tempo:

O título dessa narrativa seria: Histórias da Minha Vida, porém, ao chegar ao final e notar o número de ex colegas agora já falecidos, percebi que, além de ser um dos presentes, eu também sou um dos poucos SOBREVIVENTES.

Obrigado Senhor,
por deixar gentilmente eu ficar por aqui,
seguindo a minha trilha.
Pois, nessa mudança de vida
Quero muito ser ultimo da fila.

Por Arthur Miranda (tutu)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sonhos, noite garoenta em São Paulo


A Avenida São João, vista da Praça Antonio Prado - antiga do Rosário – desaparece em meio à neblina que anuncia o anoitecer na Paulicéia Desvairada.
Neblina.
Frio.
Do monumento a Giuseppe Verdi até a porta do Conservatório Dramático e Musical são 15, 20 passos. Espero um bonde passar, atravesso a avenida e me abrigo da garoa e do vento frio sob a soleira de uma das enormes portas do prédio dos Correios e Telégrafos.
De repente Mario de Andrade

“... No Páteo do Colégio afundem o meu coração paulistano:
um coração vivo e um defunto
Bem juntos
Escondam no Correio o ouvido direito,
o esquerdo nos Telégrafos,
quero saber da vida alheia
Sereia!...”

A situação, o lugar onde me encontro, fez-me lembrar dos versos de Mário em Poemas da Amiga. Não sei dizer se ele já os escreveu ou ainda estão por escrever porque é bastante comum em minhas viagens ao passado da nossa cidade de São Paulo, que aconteça algo como o esvair-se da noção do tempo percorrido ou vivido; portanto peço desculpas por eventuais falhas em minhas relembranças ou deslembranças.
Sineta, campainha estridente. Término do horário das aulas do Conservatório. Alunos saem rindo, conversando e dirigem-se para os pontos de bonde, alguns enveredam pela Rua Formosa em direção ao Largo do Piques.
Espero e espero Mario de Andrade.
Mario desce os degraus e sai para a calçada. Sobretudo, luvas e chapéu. Alguns alunos ainda o acompanham até o início da ladeira de São João. Não podem me ver, faço parte da neblina. Caminham e param, caminham e param, sempre sob a luz dos postes da Light. Em cada parada, um aluno lhe apresenta uma partitura, um texto, comenta um acorde... Mário lê, ouve, explica. Despedem-se na esquina da Líbero Badaró:
- Até amanhã, professor...
-Até...
Mais alguns passos e Mário entra no Franciscano. Senta-se junto ao alto balcão de madeira envernizada, um verniz bem escuro já sem brilho. Coloca o chapéu sobre o mármore, tira as luvas. Limpa os óculos redondos do tipo ‘olho de coruja’:
- Hoje está frio, né? Por favor, me faz uma sanduiche de queijo com salame e uma guaraná gasosa gelada!...Dá prá espetar essa conta até amanhã?
- Claro, professor... O senhor manda... Vai uma manteguinha?
Quase 9:ooh da noite, Mário começa a caminhar para o Theatro Municipal. O frio continua. Enrola o cachecol em torno do pescoço. Aperta o passo...
Na escadaria do Municipal o encontro com amigos, músicos, literatos, jornalistas. Abraços, tapinhas carinhosos nas costas. Cumprimentos protocolares, beijos nas faces.
A escandalosa voz de Oswald de Andrade. Cumprimentos aos berros, gargalhadas.
O Clube da Antropofagia, capitaneado por Oswald, Tarsila e comitiva, vem confirmar seu apoio à candidatura de Júlio Prestes para Presidente da República e , para isso, organiza uma noite de cultura brasileira no palco do Theatro Municipal. Claro que a grita da ‘elite quatrocentona’ composta por descendentes de assassinos, ladrões, desertores e degredados que compunham a tripulação de Martim Afonso de Souza e foram abandonados à própria sorte em S. Vicente, repito, a grita foi geral: “Templo da música e da ópera conspurcado por políticos e politiquices”, foram os ditos menos agressivos publicados nos dias seguintes. É evidente que Cornélio Pires, Genésio Arruda e, entre outros mais, Sinhô, o auto denominado, ‘Rei do Samba’, faziam parte da tal malta de medíocres artistas circenses que se atreveram a pisar no palco do tal templo. Tudo do jeitinho que Mário e Oswald gostavam, cutucar os miolos da paulistanada conservadora, com o beneplácito dos Mesquita do “O Estado de São Paulo”, interessadíssimos, claro, na vitória de Júlio Prestes...
Permitam-me o direito de abrir um parêntese nessa viagem pelo passado político e cultural de São Paulo para falar de um dos pais do samba, José Barbosa da Silva, o Sinhô:
Infelizmente, a temporada de Sinhô em São Paulo acabou por agravar o estado de saúde do sambista...

