domingo, 4 de setembro de 2011

Vida de artista


20 horas, 1973, eu cansado, depois de passar quase o dia todo ensaiando e gravando o programa DEU A LOUCA NO SHOW, nos estúdios da velha TV Tupi paulista, no Alto do Sumaré, ao lado de grandes nomes do cenário artístico brasileiro, como José Vasconcelos, Jorge Loredo (Zé Bonitinho), Ary Leite, Neide Aparecida, Ronny Cócegas (popular cocada), Wanda Moreno, Miriam Rodrigues, Geraldo Alves, Roberto Roney, Teresinha Elisa e ainda a direção do saudoso e querido ator e diretor Paulo Celestino. O meu prazeroso, mas estafante dia de trabalho estava encerrado, apesar dos cachês atrasados, a velha Rede Associadas antigo canal 3 e depois canal 4, infelizmente caminhava para o seu triste fim, não sem antes ter sido o Alicerce e o Berço de grandes profissionais, das atuais redes de televisão do Brasil.
Saí da emissora ainda com aquele stress de gravação, parei na padaria ao lado da TV, muito famosa na época pela frequência diária de muitos artistas de cinema, teatro e televisão, principalmente pelas atrizes e atores das novelas da hoje extinta Tupi, e que até hoje ainda circulam em nossas telinhas em vários canais, como Laura Cardoso, Lima Duarte, Irene Ravache, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Eva Wilma, Luiz Gustavo e tantos outros. Bati um papinho enquanto saboreava um café, deixei a padaria e, exausto como estava, resolvi caminhar um pouco pelas ruas do Sumaré, para rever lugares onde em criança, saindo da Freguesia do Ó, a pé, eu e vários amigos íamos jogar umas peladas, com companheiros que moravam na Vila Pompéia.
Então, sempre caminhando pela Rua Prof. Alfonso Bovero, entrei na Bruxelas e Rua Havaí, alcancei a Capital Federal, voltei e cheguei à Ruas Caraíbas; minha intenção era caminhar até a Rua Turiassú e ali em frente ao Estádio do Palmeiras (que horror pois sou corintiano), pegar um taxi e rumar para a minha querida Freguesia do Ó.
Caminhava assim distraído, agora já quase refeito do stress de um dia de ensaios e gravações, quando ao passar em frente a uma casa, notei uma senhora que debruçada sobre o parapeito da janela, naquela gostosa noite enluarada de verão paulistano, acompanhava-me com seus olhos atentos.
- Moço! Moço! (na época eu era mesmo) ela falou, fazendo um sinal com as mãos, espere um pouco.
A mulher desapareceu da janela, reaparecendo em um terraço e, descendo os degraus da escada de acesso a casa, parou frente a um velho portão de ferro onde eu estava e me perguntou com seu cativante e simpático sorriso:
-Você trabalha na Televisão?
- Sim minha senhora, por quê?
- Ai meu Deus! Que maravilha! Minha idosa mãe adora o senhor, não perde um só programa seu, ela não tem condições de sair da cama e ela adoraria conhecê-lo pessoalmente. Será que não dá para o senhor subir e ir até o quarto dela, que eu quero que ela veja o senhor; tenho certeza que ela vai ficar muito feliz, coitadinha.
-É prá já, minha senhora. Respondi sem titubear. Então, acompanhando aquela senhora, subi aquelas escadas me sentindo o Bom Samaritano do Evangelho. (Seria por certo, talvez, a minha única boa ação da semana).
Quando cheguei ao quarto, topei com uma senhora perto dos seus 85 anos, miúda e magrinha, com grande meiguice no olhar, assistindo uma televisão preto e branco, com uma imagem horrorosa, cheia de chuviscos e fantasmas, imagens estas que há muito eu não via mais em aparelhos de TVs, na cidade de São Paulo.
A filha falou com sua idosa mãe ali deitada, dizendo:
-Mamãe, olha que bacana! Olha quem eu encontrei para a senhora! Esse moço que trabalha na Televisão.
A velhinha sorriu, olhou para mim com aquele olhar generoso de mãe agradecida, com muito carinho falou: -Moço o senhor trabalha em televisão? “Por favor, será que dá para o senhor consertar essa televisão prá mim, olha só prá isso! E “mostrando o aparelho acrescentou: -” Não da prá gente ver nada direito”.
A filha se apressou em pedir desculpas. Ofereceu-me um café, que não aceitei, pois havia acabado de tomar um, poucos minutos antes.
Ela me acompanhou até o portão e na despedida, ainda em tom de desculpas, me disse: -Desculpe a minha mamãe viu Seu Raul Gil... ???
Do jeito que a imagem e a sintonia daquele aparelho de televisão estavam, não sei como ela não me confundiu com o GRANDE OTELO... O que por certo seria até uma grande honra para mim ou para qualquer outro artista brasileiro.

Por Arthur Miranda (tutu)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Memórias radiofônicas - I


Meados de 1950, todas as manhãs de domingo, quem sintonizasse a Radio Tupi de São Paulo, que tinha seus estúdios e auditório no alto do Sumaré, ouviria, como prefixo musical de um programa, uma música famosa e muito executada nos meses de Dezembro cuja letra canta assim:

Anoiteceu,
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar.
Papai Noel,
Vê se você tem
A felicidade
Prá poder me dar.
Eu pensei
Que todo mundo
Fosse filho de
Papai Noel
Sendo assim
Felicidade
Eu pensei que
Fosse uma
Brincadeira de Papel.
Já faz tempo que pedi
E o meu Papai Noel
Não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

