quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Uma cidade dinâmica

Como se falou muito do Bixiga, chegou a hora do meu querido Braz, (com Z).
Em todos os bairros da cidade de São Paulo, dependendo dos anos de existência, abrigam fatos, ocorrências, acontecimentos e eventos tais que, com o passar dos anos parecem ficção, invenção popular e, dependendo de sua importância ou clamor que possa ter provocado, são guardados na memória de seus habitantes, pelo menos nos que possuem sensibilidade, mesmo que seja em grau não muito elevado.
Isso ocorre, também e principalmente, com pessoas, isto é, gente que se destaca por vários motivos ou razões, involuntárias personagens que a vida, destino ou quem quer que seja, dependendo da crença de quem os interpreta, uma Entidade Superior. É muito fácil ou mais cômodo se dizer que... “já estava escrito”... sobre uma ocorrência, triste ou alegre mas, os acontecimentos e o desenrolar de nossa existência dependem quase que exclusivamente de nosso empenho e nosso comportamento diante do porvir.

Isso só vem corroborar a crença popular de que a vida é uma tragicomédia, eternamente interpretada por todos nós, entrando e saindo de cena, segundo a vontade do Grande Diretor.
E, nessa comédia ou tragédia humana, quem se destaca no elenco universal? Os mais belos? Os mais inteligentes? Os mais espertos? Os mais valentes ou covardes? Não; nada disso. Os que mais se destacam e permanecem na memória dos saudosistas são os “artistas” que sabem improvisar, os que, sem conhecer nada do “texto”, tem um comportamento diferenciado, são os que levam suas existências de uma forma totalmente liberadas de qualquer esquema ou direção, livres, enfim. E quem são eles ou elas?
São aqueles que se negam a desaparecer de nossa memória, os que marcaram sua presença com “interpretações” de tal forma diferenciadas que sempre, mesmo depois de desaparecerem, continuam vivos, com destaque em nossas lembranças, mais até que determinados parentes ou amigos que passaram por nossas vidas. E todos, acredito eu, que colaboram neste site, tem essa imagem, de seu bairro, do local em que nasceu ou viveu.
Entre eles, lembro do vendedor de pizzas, que ia pelas ruas do Braz, Gasômetro, do Lucas, Assumpção, da Alfandega etc, levando um cilindro de lata, com um diâmetro de, mais ou menos, 25 a 30 cm, preso nas extremidades por uma cinta de couro, nas costas, como se fosse uma espingarda. Entoando uma “canzoneta” napolitana e, ao preço de um mil réis pela pizza inteira, 500 réis, pela metade e 300 réis pelo quarto da inteira. A pizza era do formato do cilindro, ocupando justinho o conteúdo do mesmo, uma sobre a outra, que tinha um metro de comprimento e conforme o desejo do cliente, a maioria crianças, ele tirava o disco do cilindro, punha em cima da tampa e retalhava, se necessário. O sabor era um só, massa bem grossa, conforme a legítima napolitana, (agora os napolitanos fazem mais fina, acho que aprenderam com os paulistas) salpicadas de massa de tomate com alguns fragmentos de aliche, não tinha muzzarela. Foi com ele que comi a primeira pizza de minha vida e... não gostei.
Ou
tro vendedor prosaico, era o que vendia esses doces enrolados, de massa grossa e bem doce, como um canelone, com recheio de creme de baunilha ou de chocolate. Tem um nome característico mas, não lembro agora, é qualquer coisa de “língua da sogra” ou “pastieri” , só sei que ele berrava, em italiano, o nome do doce. Ele vinha todo de branco, até o quepe, levava num balaio preso no pescoço e um manto de grinalda, com uma pinça de metal pra apanhar o produto, sempre para preservar a higiene.
Tinha também, o “machadinho”, que trazia em seu balaio um bloco de doce seco e duro que ele cortava pedaços com um pequeno machadinho e, conforme o valor que o garoto dispunha, 50, 100, 200 ou 400 réis, colocava num pedaço de papel e dava para o cliente. Muitos anos depois fiquei sabendo que ele, o ambulante, se abastecia das fábricas de balas, no Canindé, onde adquiria a massa endurecida por não ter sido manipulada em tempo hábil na formação de balas e com sabores, os mais diversos, sempre dentro de relativa higiene mas, o produto não oferecia nenhum risco , as bases eram (e ainda são) glicose, leite e açúcar e os ingredientes de sabores artificiais.
Um dos mais populares ambulantes, esse de porta em porta, era o vendedor de queijo, espalhafatoso e barulhento como ele só. Ele era polignanes, (natural de Polignano À Mare, província de Bari, sul da Itália); quando a cliente atendia a porta, ele agia com sua proverbial habilidade em manejar o dialeto, enaltecendo a beleza e formosura (que nem sempre correspondia a realidade), oferecendo um naco de queijo que trazia no cesto, a guiza de degustação, antecipando-se em vários decênios na filosofia do marketing moderno. Tudo isso aos berros, sem nenhum constrangimento, como se estivesse na rua. Como nessa época era comum as famílias que moravam em casas térreas, como nós, fazerem um buraco na porta da rua, onde passavam um barbante preso à fechadura interna e, quem chegava da rua, não precisava tocar a campainha; era só puxar o barbante e a porta ficava livre mas, isso só era permitido aos da família ou íntimos. (Imagine um recurso deste, hoje em dia... ). O Ngeuri, esse era o apelido do queijeiro, (le-se nheuro: o escuro) porque, apesar de ser italiano tinha a pele escura, provavelmente pelas influências mouras de séculos atrás, no sul da Itália.

