quinta-feira, 22 de julho de 2010

Memórias Tangueiras



Estou emocionado. Os Redondos, pelo menos por um tempo, abandonam as Redondas e partem para novas experiências. Estamos nos preparando para uma Noite de Tangos em um reduto da música portenha, no Bairro do Ipiranga.
Essa idéia foi sugerida pelo Nelinho, um amigo das noites de boemia, que cruzou comigo sem saber, por diversas noites, em diversos anos. Nem eu sabia disso, apenas deduzi por conhecer todos os lugares noturnos que ele frequentava e eu também.
Hoje me peguei imaginando o que será a noite do próximo dia 13 de Agosto. Ima

ginei a emoção que, com certeza, sentirei ao ouvir as velhas melodias portenhas. Será maravilhoso.
Imbuído em tais pensamentos, comecei a lembrar, a mente anuviada de emoção levou-me aos anos 50/60, estava novamente em um salão de bailes que muito freqüentei, o Recreio das Carpas, na Cidade Adhemar, lá atrás do velho Aeroporto de Congonhas.
Minha visão reconheceu diversos frequentadores. Olhei para o palco e vi que os mús

icos ali estavam para envolver a todos com suas interpretações.
Firmei mais o olhar e reconheci, lógico, à frente estava o velho Joaquim Barrios, rodeado da sua orquestra típica de músicas portenhas.
Era ele sim, alto, espicaçado com a responsabilidade de liderar aquela plêiade de músicos qualificados, trajando o batido terno preto, portando a mesma carequinha brilhante, coroada com uma aureola de cabelos brancos, segurando o seu precioso sonoro bandoneon.
Ao piano reconheci o velho e competente Copinha. Do violinista, também velho conhe

cido, não recordei o nome. O ritmista era, nada mais, nada menos que o velho Mãozinha que, em vários momentos, durante as seleções de boleros, mambos e chá-chá-chás me deixava acompanhar o ritmo com as maracás ou, até, me emprestando seu “precioso” bongô.
Agucei mais o olhar e percebi que o Joaquim distribui as partituras da próxima seleção musical. Pronto, partituras distribuídas, Joaquim abraça seu bandoneon, aproxima-se do microfone e anuncia: Senhoras e senhores, Recreio das Carpas, tem a imensa satisfação de apresentar a voz brasileira do Tango Argentino, Carlos Lombardi.
É

ele mesmo. Entra em cena com seu Black-tie impecável, e depois de agradecer os aplausos, oferece a primeira musica ao “amigo Miguel” (eu) e começa a cantar Garufa:

Del barrio La Mondiola sos el mas rana
Y te llaman Garufa por lo bacan,
Tens mas pretensiones que bataclana
Que hubiera hecho suceso con um gotan.


Durante la semana, meta al laburo
Y el sábado a la noche sos um doctor.
Te e

ncajas las polainas y El cuello duro,
Y te venis al centro de rompedor.

Garufa
Pucha que sos divertido
Garufa
Vos sos um caso perdido
Tu vieja... dice que sos um bandido
Porque supo que te vieron,
Lá outra noche
“aonde Carlito” (eu perguntava)
Em el Parque Japones

Caes a la milonga en cuanto empieza
Y sos para las minas el bareador
Sos capaz de bailarte La Marsellesa
La marcha Garibaldi y El Trovador

Com um café com leche y uma ensaimada
Rematas esa noche de bacanal
Y a volver a tu casa de madrugada
Decis...”Yo soy um rana fenomenal”..

Garufa
Pucha que sos divertido
Garufa
Vos sos um caso perdido
Tu vieja dice que sos um bandido
Porque supo que te vieron,
La outra noche
Aonde Carlito? (Eu perguntava novamente)
Em El Parque Japones.

Finalizado o primeiro número, depois de estrondosos aplausos, Carlos dava continuidade ao show, entoando vários outros tangos, entre eles Cuartito Azul, Por una Cabeza, Volver, Nostalgias, Mi Buenos Aires querido, Adios Muchachos, Yra Yra, Cafentin de Buenos Aires, Cambalache, e ainda atendia aos pedidos da platéia.
Depois antes de finalizar o show, solicitava que Joaquim tocasse alguns tangos para q
ue os bailarinos pudessem apresentar seus passos. Era a hora em que o Paulinho “polícia”, tomava conta do salão e com toda sua habilidade, dançava um tango de nos fazer babar.
Finalmente, ao som de um tango famoso, especialmente escolhido para a ocasião, meu amigo Carlos Lombardi encerrava o show e convidava os presentes a continuar dançando.
Terminado meu sonho, volto à realidade e fico torcendo para que dia 13 eu possa a ter um pouco mais de todas essas emoções.
Prometo que depois escreverei sobre o assunto.

Por Miguel Chammas

Uma sala de doce tortura

No dia 11 de janeiro de 2010, depois de vários anos de sofrimentos, tive que fazer uma cirurgia no joelho, onde foi implantada uma prótese pra amenizar a ausência de cartilagem. Foi feita pelo Dr. Marcelo Keije Kubota, no Hospital Alvorada. Depois de uma semana de hospital, fui pra casa e dar início as seções de fisioterapia.
Quem já fez fisioterapia sabe como funcionam estas
clínicas. Nessa que frequento, (até agora três pacotes de dez seções), a área, um pouco acanhada, tem 4 sofás, 10 ou 12 cubículos para atendimentos eletrônicos (lazer, choques etc.), esteiras, bicicletas ergométricas e mais alguns instrumentos.
O setor de atendimento conta com treze funcionários, assim distribuídos: onze fisioterapeutas, (Karina, Daniela, Marcos, Dani, Luiz, Evely, Erich, Leandro, Aline, Jonata e Marina), um massagista (Flávio) e

