sábado, 18 de dezembro de 2010

Noites felizes da cidade

O Texto da PERAMEZZA foi o responsável por despertar em mim estas lembranças.
Faz muito tempo. Foi antes da Crise do Petróleo e da crise da Energia Elétrica.
A Cidade era o Centro de São Paulo. E o Centro era o atual Centro Histórico...
As noites da Cidade sempre me encantavam. Mas, em dezembro, a Cidade e suas noites adquiriam um quê de magia. Nessa época, ela atingia a plenitude do seu esplendor. Não havia quem não saísse de casa e fosse passear por aquelas ruas e praças tão conhecidas.
Noite. Sair de casa, ir à Cidade! Descer na Praça Clóvis Bevilacqua, não somente para ir aos bares ou aos cinemas. Sair sim, para viver a cidade nas suas noites felizes que iam do Natal às comemorações de Ano Novo.
Saio da Clóvis, sigo pela Rua Santa Teresa (então, já chamada de Irmã Simpliciana) e desemboco na Praça da Sé. Nas torres ainda inacabadas da Catedral,
os sinos musicais enchiam os ares com as músicas de temas natalinos. As laterais da praça brilhavam com as guirlandas de luzes coloridas. Lojas iluminadas e decoradas. Grande movimentação no Restaurante Papai e nas pastelarias. Papais Noel tocavam sininhos em frente às lojas. Na praça, os engraxates e os vendedores de bilhetes de loteria finalizando o seu dia; camelôs, vendedores de literatura de Cordel, pedintes e o passa passa de gente carregada de pacotes coloridos. Do alto de um prédio, os “canhões” cujas luzes iluminavam os céus e dançavam pelo chão da praça. Iluminavam, quais luzes dançantes, a Catedral e a enorme estátua de São Paulo, feita em madeira ícone, que ficava próximo ao “marco zero”, um pouco acima de onde estava uma enorme árvore de Natal. Próximo à estátua de Anchieta, o presépio com figuras em tamanho natural e carneirinhos vivos...
Entro na Rua Direita e fico encantado! De ponta a ponta, lado a lado, guirlandas de luzes e alegorias natalinas. As lojas todas, com suas vitrines iluminadas, decoradas com Papais Noel sorridentes, com seus sacos transbordantes de brinquedos às costas. Das Casas Beethoven, o som da harpa de Luís Bordon, a todo o volume, inundava a rua. Brindes e presentes distribuídos às crianças e compradores das lojas Eletrolândia e Eletroradiobraz. Em frente às Lo
jas Americanas e Lojas Brasileiras, Papais Noel apregoavam as ofertas especiais de Natal que as lojas ofereciam. Fascínio, magia, felicidade era o que se sentia ao transitar pela Direita.
Sigo em frente e entro na Praça Patriarca. Olho para ambos os lados da Rua de São Bento que me parecia incendiada pelas luzes e letreiros coloridos. E gente. Muita gente. Na Patriarca, estavam os tesouros das noites felizes da Cidade. A Igreja de Santo Antonio toda iluminada; o som do seu Orgão transpunha os umbrais e invadia a praça; no centro da praça, próximo à antiga entrada da Galeria Prestes Maia, o lindo e impressionante presépio estático, com figuras vivas. Somente o menino Jesus na manjedoura, por proibição do Juizado de Menores, não o era. Era uma linda imagem realista. Tanto que parecia ter vida. Do outro lado da Praça, a alegria de toda a criançada: Nos baixos do Edifício Lutetia, a Casa São Nicolau com suas vitrines de sonhos. Em uma delas, um Papai Noel gordo e sorridente parecia voar em seu trenó puxado por renas velozes.
Desço as escadas rolantes da Galeria Prestes Maia que, ao contrário dos outros dias, está toda iluminada. Noto que, em seus nichos, as Graças de Brecheret estão banhadas de luz; mais abaixo, à esquerda, em seu nicho, o Moisés em meio às luzes parece estar vivo. À direita, em frente à porta da antiga sala de exposição do MASP, o magnífico presépio Napolitano que foi doado pela família Prado à Cúria Metropolitana. Um presépio que faz a gente perder, de bom g
rado, muito tempo a admirá-lo. Figuras estáticas, figuras hidromecânicas como os carneirinhos que movem suas cabeças, monjolos, rodas d’água, fontes, poços, etc. Alguns personagens parecem deslizar, subindo e descendo colinas; luzes iluminando casinhas, palácios, ameias e seteiras das muralhas. De cima a baixo na galeria, ouvia-se a música “Noite Feliz”.
Volto à Praça Patriarca. De lá, vejo o Viaduto do Chá, que me pareceu uma estrada de pura luz. Nas suas laterais, o Anhangabaú e os prédios com os andares iluminados e com seus letreiros luminosos a gás neon que, misturados à névoa fina, causavam a impressão de irrealidade, de sonho. A Praça Ramos era como um céu de estrelas luminosas. O Municipal iluminado expunha a beleza de seus vitrais; a Light inundava-se, interna e externamente, com suas próprias luzes. A cidadela que era o Mappin fervilhava de gente, incendiando-se em luzes e mais luzes. Cada um dos seus departamentos era decorado com motivos natalinos. E, em cada departamento, músicas natalinas e vendedores com o barrete de Papai Noel.
A Rua Barão de Itapetininga dava continuidade à estrada de luzes principiada no Viaduto. Nela, as luzes das lojas, das galerias. Nela os camelôs, os representantes de grupos assistenciais arrecadando donativos... O perene grupo do Exército da Salvação; tocando os seus instrumentos e acompanhados por um Papai Noel que, tocando o seu sininho, nos convidava a colocar uma doação em um caldeirão sustentado por um tripé.
Da esquina da Barão com a Rua Dom José, vejo a cidadela da Mesbla, uma loja de dep
artamentos refinada e acessível a todos. Suas vitrines decoradas eram uma verdadeira obra de arte.
Volto à Praça Ramos e, debruçado no parapeito que dá para a explanada, eu vou me perdendo a olhar as luzes da noite feliz da cidade...
Quase nove horas da noite. Depois de tanta alegria para os olhos e para a alma, é hora de ir ao Almanara e comer alguma coisa. Depois, ir ao Jeca, encontrar os amigos, dar um “role” e ir para casa.
Amanhã saio de novo. Vou ver as luzes da Rua Augusta. As luzes da Consolação...