Estava, assim, começando o programa “Clube do Papai Noel”. Um programa infantil comandado pelo ex-locutor Homero Silva que, de tão querido pelas crianças, era até confundido e chamado de Papai Noel.
Esse programa, por si só, simples e despretensioso, lançou vozes inconfundíveis e marcantes do rádio paulistano.
Hebe Camargo, Herlon Chaves, Wilma Bentivegna, Wanderley Cardoso, Vida Alves, foram algumas das crianças que passaram pelo programa e se firmaram no estrelato radiofônico paulista.
Eu, modéstia à parte, também passei pelos microfones desse clube famoso e, nem por isso me tornei famoso.
O “seu” Homero, tinha uma menininha que era tratada como a princesinha do Clube, era uma garotinha magrinha, de cabelos compridos e totalmente cacheados, um palminho de rosto muito lindo que atendia pelo nome de Chininha Loschiavo. O nome correto era Catarina Loschiavo apelidada desde tenra idade por Chininha.
Ela era irmã de meu irmão de coração, o Luiz Loschiavo (Zinho), consequentemente era tida e querida, por mim, como irmãzinha.
Suas apresentações diante dos microfones eram marcantes, a música “Over the Rainbow” que vertida para o português levou o nome de “Além do Arco-Íris”, era uma de suas interpretações mais marcantes.
Como podemos comprovar, antigamente, as crianças tinham vez no Rádio e na Televisão sem precisar se aviltarem ou serem exploradas inadvertidamente.
Grandes programas além do Clube do Papai Noel marcaram época, Gincana Kibom, Clube do Zezinho, Programa Pulmann Jr, Circo do Arrelia, eram alguns deles.
Hoje, a TV se presta a mostrar desenhos de origem oriental, cheios de violência e máquinas inverossímeis.
Posso afirmar que as crianças da minha geração foram felizes e puderam aproveitar o Rádio e a Televisão com muito mais prazer.

Por Miguel Chammas

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Itaim e seus personagens


O Itaim tinha pessoas de vários tipos. Gente de certo nível intelectual, como seu Alfredo Cunha que era professor e sua esposa, dona Palmira, também professora, ambos do grupo escolar Aristides de Castro. Seus filhos também se encaminhavam para um nível de cultura bom.
Geraldo Cunha era radialista trabalhava na rádio São Paulo. Era Rádio Ator. O outro estava prestes a se ordenar padre, mas abandonou a batina para ser um advogado e a Rosinha que seria uma professora. No mais, o bairro era composto de gente simples, todos trabalhadores e cada um com seu ofício.
Naquele tempo quem tinha ofício tinha tudo. Estava apto para casar. Quando era torneiro mecânico, marceneiro, então, era aprovação na hora. Mas, tinha que ter uma profissão. Era a primeira coisa que o pai perguntava. Depois, perguntava se tinha vícios.
Tinha gente folclórica também. O poeta, um senhor negro que vivia fazendo poesias e as expunha na rua quando se encontrava com alguém, de preferência mulher, ou mesmo quando era um casal. Tinha artista, o nosso grande Mazzaropi, que morava na Rua Paes de Araújo. O Anastácio, de um metro e vinte de altura que não tinha os dois braços. Nos ombros dois tocos de, quando muito, dez centímetros com alguns dedos. Ele fazia jogo de bicho. Escrevia maravilhosamente com os pés. Era de uma grande admiração por parte das pessoas. Viajava de ônibus normalmente subia no coletivo sozinho, mas não rejeitava a ajuda de ninguém que se propunha a ajudá-lo.
Certa ocasião, ele desceu no vale do Anhangabaú, do ônibus 52 Itaim, ali próximo ao cine Dom Pedro; ia andando, sossegadamente, quando várias pessoas vieram dar-lhe esmolas. Ele não aceitou e disse: eu não peço esmolas, eu trabalho no Chalé de jogos, no bairro do Itaim. O jogo ainda era permitido.
Por outro lado, tinha pessoas depressivas e que estavam sempre causando alguma preocupação à parentes ou amigos. Era o caso de Mario Brisa, membro de uma família de classe média. Certa ocasião, ficou amuado e não falava com ninguém, por mais que familiares ou amigos quisessem saber o que estava acontecendo. Era difícil arrancar uma só palavra dele. Mario foi se definhando fisicamente. Um homem que se vestia bem, já estava com roupas rotas. Andava sujo e muitas moças se condoíam, pois se lembravam dele com uma fisionomia bonita e agora, barbudo e sujo, era outra pessoa - já um indigente que estava a caminho de morrer na sarjeta.
Um dia, ele roubou uma calça do seu cunhado, o Dondoca, filho de dona Izolina. Quando ele achou falta da roupa e flagrou o cunhado com ela, tirou a roupa na marra, no córrego do sapateiro, debaixo da pinguela da Rua João Cachoeira. Até a polícia foi chamada para resolver o caso.
Um dia, Mario sucumbiu na calçada da kopenhagen, Rua Joaquim Floriano. Estava bichado. Suas feridas mostravam vermes. Chamado a ambulância do Samdú, os enfermeiros se recusaram a pegá-lo, tal era o estado lastimável que estava Mario Brisa. Foi quando passava pelo local Vicente Batateiro e ficou sabendo do que se passava. Muita gente já estava no local, como curiosos. Vicente Batateiro fez um autêntico discurso: “Eis aqui um brasileiro que até na sua morte é rejeitado pela sociedade hipócrita. Por acaso alguém de coragem me ajuda a colocá-lo na ambulância?” Um motorista de táxi e duas outras pessoas colocaram Mario Brisa na ambulância do Samdú.
O Itaim tinha também personagens valentões. Os mais conhecidos eram Lito, Colo e Armandão, assíduos frequentadores do bar Central, na Rua Joaquim Floriano, esquina com a Rua Arnaldo. Colo e Lito eram violentos. Colo sempre procurava encrenca. Era considerado o rei da pernada. Era difícil pegá-lo. Quando colocava as duas mãos no chão era certeza que um dos pés ia à cara do outro. E olhe que pegou sempre pedreira pela frente. As chamadas brigas de cachorro grande.
Uma vez, menosprezou um nordestino baixinho. Na discussão o chamou de baiano otário e outras coisas. Tomou uma peixeirada na barriga. Mesmo ferido correu mais de cem metros pela Avenida Imperial (Horácio Lafer). Não resistindo ao ferimento, caiu. Socorrido, ficou vários dias entre a vida e a morte. Mas, as línguas diziam que ele se salvaria. Bicho ruim não morre, diziam várias pessoas. E, realmente não morreu.
Já Lito tinha outra característica, era mulherengo. Achava que as mulheres tinham que ser dele quando cismava, mesmo sendo casado. Um dia, estava na calçada da Kopenhagen e viu uma mulata fora de série passando por ele, dirigiu-lhe gracejos. A mulher nem deu bola. Isso se repetiu por várias vezes. Lito não se conformava. Sempre conseguia seu intento mesmo que tivesse que ameaçar a mulher. Com aquela mulata não. Ela passava garbosa e ainda se mostrava esnobe. Um sábado à noite, ela saía do cine Star com seu noivo, um cobrador de ônibus da CMTC, e tinha uma perna mais curta, usava uma bota pesada e mancava. Lito estava no bar ao lado. Ela, sem cerimônia parou e na cara dura disse: Porque você não mexe comigo agora, seu trouxa?
“Você é muito gostosa e metida a besta, sabia?”
Foi quando entrou em ação o noivo.
- Olha rapaz eu quero que pare de mexer com minha noiva.
- Sua noiva? Que mau gosto, hein gostosa? Justo com um cocho foi se arrumar.
- Olha aqui, seu trouxa, vou te mostrar quem é cocho.
- Quem, você? Pára com isso, palhaço!
Quando Lito viu, tomou um toco por baixo e foi ao chão. Ninguém ali conseguiu acreditar que aquele valentão tinha rodado que nem um bêbado. Lito levantou e foi com tudo pra cima dele. Outro toco e outro tombo. Era insistir e cair. Para finalizar, o baixinho jogou as mãos ao chão e com o pé que tinha aquela bota acertou o queixo do Lito, que já sangrava. Aí, entrou o Chicanu e segurou Lito enquanto o casal foi embora. Lito, enfurecido, passou a agredir Chicanú. Este franzino não podia encará-lo e, como ninguém se atrevia em tirar o Lito, vários ponta pés foram dados no fígado e abdômen. Chicanuzinho, como era chamado pelos amigos, morreu ali mesmo de hemorragia interna. Lito foi preso julgado e condenado a bons anos de cadeia.