Ele chegava em casa, puxava o barbante e já ia berrando, em dialeto: “Feli, (minha mãe, Felícia) como você está linda hoje, não sei o que faço quando te vejo, tenho vontade de voltar pra casa e mandar minha mulher de volta pra Polignano... mas, tenho os filhos... você sabe, né...” Tudo isso e mais alguns galanteios e finalmente oferecia um pedaço do queijo que vendia, sempre aos berros. Meu pai, que o conhecia há muitos anos, não simpatizava muito com esses arroubos, afinal ele tinha comércio e não se interessava muito por produtos alimentícios vendidos dessa forma. Só sei que, no final, minha mãe acabava comprando um pedaço de queijo, geralmente parmesão, que depois eu é que ralava.
Meu avô materno, quando veio da Itália, com esposa e filhos, no início do século XX, deixou em Polignano um barco de pesca, seu instrumento de trabalho. Aqui chegando, sem outra profissão, arrumou dois balaios de madeira forrados de zinco, um forte bambu, colocando em cada ponta um balaio e, centralizando no ombro o peso, saía pelas ruas do bairro e adjacências, vendendo seu peixe, com clientela cativa e constante. Vincenzo Mônaco, seu nome e nós o chamávamos de “Papê”, caladão como um mudo, resultante dos anos e anos no trabalho de pescador na Itália, onde passava, às vezes, dez a quinze dias fora, dependendo como se achava o mar, em matéria de abundância de peixes. Minha avó, sua mulher, era um doce de vó, aceitava a carranca do marido com uma paciência santificada e, de tanto costurar e arrumar as redes de pesca do Papê, ao deitar sobre as pernas as enormes e pesadas redes, sempre úmidas, contraiu um reumatismo virulento que acabou levando sua vida muito cedo, 70 ou 72 anos.
Havia também, o “Luiz das porteiras”, um mulambo, totalmente abobado, mal vestido e sujo que gritava e corria com os braços meio estendidos pra frente, rindo e babando, que a garotada, quando o via, saia correndo atrás dele, gritando “olha o Luiz das porteiras”, e ele seguia direto para as porteiras da rua Monsenhor Andrade ou para as porteiras do Braz., onde se agarrava nas traves e gritava, chorava e ria. Nunca soube se tinha família, onde morava e se seu nome era, de fato, Luiz. Um figurante, talvez, um extra na dramática história dessa cidade dinâmica que não permite estacionar no tempo pra continuar no seu progresso, indiferente às ocorrências que marcam seus habitantes e que é sempre bom registrar.

Por Modesto Laruccia

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Bota uma meia sola

Sempre apreciei bons calçados. Fetiche, dirão alguns. Mas tenho outra explicação, que vem de minha adolescência. Em verdade, é sempre fácil para a gente achar uma explicação, como fazia Freud. Mas creio ter minhas razões.
Em Campinas, quando frequentava o mais venerável e tradicional colégio da cidade, as finanças da casa iam mal, não correspondendo a tanta pompa e circunstância.
Então, meus pais compravam-me sapatos com um nome armênio, Bogosian, Kherlakian, algo assim. Os benditos sapatos, de qualidade duvidosa, não podiam pegar u
ma chuva que a sola, mais parecendo papelão, inchava e começava a se desgastar rapidamente.
Para agravar o processo, eu muitas vezes descia do bonde na praça central e seguia a pé para casa, talvez dois quilômetros distante.
Logo surgiam buracos na sola, como nas ruas paulistanas. E o remédio era colocar um forro de jornal, para o vexame não ser total.
Por isto, assim que tive melhores condições financeiras, comecei a comprar não só belos calçados, mas boas roupas. Lembro-me que, nos tempos de colégio, em São Paulo, para aumentar a durabilidade, costumava-se colocar uma chapinha na ponta. Então, ficávamos todos parecendo sap
ateadores da Broadway, tilintando a cada passo.
Outro costume da época era botar uma meia-sola, para salvar o calçado. Nunca gostei disso. Ficava aquela emenda no meio da sola e o sapato, reconstituído, nunca mais ficava o mesmo. Mas, haviam muitos sapateiros naquela época e, com certeza, cheios de clientes.
Não faziam mais sapatos e botas como outrora, mas, consertos não lhes faltavam.
As coisas mudaram muito. Acho que um dos primeiros sinais foi o Vulcabraz, com sola de borracha indestrutível. O sapato acabava, mas não a sola.
As solas de borracha foram virando maioria, mesmo em calçados finos. Depois veio a invasão dos tênis, abandonando as quadras e congestionando as ruas.
Assim, o trabalho dos bons sapateiros foi ficando mais limitado e suas oficinas mais raras. Mas, ainda subsistem; sempre há um conserto a fazer, um salto ou fivela a substituir. Eles continuam e, creio, até bem.
E a meia-sola? Deverá existir, certamente, ainda quem mande colocar. Lembro-me de meu amigo, “A Velha Serpente”, sobre quem escrevi várias vezes.
Ele, apesar de riquíssimo, em certas coisas era parcimonioso para gastos. Havia comprado na Rua Maria Antonia, perto de nossa agência, uns esplêndidos mocassins, fabricados por um espanhol.
Anos mais tarde, continuava usando esses mesmos calçados, ou os descendentes deles.
Certa vez em que lhe dei carona para casa, os ditos cujos necessitavam reparos.
Ele, morador nos Jardins, tinha ido ao Shopping Iguatemi, providenciar o conserto, mas pediram-lhe uma fortuna para trocar a sola. Indignado, consultou sua empregada, moradora de um mal afamado e distante bairro de nossa periferia.
- Quem sabe lá eles dão um jeito, disse. Afinal, são especialistas em buracos, assim que vêem, sabem se foi de 38, 45 ou 9 milímetros!
É isso, bom e saudoso amigo. Continuaremos colocando meia-sola, senão nos sapatos, com certeza no incerto dia-a-dia de nossas vidas. Caminhemos!

Por Luiz Saidenberg

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dois japoneses inimigos

Manoel e Joaquim eram dois japoneses que chegaram ao Brasil na década de 40. Bem antes de por aqui aportarem, já eram velhos inimigos lá na Santa Terrinha, em Tóquio, capital de seu país.
Ninguém jamais ficou sabendo, nem mesmo os amigos mais chegados, a verdadeira origem dessa antiga inimizade entre eles, a ponto de nem ao menos se cruzarem nas ruas da Freguesia do Ó, como também, no restante de toda a nossa querida São Paulo.
Ambos chegavam a mudar de rumo ou alterar sua rota, ao perceberem que o outro vinha em sua direção.