Abração.

Por Wilson Natale

O Papai Noel dentro de nós

A comunidade estoniana tinha o hábito de fazer festa para as crianças no Natal. O salão paroquial utilizado para o evento ficava ali na Coronel Oscar Porto, esquina com Thomas Carvalhal, no Paraíso. Um casarão de esquina, todo arborizado... Lindo!


As crianças tinham que dizer ao Papai Noel que tinham sido boazinhas durante o ano, que estudaram e passaram de ano, que
obedeciam aos pais. Em troca do bom comportamento, ganhavam um saquinho com guloseimas: balas, bombons, chocolate e um brinquedo.

Havia um senhor que se trajava como Santa Klaus: roupa vermelha, barba e cabelos brancos. Chegava carregando um saco nas costas, com os petiscos para a garotada. Sentava numa cadeira e, em fila indiana, lá ia a criançada, um por um, sentar no colo do Papai Noel e dizer tudo aquilo que o Papai Noel queria ouvir. Este Papai Noel chamava-se Roberto Zirk.

Eu também estive na fila por muitos anos, até ficar adulta e me transformar na "filha" do Papai Noel... Com roupas apropriadas e tudo! Eu organizava a fila, colocando os m
enorzinhos na frente. Muitos não reconheciam a pessoa... Acreditavam que lá estava mesmo o Papai Noel do Pólo Norte!

Neste fim de semana, dia 23 de Outubro... O "Papai Noel" faleceu... Com 99 anos... Não fiz este prefácio todo, apenas para contar o passamento de alguém que apenas eu conheço; o motivo da história é para deixar claro que pode existir um "Papai Noel" dentro de cada um de nós... Não só no Natal, mas, nos outros dias do ano.

Ainda há crianças com esperança de uma vida melhor, com esperança de um dia de alegria, apenas... A maior felicidade de um "Papai Noel" é ver o sorriso no rosto de uma criança.

OH!OH!OH! Para todos vocês.

Por Erta Tamberg

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Natal um pouco triste

Nascido na Freguesia do Ó, em um berço pobre, os Natais de minha infância e adolescência não foram fartos e tão festivos.
Lembro-me dos meus Natais a partir dos meus cinco anos em diante.
Minha mãe ficou viúva e, como não recebia nenhuma aposentadoria de meu falecido pai, passou a trabalhar muito para dar de comer para mim e minhas duas irmãs, um pouco mais velhas do que eu. Era o ano de 1946.
De inicio, recebíamos de ajuda uma cesta básica dos Vicentinos, liderados na época pelo Sr. João Abrão de saudosa memória, como também uma cesta básica fornecida pela LBA - Legião Brasileira de Assistência - que garantiam essa ajuda por três meses.
Nesse tempo, minha mãe conseguiu de uma firma, na Lapa, a oportunidade de fazer um trabalho na própria casa que consistia em fazer o acabamento de palhas de aço e que, depois de prontas, deveriam ser entregues na fábrica da Rua Coriolano, na Lapa.

Eles pagavam perto de CR$ 0,20 pela grosa, que consistia em 24 palhas de aço.
Para se tirar perto de 30 cruzeiros por semana, tínhamos que montar, no mínimo, 6.000 mil palhinhas. Por não caber dentro do ônibus, dado o volume enorme dos três sacos, eram levados pela minha mãe e minhas irmãs, desde a Freguesia do Ó até a Lapa, perto de cinco quilômetros, nas costas e a pé; na volta, de ônibus, elas traziam o novo material para ser igualmente montado e depois entregues na semana seguinte.
Vivendo essa vida difícil, numa época em que não havia bolsa família e ainda em clima de carestia de pós guerra, presentes, enfeites e ceia de Natal, eram coisas para classe média ou alta.
Eu, ainda criança, não enxergava essas diferenças e, como toda criança, no Natal queria que Papai Noel também passasse na minha casa.
Como eram sofridos os Natais de minha infância! Parte dos meninos da minha vizinhança de classe média, desfilando com seus presentes, e os meninos pobres como eu, de bronca com o Papai Noel. Que para mim e muitos outros meninos do meu bairro, tava mais para o Padrasto Noel, com o devido respeito aos padrastos do meu Brasil.
Como todo menino da mesma idade, escrevia uma cartinha ao Papai Noel, colocava com um pouco de capim dentro do meu sapatinho já velhinho, furado e apertado, colocava ao lado da janela do meu quarto, que era também o quarto de minhas irmãs, pedindo um carrinho ou um revólver de brinquedo com cinturão e cartucheira, e no outro dia eu, todo feliz, corria para pegar o sapatinho e encontrava escrito no verso do meu bilhete um recado escrito pela minha irmã: Como você não foi obediente para sua mãe e suas irmãs, esse ano você não vai ganhar o seu presente.
Hoje tenho certeza que teria sido preferível um encontro com minha realidade. Uma cartinha escrita em nome de minha mãe, dizendo: Filho, somos muito pobres, mal temos para comer e viver; como sou analfabeta, pedi para sua irmã mais velha escrever esse bilhete, par
a dizer que não tenho dinheiro para te comprar presentes, mas garanto que meu amor você será por toda vida e fome você jamais passará, enquanto eu for viva. Assinado: Sua Mãe que muito te ama.
Tenho absoluta certeza que qualquer criança pobre do mundo vai preferir essa cartinha, com essa realidade, do que a ilusão de um presente seja ele qual for.
E esse foi o maior presente que minha mãe me deixou, jamais passei fome e jamais faltou amor em minha vida.