uma assistente (Fátima).
Por não contar com muito espaço, o atendimento quase chega a ser comprometido, sendo compensado pela simpatia, educação e respeito de seus membros, Não vamos entrar em detalhes que não é essa finalidade desse texto, apenas focar aspectos, que fogem de uma análise crítica.
Com uma visão panorâmica do salão principal, se estivermos com nosso vídeo aberto e o áudio desligado, temos a sensação cômica, de que todos, pacientes e funcionários, brincam com bolas, cordas, bicicletas, num filme mudo, uns rindo, outros fazendo a boca torcida num esgar condoído, pacientes gordos, magros, idosos, moços, com muletas, cadeira de rodas, quase todos, tristes, alguns piadistas, trazem, de casa, fatos e ocorrências que provocam risos ou exclamações. Um balé surrealista onde cada membro executa sua função, tentando seguir uma melodia atonal que só ele ouve. E os que não “dançam” sozinhos, tem seus companheiros na “contradança” respeitosa, que, as vezes, lhe causa dor e cansaço mas com pleno consenti
mento do paciente. Tudo dentro do maior silêncio possível. Geralmente, esses “ataques” se fazem no divã.
Em contrapartida, com esse mesmo panorama, tendo o vídeo fechado e o áudio aberto, temos a impressão de que é uma gravação de uma sala de torturas medievais, onde alguns penitentes se submetem passivamente aos mais esquisitos entorses, tentando o torturador colocar uma perna, um pé, um braço ou uma mão, numa posição que ele tinha anteriormente mas que, devido ao tombo, cirurgia, ou mau jeito, não consegue mais e a “tortura” se faz necessário. Isso não se vê. É um tal de “ai, ui, chega, nossa;” diante da pergunta do “torturador”: está doendo? O paciente, numa atitude masoquista, responde “está mas, pode continuar”. Tem os que ficam na periferia, assistindo e, às vezes, aproveitam pra falar de futebol, sugerem que falem bem do Palmeiras, pois, Marcos, principal torturador é palmeirense. Todas as garotas são muito simpáticas, tratam a clientela muito bem, com dedicação, respeito e principalmente, com conhecimento do que fazem.

Por Modesto Laruccia

quarta-feira, 21 de julho de 2010

esconde esconde

Lendo os textos dos amigos, daqui do blog, vou lembrando, também, fatos de minha vida, da infância e juventude, que o tempo não nos faz esquecer.
Lendo as peraltices da amiga Bernadete, recordei de muita coisa.
Morávamos na Rua Umuarama, na Vila Prudente, quase chegando na Rua Oratório. Esta, inclusive, importante rua, por sua extensão e por seu
comércio, ia desde a Rua da Mooca e esquina com a Avenida Paes de Barros, na Mooca, até a Rua do Orfanato, na Vila Prudente. Por esta Rua do Oratório trafe
gava a linha de ônibus 27, que ia até a Praça Fernando Costa, no Centro.
Nossa casa ficava na Rua Umuarama, que começava praticamente no Largo da Vila Prudente, mais precisamente na Rua Dante Alighieri e ia até à Rua do Oratório.
Em frente à nossa casa, tinha uma rua, formando um “T” entre elas. Era a Rua Angelina Techio Cidro, onde morava minha avó e outros parentes também.
Numerosas famílias, consequentemente, muitas crianças...E, as brincadeiras de rua eram as mais legais. Pique esconde; pega pega; passa anel; mão na mula; amarelinha; gincanas; desfiles; concursos; entre outras.
Certa vez, lá pelos idos de 1964, brincávamos na rua da casa de minha avó, de pique esconde. Havia um terreno vazio, bem em frente da casa e
tinha um matagal, que as crianças costumavam se esconder durante a brincadeira. Um ficava contando até 10 e os outros saiam em
disparada para se esconderem. Também fui e escolhi o terreno com o mato alto, me embrenhei e fiquei completamente abaixada, meio deitada até... De repente, um rato enorme saiu de uma moita e deu de cara comigo. Levei um susto grande, mas, prendi o grito para não ser localizada e perder a brincadeira. Ao mesmo tempo, fiquei olhando para o rato e ele para mim. Fiz um movimento de encolher o corpo e respirei mais forte, o suficiente para assustar o rato que, com um pulo rápido, passou sobre mim e se escondeu em outra moita. Fiquei alí, escondida, chorando de medo e de nojo, mas, não arredei pé. Acabei sendo a última a ser localizada, tendo que sair do esconderijo e correr para o pique, sã e salva.
Depois, contando para a turma o ocorrido, todos deram muita risada e me elogiaram pela minha coragem.
Brincadeiras de crianças...Doces recordações...

Por Sonia Astrauskas

Bairro do Braz

A origem do nome Braz, hoje Brás. Até fins do século XIX, nas cercanias do gasômetro, atravessada pelo Tamanduateí, situava-se a chácara do ferrão, que os moradores conheciam também por Chácara da Figueira. Pertenceu antes à Marquesa de Santos, que tinha uma enorme figueira secular, considerada a mais velha e mais bonita de São Paulo. Seus galhos enormes caíam sobre os muros de pedra e debruçavam-se na rua que lhe tomou o nome. Em 1905, foi derrubada e só ficou aquele enorme sobrado de quatro águas, isolado com duas linhas de janelas em arco.

Essa chácara da Marquesa de Santos ou do Ferrão serviu para demarcar os limites do Brás, mas existem histórias diversas. Nuto Santana, por exemplo, nega veemente tais versões. A verdadeira origem do nome Braz, segundo ele, está no nome de um português chamado José Braz, que teria residido, em m
eados dos século XVIII, entre o Gasômetro e o Largo da Concórdia, conforme consta nos anais da Câmara José Braz. Foi quem construiu, em 1803, a Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, hoje, Matriz Bom Jesus do Brás.