Também ninguém tinha uma explicação lógica para o fato de ambos terem deixado o Japão no mesmo dia e viajado para o Brasil no mesmo navio. Muitos até acreditavam que eles deixaram o Japão, pelo fato de, em Tóquio, não haver padarias, pois como todo o mundo já sabe, lá Já a Pão.
Então, juntaram um dinheirinho que tiraram de seus cofrinhos e colchões e vieram, como outros tantos patrícios seus, buscar um pouco de sorte, aqui, nesse imenso Brasil.
E, é claro não titubearam e escolheram a cidade onde com fé, luta, trabalho e muita dedicação, muitos antes deles haviam enriquecido, sendo assim, não deu outra; a cidade escolhida foi mesmo a nossa S
ão Paulo.
O ramo escolhido foi aquilo que eles aprenderam, desde cedo, no Japão; fabricar os ditos cujos aqui em nossa região norte. Os dois, então, resolveram, vejam só que irônica coincidência, morar aqui no Bairro da Freguesia.
Um fato inexplicável que até hoje é bem polêmico, ninguém consegue explicar o porquê de dois asiáticos, recém chegados do Japão, depois de cinco ou seis anos morando em solo paulistano, já estavam até ficando ricos!
Por que esses dois japoneses, que sempre foram inimigos, torciam para o mesmo time, o time da Portuguesa, que na época não tinha nem campo pra jogar seu futebol, mas tinha um super time, um verdadeiro timaço que deu de sete no Corinthians, muito embora o Timão, nesse ano, tenha sido o campeão do nosso IV Centenário?
Corinthians levou de sete da Portuguesa com esse time: Gilmar, Homero e o grande Olavo, Idário, Goiano e Roberto, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Colombo.
Nem sei se foi esse mesmo o time, mas, quem quiser saber a verdadeira escalação, basta mandar um email ao nosso queridíssimo Mário Lopomo.
O time da Portuguesa era mesmo de arrebentar; era, praticamente, a Seleção dos Paulistas.
Lindolfo (ou Muca) Nêna e alguém, Djalma Santos, Brandãozinho e Cecy, Julinho, Renato, Níninho, Pinga e Simão. Esse “Alguém”, só mesmo com o Lopomo.
Chegou o dia que os dois Japas se encontraram. Foi na entrada do antigo e famoso Parque Shangai, ali na várzea do Glicério, onde hoje existem viadutos por todo lado, bem ao lado daquela enorme figura de mulher que ficava na entrada do parque, rindo feita louca o tempo todo. E, enquanto ela ria, Manoel e Joaquim, pela primeira vez em muitos anos, se falaram.
Manoel disse ao Joaquim, com aquela sua calma bem oriental, umas coisas que muita gente deveria ouvir nesse nosso país.
Joaquim, meu querido conterrâneo, você muito é prepotente, maldoso, invejoso, atrevido, metido a gostoso e não sabe reconhecer o talento e os valores dos outros; vive sempre se achando muito melhor que todo mundo. Mas, fique sabendo você, que sempre se achou o bom, um dia vai morrer como todo mundo e, então, será enterrado em uma fria sepultura, lá em sua última morada você ira apodrecer e sua podridão vai virar o capim que forrará a sua cova; você ficara bem verde e bonito e daí será ruminado por uma vaca; você se transformará em massa digestiva desse animal e, um dia, a mesma ao pastar pelo campo distraída, vai devolver você de volta nesse pasto, em formato de um bolo fedorento, e eu, vendo você assim tão mal cheiroso, vou gritar bem alto aos quatro cantos desse mundo:
Joaquim! Joaquim! Como você mudou! HEM?
E o Joaquim, furioso, encarou o Manoel e disse assim bem delicado, repetindo praticamente o mesmo que Manoel havia falado.
Manoel, meu horrível conterrâneo, você também é prepotente, maldoso, invejoso, at
revido, metido a gostoso e não sabe reconhecer o talento e os valores dos outros, vive sempre se achando muito melhor que todo mundo. Mas, fique sabendo você, que sempre se achou o bom, um dia também vai morrer como todo mundo e, então, serás enterrado em uma fria sepultura e lá, em sua última morada, você também apodrecerá; sua podridão vai virar o capim que forrará a sua cova; você ficara bem verde e bonito, então, serás ruminado por uma vaca; você, aos poucos, se transformará em massa digestiva desse animal; um dia a mesma ao pastar pelo campo distraída, vai devolver você de volta nesse pasto, em formato de um bolo fedorento, e eu, vendo você assim tão mal cheiroso, vou gritar bem alto aos quatro cantos desse mundo:
Manoel! Manoel meu inimigo predileto! Você não mudou nada, continuas o mesmo.

Por Arthur Miranda (tutu
)

Pela janela do apartamento

fotos: Rinaldo Calheiros e Carlos Galhardo
Já é tarde, o calor da noite não me deixa dormir, volto para a sala, abro a janela e logo vem o doce perfume da Dama da Noite que exala da casa do vizinho, no Ipiranga, respiro fundo e logo as lembranças de antigos poemas e velhas canções me fazem voltar aos bons tempos da juventude.

Paraguassú cantava:

Perdão Emilia, se roubei-te a vida,
Se fui impuro, fui cruel, ousado,
Perdão Emilia, se manchei teus lábios,
Perdão Emilia para um desgraçado.

Rinaldo Calheiros cantava:

Já não te vejo, deslumbrante como outrora
Já não te sinto, luz do meu encantamento
Com a cerimônia, que te chamam de senhora
Tu podes crer, que já mudou meu sentimento.

Carlos Galhardo cantava:

Chega, eu já sei o que vens me dizer,
Chega, eu não quero saber
Se ela é falsa, deixa a tristeza comigo

Quem falar dela não pode ser meu amigo.

E Humberto de Campos, brilhante poeta, escreveu:

Tuas Cartas...

Tuas cartas rasguei uma por uma
Cento e catorze páginas e tiras
De confissão e juramento: em suma,
De perfídias, de enganos, de mentiras.

E chorei, ao rasgá-las! Tinha alguma
Cousa implorando contra as minhas iras
Em todas; e, hoje, irritação nenhuma
Neste peito verás, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei...No entanto,
Cada rompida página era um cardo
Que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, pelo chão, após instantes,
Os pedaços juntei... e agora os guardo
Com mais carinho do que os guardava antes!

Finalmente o sono vem, fecho a janela, cerro a cortina e vou para o leito, faço as minhas orações agradecendo ao Criador por mais um dia esperando ter lindos sonhos.