Por Arthur Miranda (tutu)

Cheiro de Natal

Vejo o Natal com muita alegria e encantamento. É uma data que tem o poder de transformar as pessoas, tornando-as mais afáveis. Todos com um só objetivo. Enfeitar a casa com luzes, montar uma linda árvore, sem esquecer-se do presépio em homenagem ao menino Jesus, comprar presentes e preparar uma bela ceia ou almoço, para receber parentes e amigos.
Lá em casa não era diferente. Enfeitávamos tudo, com árvore, presépio, que ficavam montados até o dia de Reis.
Certa vez um dos meus irmãos, resolveu montar uma árvore de natal giratória. Infelizmente ele não conseguiu, além de quase colocarfogo na casa. Até hoje brincamos com ele sobre isso.
Lembro-me que comemorávamos o Natal com um grande almoço no dia 25. Na véspera, íamos todos à Missa do Galo, junto com a maioria dos vizinhos. Voltávamos felizes pela madrugada, com a sensação do dever cumprido. Depois era só dormir e acordar com o tradicional presente ao pé da cama.
Engraçado que, hoje, não se ouve mais falar em Missa do Galo. Me parece que são realizadas mais cedo, por conta do perigo aos fiéis, que ficariam expostos às maldades alheias, pois teriam que circular
pela madrugada, principalmente nos grandes centros.
Mas, a lembrança e a saudade que mais gosto de ter é o cheiro do Natal. Minha mãe, desde cedo, bem cedinho mesmo, já estava na cozinha lidando com os assados. O primeiro a ir ao forno, era um pernil de 5 quilos, depois os frangos. Também tinha carne de panela, um bacalhau especial com vinho branco, tortas, bracciollas com molho e o tradicional bolo de nozes. Toda essa mistura de temperos produzia uma verdadeira alquimia de aromas, que perfumavam a casa, deixando-a com
um cheiro de Natal delicioso.
Hoje, apesar de todas as facilidades, de poder encomendar uma ceia, ou prepará-la com antecedência, usando o congelamento, prefiro fazer meus assados no dia da ceia, para manter a saudade e aquele inconfundível cheiro de Natal.

Amigos, desejo a todos, um Natal iluminado, um Papai Noel próspero e um Ano Novo com muita paz e saúde.

Por Bernadete Pedroso

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Rabanadas

São tantas recordações, meu Deus! Especialmente agora, pelas comemorações de fim de ano. Temos todos nós, muitas histórias para contar. Muitas memórias sobre Natal. Mas, revendo algumas receitas para escolher algumas para as festas natalinas, lembrei-me das rabanadas...
Quando pequeninos, meus irmãos e eu tantas vezes sonhávamos com aqueles quitutes deliciosos, que víamos pela televisão, ou mesmo nas revistas... Pedíamos para nossa mãe preparar, porém, nem sempre dava para serem aquelas, da revista ou da TV...
Lá pelos idos de 1964, quando vivíamos os turbulentos dias da revolução, numa imensa dificuldade financeira, pois meu amado pai havia ficado detido no DOPS, mamãe tinha que se virar para que não faltasse o alimento à nossa mesa. Meu pai amado era líder sindicalista, dentro da Mafersa, onde trabalhava. Não tinha vínculos políticos, não participava de nenhuma atividade subversiva. Apenas era como um “porta voz” dos colegas, dentro da fábrica. Porém, foi levado para esclarecimento e ficou por 30 dias detido no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Era para lá que os presos políticos eram levados, durante a ditadura militar, para serem interrogados, torturados e, em muitos casos, mortos pelo sistema autoritário que regia o país. Foi no prédio localizado na região da Estação da Luz que homens e mulheres viveram e presenciaram cenas de violência inimaginável, que o tempo ainda não conseguiu apagar. Felizmente, nada puderam provar contra meu pai e ele foi libertado, graças a Deus, mas, ficou desempregado e um longo período de penúria se abateu sobre nossa família. Nosso avô materno era quem supria nossas necessidades, neste período.
Tudo isto para eu falar sobre como pudemos apreciar as famosas rabanadas, um prato m
uito saboroso e por um custo baixo. Minha mãe e minha avó, para satisfazer nossa vontade quanto aos quitutes natalinos, nos contou que era uma iguaria muito apreciada, herança da culinária portuguesa e estava sempre presente nas mesas mais finas de nossa cidade.
Para nós, crianças, que até então acreditávamos que era simplesmente pão frito, passamos a ver com outros olhos e a saborear com mais prazer as famosas rabanadas.
Hoje, posso dizer que faço questão de tê-las em minha mesa nas festas de fim de ano. Que delícia!
Feliz Natal a todos! Boas Festas!

Por Sonia Astrauskas

Natal de 52

Como diziam nas escolas de antigamente, descrição à vista da gravura.