Os limites populares do Brás vão além, do velho Mercadão até a Bresser, Rua do Gasômetro até a Radial Leste. Em 1865, foi construída uma porteira
para impedir qualquer desastre de trem, a célebre porteira do Braz, que funcionou até o dia 23 de maio de 1967. Em 25 de janeiro de 1968, surgiu o viaduto Nalberto Marino, eliminando, assim, o trânsito que ficava emperrado na Rangel Pestana e Celso Garcia. Surgiu aí o metrô, para dar o golpe mortal, que deu emprego para milhares de nordestinos e eles assumiram os cortiços que um dia foram dos italianos e espanhóis. Golpe mortal em muitas famílias estrangeiras, mais de mil desapropriações.

O Largo da Concórdia, do Teatro Colombo, virou praça de fotógrafos lambe-lambe, daqueles que emprestavam paletó e gravata para tirar fotos 3x4 da carteira de trabalho. Sumiram as lojas tradicionais, como Móveis Paschoal Bianco, Pirani, Gigante do Braz, Eletroradiobras, Século XX, surgindo clínica que fazia dentaduras em seis horas, os hotéis perto da Estação do Braz, ou norte ou Roosevelt.

O metrô fez, a 16 de setembro de 1975, a última (e grande na época) desapropriação, rasgando o coração do Brás. Retornando no tempo, na década de 1920, o Brás procurava fugir do abandono, relegado como bairro próximo ao centro. Os fiéis de San Vito Mártir faziam as procissões para erguer a igreja na Álvares de Azevedo. A porta do bairro era Rua do Gazômetro, hoje só de madeireiras. Naquela época, formavam atoleiro, pois as águas desciam ladeira abaixo no aterro da várzea do Carmo. O bonde saía da Praça do Correio, antigo Largo do Tesouro, e ia até a Penha. A viagem era tão demorada por causa dos problemas nos trilhos que os passageiros costumavam levar lanches para comer durante a viagem.


O Braz tinha movimentos artísticos, como Tito Schipa e Gino Becchi, cinemas como Brás Politeama, antes circo, o Cine Ideal, Babilônia, Oberdan, Glória, o Teatro Colombo, o cinema nos fundos da Confeitaria Guarani, com Dona Victória, o cantor Nino Nello, Chico Alves, João Dias, Vicente Celestino. Carlos Galhardo cantou e gravou “Rapaziada do Braz”, de Alberto Marino, ilustre no bairro. O cantor Vadico.

Pizzarias do Don Carmello, adega do Braz, 1060, Balilla, Avenida Chic, do Luiz. Pizzarias, cantinas, adegas e restaurantes mesclavam a gastronomia. As adegas, quando era permitido, importavam os Chiantis da Itália e engarrafavam no país, como o Barbera, Grignolino, Ruffino, Bertolli, que vinham em barricas.

Deixo aqui este relato, pois outros constam em nossas páginas do São Paulo Minha Cidade. Aos queridos brazenses, um baccio e auguri rapaziada do Braz.

Por Domingos Ricardo Chiappetta

terça-feira, 20 de julho de 2010

Com as bençãos de José Bento






Semana Monteiro Lobato.
Leio que estará, na biblioteca infantil que lhe leva o nome, uma exposição dos desenhos que enriqueceram suas obras infantis. Imperdível, pois além de fã de Lobato, essas ilustrações marcaram minha infância. Então, mais que uma exposição, é uma viagem. Não Viagem ao Céu, mas quase. Viagem para os anos 50, ou antes, até.
No domingo tranquilo, nos dirigimos à Praça Rotary, antiga Leopoldo Fróes, na Vila Buarque. É uma velha conhecida. Nos tempos em que morava na Barra Funda, muita vez caminhei até a pracinha, naquele tempo sem grades e tendo ao centro o Teatro Leopoldo Fróes, do qual não sobrou nenhum vestígio.
Muito mais tarde, trabalhei vários anos na General Jardim, que sobe bruscamente p
ara a Dona Veri

diana. Nessa época, porém, assoberbado de trabalhos urgentes, lembro de ter ido uma única vez à Biblioteca.
Estaciono à porta e entra-se sob curvilínea marquise, à Niemeyer. O prédio amplo, claro e muito limpo, com seu jeitão antigo. Velhos conhecidos nos recebem, dos cantos e do andar superior: Emília, o Visconde, Dona Benta, a Cuca, bonecões de papel machê. E ali estão as vitrinas com reproduções dos desenhos, alguns brilhantes, como os de Belmonte, J.U. Campos, André Le Blanc, e Manoel Victor Filho.
Elas me transportam a meu primeiro ano primário. Como já entrei na e
scola sabendo ler, a boa e ingênua mestra pensava que eu decorava as lições. Bastaria dar-me um texto diverso de Ivo viu a uva, para tirar a dúvida. Enquanto isso, eu me ocupava da Chave do Tamanho, um Lobato ainda infantil, mas, bastante sombrio para minha idade.
Já havia devorado os deliciosos O Sítio do Picapau Amarelo, Reinações de Narizinho, Viagem ao Céu... Lobato foi meu primeiro ídolo literário. E aqui estão as velhas capas, as ilustrações em preto e branco inconfundíveis. Mais ao fundo, o que devem ter sido móveis do gabinete do escritor; pesadas e escuras mesas e cadeiras, preciosamente entalhadas com floreios e mascarões.
Um clima sóbrio e severo, observado da parede por um grande retrato do autor, com su
as fabulosas sobrancelhas. Numa estante, suas roupas, também escuras e pesadas, pertencentes a uma São Paulo talvez muito mais fria e úmida.
Sobretudo, terno de grossa casimira, gravata, chapéu, tudo muito diferente dos estereotipados trajes cariocas de malandro, terno de linho branco, chapéu Panamá, sapato de duas cores, enfim, da imagem do brasileiro divulgada pelo mundo.
Mais bustos e a máscara mortuária de Lobato. Um clima pesado, em se tratando de escritor tão criativo, e apesar de seu pessimismo, com grandes mostras de humor. Mas saí dali bem leve. Havia resgatado um bom período de minha infância.
E com muita vontade de reler os livros. Voltemos á essa bela experiência, buscando nas seções infanto juvenis das boas livrarias. Para quem o leu, Lobato será sempre imortal.