Por Mário Lopomo

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pizzaria Bruno homenageia os autores do blog


 








Nosso querido amigo, Arthur Miranda, nos comunicou que a Pizzaria Bruno, na Freguesia do Ó, onde fizemos nossa 2ª rodada de redondas, que nos recebeu carinhosamente, colocou um painel com fotos nossas, assinalando a nossa presença no estabelecimento.

Um dos sobrinhos do Arthur esteve na Pizzaria e viu.

A Pizzaria Bruno foi a primeira a nos prestar esta homenagem, entre todas as casas que temos realizado os encontros dos autores do site SPMC e do blog Memórias de Sampa.

Queremos agradecer, imensamente, por este carinho do João Machado Siqueira e Rui Siqueira, donos da Pizzaria Bruno, a mais antiga de Sampa!

Valeu!
Muita paz!

Por: Memórias de Sampa

Dante, o barbeiro boca suja e o Corinthians de 1929

clique no play para assistir ao primeiro jogo filmado entre Corinthians e Bologna (30/07/1929)

Eu era bem garoto quando aparava minha carapinha na barbearia do Dante na rua Fortaleza no bairro do Bexiga, lá pelos anos de 1947 ou 48.
O Dante, um ítalo-corinthiano, era uma figura que hoje chamaríamos de ‘estranho no ninho’. Fanático pelo alvi-negro do Parque São Jorge, era capaz de arrumar as maiores encrencas com os antigos palestrinos/‘parmeristas’, que não se conformavam com o fato de um paesano ser torcedor do maior inimigo, e, logo, tome catadupas de xingamentos em português, italiano e dialetos diversos, sempre de acordo com os resultados dos jogos entre Corinthians e Palmeiras, numa equação que acho melhor explicar: gozação era igual à resposta pesada, que evoluía para xingamentos onde as mammas eram frequentemente citadas pejorativamente; em seguida a esses prolegômenos orais, o couro roncava solto com eventuais clientes tentando tirar a navalha da mão do Dante enquanto os provocadores ou provocados desembestavam a correr em direção à Maria José, que ninguém é idiota pra ficar esperando ser retalhado pelo italiano furibundíssimo e olha que ele se “furibundava” por quaisquer dois mil réis! Aquela cabeça cheia de cabelos cheirando à Glostora ou à Quina Petróleo Juvênia era extremamente quente; provocar o homem não era uma boa idéia!
O salão do Dante era igualzinho a todas as barbearias da época: duas cadeiras Ferrante lado a lado e em frente à espelhos, uma estufa para aquecer toalhas de rosto que, diga-se de passagem, era mais um enfeite de parede do que um equipamento útil, creio até que nunca fora muito usada, algumas cadeiras comuns para se esperar a vez, uma pilha de revistas velhas: O Riso, O Governador, Noite Ilustrada, o Cruzeiro, Alterosa, Careta... Outrossim (opa!), informo que a barbearia ficava na Fortaleza, uma porta simples de frente a uma das entradas do ‘vilão’ (O ‘vilão’ era um grande cortiço que tinha duas entradas: pela Ruy Barbosa e pela Fortaleza e abrigava mais de 100 famílias. O local ainda existe hoje, mas sofisticou-se; não é mais cortiço, óbvio, é uma espécie de condomínio residencial; tem até nome pomposo: “Travessa dos Arquitetos”, chic, né?). Todo Bexiga sabia que o Dante era o maior ‘boca suja’ que Deus colocara no mundo, mas ninguém ligava, era tudo normal, pelo menos para ele!: - “Ecco! Io parlo palavró mesimo. Nasci ca boca chuja, porca miséria!”, dizia sempre que alguém reclamava de seus destemperos...
Tic, tic, tic...o pente separava os cabelos e a tesoura cortava aqui e ali e a conversa fluía, dizendo melhor, o monólogo comia solto: “ Us pessoar fala qui o Domenico da Guia é o milhó bequeira que ixisti, ma io non credo... inguar ao Grané num teve nem vai tê, Madonna mia... O Curintia era molto buono co Tuffy, co Grané, co Del Debbio...” , e tome histórias, lances, salames, brigas, causos e mais causos do futebol dos anos 20, 30 e 40... O Dante era um corintiano enlouquecido, sejamos sinceros...; morreu velhinho por volta de 1965, 66, numa fase em que o Corinthians não conseguia nada, títulos, vitórias retumbantes, nada, nada... ; deve ter morrido xingando.
O velho Dante veio à minha lembrança quando meu filho Júlio me presenteou com o DVD comemorativo do Centenário do Corinthians. Alguns jogos importantes foram filmados, inclusive um que acordou o velho barbeiro que dormia esquecido nos recônditos de minhas lembranças deslembradas: em 1929 o Corinthians disputou, creio, uma de suas primeiras partidas internacionais contra um time profissional italiano e venceu por 6 x 1 com 2 gols de Grané...
De repente voltei à minha infância no Bexiga num dia de muito calor. Estou sentado sobre uma tábua apoiada nos dois braços da cadeira de barbeiro. Meus pés estão soltos no ar – “num pisa nu istufamento qui e prá num chujá... dispois vem ôtro fregueis i chuja u rabu... num fica bem, né”? - e eu escuto pela milésima vez a descrição daquele longínquo jogo de 1929...
Setembro de 2010. Luzes apagadas na sala. O Júlio está configurando o DVD Player. Começa a reprodução. Estou vendo o Corinthians de 1929 numa TV de LCD de 56 polegadas em pleno século 21, 81 anos depois do fato ocorrido. Nó na garganta. Meu time entra em campo, olha lá o Tuffy, o Grané entra em campo sorrindo, Neco é aquele, será?
Estou vendo a minha São Paulo um ano antes da Revolução de 30.
Centenas de automóveis estacionados numa várzea cortada pela linha dos bondes que se dirigiam para o bairro da Lapa. Ao longe as ondulações da Serra da Cantareira. O Parque Antarctica lotado. Palhetas, bengalas, chapéus coco e gellot, ‘Theda’s Bara’ usando vestidos longos e chapeaux emplumados, sorrisos inocentes para a câmera que filmava... Meu pai, o velho Alcides, teria 17 anos na época. Estaria ele já em São Paulo, vindo da distante Conceição do Monte Alegre? Minha mãe, Dona Zezé, tinha 8 anos e ainda estava em São Manuel, cidade dos Barros e dos Melão, terra da dupla Tonico e Tinoco que ainda não eram ninguém. Eu? Eu nasceria 11 anos depois e mais tarde iria cortar cabelo na barbearia da rua Fortaleza...