Por Leonello Tesser (Nelinho).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Pátria amada

Ouviram, certa vez, do Ipiranga, um brado.
Será que são incapazes de ouvir, não só do Ipiranga, mas, da Vila Prudente, do Sacomã, da Vila das Mercês, Vila Carioca, Vila Alpina, Vila Zelina, Jabaquara, Santana, Vila Olimpia, Freguezia do Ó, do Bras, do Bixiga, do Centro, do Brooklin, Pompéia, da Mooca, Itaquera, Guaianazes, Jaguaré, Jaraguá, Sapopemba, Água Rasa e de todos os cantos de São Paulo e do Brasil, os brados retumbantes deste povo varonil que sofre...sofre e trabalha, sem deixar de ter esperança, sem deixar de acreditar num futuro
melhor?
Que pena que nosso líderes governamentais esqueceram de seus compromissos de honra, quando assumiram seus postos, cheios de promessas maravilhosas que, efetivamente, se cumpridas, trariam igualdade e justiça sociais.
Pão sobre a mesa, transporte público descente, atendimento médico, moradia, escolas públicas, são essenciais para qualquer população e seria digno por parte de qualquer instituição governamental providenciar.
Nosso povo heróico não desiste de trabalhar, mesmo estando cada vez mais pobre para que nossos líderes fiquem cada vez mais ricos.
A classe patronal cada vez mais rica e pagando menos impostos, enquanto o povo varonil, filhos desta Pátria amada, sucumbem diante
de tantos tributos, agonizam presos em malhas finas, tentando explicar de que maneira heróica foram capazes de viajar para o circuito das águas, enquanto os magnatas desfrutam de cruzeiros ostentosos, viajam para paraísos fiscais e hospedam-se em hotéis luxuosíssimos, mais parecidos com castelos de príncipes árabes, sem nenhuma satisfação a dar a ninguém.
Oh, Brasil, terra adorada, símbolo de amor eterno, da paz no futuro e da glória do passado, mas, que o sol da liberdade nem sempre brilha sobre todos os seus filhos e o penhor desta igualdade foi esquecido. Foi esquecido porque seus filhos gentis tem memória curta e, embora com braços fortes, a consciência do poder é fraca.
Brasil, gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso e em seu céu resplandece o Cruzeiro que seus filhos já não conseguem enxergar, por tanta poluição do ar e por não conseguirem mais erguer a cabeça para olhar o céu.
É preciso que erguemos a clava forte da justiça, não fugir da luta e não temer a morte...a morte do comodismo e da omissão, estes monstros que devem ser extirpados deste solo, oh Mãe gentil.
Nossa história mostra a nossa descendência...descendentes de heróis que lutaram pela liberdade, igualdade, fraternidade; palavras que, por si sós, são o programa de toda uma ordem social e realizariam a ordem e progresso mais absolutos da humanidade. Basta que os princípios que representam possam ser inteiramente aplicados.
Em breves dias, uma vez mais, teremos a chance de mudar a história e fazer um Brasil novo, pois um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança descerá sobre nós... Comecemos por trabalhar, antes de tudo, a base do edifício antes de querer coroar-lhe a cumeeira.
Temos que ter bom senso, inteligência, dignidade, critério, memória.

Que tenhamos por base a liberdade, igualdade, fraternidade, mas que, não sejam somente dizeres escritos em bandeira, mas sim, que estejam em nossos corações e corações não se mudam com decretos.
Para formarmos um lindo pomar temos que, antes de tudo, limpar o terreno de pedras, espinheiros e pragas, preparar a terra para receber as boas sementes. Assim, elas poderão germinar, crescer, florescer e frutificar.
Então verá, terra adorada, que seus filhos não fogem da luta e extirparão todo o mal, para que a ordem e progresso se façam, pelos caminhos do bem, oh Pátria amada, Brasil.