-“Jura
Jura,
Jura pelo Sinhô,
Jura
Pela imagem
Da Santa Cruz do Redentor
Prá ter valor a tua jura”...

Uma hemoptise incontrolável, incoercível, levou Sinhô para o céu dos sambistas em 1930. Manuel Bandeira escreve uma crônica histórica – O Enterro de Sinhô - sobre seu velório e enterro, com os pobres, os negros, as prostitutas do Mangue, a malandragem, a cidade do Rio de Janeiro ‘underground’, da Pequena África dos iniciados, rendendo-lhe homenagem...
Voltando à vaca fria:
Discursos, fotos, espoucar de flashes de magnésio. “Rumo à vitória nas urnas” é o leit-motif dos políticos e politiqueiros.
Acabou.
Os participantes do meeting se dispersam. Sinhô percorre a cidade no meio da madrugada garoenta e descobre que São Paulo não é o Rio, que o centro de São Paulo não é a Lapa carioca. Vai dormir em um hotel da r. Mauá. Tosse. Escarro com laivos de sangue todo o tempo. Não consegue dormir... A Parca vai segui-lo até o embarque no ferry-boat da Cantareira que de Paquetá deveria leva-lo à Praça XV. Sinhô morreu no mar, afogado em seu próprio sangue...
Tarsila, Pagu e outros amigos do grupo vão terminar a madrugada na garçonerie da Líbero Badaró, mantida por Oswald de Andrade, um abatedouro de luxo.
Absinto, champanhe, whisky, cocaína, cigarros do Pai João...
Mário segue à pé pela Barão de Itapetininga até a Pça da República. Muito frio. Conta os níqueis. O dinheiro é suficiente para um taxi. Nada de andar até a Barra Funda:
- ‘Tá frio, né doutor? Prá onde vamos?
- Rua Lopes Chaves... Chegando lá eu mostro a casa...
Durante alguns minutos escuto uma valsa ao piano.
Silêncio.
Tiquetaquear de uma máquina de escrever.
Talvez um artigo para um jornal, talvez anotações para um livro, talvez fichas para seu arquivo particular... As luzes das ruas se apagam. Os carroceiros começam sua fâina de entregas de pão e leite. Barulhos das latas de lixo sendo jogadas nas calçadas. Mario dorme profundamente enquanto a cidade começa a acordar. Em menos de um ano o país vai sofrer uma virada, política e cultural. Governos serão derrubados, eleições fraudadas bilaterlmente levarão o Brasil a um novo regime. Crack da bolsa de Nova York. Oswald de Andrade vai à falência...
Suicidios quatrocentões...
Mario de Andrade dorme um sonho profundo. Talvez sonhe com uma São Paulo perfeita, a São Paulo de seus sonhos, a comoção de nossas vidas...
Não sei se o que narrei, aconteceu verdadeiramente, foi um sonho muito doido... Mas bem que poderia ter acontecido, porque não, heim?
Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Memórias cinematográficas