Por Luiz Simões Saidenberg

Luar de Vila Sonia

A cidade de São Paulo, na metade do século XX, era de muitas vilas, na zona Norte, tinha Vila Maria, Vila Nivi. Na zona Sul, Vila Olímpia, Vila Nova Conceição, Na Leste, Vila Santa Izabel, Guilhermina, na zona Oeste, a Vila Sônia.
Morávamos no Itaim e tínhamos nossos vizinhos que se mudaram para a Vila Sonia quando, ao mesmo tempo, mudamos para a Vila Olímpia. A primeira vez em que fomos visitá-los, naquele longínquo ano de 1951, precisamos pegar duas conduções pois o trajeto era bem longo.
Quando estava no ônibus que ia para a Vila Sônia, eu como qualquer criança, ia sentado ao lado da janelinha, olhando a paisagem. Vi, a uns quinhentos metros da Avenida Francisco Morato, a esquerda, perto do enorme galpão da fábrica de roupas Regência, que tinha um enorme terreno com uma bela casa e uma placa feita com tronco de arvore, onde estava escrito: Rancho do Nho Totico.
Foi uma emoção, pois eu, como todas as outras crianças de minha época, adorávamos a escolinha da dona Linda, a professora que ele encarnava no programa, apresentado pela radio Cultura.
O ônibus ia em frente e, de repente, sai da “Chico Morato” e vira à esquerda, na Rua Manoel Jacinto, fazendo uma curva bem fechada, de onde deu para vermos uma placa que estava escrito o nome do sanatório Morumbi; Eu ia rever minha amiguinha Ana Maria e, quando cheguei, disse a ela que havia passado em frente a casa de loucos, mas sua mãe, a dona Irene, corrigiu dizendo que era uma casa de repouso.
Ainda no ônibus, pudemos ver, também, assim que entrou na curva fechada, um enorme terreno, cheio de árvores por toda volta e uma casa grande que mal dava para ver porque ficava a uns quatro metros acima do nível da rua e era denominada de a chácara dos padres, que dava para os fundos da casa.
Fomos recepcionados pelo seu Osvaldo o nosso ex vizinho do Itaim, que nos mostrava a casa por dentro e por fora. No outro lado da rua, em frente a casa, do terraço ele nos mostrava aquela imensidão de matas, morros e terrenos que já tinham sido loteados, a espera que seus
proprietários construíssem suas casas. Era o bairro do Morumbi, ainda totalmente desabitado.
Seu Osvaldo disse que as pessoas compravam para investimento, pois ninguém era louco de ali morar. Falava ele que, ouviu dizer, tudo aquilo que estava à nossa frente era de propriedade de Adhemar de Barros e que, antes, era uma fazenda de propriedade de alemães, mas que o governo tinha tirado deles, na época da guerra.
Disse, também, que ouviu dizer que, naquela região, seria construído um estádio de futebol, de seria propriedade do São Paulo F.C, que tinha seu campo no bairro do Canindé, naquela época. Ficou sabendo, por boca de terceiros, que o Ademar tinha doado o terreno para o clube, mas isso tudo era conversa do povo, quem sabe de torcedores adversários. Na verdade, em 1953 a pedra fundamental do estádio fora ali lançada.
Vila Sônia, fazia divisa com Vila Morse e aquele bairro me encantava, devido à imensidão de terrenos baldios, muito apropriados para empinar quadrados e catar balão. E, por falar em balão, naquele domingo quando lá estivemos, era em época de festas juninas e o céu azul estava forrado de balões. Ao cair da noite, o céu estava limpo, as nuvens tinham sumido e as estrelas brilhavam no céu e era difícil saber quais eram as estrelas, pois muitos balões com suas tochas acesas nos confundiam. Foi preciso dona Irene dizer que a cor avermelhada era a tocha do balão.
Voltamos para casa já tarde da noite e eu estava com a Vila Sônia na cabeça; Por muitos anos aquele do
mingo de festa junina permaneceu em meu pensamento.
Anos mais tarde, já na década de 60, um morador da Vila Sônia foi preso por ter cometido uma infração e, quando estava no presídio, sentiu a falta que lhe fazia a sua Vila Sônia. Era, Paulo Miranda, que sentia falta principalmente do luar da Vila Sônia; No papel, colocou sua nostalgia que acabou em letra de música e ficou assim...

Luar de vila Sonia


Luar, mais nada me seduz
Senão, chorar pensando em ti
Luar, sonho banhado em luz
Agora eu sei o que perdi

É noite e tudo se desfaz
Na fria solidão da lei
Noite sem Deus, noite sem paz
E tudo foi humano, errei.

Mas inda tenho coração
E tudo pode acontecer
O despertar da redenção
De um terno amor, o alvorecer

Amor, o alivio para a insônia
Perdão, a graça para o fim
Quero-te luar de vila Sonia
Para morrer cantando assim...

(Declamado por Moraes Sarmento)
“Nove horas, apagam-se as luzes do presídio
Mais uma esperança perdida na insipidez de um dia
Estiolado que se foi para o além, como tantos outros se foram, desde que me destinaram esta vida amargurada de encarcerado
Mais um período de lágrimas para a minha grande desventura
A noite tenebrosa dos fantasmas, a escuridão da lei privando-me do luar perfumado e encantador de vila Sonia, adormecida
A corneta da sentinela, lá no portão longínquo do presídio,
inicia o toque do silêncio, enquanto sob o cáustico do pranto abrasador, prossigo meu destino marcado, cantando e chorando a minha saudade imensa".
Luar, mais nada me sedus.
Agora eu sei o que perdi.