A voz do Dante: - Quando o futebór terminô, vim vindo a pé da Pompéia até o largo do Piques, subi a Santantó e fui dormi. Nunca dormi tão gostoso, démo uma surra nus intaliano...
- Mas Dante, você é italiano! Não pode querer mal um time da sua Itália...
- Guarda..., na Itália io era italiano, mas tô no Brasile desde 1914 i no Brasile io sô brasiliano i corintiano, i num me importa os língua de trapo...
O Dante, com suas histórias, me fez admirar aqueles jogadores antigos, com seus longos calções de algodão, seus bonés e gorrinhos, seus bigodões, com suas chancas e com suas bolas de capotão. Jogadores que tinham nomes respeitosos: Imparato, Friedenreich, Amilcar, Grané, Del Debbio..., não havia os “inhos” da vida, os Ronaldinhos, os Marcelinhos, etc...
Grané, só vi você num relance, entrando em campo em 1929, num filmete de 40 segundos quando muito, mas você me fez lembrar um tempo em que um barbeiro do Bexiga contava suas façanhas com suas chancas de biqueiras metálicas... Quando vi o Corinthians de 1929 voltei a ser criança,... “minha mãe me deu dois mil e duzentos réis prá pagar o barbeiro e comprar um sorvete de palito na sorveteria do seu Giuseppe”...
Grané, sou seu fã ardoroso! Grazie, signore Dante, valeu!

Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Encontros e desencontros.


Desmesurada cidade que é, São Paulo dá raras oportunidades de reencontro para colegas de bancos escolares. Quase todos nós, veteranos da vida, temos uma acentuada nostalgia para com nosso período da juventude, na tranquila cidade que já foi esta, e no despreocupado convívio com os amigos de escola. E não sou exceção a esta quase regra.
Já havia procurado alguns deles, sem sucesso. Busquei por décadas, mas como encontrar?
Cheguei a crer que jamais os veria novamente. Mas, chegou a internet e as coisas mudaram em todos sentidos, também nestas buscas.
E aí, vencendo as distâncias, o imenso tempo decorrido, uma vida inteira de perdas e ganhos, repentinamente se torna possível reencontrar os velhos amigos, a um simples toque de teclado. Ploc, um segundo e as probabilidades aumentam espantosamente.
Se não temos sucesso, de algum modo ELES acabam por nos achar.
Lembro-me bem do período em que estudei, curso noturno, no Colégio de Aplicação, na Rua Gabriel dos Santos.
Tive poucos, mas bons amigos; o ambiente, apesar do adiantado da hora, era amigável e ameno.
Ás vezes, a turma da classe se reunia para ver o bang bang da ocasião, filmes de guerra e outros, nos vários e bons cinemas da redondeza. Ou, tomar uma cervejinha com pastéis, ali mesmo no pedaço.
Como diz o velho clichê, mais que batido, bons tempos...
Depois, a maturidade e a diáspora. A loucura da vida urbana, empregos, novos compromissos, amizades e amores. Então, adiós muchachos compañeros de mi vida, farra querida... para nunca mais.
Será mesmo? Ledo engano, pois da terrível tela da internet, como a do Grande Irmão de "1984", de George Orwell, nada escapa. E, como dizem, um belo dia, abrimos uma mensagem inédita. E o nome é familiar, apesar de cinco décadas. Um velho amigo de colégio. Pronto, fomos descobertos.
Este, encontra-se fora de São Paulo, mas, imediatamente se comunica com outro amigo que mora aqui, até perto de casa. Inopinadamente, ele resolve visitar-me. Quanta alegria em revê-lo, ainda nesta vida. Convida-me para um almoço- outra coincidência- que será para o dia seguinte, da turma de outro colégio, mas ao qual ele e minha turma mais chegada da Gabriel dos Santos haviam participado.
E lá vou eu, entusiasmado, mas, de início, noto a diferença: bem diverso das expansões de alegria e fartos brindes, tão comuns nos almoços publicitários, ali são todos bem comportados. Falam baixo e comedidamente, e a meia Heineken que pedi foi o único álcool que tocou a toalha da mesa, durante as várias horas que passei lá. Circunspectos e com sérios comentários, observam velhas fotos amarelecidas, 5X5, de seus tempos de grupo e futebol.
Com minhas brincadeiras e ironias, sinto-me como o único "mau” elemento presente.
Logo eu, tão tímido e calado naqueles tempos colegiais... O mundo dá muitas voltas mesmo, e sinto que os caminhos ali trilhados, todos com sucesso, foram bem diferentes dos meus. As afinidades, que poderiam ter surgido do compartilhamento escolar, já não existem.
Tenho a impressão de estar num conclave de seminaristas... Estas impressões foram acentuadas depois que enviei fotos do evento aos mais íntimos. E, para aquecer o novo relacionamento, desenhos e alguns textos. Um só deles dignou-se a responder-me, meses depois. Não têm também o hábito da réplica e do retorno virtual.
Eu entendo que, quando se trata de um ascético e genérico PPS, tudo bem, mas não responder a mensagens e trabalhos pessoais? Tudo legal; são boas pessoas, mas nossa amizade não continua a mesma.
Esses 50 anos de distância, uma vida toda, foram demasiados, e fazem-me lembrar uma cena do belo filme de Ettore Scola, "Nós que nos amávamos tanto", quando dois amigos, de destinos e mentes também bem diferentes, encontram-se na Piazza del Popolo, em Roma, após 35 anos de ausência. Um deles, Antonio, convida o outro para jantar no restaurante de sua juventude, e despede-se. O advogado Gianni, representado por Vittorio Gasmann, murmura: até mais 35 anos, Antonio. Ou seja, nunca mais!