E exibiam grandes e coloridas gravuras- onde terão ido? - Com cenas campestres, paisagens cheias de animais e flores. Neste caso, não é gravura. Uma velha foto, enviada por um tio, já falecido. Ficou inesquecível; um marco numa época de poucas câmeras e raras fotos.
Também, muitas pessoas, aí retratadas, já se foram e só faltaria a cópia estar amarelecida, para dar o devido toque nostálgico. Seria muito justo.
Mas, não está. Todas as figuras bem nítidas, bem como a memória daquele momento mágico, perdido no passado. Local: casa de minha Tia Zilda, na Rua Albuquerque Lins, defronte ao Cine São Pedro. Era Natal, a grande data do encontro da família Simões.
Muitos parentes vinham de outras cidades, como no nosso caso. Na época, Tietê, onde meu pai administrava uma fazenda experimental. Era quase uma obrigação, data oficial no calendário da vasta família. Uma emoção entrar na velha casa, sentindo o agudo cheiro do pinheiro, de bom tamanho, já montado e enfeitado na sala da frente.
A casa não era grande, mas, como continha tanta gente? O que se comia na festa? Nã
o lembro bem, mas talvez leitão assado, farofa, saladas, panetone e as inevitáveis frutas secas.
Abria-se cerveja, refrigerantes e por fim, o espocar do champanhe. Peru, hoje encontrado em qualquer padaria, era coisa para milionário, naqueles tempos.
A grande mesa era montada na sala de jantar que, durante os dias normais, era usada para as aulas extras de minha tia, professora da Caetano de Campos. E os presentes? Existiam? Eram distribuídos ali, para tanta gente? Parece complicado.
-Mas, você falou e falou. Cadê a descrição? Bem, vamos lá.
O grande grupo ocupa toda a sala, vê-se ainda ao fundo uma chapeleira e um quadro metálico da Santa Ceia. Ao fundo, a partir da esquerda estão meus pais e os tios mais altos.
Nas fileiras mais à frente, minhas tias, os tios mais baixos. Ao centro, minha avó com seu semblante severo, perfil de uma Sioux, a grande dama da festa tradicional. Teria mais de setenta anos e viveria até os noventa e quatro.

Na linha de frente, sentados, os baixinhos do pedaço; Tio Amador, do Rio de Janeiro, meus primos pequenos, meu irmão e, bem ao centro, estou eu, vestindo absurdo paletó, apesar da pouca idade. Todos olham para a câmera, operada pelo Tio Rafael, o único ausente do instantâneo.
Mas, fazem mais que isto: olham para o futuro. Para os Natais que ainda viriam; para o mistério insondável do não acontecido...
Vejo, como num espelho distorcido, a imagem do jovem Luiz, que olha diretamente para mim e pergunta o que fiz da minha vida, se consegui conduzir-me bem, através de tantos descaminhos.
Bem ou mal, meu caro rapaz, não sei definir precisamente. Sou um sobrevivente, atravessei muitos outros Natais, e espero resistir a mais alguns. Mas, alguns nos marcam para toda vida, e este foi o caso daquele Natal de 52, eternizado em preto e branco.

Por Luiz Saidenberg

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O brilho de São Paulo

Andando pelas ruas de São Paulo, fiquei encantada com suas luzes realçando tudo o que já é bonito nesta cidade. Os corredores da 23 de Maio; o Parque do Ibirapuera, majestoso com a belíssima árvore de Natal; a Avenida Paulista, um cartão de visita pra ninguém colocar defeito; a ponte Estaiada, o mais novo cartão de visita da cidade; e mais um punhado de ruas e lugares que no momento a memória falhou.

Outro dia, eu e mais quatro irmãs fomos ao Bar Brahma, esquina com a Avenida São João e a Rua Ipiranga, e fiquei admirando aquele trecho de ruas. O prédio do Banespa (acho que assim é chamado), altivo e exuberante, marca presença, domina o pedaço e mostra com muito brilho toda sua beleza. Sem contar os shoppings, cada um com seu encanto, fazendo os olho
s, principalmente dos pequenos, devorarem tal formosura.

Penso, muitas vezes, que sou exagerada quando acho tudo maravilhoso, mas meus olhos não conseguem ver de outra forma, se expandem, ultrapassam e vão além das luzes... Quanta imaginação! E logo a criação das imagens são construídas.

São Paulo é linda de todas as formas, com ou sem brilho artificial, mas, nesta época natalina, em que os corações dos paulistas, paulistanos e visitantes estão mais sensibilizados pela verdadeira importância que a data traz, tudo fica diferente. O otimismo, a esperança e a crença, regados de muita fé e amor, pairam no ar.

Assim, neste mês de dezembro, nossos pensamentos, ricos ou pobres, estão voltados para o bem e a paz, com a esperança de que o próximo ano será melhor.


Após as festas natalinas e as luzes artificiais se apagarem, permaneçam acesas as "luzes próprias" de nossos corações, para que a nossa querida São Paulo continue a brilhar. Vamos construir um projeto mental e Sampa terá brilho eterno. Conecte-se com a vizinhança (palavra do Modesto), expanda seu brilho e tão breve teremos uma nação a brilhar.

Parabéns, prefeito, por deixar São Paulo mais linda!

Feliz Natal e um maravilhoso ano novo a todos vizinhos (Modesto) deste site e seus organizadores.