Por Mário Lopomo

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Saudades do Velho Trem Santos - Jundiaí


Lembro-me do Pico do Jaraguá, ainda sem as torres de TV
Das estradinhas de terra que hoje não mais se vê.
Da velha Taipas, de Pirituba, havia também Perus.
E Francisco Morato, depois vinha a famosa Caieiras,
Isso tudo antes de Jundiaí.

São Paulo parecia meio isolada, pois tudo isso era separado
Por grandes florestas fechadas,
Onde poucas casas se via,
Linha de ônibus não havia.
E pra conhecer tudo isso, só mesmo pegando um trem.

A velha Maria Fumaça

Fazia grande arruaça
Com seu apito estridente
Caminhava lentamente
Num passo bem diferente,
Que hoje em dia daria pena.
Tava mais para um Rubinho
Do que para um Airton Senna.

E como era gostoso
Andar pelos corredores
De vagão em vagão.
Com o trem em movimento
Que parecia dizer baixinho,
Até com muito carinho.
Café com Pão, bolacha não.
Café com pão, bolacha não.

Não havia tanto acidente.
O povo era mais prudente,
E a gente via os parentes
Visitando sempre a gente.
Hoje em dia nem mesmo
quando estamos doentes
eles visitam a gente.

O trem se foi de repente.
A Maria Fumaça fugiu.
O Asfalto tomou conta .
O chão de terra sumiu.
E só ficou a saudade,
Daquele sonzinho gostoso
Que eu nunca mais esqueci!

CAFÉ COM PÃO, BOLACHA NÃO.
CAFÉ COM PÃO. BOLACHA NÃO.


Por Arthur Miranda (tutu)

Memórias amigáveis








Amigos demoram a aparecer, mas, quando surgem e são sinceros, jamais somem.
Esta afirmação tem lógica. Eu já provei sua eficácia por diversas vezes, basta ver a quantidade de amigos que tenho.
Hoje, em especial, quero relembrar o começo de relacionamento com duas grandes amigas. A minha versão das “irmãs Cajazeiras”.
Foi em abril de 2008, dia 2 para ser mais exato. Eu ainda prestava serviços a uma empresa religiosa na Avenida Cruzeiro do Sul, bairro de Santana.
Na parte da manhã, estava na empresa, trabalhando. Não me sentia tranquilo, parecia que um batalhão de formigas havia invadido todos os espaços de meu corpo, elas formigavam e me incomodavam, eu já não conseguia ficar parado, mal podia prestar atenção no monitor de meu computador, que continuava ligado e me conectava com o mundo, tentando me distrair e me acalmar para aguardar o começo daquela noite, quando, durante uma festa maravilhosa, aconteceria o lançamento de um livro em que eu e mais uma gama enorme de outros paulistanos éramos os únicos autores.
Finalmente o livro de estórias paulistanas do site “São Paulo Minha Cidade”, tão aguardado, seria lançado.
Eu me sentia honrado e estava bastante apreensivo. Não sabia como iria conseguir vencer as poucas horas que me separavam da solenidade.
Sé de pensar em ser recepcionado na Sala São Paulo, naquele espaço quase santificado e ser homenageado, me fazia tremer de emoção.
Absorto em mil pensamentos estava eu quando, sem mais nem menos, na tela do mo
nitor de meu PC aparece uma mensagem informando que eu acabava de receber um e-mail.
Abri o dito cujo e me deparei com uma mensagem de uma autora do site. Eu só a conhecia pelo nome, por alguns textos dela e diversos comentários que ela havia feito em meus textos. Ela era a Margarida Peramezza e me questionava sobre a festa. Como toda mulher, dando vazão à sua curiosidade, ela queria saber se eu iria à festa, a que horas eu iria, como ela poderia me reconhecer, se eu sabia quem mais iria e tal e cousa e lousa e maripousa...
Usando de minha verve humorística, comecei a responder as perguntas e ela, do outro lado, cada vez mais se agradava e ria.
Passamos assim um bom tempo até que eu, consultando o relógio, conclui que era chegado o momento de bater em retirada para me engalanar, pegar minha filha Renata que seria minha companheira naquela noite e, enfim, ir à busca da grande solenidade.
Despedi-me da Margarida, prometendo fazer contacto com ela tão logo chegasse ao local e fui cuidar de minhas obrigações.
Em casa, depois de um banho reconfortante e devidamente perfumado e engalanado, divinamente acompanhado fui à busca da fama.
Enfi
m, chegamos, eu e a Renata, em frente à Sala São Paulo.
Nossa! As portas ainda estavam cerradas.
Comentei: Acho que chegamos um pouco cedo demais.
Alguns minutos depois, outros apressadinhos, como eu, foram chegando para me deixar um tanto mais confortado. De repente, vejo encostar um carro no meio-fio e dele saírem algumas pessoas.
Fixei o olhar e disse para minha filha: -Acho que uma dessas pessoas que estão chegando é a Margarida que teclou comigo quase que a tarde inteira.
Na mosca, uma delas foi se aproximando de mim e perguntou: - Você é o Miguel? Claro que sou eu D. Margarida.
Pronto, contato feito e amizade sacramentada. Fui apresentado às irmãs, entre elas a Bernadete Pedroso, paulistana por nascimento e carioca por residência.
Entre abraços e piadas, começou ali amizade com as irmãs que eu, carinhosamente, apelidei de minhas irmãs Cajazeiras.
Essa amizade nascida por causa do site e do livro, perdura e sedimenta-se cada vez mais. Graças a Deus
!