Por Luiz Saidenberg

domingo, 28 de agosto de 2011

Nem bem Deus me dá o saco, vem o cão, leva a farinha.


Caiu. Passou raspando. Foi por um triz. O escarro vindo da janela do ônibus passou a um milímetro do espetinho de carne, o famoso churrasquinho de gato, assando na calçada. Fiquei imaginando as vezes que acertam.
O Largo Treze de Maio, um misto de mercado persa às avessas. Na travessa, uma sinfonia de sons de todo tipo. Um canto cadenciado e alto se destaca a cada 10 metros: Compro “orodóleuro”. Difícil traduzir o, “compro ouro, dólar e euro”. São moços e moças, com seus coletes-placas amarelos, escrito em preto e vermelho “compro ouro”, a repetir este mantra zilhões de vezes ao dia. Mais à frente, na Praça Floriano Peixoto, em meio a tantas pernas que vão e vem, enrolados em seus cobertores sujos, moradores de rua acampados na beira da calçada do Paço Cultural Júlio Guerra, a Casa Amarela. Ao lado, seus fieis cachorros. E um monte de filhotinhos. Uma mais assanhada, se pôs a saltar numa altura absurda para o seu tamanhinho. É a Lokinha, a garota visivelmente drogada, me disse. Uma cachorrinha branca e cinza, alegre e saltitante, ainda sem nenhum encardido na pelagem. Quem resiste?
Na Casa Amarela e no CCM é que acontece o curso de Jardinagem. Lugar onde se aprende o cultivo de plantas, de amizades e onde também se põe a mão na massa. A professora é gente fina, os alunos gente sensível, que sabe que gente também é natureza. Natureza a pedir socorro, como no espaço plantado e sujo que espera por manutenção e limpeza.

Importante no curso de jardinagem é criar camaradagem com tudo o que é ser vivo. As alunas cuidam e fotografam suas plantas exibindo-as como quem mostra fotos de filhas muito queridas. O desafio do momento é limpar e podar o espaço plantado em frente ao CCM. Perto do bueiro, um cheiro intenso de urina enquanto os achados surpreendem. Ao final, cordilheiras de sacos pretos lotados de todo tipo de embalagem, bitucas de cigarro, moedinhas de um centavo, uma faca e até cigarro de maconha. Toda sorte de imundície produzida pelas gentes gentis deste solo varonil. Enquanto isso, voava mais lixos vindos de ônibus, de carrão, de pedestres e das gentes com e sem instrução.

Duas horas depois, a força das vassouras, pás e tesoura mostraram a que vieram. Tudo limpo, podado, arrumado e uma cena chama a atenção. O pedinte faminto ganhou um espetinho de carne. Um outro, assalta o petisco e sai correndo. Surpreso, o roubado exclama: nem bem Deus me dá o saco, vem o cão leva a farinha!

Nota:
CCM= Centro de Cidadania da Mulher (em Santo Amaro)
Rua Mário Lopes Leão, nº 240 - Bairro: Santo Amaro.
Paço Cultural Júlio Guerra – Casa Amarela, Praça Floriano Peixoto, 131 –Santo Amaro
Curso de Jardinagem ministrado pela bióloga Adriana Maciel