Por Margarida Peramezza

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Memórias do Natal

Conforme já contei em outras memórias, meus natais foram sempre rodeados de parentes e amigos.
Quando solteiro, por meus familiares, e depois de casado, pelos familiares da minha ex
posa; Aí surge a minha primeira grande dúvida: não sei se eu os adotei, ou se a família me adotou. Depois de muito meditar, cheguei à conclusão que foram ambas as opções conjuntamente juntas que aconteceram.
Muito bem, vamos ao que mais interessa. Os Natais eram sempre comemorados na minha casa e eu morava na Rua das Perobas – no Jabaquara. Eram festas dignas de registro, pois começavam na véspera do dia 24 de Dezembro e varavam a madrugada; seguiam por todo o dia 25 e, em alguns casos, seguiram até o dia 1º de Janeiro do ano seguinte, comemorando no meio dessas duas festas o aniversário do Durval, no dia 27 de Dezembro.
O legal é que, enquanto tivesse música, comida e bebida, ninguém arredava pé. Eram velhos, jovens e crianças, totalmente irmanados e dispostos a festejar e congratular todas essas datas.
Na noite do dia 24, depois da meia noite eu, devidamente paramentado de Papai Noel, entrava triunfante, com meu Ho Ho Ho estrondoso, tomava assento ao lado dos pacotes de presentes e começava a distribuí-los, um a um, para alegria de todos.
Essa operação levava, no mínimo, duas horas. Depois dos presentes distribuídos, dos muitos “ah” e “obas” exclamados, depois de juntados os presentes de cada um, começava a comilança e a beberança, e tinha que ter boca para aguentar.
Num dia 25, já no final da tarde, aconteceu um caso curioso que, de tão peculiar, será o ponto central deste relato. Vamos a ele:

Um dos tios da Cida, o Tio Dito, casado com a Tia Anésia, exímio enxadrista e ex corredor de antigas São Silvestres, chegou-se até onde eu estava e me disse: - Migué, aquele risoto está uma delícia!
Estranhando o comentário e sabendo toda a sorte de comidas que haviam sido servidas de imediato perguntei: - Que risoto, Tio Dito? Não foi servido nenhum risoto na ceia ou no almoço.
E ele retrucou; - então você estava escondendo para consumo em outra hora, pois estava numa panela em cima do fogão, estava ainda quentinho, eu me servi e comi.
Ainda duvidando chamei a Cida e perguntei: O tio Dito está afirmando que comeu risoto, que risoto era esse?
Ela, fazendo ar admiração, me disse: - Risoto? Não tínhamos qualquer tipo de risoto. E mais admirada ainda, colocando uma das mãos sobre a boca sussurrou: Ah meu Deus, ele comeu a comida da Laika (minha cadela da raça perdigueiro) que eu tinha acabado de fazer e estava esperando esfriar um pouco para dar a ela.
Essa comida, na realidade parecia com um risoto, era feita com arroz quebrado (próprio para cachorro, ração de carne e ossos de frango preparada pelo Frigorífico Torres, nosso vizinho, um pouco de batatas, vagens e cenouras cortadas em pequenos cubos.

Não aguentei, cai na gargalhada, chamei todos os primos para perto do Tio Dito, contei o ocorrido; a gargalhada foi geral, inclusive dele que, para arrematar, olhou para todos e disse: Pois é, tá provado que o que não mata, engorda e mais, o que os olhos não vêem o coração não sente, muito menos a boca e estômago...
Na verdade, não havia Natal que um fato curioso não ocorresse e passasse para os anais da nossa família.
Hoje essas lembranças são reverenciadas e alegram nossas reuniões.

Por Miguel Chammas

domingo, 12 de dezembro de 2010

Aconteceu no Natal de 1945

1945, ano de acontecimentos espetaculares, transformações radicais na política internacional e em particular, no Brasil. No âmbito internacional, tivemos o fim da II Guerra Mundial e suas consequências; Europa arrasada, França libertada, Alemanha bombardeada, Inglaterra machucada, Japão com o amargo gosto da bomba atômica em Hiroshima, Itália se livrando do fascismo e enforcando Mussulini em praça pública, com sua amante Clara Petacci. Aqui no Brasil, queda dos 15 anos do Estado Novo de Getúlio Vargas, começamos a tomar conhecimento das monstruosas atrocidades contra o povo judeu, através de cartilhas distribuídas nas escolas públicas, confirmando o que já era amplamente divulgado.
Aqui em São Paulo, terminam os racionamentos, farinha de trigo à vontade, gasolina, além de abundante, era mais barata. Agora, mais alegres os tripeiros, os vendedores de tecidos, com rolos de panos diversos nos ombros, guarda-chuveiros, vendedores de leite de cabra, que andavam pelas ruas do Brás, puxando uma corda que se abria como um leque, trazendo em cada ponta uma cabra. Elas eram ordenhadas na hora em que surgia um cliente com uma caneca ou jarro, servindo um leite quentinho, saboroso e nutritivo. Sem a preocupação da proibição de se falar num idioma estranho, os ambulantes apregoavam seus produtos da forma que lhes aprouvessem, gozando uma liberdade nunca sonhada antes, nessa bendita terra paulista, já uma metrópole fervilhante e dinâmica. Sentia-se esse prazer, pois a grande maioria desses pequenos comerciantes eram estrangeiros, lembrando seus países devastados, agarravam-se a estas chances, pois São Paulo já oferecia grandes oportunidades a todos e em todos os segmentos.
Em dezembro, próximo ao Natal, minha mãe já ia preparando as guloseimas, pães, ficazzas (pão de batata com rodelas de tomates), petsica-dolci (torta de ricota), piccicatela scagdeti (tarallas salgadas), i pi lu zuchero (com açúcar), pastieri di grano (torta de ricota com amêndoas, avelãs) etc. Atividades alegres e prazerosas, envolvendo a todos, cada um responsável por alguma coisa. A minha tarefa era o presépio. Tinha 13 anos e, alguns anos atrás, havia presenciado um primo de segundo grau, mais velho que eu, 10 anos (vivo até hoje e clinicando, Dr. Paulo Zupo), confeccionar um presépio que me deixou curioso e com uma vontade louca de fazer igual. Consistia em armar numa mesa de bom tamanho, um “esqueleto
” de arames, posicionando alturas e depressões de uma montanha, arrematando com um arco também de arame, identificando a entrada de uma caverna com um papel bem grosso, amassado, dando a impressão dos relevos de uma pedra, jogava esse papel em cima da armação, enrolando na entrada da gruta, amarrotando bastante pra dar um efeito natural. As bordas eram cobertas com areia, depois borrifava com tinta (alvaiade diluído em álcool) com uma bomba de inseticida, o Flit, fazendo a vez de aerógrafo, realçando os picos de marrom e as pastagens de verde. Ficou lindo de morrer. Ocorre que, naquele dia, 17 de dezembro de 1945, minha irmã Maria, terceira da série de nove, ia ter um bebê e todos em casa foram pra maternidade com minha mãe e meu pai, apostando o que seria; homem ou mulher (naquele tempo não havia antecipação, era muito mais surpreendente). Em casa só ficamos eu e meu avô materno, já viúvo, que olhando o presépio dizia em barês, dialeto dos nascidos em Bari, sul da Itália: “Testy, stê belle assai, no bisogna a fare piu niente (está bonito demais, não precisa fazer mais nada, não mecha em mais nada). Ele falou isso porque, observando minhas reações, temia que eu fizesse algo. E eu fiz. Notei que, se houvesse alguma luz escondida no fundo da gruta, atrás da manjedoura, daria um efeito espetacular. Não tinha nenhuma lampadazinha e muito menos fiação, não tive paciência de esperar meu pessoal voltar da maternidade, que seria só à noite. Arrumei uma velinha de aniversário, tirei algumas imagens da frente, Nossa Senhora, São José, o burrico, os três reis magos e introduzi a velinha acesa no interior da gruta e o papel ainda recendia a álcool, acho que vocês já adivinharam; tão logo a pequenina chama encostou-se ao papel, incendiou totalmente meu encantado presépio, chamuscando algumas imagens e destruindo outras e ainda alcançando a cortina da sala, dando início a um incêndio de grandes proporções. Só não ocorreu o pior porque a cozinha era perto e, com baldes de água, consegui evitar a catástrofe. Meu avô, coitado, não sabia o que fazer e o que dizer. Naquele momento chegaram todos da maternidade, era um menino, Roberto, hoje com 62 anos, dois filhos e um neto. Espantados, perguntaram o que aconteceu e eu disse que o Dilúvio Universal acabou com o incêndio de Sodoma e Gomorra, antro do pecado da vaidade.
Nunca mais esquecemos o incêndio de Jerusalém do Brás. Quando o Roberto faz aniversário, ao acender as velinhas, a gente lembra, de imediato.