Por Miguel Chammas

domingo, 18 de julho de 2010

Viajando pelas lembranças da infância

Ainda menino - meados da década de 50 - nos mudamos para o Jabaquara, numa casa na rua Eng.George Corbisier. Após uns dois meses, passamos para outra casa, sobre uma loja que minha mãe estava abrindo e que ficava bem em frente ao Cine Maringá. Minha memória diz que era a Avenida Conceição, mas procurando nos mapas do Google, não consegui encontrar essa avenida. Então, minha referência é o cinema, que ficava no triângulo formado pela primeira rua e pela segunda, onde moramos durante dois anos.
Foi nesse período que comecei minha vida escolar, numa escola que ficava na Vila Guarani e cujo nome não recordo. Lembro apenas da professora, já com mais de quarenta anos e que se chamava Geni. Ela tinha uma filha que estudava na mesma escola e parecia não gostar de crianças. Não me lembro de vê-la dando um sorriso ou fazendo um elogio. E eu era um excelente aluno, conseguindo sempre as melhores notas! Apenas no comportamento minhas notas eram mais baixas, por eu ser questionador e curioso, o que fazia com que ela sempre me desse alguma bronca.
Perto da escola havia uma igreja católica e foi lá que fiz o curso de catecismo, preparando-me para a primeira comunhão. Não curtia muito as aulas de catecismo - questionava os dogmas e a obrigação de acreditar neles - e costumava cabulá-las e ir, com meus colegas, roubar frutas num quintal que tinha um pomar dos mais completos. Quando minha mãe descobriu minhas faltas, t
irou-me do catecismo e acabei não recebendo o sacramento da comunhão naquele ano. No ano seguinte, minha mãe me transferiu para o GEE Almirante Barroso, perto da Igreja de São Judas Tadeu, um pouco mais distante de casa do que a escola anterior. Minha professora era a Dona Gabriela, uma simpatíca septuagenária, com os cabelos azulados e que eu adorava, como se fosse minha vovó. Lembro que era uma boa caminhada a pé, que faziamos eu e meu irmão, todas as manhãs, na ida e na volta. Mas íamos com outros colegas e sempre brincando, sem nenhum dos perigos que rondam hoje a criançada.
As maiores traquinagens que faziamos nesse período era pegar carona nos bondes abertos que circulavam pela avenida em frente à escola e pulando mais adiante, quando eles fazia
m uma curva não sei para onde. A outra era passar pelo aeroporto, que ficava relativamente perto e cercado de um mato baixo. Faziamos isso quando alguma aula terminava mais cedo. Meus pais apenas descobriram as caronas nos bondes, pois um dia, ao pular, caí e esfolei feio os joelhos e os cotovelos. E o meu irmão deu com a língua nos dentes.
Na Igreja de São Judas Tadeu fiz, pela segunda vez, o curso de catecismo e, no dia anterior à festa da primeira comunhão, ao me confessar pela primeira vez, não menti ao padre e disse que não ia à missa todos os domingos. Por isso ele disse que eu não poderia participar e fui chorando de decepção para casa. À tarde meu pai foi até a igreja conversar com o padre e, no dia seguinte, lá estava eu, com terninho branco, uma fita no braço e uma vela branca nas mãos, fazendo a minha primeira comunhão, feliz da vida. Hoje eu questiono se meu pai realmente conversou com o padre, conseguindo seu consentimento. Ele era ateu e pode perfeitamente ter mentido para me agradar... mas isso eu nunca descobrirei.
Esse dia costumava ser um dia de festa na própria igreja, com doces e refrigerante para a criançada. Mas eu não pude participar, pois minha mãe estava de cama, com a gripe asiática e meu pai – ateu – não quis me acompanhar. Fui e voltei sozinho.
Em frente de casa havia uma mata fechada, se não me engano, um eucalipal, onde diziam os adultos que havia monstros que devoravam crianças. Então, embora sempre curioso para ver o que havia lá dentro, jamais atravess
ei a rua e não sei o tamanho do tal matagal. Lembro que parecia enorme.
No mesmo quarteirão, todo de casas de dois pavimentos, com casa em cima e comércio embaixo, havia a loja de minha mãe, que vendia fogões a gás (ainda eram novidade na década de 50), uma farmácia na esquina, outras lojas que não lembro o que vendiam e um armazém. O armazém do “Seu” Luiz, pai do Luiz César e da Lígia. Minha mãe fazia as compras de casa lá e as crianças eram nossas amigas. Fizemos muita peraltagem na calçada! Só que tudo isso hoje soa tão esquisito, pois as nossas crianças não costumam mais brincar nas calçadas – e nem podem, devido a violência que as ameaça sempre!
Havia também uma casa, coladinha ao Cine Maringá - onde assistí, entre outros, ao filme Marcelino, Pão e Vinh. Todos os domingos, havia um programa radiofônico de calouros mirins. Não lembro se era uma rádio, um clube, ou outra coisa. Só sei que gostava de ir lá aos domingos pela manhã, para concorrer com as outras crianças, ao prêmio oferecido aos melhores cantores do dia. E acho que cantava bem, pois ganhei vários prêmios! Coisas simples, como jogos de lápis de cor, cadernos ou livros infantís.
Essas são as principais lembranças desse período em que moramos naquele lugar, hoje totalmente irreconhecível para mim, descaracterizado pelas largas avenidas, trânsito intenso e monstruosas estações do metrô. Mas para mim são boas e agradáveis lembranças de um tempo em que a vida era mais amena, a violência não nos oprimia e podíamos ter uma infância feliz, com brincadeiras ao ar livre, com outras crianças e, além de tudo, inocentemente infantís.

