segunda-feira, 5 de maio de 2014

O eterno conjunto de sons




Música, divina expressão do ser humano ao ser despertado em épocas distantes, desde um simples  ruído natural passando pelos relâmpagos e trovões, espicaçando a curiosidade dos habitantes das cavernas, os primeiros seres viventes. Aprendendo a falar, berrando feito um irracional, (de quem aprendeu muita coisa), da fala, ouvindo e copiando os pássaros,  vai para o canto, embelezando, melodiosamente,  seu relacionamento com outros seres.

Pensando nestes encantadores momentos de ternura e devoção, estou em casa, no Parque Continental, zona oeste de nossa querida cidade de São Paulo, sem me preocupar em  descobrir o nascimento de novos músicos e instrumentos musicais. Apenas ouço melodias compostas para mim... Sim, para mim, sempre direcionadas a mim. Ouço-as com respeito religioso, não permitindo que outros ruídos venham interferir na minha audição e contemplação, degustação espiritual que a música me satisfaz.

Se estou ligado à minha caixa de som, coloco um CD de concerto, uma ópera, ou a  execução solo de um grande artista do piano, violino, trompete, saxofone, violão ou guitarra ou,  senão, uma emissora que tenha uma programação voltada unicamente à música clássica; enquanto travo minha saborosa batalha com o computador, vou trazendo pra dentro de minha alma, alegrias, tristezas, nostalgias, saudades, melancolias enfim, um estado de torpor que certas melodias, na sua magia, no seu modo de ser, no seu poder de penetração, deixam sua marca indelevelmente registradas em nossa existência espiritual.

Gosto de música, minha predileção, como a leitura, em qualquer hora do dia ou da noite. Música ao vivo, assisti muitas vezes; é a realização de uma verdadeira ode instrumental, onde mais de cem professores se empenham em proporcionar a você, presente na plateia, um envolvente momento que se prolonga, a “di ‘nfinitun”, pra que você deguste os segredos acondicionados dentro de, desde um simples “triângulo” até o mais barulhento dos tímpanos a ribombar seu coração, numa ALEGRIA CONTAGIANTE. 
Se você ouve um trecho de Mendelson, no seu Concerto pra violino e orquestra, nº 4, é de uma extraordinária beleza. E o Mendelson morreu com, apenas, 48 anos...

Não querendo me estender e cansar meus amigos, só quero lembrar  “O Cisne de Tuonella” , o “andante” do concerto pra piano e orquestra nº 2, de Shostakowiski.




Por Modesto Laruccia

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Um anjo



(crônica/verdade)

Anos se passaram. À tarde de um frio intenso parecia debochar da gente. Frio violento, carrasco, impiedoso, nunca sentido, que eu me lembre.
Ao sair do Fórum João Mendes Jr. naquela tarde, me dirigi à livraria Saraiva na mesma Praça João Mendes, bem defronte ao fórum. Buscava, pela vitrine, algum livro jurídico relacionado com Filosofia do Direito. Depois de alguns minutos observando, viro-me para o lado e vejo, de cócoras, um senhor negro com uma mísera camiseta rasgada, "vestindo" um roto calção. Tremia todo o seu corpo que mais parecia estar em convulsão irreversível. O rosto, ah! Seu rosto. Além das vergadas que o tempo lhe infligiu, a barba branca do esquecimento humano cobria todo seu rosto. O olhar, ah! O olhar triste perdido nas desgraças sofridas tinha ainda assim vestígios de amor, e pedidos de socorro. Lá naquele canto, esquecido na vida, via passos apressados, passos largos, passos voltando, passos correndo, mas não via nenhum olhar, nem mãos amigas, estava tão só, um descartado da vida. De repente, do meio da multidão, surgiu um homem, um homem loiro e moço, bem apessoado, com um riso doce nos lábios, vestindo um riquíssimo casaco de couro parou em frente do mendigo negro, estendeu sua mão, pegou a mão do homem negro e o levantou. Tirou seu rico casaco e colocou naquele pobre ser. Ficou ele, então, só com uma rala camiseta, sorriu, apertou a mão do homem, e, como veio, no meio da multidão, sumiu naquela tarde fria.
Eu disse para mim mesmo, o cara era um anjo, sem dúvida. Caminhei pensativo, entrei na Catedral da Sé e orei. Era que tinha que ser feito.