Por Suely Aparecida Schraner

sábado, 27 de agosto de 2011

Histórias da Light - 1ª parte


O “ladrãozinho safado”
Vocês, que já dobraram o “cabo da boa esperança” e ainda não se “tocaram”, devem se lembrar da época de se pagar a conta de luz na própria Light, lá na Xavier de Toledo. Lembram? Pros que estão na margem de cá, do “cabo”, vou expor como eram estas cobranças.
A Light, (antiga mantenedora da distribuição de energia elétrica pra São Paulo, que agora atende pela sigla “AES Eletropaulo”), enviava a todas as residências que tinham energia ligada, evidentemente, uma folha de papel no formato retangular, onde vinha o nome, endereço, consumo, valor da conta, vencimento e os três reloginhos que identificavam os marcadores de consumo para o caso de reclamação, exigência que vigora até hoje e outras informações.
Isso na década de 40, eu tinha meus dez ou doze anos.
Meu pai me instruiu pra ir pagar a conta de luz que vencia naquele dia. Sai da rua Alfandega, peguei a rua do Gasômetro, subi a General Carneiro, largo do Tezouro, rua XV, Direita, viaduto do Chá e pronto, Ligth. Tinha uma fila de dez pessoas, mais ou menos, e na minha frente, uma senhora de seus 50 ou 60 anos, por aí. Aí, começou a tragicomédia. Trazia em minha mão direita, bem apertada, a conta e o dinheiro, deveria sobrar uns trocados.
A senhora à minha frente começou a olhar pelo chão ao seu redor e, vez ou outra, me encarava, como se fosse me devorar. Olhei atrás de mim, pensando se era com outra pessoa, mas não, era comigo mesmo. Sustentei seu olhar pra ver o que ela queria. Olhando nos meus olhos disse em voz alta: “ladrãozinho safado, você roubou meu dinheiro, quero meu dinheiro já, preciso pagar minha conta, vou chamar o guarda, ele vai te prender.” Eu, segurando o meu dinheiro, garoto, não tinha nem bolsos nas calças curtas, veio o guarda-civil e me perguntou se eu tinha tirado o dinheiro da senhora.
Mostrei meu dinheiro, a conta e convenci o guarda que não tinha tirado nada dela. Ela berrava bem alto que eu tinha roubado dela. Me enfezei e parti pra ignorância, chinguei a mulher e o guarda percebeu que eu era inocente e a mulher não “batia” bem com a cabeça. Todas as pessoas da fila viram que eu não tinha feito nada. Aí, o guarda me chamou de lado e me mandou pra casa.
Antes de ir embora, falei: – preciso pagar a minha conta. A mulher estava sentada numa cadeira e vociferava: foi ele, tenho certeza, onde está o dinheiro da conta? O guarda, sem cerimônia, revirou a bolsa dela e lá estava o dinheiro e a conta. O guarda me olhou, deu uma piscadela, encolheu os ombros, com as duas palmas das mãos na frente, como quem diz, que é que se vai fazer?
Essa foi a primeira tentativa de um pseudo-assalto em que tive participação neutra.

Por Modesto Laruccia

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Desabafando e exorcisando fantasmas


No seu blog Prosa e Verso (http://prosaversochammas.blogspot.com), meu querido amigo, o Miguel Chammas, publicou no dia 01 de maio, a crônica Memórias de Botequim IV, fazendo referência a uma exposição visitada por ele e sua companheira Soninha (amiga querida também) - do blog Roda de Prosa (http://rodadeprosa.blogspot.com ). Exposição essa que foi planejada e organizada por mim na galeria de arte do Banco Central do Brasil, na Avenida Paulista, em nossa amada cidade.
Na época escrevi a respeito, no meu blog (http://janelasdozeca.blogspot.com ) e no Palimpnoia (http://palimpnoia.blogspot.com ). No final dos textos “Dúvidas” de 31/03/09 e “Trivialmente” de 18/05/09, estão as notas se referindo a essa exposição. A imagem acima é de um dos mais belos quadros (minha opinião) dessa exposição. Quadro esse que foi adquirido por um colecionador português, para o qual vendi no período de um ano, vinte e uma obras do artista.
Essa exposição foi um grande sucesso de público, com grandes repercussões na carreira do artista, que teve seu nome e sua obra divulgados pela mídia, tornando-o bastante conhecido pelas pessoas envolvidas com a arte. Entre 2008 e 2009 eu organizei diversas exposições para ele, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires e em São Paulo. Também preparei e enviei um projeto para exposição no Congresso Nacional, em Brasília e consegui o salão para setembro de 2010. Quando conjugo os verbos na primeira pessoa do singular, estou me referindo ao meu trabalho de organização, preparação, pesquisa e administração. Em momento algum estou desvalorizando a qualidade do trabalho desenvolvido pelo artista, sem a qual eu não conseguiria trabalhar.
Nesse período, organizei um mailing list, através do qual divulguei seus trabalhos por e-mail para vários países do mundo, alavancando vendas e conseguindo bons clientes e colecionadores. Os preços dos seus trabalhos triplicaram nos dois anos e alguns meses em que trabalhei para ele. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, acreditei estarmos nos aproximando cada vez mais, desenvolvendo uma amizade enorme à qual atrelei minha dedicação e lealdade. A ponto de permitir que eu mesmo não recebesse nada pelo meu próprio trabalho, priorizando as despesas e “extravagâncias de artista”, que eram enormes. Depois de mais de um ano sem receber, driblando e negociando com outros credores, percebendo que aquele sucesso todo estava subindo à cabeça dele, que se tornava cada vez mais “uma estrela”, eu não aguentei e desisti.
E recebi. Indiferença e ingratidão.
Os salários e comissões atrasados, chegando a quase R$ 30.000,00, foram “negociados” entre nós, verbalmente (eu ainda acreditava na nossa amizade) e, até hoje, não vi nem a cor desse dinheiro.
Do lado positivo dessa experiência, posso dizer que aprendi muito sobre o mercado de arte. Já do lado negativo, tornei-me um pouco mais cauteloso antes de entregar a minha amizade. Nem posso dizer que levo em consideração o lado financeiro, embora envolva uma soma considerável, pois até hoje, mesmo contra todos os conselhos que tenho recebido, ainda não me decidi levá-lo a juízo.
No início do ano passado, uma cliente (minha) que já havia comprado dois quadros dele e acabou se tornando minha amiga, em função das nossas conversas e negociações, acabou se decidindo a abrir uma galeria de arte na Vila Madalena, com o nome do artista, para representá-lo na cidade. Na mesma época, o projeto enviado ao Congresso Nacional foi aprovado e a exposição precisava ter iniciados seus preparativos. Em maio (há um ano) decidi deixar de trabalhar para ele e tudo ficou paralisado. Menos a galeria da Vila Madalena, que foi inaugurada em outubro, numa bela festa. Mas aí eu já não estava participando...
A galeria que eu gerenciava aqui em Paraty acabou fechando. A exposição no Congresso Nacional não foi realizada por falta de alguém que a organizasse. A galeria de São Paulo, inaugurada em outubro passado, fechou poucos meses depois, pois ele conseguiu desentender-se com a proprietária. As vendas dos seus quadros despencaram, ele continua super endividado, sem chances aparentes de recuperação. O seu nome? Saiu completamente da mídia, totalmente desacreditado, não pela obra em si, que é boa, mas pelo caráter duvidoso da “estrela” que se desentende com todo mundo, não paga suas dívidas e conseguiu, em poucos meses, desfazer todo o trabalho de construção e solidificação de um nome no difícil mercado de arte que eu havia conseguido. Como no mundo da arte essas coisas se espalham como pólvora, acredito que será bastante difícil recuperar o prestígio perdido.
Eu lamento muito tudo isso, pois foi um trabalho que, enquanto durou, me deu enorme prazer e me trouxe novos conhecimentos e grandes experiências. Confesso que sofri muito com minha decisão, tanto que a adiei a ponto de permitir que a dívida se acumulasse tanto. E não sei explicar, nem a mim mesmo, por que não o levo à justiça.

