Estou emocionado. Os Redondos, pelo menos por um tempo, abandonam as Redondas e partem para novas experiências. Estamos nos preparando para uma Noite de Tangos em um reduto da música portenha, no Bairro do Ipiranga.Essa idéia foi sugerida pelo Nelinho, um amigo das noites de boemia, que cruzou comigo sem saber, por diversas noites, em diversos anos. Nem eu sabia disso, apenas deduzi por conhecer todos os lugares noturnos que ele frequentava e eu também.
Hoje me peguei imaginando o que será a noite do próximo dia 13 de Ag
osto. Imaginei a emoção que, com certeza, sentirei ao ouvir as velhas melodias portenhas. Será maravilhoso.
Imbuído em tais pensamentos, comecei a lembrar, a mente anuviada de emoção levou-me aos anos 50/60, estava novamente em um salão de bailes que muito freqüentei, o Recreio das Carpas, na Cidade Adhemar, lá atrás do velho Aeroporto de Congonhas.
Minha visão reconheceu diversos frequentadores. Olhei para o palco e vi que os mús
icos ali estavam para envolver a todos com suas interpretações.
Firmei mais o olhar e reconheci, lógico, à frente estava o velho Joaquim Barrios, rodeado da sua orquestra típica de músicas portenhas.
Era ele sim, alto, espicaçado com a responsabilidade de liderar aquela plêiade de músicos qualificados, trajando o batido terno preto, portando a mesma carequinha brilhante, coroada com uma aureola de cabelos brancos, segurando o seu precioso sonoro bandoneon.
Ao piano reconheci o velho e competente Copinha. Do violinista, também velho conhe
cido, não recordei o nome. O ritmista era, nada mais, nada menos que o velho Mãozinha que, em vários momentos, durante as seleções de boleros, mambos e chá-chá-chás me deixava acompanhar o ritmo com as maracás ou, até, me emprestando seu “precioso” bongô.
Agucei mais o olhar e percebi que o Joaquim distribui as partituras da próxima seleção musical. Pronto, partituras distribuídas, Joaquim abraça seu bandoneon, aproxima-se do microfone e anuncia: Senhoras e senhores, Recreio das Carpas, tem a imensa satisfação de apresentar a voz brasileira do Tango Argentino, Carlos Lombardi.
É
ele mesmo. Entra em cena com seu Black-tie impecável, e depois de agradecer os aplausos, oferece a primeira musica ao “amigo Miguel” (eu) e começa a cantar Garufa:
Del barrio La Mondiola sos el mas rana
Y te llaman Garufa por lo bacan,
Tens mas pretensiones que bataclana
Que hubiera hecho suceso con um gotan.

Durante la semana, meta al laburo
Y el sábado a la noche sos um doctor.
Te e
ncajas las polainas y El cuello duro,
Y te venis al centro de rompedor.
Garufa
Pucha que sos divertido
Garufa
Vos sos um caso perdido
Tu vieja... dice que sos um bandido
Porque supo que te vieron,
Lá outra noche
“aonde Carlito” (eu perguntava)
Em el Parque Japones
Caes a la milonga en cuanto empieza
Y sos para las minas el bareador
Sos capaz de bailarte La Marsellesa
La marcha Garibaldi y El Trovador
Com um café com leche y uma ensaimada
Rematas esa noche de bacanal
Y a volver a tu casa de madrugada
Decis...”Yo soy um rana fenomenal”..
Garufa
Pucha que sos divertido
Garufa
Vos sos um caso perdido
Tu vieja dice que sos um bandido
Porque supo que te vieron,
La outra noche
Aonde Carlito? (Eu perguntava novamente)
Em El Parque Japones.
Finalizado o primeiro número, depois de estrondosos aplausos, Carlos dava continuidade ao show, entoando vários outros tangos, entre eles Cuartito Azul, Por una Cabeza, Volver, Nostalgias, Mi Buenos Aires querido, Adios Muchachos, Yra Yra, Cafentin de Buenos Aires, Cambalache, e ainda atendia aos pedidos da platéia.
Depois antes de finalizar o show, solicitava que Joaquim tocasse alguns tangos para q
ue os bailarinos pudessem apresentar seus passos. Era a hora em que o Paulinho “polícia”, tomava conta do salão e com toda sua habilidade, dançava um tango de nos fazer babar.Finalmente, ao som de um tango famoso, especialmente escolhido para a ocasião, meu amigo Carlos Lombardi encerrava o show e convidava os presentes a continuar dançando.
Terminado meu sonho, volto à realidade e fico torcendo para que dia 13 eu possa a ter um pouco mais de todas essas emoções.
Prometo que depois escreverei sobre o assunto.
Por Miguel Chammas




















am, eu já não conseguia ficar parado, mal podia prestar atenção no monitor de meu computador, que continuava ligado e me conectava com o mundo, tentando me distrair e me acalmar para aguardar o começo daquela noite, quando, durante uma festa maravilhosa, aconteceria o lançamento de um livro em que eu e mais uma gama enorme de outros paulistanos éramos os únicos autores.

