Época: 1955
Local: Rua São Bento – São Paulo – BR
Locação: Cine Rosário
Participantes: Eu e meu tio João Kalil Hojaij Neto
Uma da tarde, sem qualquer aviso ou preparo (como era soer acontecer), meu tio, ainda namorando com minha tia Zazá, chega em casa e, com aquele vozeirão habitual, vai me chamando desde a porta de entrada.
-Miguelzinho...Miguelzinho...
Apareço na porta do quarto em que dormíamos meu pai, minha mãe eu e meu irmão; ele, meu tio, me olhando espantado disse: - Ainda não está pronto? E sorrindo comanda: - Vai se trocar que nós vamos sair.
Não esperei uma segunda ordem. Corri para trocar de roupa, em poucos minutos estava pronto para sair e enfrentar uma nova aventura.
Aonde vamos? Perguntei curioso. A resposta foi rápida e lacônica: - Sair...
Despedimo-nos, eu de minha mãe, meu tio da namorada e saímos. Ônibus na Augusta com destino ao vale do Anhangabaú, ponto final embaixo do Viaduto do Chá. Subimos as escadarias da Galeria Prestes Maia (ainda sem as famosas escadas rolantes), chegamos à Praça do Patriarca e nos dirigimos para a Rua São Bento. Alguns passos mais e estávamos em frente à bilheteria do Cine Rosário.
Dei uma olhada nos cartazes e descobri que o filme em cartaz era O GAVIÃO E A FLECHA, ESTRELADO POR Burt Lancaster e a linda Virginia Mayo.
Enchi meus pulmões e dei um suspiro dos mais expressivos. Novamente meu tio me fazia a vontade.
Bilhetes comprados, entramos no cinema.
O Cine Rosário tinha uma característica especial, a tela ficava na parte de trás da sala de projeções, assim que você entrava, via à sua frente e até o final da sala apenas as cadeiras, a tela estava às suas costas.
Esclarecimentos prestados, vamos à continuação desta lembrança.
O filme tinha como cenário a Lombardia do século XII , o vilarejo se defendia dos invasores do Rei Frederico, Dardo (Burt Lancaster) era o líder dos camponeses que lutavam contra o Conde Ulrich – O Falcão. Não pretendo, aqui, fazer um condensado do filme, no meu entender um ótimo espetáculo. Apenas e tão somente, quero registrar mais uma tarde de cinema nos idos da minha pré adolescência.
O Burt Lancaster, que iniciou a vida como atleta e acrobata, faz nesse filme grandes proezas acrobáticas, em uma delas usando os mastros de bandeiras colocados nas aléias da muralha do castelo como trapézio, ele faz uma sequência de saltos mortais que deixava o público quase sem respirar.
Depois das lutas e acrobacias do filme, saímos do cinema e demos uma paradinha no rei da Salsicha no Largo do Café, para devorar um duplo de salsicha com mostarda acompanhado por um guaraná da Brahma bem gelada e, enfim, voltarmos para casa na velha Rua Augusta de todos os sonhos.

Por Miguel Chammas

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Meus tempos de paulistano


Eu, Luiz Gonzaga Sant'ana, hoje aposentado, moro em minha terra natal que é Descalvado, SP, também tive os meus dias de paulistano.
No início, viemos de Araraquara para o bairro do Jaraguá. Moramos lá por oito anos e meio, depois nosso saudoso pai comprou uma casa em Pirituba, lá na Vila Zatt.
Minha família está esparramada na região, uns no Jaraguá, outros em Pirituba.
Agradeço a todos os paulistanos que nos acolheram quando aí chegamos.
O meu pai trabalhou e se aposentou como funcionário público estadual, graças a Deus e a Jânio da Silva Quadros, então na época governador do estado e da sua Senhora Primeira Dama do Estado, Dona Eloá.
Eu trabalhei como jornaleiro na Rua Catão, no bairro da Lapa, depois fui trabalhar no Bom Retiro, no setor calçadista.
Na época em que aí morei, havia muita diversão, como por exemplo: cinema, Parque do Ibirapuera, pico do Jaraguá, Horto Florestal, futebol no Pacaembu, tempos de futebol arte, com Canhoteiro, Cláudio Cristovão, Luizinho, Zizinho, Julinho, Mauro, Waldemar Fiúme, Djalma Santos, Pelé, o maior jogador de todos os tempos, juntamente com Garrincha, outro gênio e por aí vai. Eu vivi essa era, graças Deus.
Eu tenho orgulho de ser um bom tempo um cidadão paulistano.
Aqui vai o meu abraço a todos os paulistanos.