Por Sonia Astrauskas

Baianada paulista II

Depois da saga dos valentes nordestinos (baianos ou não) em 'Baianada Paulista', volto à carga com uma nova aventura, desta feita com quatro personagens que conheci na minha já distante juventude, vividas na velha e querida Rua Santo Antonio, no bairro do Bixiga. Esta narrativa envolverá também outros participantes, a exemplo de 'seu' Tito (‘Seu Tito’: um grande bixiguense), familiares e amigos nossos, todos 'bixiguenses'. Estamos na década de sessenta e a ditadura militar impõe as 'novas regras' a todos os cidadãos brasileiros. Mandatos políticos são cassados e um séquito de exilados de todas as esferas culturais buscam, em outros países, novos ares e a calmaria necessária para refletirem sobre a situação da pátria mãe.
No Bixiga, a vida não difere muito dos acontecimentos às voltas com a situação nacional e todos buscam suas alternativas econômicas para a necessária manutenção econômica e familiar, já que a velada recessão imposta pelo regime militar havia atingido vários setores da indústria e do comércio, causando demissões. O seu Tito, assim como o meu pai e outros trabalhadores, foram surpreendidos com a 'nova ordem econômica' imposta pelo regime militar e, dispondo de algum recurso financeiro, adquiriu um pequeno terreno na Rua Santo Antonio, onde originalmente havia uma 'maloca', e o transformou em um estacionamento para automóveis. Foi um verdadeiro 'achado', pois muitas das casas e prédios de apartamentos de nossa rua não dispunham de garagem para aquele
s que tivessem um automóvel. Foi a fome com a vontade de comer, e o 'pirão' estava servido. Ou seja, seu Tito estava coma a faca e o queijo nas mãos.
Estacionamento inaugurado com o sugestivo nome do mais novo membro da família Maita, foi batizado 'Estacionamento Marcelo' e já contava com uma freguesia fixa de mensalistas e alguns ocasionais. O movimento crescia sempre nos dias e noites de sextas-feiras e sábados, por força das cantinas e dos bares das redondezas. A necessidade de um gerente para administrar o novo empreendimento de seu Tito 'bateu' de frente com o Zezito, um baiano da cidade de Tucano, saído não sei de onde e que, adquirida a confiança e acertados os devidos pormenores, passou a ser o responsável pela guarda e manutenção do estacionamento.
Seu Tito era assim. Quem dele necessitasse e ele podendo atender, tudo certo! Zezito era um tipo característico de baiano que não deixava dúvidas quanto a sua origem. Bem falador (falava mais do que papagaio) e gostava das coisas corretas. Muito responsável e cioso, cuidava do estacionamento como se dele fosse e, com o decorrer do tempo, conquistou a simpatia e confiança de seu Tito, assim como a de todos os fregueses do pequeno comércio.
Eu, de pronto, fiz amizade com aquela figura exótica que trazia estampada a ‘baianidade’ co
ntemporânea e sertaneja e passamos a travar nossos entendimentos. Contudo, o meu novo amigo ainda se sentia um pouco destacado do convívio 'bixiguense' e as saudades da 'boa terra' por vezes o prostrava em visível tristeza. Foi quando por lá apareceram três 'conterrâneos' seus, o Braulio, o 'Preto' e outro que não me recordo de seu nome, mas o apelidei de 'Dengoso', pelo modo descansado e relaxado no seu falar.
Foi uma só alegria esse inusitado encontro que esbarrou num pequeno problema. Todos estavam sem lugar para ficar, situação essa que, depois de falar com o seu Tito, todos se 'arranjaram' em um cômodo improvisado nos fundos do estacionamento. Era uma espécie de 'mezanino' onde o Dengoso armava sua rede de dormir e os demais, em camas construídas rusticamente pelas mãos hábeis de Preto, que se revelou um bom marceneiro. Quanto ao Braulio, este tinha emprego e era o mais nam
orador da turma. Passado o tempo, a vida fluía tranquila, até quando o Zezito me revelou uma sua vontade que era a de aprender a dirigir automóvel. Pensei um pouco e respondi-lhe: - E porque não?
Seu aprendizado deu-se até que rapidamente, pois a área do estacionamento era perfeita para o exercício de pequenas manobras e assim o Zezito, ao cabo de alguns dias de 'lição prática', aprendeu a dirigir (ou pelo menos manobrar). Em uma das sextas-feiras de movimento no estacionamento, à noite, um ocasional freguês adentra o estacionamento para guardar o seu carro. Não se tratava de pessoa comum. Era o comediante Ronald de Golias e sua família, que viera a uma das cantinas e aportou com seu Galaxie LTD verde-cana e que foi por mim recepcionado.
O Zezito não quis 'manobrar' o enorme veículo por achá-lo muito grande e temeu um acidente ao posicioná-lo na vaga, transferindo para mim a 'responsabilidade'. Feita a ação, surge na entrada do estacionamento um outro veículo. Desta feita, não era ninguém de nosso conhecimento, mas o carro é que foi um drástico problema para o Zezito.
- “Nelson...”, gritou ele.
- “O que foi, Zezito?”, respondi.
- “Venha cá, ver essa 'peste' de carro que não tem o pedal do 'desembréio'.”
- “...???...”
- “Corre aqui e veja você mesmo...”
Corri em direção do Zezito que vociferava:
- “Como é que o 'cabra' passa as marchas desse ‘infeliz’ se não tem o pedal do 'desembréio', 'oxente'...tá com a 'molesta'...”
E depois de vociferar, blasfemar e se 'retar' com a falta do pedal do 'desembréio' disse-lhe:
- “Zezito, não se 'avéxe' não, více! Esse tipo de carro tem o câmbio automático. Só não lhe falei antes porque é um pouco difícil de um deles aparecer por aqui...”
- “Mas, apareceu, né...”
- “Pois é. Apareceu. Mas, fique tranquilo. Vou lhe mostrar como se dirige um desses.”
Passado o 'retamento' de Zezito, coloquei-o ao meu lado no tal veículo sem o pedal do 'desembréio' (era uma Mercedes 280) e passei a mostrar-lhe como conduzi-lo. Zezito não se convenceu e achou por bem estabelecer um acordo comigo. Quando por lá chegassem carros 'normais', ele mesmo faria as manobras e os estacionaria e, caso fossem aquelas 'monstruosidades' do tipo do carro do Golias ou 'capenga' de pedal, estes seriam de minha total e exclusiva responsabilidade.
Não consegui segurar a risada e questionei:
- “E, se por um acaso, eu não estiver aqui, como você fará?”

- “Daí, eu chamo o seu Tito.”
- “E, se ele não estiver?”
- “Então, eu chamo o Amadinho.”
- “E se o Amadinho não estiver também?”
- “Olhe, Nelson. Você já tá procurando é confusão. Então eu peço para o dono mesmo estacionar e se ele não quiser, que largue o 'cabrunco' dele no meio da rua e se pique...”
- “Mas, não é assim não, Zezito.”
- “Pois, que se não for assim, vai ser.”
- “Você precisa ter mais paciência. A coisa não é tão difícil assim e, com jeito e treino, amanhã você poderá estar dirigindo até jamanta...”
- “É, mas por enquanto, vamos ficar naquilo que a gente se acertou.”
Algumas vezes mais a Mercedes automática foi nossa 'cliente', bem como outros carros, igualmente automáticos ou hidramáticos, para o desespero do Zezito. Não sei o que se sucedeu depois de certo tempo com o Zezito e o estacionamento do seu Tito, pois dali a alguns meses, minha família se mudaria de casa e de bairro, indo morar no distante bairro do Tremembé, visto que o proprietário da casa em que morávamos não quis renovar o contrato de aluguel e já tinha proposta para a sua venda, o que foi feito assim que nos mudamos. Das vezes que passei em frente ao estacionamento, pude ver o Zezito às voltas com os carros a serem estacionados e imaginava como estaria ele se saindo com os carros sem o pedal do 'desembréio'.
De tudo e de todos, ficaram as lembranças e as saudades, mas do estacionamento, ainda consigo visualizá-lo através do 'Google Earth', mesmo que em estática imagem. Quanto ao Braulio, Preto e o Dengoso, estes também nortearam seus caminhos e devem estar em algum lugar por aí e, com certeza, guardam as mesmas saudades.