Por Zeca Paes Guedes

Sampa e as novelas


Chega de paisagens cariocas, agora a “Toda Poderosa” está percebendo que as paisagens paulistanas também são bonitas e as últimas novelas já mudaram o cenário.
Adoro ver o centro velho, o lindo Teatro Municipal, o Vale do An
hangabaú e adjacências. Sempre que vou a São Paulo, gosto de visitar o centro. Da última vez, fomos comer um sanduíche no Ponto Chic e passamos pela Galeria do Rock para o meu marido conhecer.
É uma pena que o centro esteja tão abandonado e sujo. Passei
pela Galeria Olido para ver como ficou depois de reformada, mas, confesso que fiquei com medo de andar por lá.
Voltando às novelas, São Paulo também tem lindos lugares, vejam como
sempre estão usando a nova Ponte Estaiada, a iluminação noturna da Av. Paulista (não temos a Torre Eiffel, mas temos outras tantas de telefone e TV...), os rios Tietê e Pinheiros, o Parque Maravilhoso do Ibirapuera entre outros tantos lugares bonitos.
Quando a novela é passada em São Paulo eu vejo, do contrário, já basta!

Por Berenice Rabello

sábado, 17 de julho de 2010

futebol de várzea em Itaquera


Futebol de Várzea em São Paulo – Itaquera vídeo 1
http://www.youtube.com/watch?v=fw8W9_oG8kI


Futebol de Várzea em São Paulo – Itaquera vídeo 2
http://www.youtube.com/watch?v=qcBNvabKthA&feature=related

Vídeo produzido por Adriano Seu correspondente do jornal Italiano La Gazzetta dello Sport e exibido no Gazzetta IT para todo o mundo.

Filmado nos campos da várzea de Itaquera como Falcão do Morro itaquerense.

Narração Marcos Falcon

Por Marcos Falcon

Babel


Escrevi, há pouco tempo, sobre um enorme edifício próximo, em construção há mais de ano. Mais um espigão no Brooklin! No artigo, citei-o por ter ouvido o clangor de um sino, que se revelaria depois como panelão da obra.
Mas, o luxuoso prédio não se limita a isto. Moro aqui há 22 anos e outros edifícios foram construídos por perto, sem fazer o barulho que este emite, constantemente. Além do rugir das máquinas, dos bate estacas, das misturadoras de concreto, das caçambas, das brocas elétricas nos perfurando os tímpanos, temos os berros.
Antes das sete da manhã e até depois das dez da noite, gritam o tempo todo. Ordens, contra ordens, uivos, palavrões, gritinhos, cantos bárbaros. Parece mesmo Babel, a das mil línguas, mas no fim todos se entendem e o monstro continua a subir.
Por muito menos
, reza a Bíblia, Deus quebrantou o orgulho dos babilônios e fez tudo ruir. Porquê nunca ouvimos tal balbúrdia nas outras construções realizadas ?
Creio que só pode ter uma explicação: eles devem ganhar bem e cantam e gritam de alegria. Alegria de uns, tristeza de outros.
Lembro-me de quando trabalhei na agência de publicidade MPM, na Rua General Jardim. Trabalhávamos em estado de graça, as muitas e prementes campanhas eram resolvidas com facilidade, raras vezes cheguei a ficar fora de hora ou trabalhar em fim de semana.
Na hora do almoço, a festa continuava. Íamos ao Gigetto, ao Jardim de Napoli, ao Piazza Colonna. Isto quando não subíamos a rua para uma modesta lanchonete, com simpáticas cadeiras na calçada, que eram montadas à medida em que os clientes aumentavam. A dona, uma senhora libanesa, mal humorada, tratava aos berros seu simpático e prestativo marido, que servia as mesas.
Então, beirutes, esfihas, lanches simples, mas antecedidos por uma boa cachaça de Morretes, que meu amigo Sylvio, a Velha Serpente, não dispensava. Depois, voltando à agência, ele se metia sob sua mesa, sobre uma prancha. D
izia ser ali seu "catre" e chegava a roncar.
Certa vez, o Sr. Petrônio, dono da agência, surge à porta com uma comitiva de visitantes e nada restou ao Sylvio, senão encolher-se ainda mais no "catre". Outro colega organizava um torneio de aviõezinhos de papel, onde ganhava quem conseguia fazê-los voar mais longe, por sobre a Major Sertório, indo além do La Licorne.
Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Esta fase tão feliz se foi, para nunca mais, nos muitos outros anos que trabalhei no ramo
, achar algo correspondente. Como espero que, finalmente um dia, o prédio da esquina termine, com seus barulhos e berros guturais e a paz volte a se instaurar.
Pelo menos até as cinco da tarde, quando o coro das buzinas se inicia, nas esquinas agora congestionadíssimas, no trânsito todo parado do que já foi, um dia, um bairro residencial.