Por Luiz Gonzaga Sant'ana

domingo, 18 de setembro de 2011

Memórias estudantinas


Outro dia, relembrava alguns fatos que ficaram marcados em minha adolescência. Foi quando veio em minha memória a época em que passei a frequentar a Escola Estadual de Primeiro Grau Professora Adelina Mazagão Alcovér, que ficava na Rua Celso de Azevedo Marques, na Mooca, quase no final da década de 60.
Meus olhos de menina de 11 anos deslumbravam um mundo completamente diferente do que eu estava acostumada na escola primária, dirigida por freiras, que era o Círculo Operário, na Vila Prudente, hoje Círculo de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente e Colégio João XXIII.
Nos primeiros dias de aula de ginásio, meu amado paizinho me acompanhava para me ensinar o caminho. Íamos a pé, desde nossa casa, na Rua Umuarama (Vila Prudente) até a escola. Um longo caminho, mas, era preciso, pois não tínhamos carro e nossos parcos recursos não nos permitiam ir de táxi; as linhas de ônibus, disponíveis na época, não nos levavam ao nosso destino e teríamos de utilizar várias linhas para conseguirmos chegar à escola.
Mas, para mim, tudo era fascinante. Eu me sentia crescida, adulta e tinha orgulho por ter conseguido passar no exame seletivo e frequentar aquela escola. Naquela época, as escolas estaduais eram hiper melhores do que as particulares, em se tratando de qualidade de ensino, conteúdo, rigor, disciplina etc, e preparavam o aluno para os cursos posteriores, como o segundo grau e faculdade.
Saíamos de casa bem cedo, pois as aulas iniciavam-se às 8:00 h. Descíamos a Rua Umuarama, onde morávamos, até um determinado trecho da Rua José Zappi, onde nos dava acesso à Rua Chamantá (Parque da Mooca), e esta, por sua vez, nos dava acesso à Avenida Paes de Barros, na altura do início da Rua Juatindiba, hoje Rua Juventus. Andávamos toda a extensão da Rua Juatindiba até chegarmos à Rua Celso de Azevedo Marques, em tempo de eu poder participar do hasteamento das bandeiras do Brasil, de São Paulo e da escola, ao som do Hino Nacional, cantado por todos os alunos.
Logo aprendi o caminho e ia sozinha para a escola. Depois, acompanhada pelas colegas que se foram somando, mesmo porque acabei fazendo parte da equipe de voleibol da escola. Esta atividade curricular me abriu as portas do Clube Atlético Juventus. No início de 1970, o treinador da equipe feminina juvenil do clube, o Ademar, juntamente com nossa professora de educação física, a Rosália, buscavam novos jovens talentos para o esporte e davam oportunidade aos alunos de nossa escola que desejassem praticar o vôlei. Nestas seleções, fui escolhida e lá fui eu jogar voleibol pelo time juvenil B do Juventus. Estudava pela manhã e treinava à tarde, no clube. Participamos de vários campeonatos locais e até intermunicipais, conquistando algumas medalhas e troféus para o clube.
Bons tempos, aqueles.
Depois, passei para o segundo grau e tive de me despedir da escola querida que eu jamais esqueceria, por tantos bons aprendizados e tantas alegrias recolhidas.