Por Nelson Assis

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Lembranças de uma avó

foto: Bernadete e seus netos
Minhas filhas, assim como todas as mulheres modernas, trabalham fora exercendo a chamada "dupla jornada" . Por conta disso, estou sempre rodeada dos netos. Eles vem em busca de um dengo, de ajuda nos trabalhos escolares e, principalmente, saborear alguns quitutes, típicos de "casa da vovó". Mas, gostam muito, também, de ouvir as histórias que conto sobre minha infância. Desde o mais velho, com 20 anos, até o pequeno, com 7, divertem-se muito ouvindo os relatos das travessuras, das brincadeiras de rua, todas elas já conhecidas de todos nós. Eles gostam de saber os detalhes e já tive que contar a mesma história várias vezes.
Outro dia, o menorzinho, Leonardo, hoje com 7 anos, olhou-me com tristeza e perguntou:
- Vovó, você não tinha play?
Expliquei a ele, que a rua era o play das crianças e ali nos divertíamos muito, brincando de "estátua", de "jogar sério" "jogar pedrinhas", brincadeiras que ele não conhecia. Inclusive, o teatrinho de rua, onde e
ncenávamos pequenos roteiros ou sinopses, feitos pelos mais criativos. Também fazíamos as roupas dos personagens, com muito papel crepom,cola e purpurina. Tudo muito colorido.
Nossa platéia, era formada pelos vizinhos, que traziam suas cadeiras e, ainda, nos aplaudiam muito. Depois, servíamos lanchinhos de pão de forma e água com groselha, comprada em litro, no Zé da venda.
Meu netinho, ainda não satisfeito, tornou a perguntar:
-E, também não tinha shopping?
Novamente tive que explicar que nosso shopping era ali mesmo, a céu aberto, onde os vendedores vinham até nós para oferecerem seus produtos. Eram os mascates que vendiam roupas, vendedores de livros, os verdureiros, o peixeiro, etc.... Mas o que mais gostávamos mesmo, eram dos vendedores de doce como o "quebra-queixo", "machadinha", "biju" e,
principalmente, do vendedor de "sonhos e "maria-mole", com seu carrinho envidraçado e todo pintado de branco. Que delícia!
Além dos vendedores, tínhamos, também, os compradores. Uns compravam jornais e papelão, outros garrafas, metais.. etc... E nós, (acho) iniciando a reciclagem, juntávamos todo esse material e ficávamos à espera dos compradores. Os cruzeiros e centavos, obtidos com essa transação, eram facilmente trocados por gibis, ou pelas delícias açucaradas descritas à cima.
Acho que hoje é difícil para uma criança, imaginar toda essa liberdade que tínhamos, pois as ruas, agora, são assustadoras.


Por Bernadete Pedroso

Thomaz Mazzoni

Thomaz Mazzoni, destacado jornalista esportivo do Jornal A Gazeta Esportiva, nasceu em Poilgnano a Mare, Itália, no ano de 1900; chegou ao Brasil, ainda criança, junto de seus pais, numa leva de imigrantes que deixaram a Itália.
Em São Paulo, todos foram para o abrigo dos imigrantes, no bairro do Brás e, depois, cada qual para uma cidade do interior onde, a maioria, foi trabalhar na agricultura, porém seus pais resolveram ficar por aqui mesmo.
Em 1920, Tomaz Mazzoni já trabalhava no São Paulo Esportivo, um jornal paulistano bissemanal.
Depois de uma passagem como redator e diretor do jornal “Estampa Esportiva”, em junho de 1928 já estava em “A Gazeta Esportiva” como redator, tendo publicado, naquele mesmo ano, a primeira edição de seu “Almanaque Esportivo”, livro que reunia registros detalhados dos principais acontecimentos esportivos do ano.
A partir de 1930, quando assumiu o comando da redação, começou uma renovação da linguagem do futebol, criando termos que sobrevivem até hoje, como os apelidos que deu aos principais clássicos paulistas, tentando dar maior brilho aos jogos que eram realizados.
Sendo assim, ele achou por bem denominar São Paulo x Palmeiras de Choque Rei. Palmeiras x Corinthians, de Derby. Corinthians x São Paulo, Majestoso e São Paulo x Santos, Clássico São-Sansão.

Já os clubes ele achou por bem apelidar o São Paulo, de Clube da fé, Corinthians de Mosqueteiro, para o Palmeiras colocou como Campeoníssimo, o Juventus que sempre aprontava alguma peça nos grandes, ele colocou como Moleque travesso, e o XV de Novembro de Piracicaba de Nhô Quim.
Foi ele, também, que instituiu a taça dos invictos e, atendendo a uma reivindicação do Palmeiras, quando ainda era Palestra Itália, em 1933, que acumulou 22 partidas invictas, ele entregou a posse transitória. Em Agosto de 1945, o São Paulo conseguiu 23 partidas, ficando com a taça que foi para as mãos do Santos por conseguir somar 24 jogos sem perder, para depois o Corinthians ficar com ela ao chegar as 26 vitórias até 6 de Dezembro de 1957.
Mazzoni passou a criar no jornal um "diálogo com o leitor", algo inédito na imprensa esportiva paulista, e a combater o que chamava de "degeneração completa, desordem e desmoralização" do futebol brasileiro, além dos jornalistas que, para ele, praticavam o "clubismo". Ele também decretou que os jogadores passassem a ser chamados no jornal como eram conhecidos, fosse por nomes, apelidos ou diminutivos. Sua luta por impor uma maior intervenção do Estado no esporte rendeu frutos em 1941, quando foi criado o Conselho Nacional de desportos (CND), que passou a regular todas as atividades esportivas.
Ao todo, publicou vinte livros sobre esportes, e suas obras sobre futebol tiveram des
taque, sendo uma delas coletânea de textos sobre os problemas do futebol brasileiro em que culpava a imprensa pelos confrontos entre paulistas e cariocas. Ele escreveu que a imprensa criava "rivalidades e, às vezes, ódios" desnecessários.
Na redação de A Gazeta esportiva ele, além de bastante respeitado, tinha sempre gente a seu lado, olhando sua forma de trabalhar.
Era um tempo em que pouca gente dominava a máquina de escrever (datilografia) como se dizia, coisa que ele adorava porque sabia que os jovens queriam aprender. Lá mesmo, no Edifício Casper Líbero, ele foi chamado de “Olimpicus”, pois não só o futebol que ele dominava, mas todos os esportes. A Gazeta Esportiva era considerado o maior jornal de esportes do Brasil. Tratava de todos os esportes, indistintamente. Tinha, também, a página de futebol amador, dedicado ao futebol de várzea, sob a responsabilidade de Alfredo Lazzerini, o Tita.
Tomaz Mazzoni, faleceu em 14 de Janeiro de 1970.

Por Mário Lopomo

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O “c. de onde sai a b... do cavalo do bandido”

Recentemente, nossa maior expressão do rock, tipicamente paulistana, nos surpreendeu com essa expressão, referindo-se à Itaquera, onde será construído o estádio do Corinthians e, possivelmente, onde será realizada a abertura da Copa de 2014.

Afinal, onde é Itaquera? Qual a razão de tanta indignação por parte dessa conterrânea?

Pois bem; já escrevi alguns textos sobre a Zona Leste, sempre mostrando seu lado positivo e esse não será diferente.