Por Luiz Saidenberg

Janete do Brooklin e Isaac do Bom Retiro

Cheguei a Israel sozinha, vinda no voo das 5 da manhã. Minha alegria profunda de estar em Israel é parte de outra história, porém, vamos a esta.
Tomei o mini bus para Jerusalem, 6horas da manhã, luz do sol sobre a cidade antiga. Meu primeiro dia em Israel e eu ainda só, a caravana da qual eu fazia parte só chegaria á noite.
Com o endereço do hotel na mão, tomei um taxi.Tudo muito caro em Shekels. Jerusalem, com o sol forte de Maio, apartamentos brancos reluzindo, flores nas varandas, de repente me lembrou dos bairros nobres de São Paulo, uma rua em Moema, talvez. Calçadas limpas, árvores já verdes quando as da Europa ainda se demoravam no inverno, o ar impregnado de vegetação.
Hotel errado. Fiquei ali no saguão pelo menos uma hora esperando comunicado, do meu grupo de turismo , sobre a mudança de hotel. Durante este tempo, uma leve irritação nos meus olhos continuava piorando, não dava mais para ignorar que se tratava de conjuntivite!
Final
mente, munida do novo endereço, tomei outro taxi para o hotel certo. A esta altura, cansada e precupada com os meus olhos ardendo, meu entusiasmo estava um pouco abatido. Coloquei as malas no saguão e apresentei o passaporte brasileiro a um senhor vestido impecavelmente, o gerente do hotel.
- ‘Brasileira, hein? De onde?’
O sotaque dele era inconfundivel, Paulista. Me abraçou, disse que também era de São Paulo, mais precisamente da região do Bom Retiro, Paulista e Judeu. Isaac soltou o Português e não parava mais. Queria saber de tudo, queria falar sobre tudo de São Paulo. Disse que parte da familia ainda morava lá, que tinha muitas saudades, que tinha ali muitos amigos. No meio da conversa, notou os meus olhos de coelho, quando tirei os óculos escuros e, imediatemente, mandou chamar um médico no hotel. Levou-me pessoalmente ao quarto, ainda falando sem parar. Meia hora depois, chega o médico que me atendeu e me deu uma receita que eu deveria ir buscar na farmácia.Tudo em Shekels, naturalmente, a dor no bolso era imensa.
Três da tarde, depois de um descanso, passei pela portaria e bati mais um papinho com meu novo amigo Paulista, que me deu indicações de como chegar na farmácia. Deveria virar a esquerda atrás do Hotel e subir uma escadaria, depois, virar a direita e andar mais um pouco.
Sol escaldante, eu de olhos lacrimejando e coçando atrás dos óculos, num país no qual nunca estivera antes. Tendo pago uma fortuna pela consulta médica , ainda deveria comprar o remédio com o dinheiro que tinha em mãos, pois, bancos só no centro da cidade e eu não queria me aventurar no primeiro dia estando só.
A escadaria não acabava mais! Lá de cima, teria tido uma vista panorâmica de Jerusalem se meus olhos tivessem permitido. Finalmente, achei a farm
ácia e fiquei na fila. Duas mocinhas serviam ao balcão e, quando chegou a minha vez, me dirigi a uma delas em inglês, o qual ela não sabia. A outra moça se aproximou para ajudar.
-‘Do you speak English?’Perguntei.
-‘Yes’, ela disse. ‘And Portuguese.’
-‘Português? Voce fala Português?’
-‘Sim, sou de São Paulo.
Por favor, acreditem, encontrei dois paulistas no primeiro dia em Israel.
Janete havia nascido no Brooklin Paulista, havia emigrado para Israel, a pouco tempo, para estudar na Universidade Hebraica. Fazia um bico na farmácia para ajudar em seus estudos e moradia.
Fomos para um canto conversar. Quanta saudade de São Paulo entre nós duas! Falamos de tudo, do Museu de Arte da Paulista, onde ela costumava ir, das pizzarias (as melhores do mundo ,concordamos), das feirinhas de Artesanato da Liberdade e da República e, é claro, da 25 de Março. (Mulheres gostam de falar em compras).
Finalmente, ela me vendeu o remédio e, é claro, conseguiu me vender mais um produto não receitado para apressar a cura. Me ensinou o caminho para um museu que eu queria ver e ficamos acenando, uma para a outra; Ela da porta da farmácia e eu, subindo as ruas ensolaradas de Israel, com o coração cheio de São Paulo.
Meu grupo chegou à noite. Ficamos uma semana em Jerusalem e a outra, viajando pela Terra Santa. Isaac e eu conversamos muitas vezes e nosso assunto preferido era sempre a nossa São Paulo, tão distante. Janete, não a vi mais, pois os olhos sararam por completo.
Parafraseando uma outra frase, pode-se tirar o Paulista de São Paulo mas não São Paulo do Paulista. Vi esta verdade bem clara nos dois encontros que tive em Jerusalem, com paulistanos morrendo de saudade.

Por Lygia Souza

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Travessuras que marcaram

Meus pais diziam que eu era, das meninas, a mais levada. Não dava sossego, estava sempre aprontando. Morávamos numa casa, cujo acesso se dava por uma grande escada, sem qualquer proteção lateral. Era lá que eu gostava de brincar, sem imaginar o perigo que isso representava. Meus pais viviam retirando-me do local, sempre na base de palmadas e castigos.

Eu tinha 4 anos na época e, apesar da pouca idade, não consegui esquecer aquele dia. Era manhã de u
m domingo, mas, havia alguma coisa diferente, pois pude subir, descer e pular da escada, sem que ninguém viesse me castigar. Minha mãe e minhas tias, estavam muito ocupadas no preparo de um grande almoço, que serviria para comemorar o casamento de minha prima Joaninha.

Ao lado da escada, fizeram um fogão de tijolos, onde foram colocados 2 tachos grandes, que serviriam para depenar os frangos para o grande banquete. Não deu outra, de tanto brincar na escada pulando os degraus, caí dentro de um dos tachos... Correram todos para ajudar, foi uma loucura total. Tive o braço direito e parte da perna seriamente queimados. Enquanto decidiam o que fazer, alguém lembrou-se de um médico recém formado, que residia ali perto. Ele veio prontamente e receitou nitrato de prata, para ser colocado nas bolhas que se formaram. Meu pai foi contra e resolveu consultar sua mãe, que era cabocla e descendente de índios. Ela, então, pediu q
ue fossem colocadas batatas cruas sobre as queimaduras. Meu pai resolveu seguir o conselho, que ele considerava sábio. Foi até o armazém e trouxe, com a ajuda dos meus tios, um saco de batatas. Ele postou-se em minha frente e começou a descascar, fatiar e colocar as batatas na queimadura. Elas aliviavam as dores e eram trocadas quando a dor voltava. Isso durou muito tempo mas, deu resultado. Perdi toda pele do braço e todas as unhas da mão e não tive infecção. Até hoje me pergunto, que estranho poder curativo tiveram as batatinhas? Nenhum médico ainda conseguiu me explicar.

Certa vez, li um romance mexicano "Como água para chocolate" onde a protagonista, cura as queimaduras de seu amado, com batatinhas (é só conferir).
Não tenho marcas desse acidente (somente pequenos detalhes) Mas tenho lembranças bem marcantes do fato.
Quanto às travessuras...Acho que ainda continuei dando trabalho por um bom tempo.

Por Bernadete Pedroso