Por Sonia Astrauskas

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Dona Margarida


Dona Margarida nasceu em Joinville - Santa Catarina no longínquo ano de 1886. Sofreu bastante na vida, mas conseguiu criar muito bem dois filhos. Mudou-se ainda jovem para São Paulo, fixando residência na Vila Mariana e posteriormente no Parque Jabaquara, onde enviuvou. Lá morava com seu filho solteiro, o Alberto, bastante brincalhão quando jovem, solteiro e era feliz. Assim eu a via quando criança.
Quase não me lembro de seu marido, pois ele faleceu quando eu tinha apenas quatro anos de idade, e os fatos ocorridos nos primeiros anos de nossa vida são gravados de forma tênue na memória. Lembro-me, porém, que um de meus programas prediletos era passar um fim de semana inteiro com Dona Margarida: só eu e ela!
Sua casa, simples, porém espaçosa, estava localizada em um amplo terreno no qual boa parte da floresta nativa foi mantida. Como vizinhos, de ambos os lados, terrenos ainda não utilizados contando com a cobertura florestal! Quantas vezes fomos catar cogumelos, plantas e amoras silvestres! Quando eu estava lá, ela cantarolava feliz e me fazia gostosos almoços e jantares.
Lá, eu tinha um patinete (veículo sem motor, de duas rodas, no qual você se mantém em pé), com o qual eu descia a rua, mais esburacada que superfície da Lua, em desabalada carreira. Que gostoso!
- Tito! Pare já com isto! Se você se machucar, o que vou dizer a seu pai?
Mas, acreditem, nunca cai. Eu esperava os dias para voltar lá e andar no meu patinete.
Eu gostava também de sumir no meio do mato onde havia uma casa escondida! Lá, não morava ninguém. Esta casinha estava localizada no atual Parque Conceição.
-Tito! Sumiu de novo! Onde esteve?
Um dia seu filho mais novo casou e foi embora. Dona Margarida ficou sozinha. Os filhos acharam que ela não podia morar só naquele fim do mundo e ela teve de mudar-se para o Alto da Lapa, para morar com o seu filho mais velho.
A partir deste dia, Dona Margarida nunca mais foi feliz.
 
* * *
Dona Margarida era minha avó. Seu nome de batismo era Margaretha Wassermann, casada Flügge, também chamada de Oma Grete (Oma em alemão é avó).
A rua em que ela morava chamava-se das Guajuviras e hoje se chama Rua Volkswagen.

Por Roberto Flugge

domingo, 11 de setembro de 2011

Transporte em São Paulo



Na represa Billings, perto da Escola de Emergência São Benedito, tinha a canoa do Zezinho. Ao menos uma vez por semana, ela e ele remavam até o outro lado. Uma cachoeira e as casas dos ricos eram as atrações. Navegar não é preciso.
E tinha também o bonde. À noite, o curso clássico, no Alberto Conte. Chegou março de 1968 e o bonde morreu. Bem ali, no Largo 13, onde, hoje, centenas de camelôs e seus clientes de pouca grana e muita fama se movimentam. Essa massa humana movimenta-se ainda mais rápido quando chega o "rapa". Que força nas pernas, meu! Que categoria nos braços com toda aquela tralha! Quanto equilíbrio na corda bamba da vida. Nessa olimpíada, essa turma é ouro. Ouro de tolo.
Numa quase meia-noite, ela no ponto de ônibus da Praça D. Benta. Bem atrás da Santa Casa de Santo Amaro, do lado do necrotério. A pilha de livros nas mãos. Pra quê tanto caderno, meu Deus? O ônibus chega e vem cheio. Lugar só para um pé no degrau. Mas, dá pra subir. O outro pé fica pendurado. Material num braço e o outro com a mão livre pra segurar na porta. O ônibus parte e faz a curva para pegar a Rua Isabel Schmidt. O peso do mundo desaba sobre ela. A gritaria é geral. O motorista, que não era surdo nem nada, pára. Mas se engana quem pensa que ela caiu. O homem ao lado, agarrou seu rabo de cavalo e a manteve suspensa no ar. Material escolar estatela-se no chão. Tudo recolhido, segue transportada. Lugar mais à frente do ônibus apareceu do nada. "Que rabo forte, hein?" - um falou. "Essa foi por pouco".
Táxi era coisa rara, ainda mais praquelas bibocas. Não iam lá por dinheiro nenhum. Transporte certo era o "SPédois". Em tempos de Karman Guia.
Agora todos plugados, distâncias encurtadas em muitos megabites e esta demora para chegar. Os carros, bibelôs de asfalto. Da canoa do Zezinho à cidade dos helicópteros, cuja frota só perde pra Nova Iorque.
Ainda assim, 1/3 dos deslocamentos nessa cidade ainda é a pé.

Por: Suely Aparecida Schraner