Itaquera é um local onde abriga uma das maiores estações de Metro da Capital, a única estação de Metro que conjuga um shopping e um dos maiores Postos do Poupatempo de São Paulo, que atende m
ilhares de pessoas por sua facilidade de acesso.

Sua localização, embora muitos pensem o contrário, é uma das melhores, principalmente visando um evento tão grandioso como a Copa; claro, necessitará de melhorias, mas nada tão grandioso. Seu acesso, hoje, já permite as opções: carro, muitos ônibus, Metro e trem. De carro, sua chegada pode se dar pela Marginal, pela Radial Leste, pela Estrada Jacu Pêssego, sem contar as vias entre bairros, que são muitas.

Além disso, o acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos é bom e sua proximidade não se discute.

A Zona Leste é uma das poucas regiões da Capital que tem espaço para crescimento horizontal; essa região de Itaquera, especificamente, tem muitas áreas de terra nas proximidades do Metro, que podem ser analisadas para tal fim, inclusive para melhorar a infraestrutura local.

Considerando a localização de alguns estádios construídos na África do Sul pra abrigar os eventos da última Copa, sinceramente, não deu pra entender tanta indignação da nossa amiga. Afi
nal de contas, nos Jardins não daria para construir um estádio desse tamanho.

São Paulo tem seus mistérios e um deles se revelou agora: a Zona Leste existe, sim. Só não era muito reconhecida como parte dessa grandiosa, elitizada e progressista metrópole. Deve ser agora, e não é o “c. de onde sai a b... do cavalo do bandido”, não. É, sim, “o habitáculo de onde sairá o ronco do motor de um potente carro de corrida”.

Palavra de uma leiga no assunto, mas que mora, conhece e gosta da Zona Leste.

Por Márcia Calixto

Uma cidade fadada à grandeza


Imagens:
-almanaque O Estado de São Paulo – edição de 1940
-Detalhe do mapa de 1897, com o projeto de
canalização do rio Tietê
-Local alagadiço e rosa dos ventos na região do
gasômetro (mapa de 1877)
-Planta da cidade, Rufino José Felizardo e Costa – 1810, Impressa na escala aproximada de 1:20.000

fonte:
www.cartografia.com.br

Parceiros do "Memórias de Sampa", por gentileza, não levem em consideração a ortografia.

"SÃO PAULO DE HA 56 ANNOS."

"IMPERIAL CIDADE DE SÃO PAULO" "CAPITAL DA PROVINCIA" - A cidade de S. Paulo é hoje uma das mais notáveis do Brasil. Grandes são os progressos materiaes e moraes, realisados principalmente nestes ultimos 30 annos.
"Tem grande número de estabelecimentos publicos e particulares, muito importantes:
Egrejas, casas de caridade, theatros, fabricas e officinas de diversas industrias, muitas escolas de instrucção primaria, collegios de ensino secundario, jornais diarios.
"Offerece todos os recursos indispensaveis ás commodidades da vida e do desenvolvimento da actividade individual em qualquer ramo de trabalho ou arte.
"É séde do governo provincial e da dioc
ese, sendo actualmente presidente da provincia o sr. dr. José Luiz de Almeida Couto, e bispo o sr. d. Lino Deodato Rodrigues de Carvalho.
"Tem uma Faculdade de Direito, sob a direcção do sr. conselheiro Andre Augusto de Padua Fleury; um Tribunal de Relação, sob a presidencia do sr. conselheiro desembargador Joaquim Pedro Villaça, além de muitas repartições destinadas ao serviço publico.
"O numero de casas é superior a 6 mil. Calculando-se que em cada uma residam 6 habitantes, a população será de mais de 36 mil; mas tomando-se como elemento para o calculo a immigração estrangeira, que ultimamente tem affluido para a Capital, pôde-se affirmar que nella ha mais de 40 mil almas.
"Está ligada a importantes municipios e localidades do interior da provincia por varias linhas ferreas das Companhias Ingleza, Paulista, Mogyana, Ituana, Sorocabana, Rio Claro, Bragantina e São Paulo e Rio de Janeiro.
"Communica-se com a Capital do Imperio por duas linhas: uma, a Estrada de Ferro do Norte (da Companhia S. Paulo e Rio de Janeiro) que se entronca na de D. Pedro Segundo; outra, a
de navegação entre o porto de Santos e o do Rio.
"Na 1ª, a viagem faz-se diariamente em 14 horas; na outra, periodicamente, ou em dias certos e determinados pelas companhias nacionaes de paquetes.
"Ha, além dessa navegação, viagens extraordinarias e de navios brasileiros e estrangeiros que alli tocam por escala.
"Entre Santos e a Europa, e tambem entre aquella cidade e as Republicas do Prata ha activas relações commerciaes.
"O movimento do porto de Santos augmenta de dia para dia, tornando-se ja muito notavel pela frequencia de embarcações que alli chegam, e saem, das mais importantes nacionalidades do mundo, sendo aquellas em sua generalidade empregadas no commercio."

__________________________________________________________________

"O texto acima foi publicado no "Almanaque do O Estado de São Paulo" do ano de 1940, pag. 25 que, por sua vez, reproduziu-o do Almanaque adm. com. ind. da Prov. S. Paulo, para 1885 - S. Paulo - ed. Jorge Seckler & Cia.. pag. 203"

Por aí podemos concluir que nossa espetacular cidade há muito tempo, 124 anos dessa publicação, acanhada e provinciana, já deixava laivos de crescimento vertiginoso, vindo na direção de um futuro espetacular jamais atingido por qualquer outra cidade das Américas ou até do mundo.

