imagem: Seleção Brasileira que sofreu a derrota contra o Uruguai em 1950
Estamos em clima de Copa do
Mundo, mesmo não sentindo nas ruas a mesma vibração de outros tempos eu sinto a
animação nos transeuntes, nos vizinhos e, por que não dizer, nos amigos.
É neste clima de expectativa
que sento em frente ao meu computador e sinto vontade de escrever sobre as
copas que vivi nestes 74 anos de vida.
As lembranças não são
difíceis de virem à tona, apenas me cabe o trabalho de selecionar algumas e
escrever sobre elas. Teclado pronto decido escrever sobre a copa que, mesmo
presente, eu não assisti. Foi uma escolha deliberadamente cômoda, pois as
demais copas geraram muita aflição, desespero, alegria, e ser-me-ia bastante
abreviá-las para caber num só texto. Então, vamos lá, Copa do Mundo de 1950.
Eu, moleque ainda, ao
contrário dos garotos de hoje, não tinha noção da grandiosidade desse evento.
Ouvia comentários dos meus
pais, dos meus tios, mas preferia, lógico, o meu mundo de brincadeiras no
quintal de casa em que vivia, na Rua Augusta, 291.
Era 16 de julho, depois do
almoço ajantarado de todos os domingos, eu o Carlinhos meu irmão, e o Roberto meu
primo, fomos para nosso mundo de fantasias, o quintal. Minha prima, como de
costume, foi se entreter com os diversos trapos e roupas de minha tia e de
minha mãe com que normalmente brincava. Minha mãe, minha tia Neide, minha Tia
Elisa, minha tia Zaira, meu avô Gidi e meu pai, sentaram-se em torno da mesa da
cozinha e, entre conversas diversas e um cafezinho coado na hora, começaram a
ouvir o rádio e a transmissão do jogo entre Brasil e Uruguai.
Meu pai, com aquele jeito
exagerado de sampaulino fanático e ferrenho, alardeava que o campeonato já era
nosso, tendo a concordância de todos os demais.
Nos, brincávamos e apenas
por curiosidade, de quando em vez, esticávamos os olhares para o plano mais
alto onde se localizava a cozinha para ver o movimento, eram caretas
angustiadas, murros no ar desferidos por meu pai, algumas palavras de sentido
mais imoral, nada que realmente nos fizessem desistir de nossas brincadeiras.
Em certo nos “ouvimos” um
silêncio sepulcral, intrigado corri até a cozinha e não vi mais meu pai e meu
avô, as mulheres daquele diminuto auditório choravam copiosamente, minha mãe me
abraçou e disse entre soluçõs e lágrimas: -Miguelzinho o Brasil perdeu, o Brasil
perdeu...
Sem muito entender, mas
querendo participar do destempero, busquei me emocionar e também comecei a
chorar. Foi uma choradeira geral.
Só não vi, ou melhor, não
lembro se vi meu pai e meu avô chorando (naqueles tempos homem não chorava).
Estas são as minhas memórias
daquele campeonato fatídico.
Vamos torcer para que neste
ano de 2014, quando novamente temos a realização de uma Copa do Mundo no
Brasil, mesmo conscientes de todas as mazelas e aberrações ocorridas, o povo
brasileiro tenha o prazer de comemorar um final mais feliz do que em 1950.
Por Miguel Chammas





