Por Modesto Laruccia

Roberto Carlos no Natal

Há muito tempo, a Globo nos presenteia com Roberto Carlos no Natal. Já escrevi aqui sobre meu ídolo algumas vezes, mas sábado, assistindo ao programa do "Rei" fiquei me lembrando de programas anteriores. Todos em casa sabem o quanto gosto do Roberto Carlos e quanto sou fã fiel. Então, todo ano, é uma briga!
- Você "ainda" vai assistir "isso"?
Ou então:
- Outra vez essas "mesmas" músicas?
Pra piora,r ainda tem comentários desse tipo:
- Nossa, como ele tá velho!...
Sempre gostei do Roberto, não importa quanto tempo tenha passado, não importa que seu repertório seja sempre o mesmo, não importa que ele "continue" dedicando o seu programa a Maria Rita, não importa que seus cabelos estejam rareando, não importa que o programa não seja mais exibido na véspera do Natal, como era antes...

Mesmo assim, continuo fiel. Nesse dia não saio de casa e "ai" de quem não me deixar ver o programa. No programa desse ano estavam inclusas as suas músicas da fase "motel": Café da manhã, Seu corpo, Proposta e outras. Músicas que enterneceram corações apaixonados, ou que deixaram muitos corações suspirando. Roberto Carlos esteve sempre presente em momentos marcantes da minha vida.
- Na adolescência enquanto esperava a flechada do "cupido" (... o que é que você tem, conta pra mim, não quero ver você tão triste assim); - na idade adulta amando muito (Esse amor é pra nós a loucura que traz esse sonho de paz e é bonito demais, quando a gente se beija, se ama e se esquece da vida lá fora); - nas desilusões amorosas (Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada, não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada, pensando ter amor nesse momento, desesperada você tenta até o fim, e até nesse momento você vai lembrar de mim).
Pois é, foram tantas emoções "bicho"... Uma brasa, mora! Roberto, eu estarei de bengalinha (se Deus quiser...) e você poderá estar também. Mas, de uma coisa estou certa:
- Estarei te esperando todo ano no "Especial de Natal".

" FELIZ NATAL A TODOS E QUE 2011 SEJA REPLETO DE EMOÇÕES, AMOR, SAÚDE, E SONHOS CONCRETIZADOS "
...São tantas já vividas, momentos que eu não me esqueci, detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui...


Por Berenice Rabello

sábado, 11 de dezembro de 2010

Natal Moderno

As ruas, um formigueiro humano. A 25 de março, o nosso shopping a céu aberto, ferve em dia de chuva. As árvores revestidas de milhares de lampadinhas cintilantes. As gentes, numa correria, atrás de coisas pra comprar. Vai-e-vem alucinante. Nem parece que é só o fim do ano. Mais parece que é o fim do mundo.

A gana de consumir. A ânsia de se entupir. Desejos descontrolados. Mas não é só isso não.

Nos viadutos, crianças, homens e mulheres imundos. Cachorros abandonados, esfomeados e querendo atravessar a rua. Os cristos do cotidiano. Carros velozes, motoristas ferozes. E segue homem-tração puxando sua carroça abarrotada do que sobrou por aí.