Por Fábio Belviso


sexta-feira, 14 de março de 2014

A primeira e a última vez






Uma primeira vez. A primeira que fui ao teatro (adulto) nunca esqueci.

Era no Teatro Bela Vista (hoje Sergio Cardoso e antes, Cine Espéria), e fui assistir Gigi, de Collette, com Paulo Goulart e o "resto" do elenco: Conchita de Morais, Henriette Morineau, Suzana Freyre.

Eu, de vestido de laise cor de rosa, sapato de verniz preto e meias brancas.


Vi no palco também pela primeira vez, aquele ator maravilhoso, bonito, charmoso. Era 1958. A última vez foi no ano passado, em O Tempo e o Vento, quando tive a certeza de que seria a última vez que o veria atuando. Já não era. 



Por Teresa Fiore

sábado, 1 de março de 2014

Casos do passado



Era muito trabalho para Dona Linda, minha mãe, por esta razão a tia Maria, que morava no Jardim Penha, estava sempre em casa para ajudá-la a cuidar dos seus nove filhos. Morávamos na Rua Antônio Lobo, no bairro da Penha de França, e minha mãe não dava conta de lavar, passar, cozinhar, limpar e tantas outras atividades que uma família grande como a minha precisava, ainda bem que esta tia podia ajudá-la a tomar conta do pequeno batalhão. Claro que meu pai havia combinado um salário, a condução e outras coisas que ela viesse a precisar, afinal de contas, tínhamos seu carinho com muita exclusividade.
Elas conversavam muito, minha mãe e a tia Maria que estava sempre alegre a nos ajudar em tudo que precisávamos.  Muitas vezes eu as via conversando baixinho, mas eu estava sempre atenta nestas conversas que certamente minha mãe não queria que escutássemos.
Certa vez, ouvi em uma destas conversas que uma vizinha apanhava constantemente de seu marido. Eram surras que judiavam e marcavam física e moralmente esta mulher. Isso acontecia porque ele parava em um bar para beber uma birita após o trabalho, mas acabava bebendo em excesso. Depois, ele descia a nossa rua cambaleando e as paredes das casas funcionavam como guia e apoio ao mesmo tempo. Alterado pelo álcool e já em casa, falava mal, batia em sua mulher e, depois da discussão, ainda jogava com desprezo o prato de comida que com certeza era feito com carinho, no chão.
Depois de um tempo, quando estávamos maiores, minha mãe acabou nos contando casos que haviam acontecido no passado com algumas mulheres que moravam na redondeza e dois deles ficaram retidos em minha memória. No primeiro, a mulher levou tantos chutes de seu marido nas costas que acabou com um rim danificado que precisou ser retirado. O segundo caso foi o de uma mulher que sofria maus tratos e que, para piorar a situação, acabou pegando tuberculose, então seu marido a abandonou levando sua única filha. Depois de um tempo, essa mulher sem tratamento algum, sem recurso e na miséria, acabou morrendo. Esta mulher chamava-se Ana; nunca esqueci seu nome. As lágrimas sempre marejavam os olhos de minha saudosa mãe quando comentava sobre este fato.
Outro caso era o da mulher de um advogado que era mantida presa em sua própria casa. Ela saía raramente e apenas na companhia de seu marido e nunca cumprimentava as pessoas, pois seu olhar era fixo no chão, acho que por ordem de seu marido. Ela tinha uma aparência muito estranha apresentando certa palidez. Os cabelos pretos eram presos e cobertos por uma tela e suas roupas eram sempre escuras com mangas e saias longas, chegava assustar a todos.
Naquele tempo, as mulheres eram usadas para o trabalho doméstico ou então para trabalhos de baixo escalão e sem segurança alguma quando precisavam ajudar no sustento da família. Totalmente desprotegidas e sem leis que as amparassem, não tinham muita saída a não ser aguentar tudo isso.
Todos estes casos contados pela minha mãe eram, na verdade, o produto de uma sociedade machista e que desvalorizava descaradamente a mulher.
Graças à união de muitas mulheres e muita persistência as nuvens negras foram-se diluindo e, aos poucos, foi surgindo uma nova sociedade, transformada com o decorrer da história e que hoje reconhece, dignamente, a mulher como a grande doutora nos diversos setores da vida e da nossa sociedade. O respeito aos seus direitos, ao seu trabalho e a sua vida ganharam um enorme espaço.
Hoje presto uma homenagem em especial àquelas mulheres que sofreram e lutaram por uma vida melhor e mais digna e que hoje já não se encontram mais aqui.
Aproveito para estender os parabéns àquela mulher que não foge a luta, não tem medo de assombração, nem de escuridão. Àquela de sabedoria única, de força, de paciência grandiosa e que não teme esconder sua afetividade que flui livremente dentro da sua alma.
O dia que foi dedicado à mulher é um marco de muita tristeza, mas que reflete a nossa maior alegria pelo espaço ganho e que foi construído ao longo de tantos anos.
Um abraço com carinho a todas as mulheres da cidade de São Paulo.