Por Zeca Paes Guedes

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ave! Shalom! Salaam!


BOCA-SUJA F.C.

- “Passa logo essa bola, turquinho de m..., antes que esse “panhó” (espanhol) filho da... tome ela de você, cazzo”!
- “M... é você, seu p..., italiano carcamano! Pega na minha “zabra”, seu monte de “hara”!”
E o espanhol:
- “Não sou teu irmão,”cabrón”. Seu italianinho mafioso”!
- “Vai tomar no ..., panhó piolhento!
Moshé grita:
- “Se vocês continuarem brigando, pego a bola e vou embora”!
- “Vai! Leva a bola. Aproveita e enfia ela no “rabo”, judeuzinho cagão”!
- “Vou enfiar é no seu “rabo”, seu monte de bos... Fascista”! Vai-te f...”!
- “Vai cagá”!
- “Vai você”!
E a partida continuou até que os gritos de nossas mães chamando por nós “deram o apito final” e fomos para as nossas casas felizes e contentes. No dia seguinte, com toda a certeza, haveria uma nova partida, muitos xingamentos, muitas ameaças que raramente chegariam às vias de fato...
Era assim que vivíamos naquele tempo. “Bocas de privada de botequim” que éramos, pelo puro prazer de xingar nos ofendíamos mutuamente. Não havia preconceitos. A nacionalidade era apenas um complemento a individualizar o ofendido.
Naquela Babel que era a Mooca, Babel tão diferente da bíblica - pois todos se entendiam - os preconceitos eram raridades. A Imigração reduziu cada imigrante à sua humanidade e os nivelou. Amornou os nacionalismos ufanistas e os patriotismos extremos.
E lá estávamos nós, na Mooca, vivendo nossas vidas, misturando idiomas e dialetos. E vivendo, como se diz hoje, “entre tapas e beijos”. Não me lembro de nenhum de nós “ficar de mal para toda a vida”.
Vivíamos!
Nós – os “oriundos” - Filhos dos imigrantes.
E na Mooca estavam os brasileiros, os portugueses, os italianos e espanhóis. E os “turcos” que para cá vieram após a queda do Império Turco, depois da Primeira Guerra Mundial.
E os “turcos” eram os turcos, os sírios, os libaneses, os armênios e os judeus sefarad ou sefardi que ao tempo da primeira guerra saíram da Europa, se fixaram no Império Turco e, depois, vieram para cá.
E, bem lá no Alto da Mooca, viviam os “Bicho d’Água” (Como se não fôssemos também bichos d’água.) . Eram os lituanos, os “ungaresi” (húngaros), os poloneses, os romenos e ucranianos. E alguns russos.
Portanto era nessa Mooca-babel de nacionalidade variada, de todos os credos e todas as crenças, que vivíamos a “babelar”...
Saudade!...
Tempos depois, relembrando os dias de infância, descobri que muito antes do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II, nós exercitávamos o Ecumenismo.
A Mooca era ecumênica. Principalmente na hora dos “apertos e necessidades”. Passava por Santo Agostinho, por Lutero e ia de Kardec ao Pai João... Enfim: Acendia velas nas igrejas, cantava Salmos, recebia “passes” e despachava “ebós” nas encruzilhadas!
Eu, nesse ecumenismo, assimilando as lições da Bíblia, Torah, lições do Talmude e do Coram, ou Alcorão fui-me transformando em Ave, Shalom, Salaam...
Todo o domingo eu ia à missa na Igreja de San Gennaro, na Rua da Mooca. Finda a missa eu desgarrava de vovó e corria em direção à Primeira Sinagoga Brasileira, na Rua Odorico Mendes, encontrar parte dos meus amigos. Juntos, corríamos até a Avenida do Estado, atravessávamos a ponte sobre o Tamanduatei e íamos à Primeira Mesquita Brasileira. Pronto! Toda a turma reunida.
E no domingo, o resto da manhã era de “futebór”, a tarde era de cinema ou de Parque Shangai...
Segunda-feira, depois do Grupo Escolar, Boca-suja F.C.:
- “Passa essa m... de bola, seu panhó “senza coglioni”!”
- “Vai-te f..., italianinho perna-de-pau”!
- “Vai Moshé, pé-de-chulé! Não deixa o turco pegar!”
- “Pé-de-chulé é a mãe, ‘taliano’ sovaquento”!
- “É, isso mesmo! – diz o turquinho - Sovaquento cheirando “charmuta” suja!...
A vida continuava.
Afinal era a Mooca, bello! E ôrra, meu! Cumu nóis era felice!...

Por wilsonnatale

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Alerta, alerta. Vamos fazer revolução


Que benção pode rtrazer mais um novo amigo, Joaquim Ignácio de Souza Netto, já autor do SPMC, e que nos permitiu colocar seu texto aqui, em nosso querido blog.
Entrego-lhes, com meu carinho de sempre.
Muita paz!