No rádio, na TV e nos jornais, muita notícia de irmãos flagelados. A natureza se vingando. As águas inundando. A correnteza levando tudo. Natal dos contrastes.

E pensar que, há mais de dois mil anos atrás, nascia o aniversariante, que hoje em dia nem sequer é muito lembrado não. Ele que nasceu num pasto, dormiu num cocho e era de uma família sem teto.

"Não espere o Natal chegar para refletir sobre a bondade, amor, paz, amizade, esperança, fé, sinceridade, verdade, sabedoria e união".


Por Suely Schraner

Uma roda de samba na madrugada

Ainda me lembro das rodas de samba que nós organizávamos na casa do amigo Emir, lá na Rua Cisplatina; geralmente ocorria quando voltávamos mais cedo de alguma festa, assim completávamos a noitada, cantando acompanhados pelo violão do Roberto. O trato era que cada uma deveria cantar apenas um verso de cada música, para dar oportunidade para todos cantarem; o Vicente abria a sessão catando assim:

"Abre a janela formosa mulher,
E vem dizer Adeus a quem ter adora
Apesar de te amar como eu te amei
Na hora da orgia eu vou em bora"

aí, entrava o Paulinho e cantava:

Ai, ai, ai, Izaura,
Hoje eu não posso ficar,
Se eu cair nos teus braços,
Não há despertador que me faça acordar,
Eu vou trabalhar"

Roberto entrava e cantava:

Aos pés da Santa Cruz
Você se ajoelhou,
E em nome de Jesus

Um grande amor você jurou
Jurou mas não cumpriu,
Fingiu e me enganou,
Prá mim você mentiu,
Prá Deus você pecou..."

O Moacyr logo emendava:

Depois que ele desceu do morro,
Passa fome prá cachorro
Lhe ofereci meu socorro ele diz que não quer
Não não não quer
Diz que não depende de favores de mulher..

O Simão, carioca, trazia sempre novidade e dizia:

Ela me disse jurando
Este é meu último adeus
Me ajoelhei implorando
Não vá embora pelo amor de Deus...

Eu, como fâ de carteirinha do Chico Alves, dizia:


Que rei sou eu, sem reinado e sem corôa
Sem castelo e sem rainha, afinal que rei sou eu,
O meu reinado é pequeno e e restrito,
Só mando no meu distrito
Porque o rei de lá morreru

O Emir um pouco desafinado dizia:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por isso toda gente lá de casa começou a rezar
Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada,
Por isso essa noite lá no morro não se fez batucada

O Vicente entrava outra vez cantando:

Ai, ai meu Deus, tenha pena de mim
Todos vivem muito bem só eu que vivo assim,
Trabalho e não tenha nada, não saio do miserê
Ai, ai meu Deus, isso é prá lá de sofrer..

O Emir, fâ da Carmen Miranda emendava:

Gosto de cachorro vagabundo
Que anda sózinho no mundo
Sem coleira e sem patrão
Gosto de cachorro de sarjeta
Que quando escuta a corneta
Sai atrás do batalhão

O Moacyr entoava um samba que dizia:

Eu ontem cheguei em Casa Helena
Te procurei e não te encontrei
Passei o resto da noite a chamar,
Helena, Helena vem me consolar

O Neno era mais retraído e cantava:

Não falem dessa mulher perto de mim
Não quero prá não aumentar minha dor,
Já fui moço, já gozei a mocidade
Se me lembro dela, me dá saudade
Por isso em homenagem a meu fim
Não falem dessa mulher perto de mim...


O sono vinha chegando e, um a um, íamos deixando a roda, como saideira o Roberto, dedilhando o seu violão, ia pela rua cantando:

Noite alta. céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar caí sobre a mata
Qual uma chuva de prata
Em raríssimo esplendor
Só tú dormes não escuta
O teu cantor...

Na esquina, nos despedíamos e cada um ia para sua casa descansar para recobrar as forças, todos alegres e felizes e prontos para retornar à vida normal no dia seguinte.
Quanta saudade daquele tempo!

Por Leonello Tesser (Nelinho).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Velhas festas de fim de ano