Por Modesto Laruccia

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Feliz dia da independência



Queria tanto postar um texto sobre o dia da independência com algum texto de nossos queridos autores, mas, não recebi nenhum.
Mas, desejo a todos um feriado bem bacana.
Curtam bastante, descansem, viagem, passeiem, escrevam, etc...
Enfim, tenhma um feriado de bem tranquilo e em paz!
Quarta-feira, dia 8, postarei novos textos.
Felicidades a todos.
Muita paz! Beijosssssssssss

sábado, 4 de setembro de 2010

Ferragosto

Os dois quadros são obras pintadas pelo nosso amigo Luiz Simões Saidenberg
Avançamos com dificuldade. O respirar é desagradável. O ar, como fina areia do deserto. Boca, garganta, olhos, tudo seco. Nenhuma nuvem no céu, de cor pálida, amarelada. Só poeira e poluição. Nenhuma brisa, pouquíssima umidade, nada para espantar o pó, densa ferrugem sobre carros e árvores.
Não, não estamos no Marrocos, aspirando o Simun, nem em Roma, com o Sirocco. É São Paulo mesmo, e em pleno inverno: trinta graus! É preciso água, muita água. Ferragosto em Roma já pegamos, mas nunca imaginei na Capital paulista.
Foi nesta época mesmo: eu tinha cometido um erro. Podia ter esperado mais um mês, e a primavera romana fluiria com águas do Tibre e nós junto. Mas, não, tirei férias em Agosto e agora lá estava, com a família: sol escaldante, lojas e restaurantes quase todos fechados e Roma, como diz a música, entregue a cães loucos e ingleses.
Ou, turistas loucos, como nós, de todas as partes, amontoando-se na Scalinata de Trinitá dei Monti, talvez para tentar sorver no ar gotículas da Fonte da Barcaccia, ali embaixo. Íamos, como abelhas, de fonte em fonte, com garrafas plásticas, a partir da própria Fonte das Abelhas, na Piazza Barberini, até a Via delle Quatro Fontane. E haja fonte!

Um movimento do sabiá no ipê em frente e, num solavanco, volta à nossa cidade. É inverno; e está assim. E quando for verão? Nosso ipê amarelo ainda não floriu; como sempre, atrasado... Agora é que está perdendo as folhas, enquanto os outros já estão em favas contadas.
Queimadas devoram florestas e plantações, não importa agora qual o hemisfério. O Homem, em sua ânsia de lucros e consumo foi longe demais e o planeta está ameaçado. Que mais teremos pela frente? Tornados, furacões, vendavais, terremotos? Frios paralisantes, calores do inferno?
É São Paulo, é inverno e é Ferragosto. Não adianta esquentar também ainda mais a cabeça com o Amanhã. Fiquemos com o Hoje e, diz a Bíblia, que baste a cada dia o seu mal.
Chega! Eu quero mais é sombra e água fresca. On the rocks, se possível.

Por Luiz Saidenberg

Émelhor prevenir do que remediar

Corria já metade do ano de 1948 estávamos em pleno mês junho mais precisamente véspera de São João. Um frio gostoso assolava a nossa querida Capital paulistana.
Fazia pouco mais de três anos que a Segunda Guerra Mundial chegara ao fim.
A vida dos paulistanos já havia voltado ao normal, já não se via mais as famigeradas filas para se comprar pão, carne e outros víveres que
durante o período da guerra estavam racionados.
Nossos vizinhos, o casal Carlos Heytzmann e sua esposa Anésia Rodrigues Heytzmann (casal de saudosa memória) pais de meus amigos Carlos Roberto (Beto Mama) e Mario Luiz, eram pessoas muito queridas não só por mim e minha família, como também por todo o pessoal do bairro da Freg


uesia do Ó. Dois anos antes, o casal teve mais um filho, o João Lourenço (Joãozinho), então o Casal passou a comemorar com festa o Dia de São João.
Essas festas contavam sempre com a participação de todos os familiares do Sr. Carlos, como também os de sua esposa, Dona Anésia.
Participavam as irmãs e irmãos de Dona Anésia, o Zicão as professoras Benedita Irene, as Gêmeas Celeste e Estela, Dona Judith, também professora e mãe dos amigos que, lamentavelmente, nunca mais soube deles, o Zélito, o Acácio e o Contisio, (que moravam na Rua Cotoxó, na Pompéia.) Dona Benedita (minha professora de Catecismo) e Dona Porfíria, uma negra muito querida, irmã de criação de Dona Anésia, todas nascidas criadas e morando, na época, na Freguesia e na mesma casa, conhecida como chalé. Localizada no largo da Matriz Velha, no inicio da Lade
ira velha (infelizmente fiquei sabendo que a casa foi demolida).
E assim, minhas irmãs e eu éramos uns dos poucos convidados presentes que não eram membros nem faziam parte dessa família.
Na festa havia de tudo que se usava fazer na época, pipoca, quentão, batata doce, pinhão, bolinhos de fubá, fogueira, balão, mastro, fogos, fogueira e enfeites com bandeirinhas e pequenos balões coloridos (parece até que estou vendo tudo isso bem agora).
Ah!Quase estou deixando esquecido, perdido nessas lembranças, algo que, em verdade, é a razão dessa historia.
Seu Carlos, homem experiente (trabalhava, havia muitos anos, nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, na Praça Júlio Prestes, em frente à Avenida Duque de Caxias, no Bom Retiro.) Ao comprar os fogos para a festa, sabendo que seus filhos e todos seus sobrinhos eram crianças com, no máximo, dez anos, resolveu prevenir acidentes comprando somente os fogos sem bombas, considerados inofensivos.
Havia rodinhas, estrelinhas, biribas ou estalos de salão, aviãozinho, muitos foguetes e busca-pés, todos sem a bomba.
A munição foi distribuída para todos os que estavam presentes, para serem soltas na hora de erguer o mastro e soltar os balões.
Eu peguei minha parte, um monte de biribinha, estrelinhas e uns 20 busca-pés; peguei os meus estalos, enfiei no bolso da minha calça ainda curta, peguei os busca-pés e, para ficar com as mãos livres, os coloquei com suas varetas enfiadas na alça de minha calça.
Não deu outra, no momento que eu fui soltar meu primeiro busca-pé, uma faísca pulou nos demais e, de repente, todos os outros pegaram fogo ao mesmo tempo. Resultado o povo todo da festa partiu para cima de mim, para apagar o fogo; e eu correndo pra todo lado, tentando me livrar dos busca-pés preso na alça de minha calça. No final, fiquei com boa parte de minha calça e camisa novinha queimadas
.
Não fosse a providência daquele vizinho amigo eu, com certeza, ficaria de barriga aberta e com meu intestino exposto.
Se aqueles busca-pés, acesos ao mesmo tempo por acidente, estivessem todos com bombas, hoje eu seria apenas um retrato naqueles santinhos impressos e gentilmente oferecidos em missas de sétimo dia, aos parentes e amigos. E, é claro com o passar do tempo (pois ninguém guarda essas tranqueiras para sempre), Há muito eu estaria perdido em algum lixão, ou então já reciclado de volta ao lixo jogado.

Por arthur miranda (tutu)