Meu pai, Alcides de Souza Leme, chegou a São Paulo em 1930 ou 31, com seus 18 anos completados e creio ter palmilhado os mesmos caminhos que eu percorreria muitos anos depois. Precisou lutar muito para sobreviver, carregou cestas para as madames nas feiras, foi lixeiro e talvez estivesse se encaminhando para uma vida medíocre, se não fosse a intervenção de um aparentado de meu avô, o maestro Antão, regente da banda da Força Pública:
- Filho do Joaquim Ignácio, lixeiro? De jeito nenhum! Vai entrar pra Força Pública e seguir carreira, 'já se viu’!
Meu pai, então, entrou (ou foi "entrado") para a Força Pública, onde aprendeu a profissão de telegrafista, mas não fez carreira, não era bem seu feitio...
Era 23 de maio de 1932. Ativistas políticos, estudantes, gente do povo, uma pequena multidão se concentra em frente à sede da "Liga Revolucionária" na Rua 24 de Maio, órgão ligado diretamente aos grupos apoiadores do governo de Getúlio Vargas, presidente da República após o golpe da revolução de 1930.
De repente, o "rompe e rasga" intenta invadir o comitê. Tiros, muitos tiros repelem a invasão. Correria, gente ferida agonizando, mortes, as mortes de Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo. Alvarenga morre dias depois. MMDC. São Paulo mobiliza-se... O ambiente político está tenso...
Era 9 de julho de 1932. Meu pai está de serviço no quartel da Força Pública da Rua Conselheiro Crispiniano. A soldadesca recebe ordens de se aprontar com petrechos completos, mochila, mosquetões, munição, barraca, ferramentas, num total de 30 e tantos quilos... São informados que farão uma marcha de treinamento... Marcham em passo acelerado até o Brás, até a Estação do Norte. Embarcam em trens que aguardavam na gare. Outras unidades da Força Pública vão chegando...
Ninguém fora avisado, mas São Paulo estava começando uma ensandecida revolução contra o 'status dictatorialis' que havia dois anos imperava no Brasil...
Três meses na Mantiqueira, bloqueio do túnel, as matracas, o frio, as geadas, o canhoneio, os aviões vermelhinhos, a fome (meu pai dizia que chegavam a se alimentar com uma espécie de sopa de raízes, folhas e capim, ou alguma caça ou gado de sítios e fazendas, abatidos a tiros de mosquetão...) e a morte, a morte de companheiros de trincheira, por balaços, por ferimentos infectados, pela pneumonia.
A morte também feriu meu pai da maneira mais violenta possível: na trincheira ele recebeu um telegrama comunicando a morte de minha avó que não suportara saber que seu filho tinha sido enviado para um front de batalha. Morreu com um infarto fulminante.
O telegrama recebido meu pai colou na contracapa de um livro, a "Gramática Expositiva" de Eduardo Carlos Pereira, que ele levava em sua mochila (grande autodidata, estudou sozinho praticamente até seus últimos dias de vida!); até alguns anos atrás, essa gramática esteve comigo, mas, por fim, acabou por se desfazer, infelizmente, tantos anos passados...
No final dos embates, São Paulo estava exaurido, o Estado e a cidade. Meu pai deixa a Força Pública e entra para a polícia civil no cargo de telegrafista.
Os anos passam, casa-se em São Manoel no último dia do ano de 1938. Nasci em Barretos em 1940. Viemos para São Paulo em 1944, quando meu pai iniciou mais uma batalha, agora não só pela sua vida, mas pela de minha mãe e pela minha...
Em 1957, na comemoração dos 25 anos da Revolução Constitucionalista, com lágrimas nos olhos, assisti a meu pai desfilando no Anhangabaú com seus companheiros de trincheira, do túnel, de Cunha, do frio e da fome.
Segui aqueles senhores que marchavam, alguns orgulhosamente (“peito pra fora, barriga paá dentro, seu mocorongo!”); outros, já combalidos, cansados da vida e de viver, andavam apenas, enquanto acenavam fracamente para as pessoas que estavam mais interessadas em recolher as lâminas de papel metalizado que caiam do céu numa chuva de prata...
Na debandada daquele estranho exército de soldados brancaleônicos engravatados, de terno, chapéu e sapatos sociais e que, ao invés de mosquetões, portavam bandeirinhas do Brasil e de São Paulo, encontro meu pai:
- E aí, pai! Como foi? Se emocionou?
- Emoção? Não! Não me emocionei... Só cansei... - Cansou? Como... Cansou?
- É, cansei! Vim em passo marcial da 9 de Julho até quase a São João. Não fazia isso há 25 anos, esqueceu? Resolvi brincar um pouco de soldadinho... Acho que tenho direito...
- Claro, claro...
Em casa, comentou:
- Muita gente que foi homenageada hoje, com medalhas, citações, comendas, passou longe do fogo das armas. Alguns eram escoteiros na época da revolução e estão nas páginas dos jornais posando de heróis, e todos eles, com certeza, recebem uma complementação em seus salários por conta do Artigo 30 que premia ou deveria premiar aqueles que lutaram de verdade... Mas a vida é assim mesmo, qualquer dia desses o país entra nos eixos. Agora vamos dormir, amanhã eu trabalho e você tem o colégio... Vai, vai dormir.
- ‘Tô’ indo pai... ‘Bença’.
- Deus te abençoe. Dorme com Deus...
Meu pai morreu em 7 de julho de 1960, aos 48 anos, dois dias antes de se completar 28 anos daquela madrugada em que ele saiu do quartel para marchar em passo acelerado até a Estação do Norte, naquele 9 de Julho em que São Paulo pegou em armas.
Seus restos estão no Mausoléu do Ibirapuera? Não, não estão, mas deveriam estar.
Gente como meu pai e muitos outros serviram o Estado de São Paulo e a cidade com risco da própria vida. As famílias dos heróis não deveriam procurar o Estado para que lhes fossem prestadas homenagens... Acredito ser obrigação do Estado reconhecer o papel que esses homens e mulheres desempenharam na História e homenageá-los.
Em tempo: minha mãe, D. Zezé, veio a receber um aporte financeiro referente ao "Artigo 30" anos após a morte de meu pai. Atualmente, não sabemos a razão pela qual, não recebe mais...
Palavras de meu pai em 9 de Julho de 1957: “...Qualquer dia desses o país entra nos eixos...”.
Alcides de Souza Leme, um soldado constitucionalista - *19-03-1912

+07-07-1960 Requiescat in pacem. '...bença, pai...

 
Por Joaquim Ignácio de Souza Netto