Volto à minha antiga casa que não mais existe. Mas, existe em mim. Portanto, não preciso de chave. Basta girar a maçaneta e entrar.
Gostaria de precisar um fim de ano específico, mas todos os anos, entre 1950 e meado
s dos anos 60 foram sempre iguais e felizes...
Alternadamente, entre os meses de outubro e novembro, meus pais, meus avós iam à Cidade para comprar os presentes de Natal. Saíam às escondidas e – mistério – voltavam para casa carregando pacotes e iam diretamente para os seus quartos.
No final de novembro iam à Rua 25 de março comprar uma nova guirlanda para a porta, algumas bolas, enfeites e festões para a árvore de Natal. A tradição rezava que era preciso acrescentar a cada ano um novo enfeite à árvore. Compravam também um enorme pacote de algodão para “fazer neve”.
No início de dezembro, vovô, papai e tio Amedeo iam a Itaquera comprar o “Pino” (pinheiro) que, em casa era colocado em uma grande lata de óleo “Sol Levante”.
Seis de dezembro começava o Natal! Alegria e ansiedade...
O pinheiro era colocado em um canto da sala de jantar. A lata de óleo era coberta po
r uma camada de papel-crepom verde e, sobre ela, uma camada de celuloide amarelo e laços de fita vermelha.
Um a um os enfeites e adereços eram dispostos na árvore. Cabia ao vovô colocar a ponteira, enquanto meu pai fixava a guirlanda à porta de entrada.
A segunda etapa da noite foi forrar o tampo da “credenza” (aparador) menor com feltro e sobre ela colocar um espelho, onde foram dispostas as figuras do nosso pequeno presépio.
Tudo pronto para o Natal! E eu começava a esperar pelo dia 25, que parecia estar a mil anos-luz longe de mim...
Vinte e quatro de dezembro. Eu andava pela casa prestes a ter um ataque de ansi
edade. Chegou a noite e nonno e nonna, após o jantar, arrumam-se para ir à Missa do Galo.
Não comemorávamos a véspera. Lá pelas dez da noite, mamãe, esperta como uma r
aposa dava-me duas fatias de rabanada e uma caneca de gemada “carregada” com conhaque e me levava para a cama. Meia-noite, meus pais colocavam os presentes sob a árvore e iam dormir.
Manhã do dia 25: -“A sveglià’ miei maialini! È già Natale!” (Acordem meus leitõezinhos! Já é Natal!) – gritava o meu avô, batendo uma contra a outra, duas tampas de panela. Segundos depois eu e meu irmão em pijamas, o molecão tio Amedeu, em camiseta e cueca, atacávamos os presentes sob a árvore.
Em casa o almoço de Natal era da família e também dos filhos que Nossa Senhora nos mandava. E quase todas as famílias os recebiam.
Os “filhos de Nossa Senhora” eram os imigrantes solteiros (Italianos, espanhóis, gregos, portugueses) que, sem ninguém, sem família estavam aqui em busca de melhores dias. Moravam nos quartos de pensão ou nos cortiços e acabavam “adotados” pelas famílias da vizinhança. Era enternecedor ver todas aquelas “mammette” (mãezinhas), com lágrimas nos olhos, recebendo os filhos de Nossa Senhora. De dor da separação elas entendiam. E muito!
Após o almoço, a confraternização. Era um “vattene viene” (vai e vem) de vizinhos, amigos, parentes e aparentados. Música, festa e vinho. Na rua, a molecada exibia os presentes que ganharam...
O Ano Novo tinha a véspera com sua ceia e seus fogos. Tinha a Corrida de São Silvestre e o barulho ensurdecedor das buzinas dos carros e dos apitos e sirenes das fábricas. A ceia era farta. Tanto que sobrava muito para o almoço de Ano Novo. Era tradição da nossa família engolir três grãos de “melagranno” (romã) para que sempre estivéssemos juntos. Os espanhóis comiam uma colher de “lentejas” (lentilhas).
O almoço do primeiro do ano era igual ao do Natal.
Ano Novo! Agora, era só esperar pelo Dia de Reis...
Eu e todas as crianças, na véspera de Reis, colocávamos os nossos sapatos à porta, fora de nossos quartos, à espera de presentes (balas, confeitos, chocolate, etc.) Ninguém colocava mais os sapatos à janela, pois havia o receio de que fossem roubados. Os espanhóis colocavam capim dentro dos sapatos, para alimentar os camelos dos Reis Magos. Em agradecimento os reis deixava
m presentes.
Dia seis! Após o almoço, a sobremesa era o Bolo de Reis que, além de delicioso, trazia brindes em seu interior. Depois do “Magnificat” (Hora da Ave Maria – Seis da tarde.) começávamos a desmanchar a árvore de Natal e o presépio. E também começar a sonhar com o próximo fim de ano...
É hora de partir. Saio silenciosamente dessa minha casa que não mais existe, mas que ainda existe em mim e fecho a porta calmamente. Olho para o chão e em frente a ela ainda está o velho capacho que sempre dizia a todos “Bem-Vindo”. Capacho verdadeiro. Não como os muitos capachos que mascaravam a hipocrisia daqueles que Mal-Recebiam os seus parentes e amigos.
Fecho o portão e caminho de volta à realidade sentido o perfume da Dama da noite que florescia no jardim... Floresce ainda em mim...

Por Wilson Natale

Natal para todos

Tem coisas que não deveriam ser mudadas nunca; o Natal é uma delas!

Não o Natal como símbolo de presentes, compras, que chega a cada ano cada vez mais cedo, onde uma enxurrada de ofertas e apelos chegam até nós de todas as formas, ficando impossível não percebê-las.

Falo do Natal sentimento; aquele que envolve a todos, em todas as partes do mundo, trazendo aos vários locais desse planeta essa energia de expectativa, de desejos, enfim, de esperança.

O Natal que espalha por todo o planeta sentimentos tão fortes que envolvem cristãos e não cristãos, pessoas de fé e ateus, ricos e pobres, maiorias e minorias... Todos.

Em São Paulo não é diferente: percebemos já no mês de setembro aquela movimentação característica preparando a cidade para o Natal: shoppings se esmerando em criatividade para diferenciar suas decorações; o apelo cada vez maior e diversificado em opções de presentes; movimentos sociais aumentando suas atividades de inclusão, tentando minimizar a d
istância entre as classes, pelo menos nessa época, e por aí vai.

Agora, o que nos faz crer que o Natal é para todos é que, durante esse período natalino, muitos saem da cidade, buscando praias, campos, viagens com familiares e amigos, o que é realmente saudável.

Involuntariamente, abrimos com isso, espaço para que a confraternização nessa megalópole se estenda com maior facilidade para todos.

Shows ao ar livre, reveillon na Paulista, a iluminação natalina espalhada por toda a cidade provocam verdadeiros roteiros turísticos, a pé, de ônibus e metrô, permitindo que
todos, mas todos mesmo, usufruam do lado bonito e harmonioso dessa maravilhosa cidade, partilhando essa energia e esses sentimentos que envolvem todos de forma igual.

Pelo menos na época a gente tem a impressão que a cidade de São Paulo e o significado do Natal são para todos.

Feliz Natal pessoal!

Por Márcia Sargueiro Calixto