Por Margarida Peramezza

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Helena



Olá, amigos!
Esta é a Helena, filhinha de Marcos Antonio Loureiro e Isabel, nossos amigos autores do site SPMC e do blog Memórias de Sampa.
Ela nasceu em 22 de setembro de 2013 e é a princesinha do casal, fruto desta união tão bonita.
Saúde para Helena.

Muita paz!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Escola - meus uniformes



imagem: alunos uniformizados do liceu" (sp) - anos 10 do século xx.
créditos: uol cultura - hist. dos uniformes - uol.com.br

Creche? Não precisei. Tinha mãe e avó à minha disposição para me cuidar, educar, mimar e infernizar a minha vida. Jardim de infância, nem pensar! Pois ninguém em casa era filho de Barão do Café e nem filho de um “Comendatore” da indústria. Levado “alle Suore” (às Freiras) para fazer o Pré-primário, a Madre não achou necessário, pois minha avó ensinara-me muito bem as primeiras letras. Que eu aproveitasse o tempo para falar melhor o Português...
E eu, por três horas, duas vezes por semana, passei o ano de 1954 na escolinha de D. Maria Vittoria, bem penteado e arrumado – ela exigia - aprendendo “apparlà Portoghese” (a falar Português).   
Pela avidez com que D. Maria tentava arrancar minhas orelhas, acho que eu não fui um bom aluno...
Então, na espera de ir para o Primário, o meu Jardim de Infância foi a rua. O uniforme: calções de algodão barato, na cor vermelha, azul, verde. Cores que não encardiam com facilidade e de fácil lavagem. E “ganetta” (camiseta) sem mangas. Nos pés, os mais privilegiados usavam alpargatas, os remediados, um par de “zoccoli” (tamancos), a maioria pés descalços. E o que se aprendia? Jogar futebol, jogar malha, bola-queima, pular carniça, empinar capuscetta, etc. E a dizer um montão de “parolacci” (palavrões)...
1955, eu todo uniformizado indo ao Grupo Escolar: Calça azul-marinho (calça curta para o verão, comprida para o inverno). Camisa branca de algodão, de manga curta ou comprida, de acordo com a estação. Malha de algodão, com zíper, em azul-marinho com o emblema da escola. Gravata azul-marinho que trazia listra branca em diagonal. Ia de uma (primeiro ano) a quatro (quarto ano). Meias brancas três quartos, cujo elástico apertava a panturrilha provocando coceiras. E sapatos pretos. Sapatos a preços módicos e funcionais em couro duro, com solado de pneu. Bons para a escola, chutar bola e chutar latas. Um coturno do Exército pareceria um sapato de cromo alemão se comparado a esses “confortáveis” calçados.
Quando no pátio, formávamos as filas por classes, serventes zelosas examinavam as condições dos nossos uniformes. Se adequados, tudo bem. Senão, após a aula, voltaríamos para casa com uma advertência às nossas mães pedindo que cuidassem melhor dos nossos uniformes... Palavras suaves que indiretamente chamavam as mães de porcas.
Na classe, a professora ia de carteira em carteira, examinar o nosso material e nossa higiene pessoal. Unhas compridas com “luto”, orelhas encardidas ou com cerume, rendia a maior bronca e humilhação. E claro, uma advertência à mãe do “porcalhão”...
Se o aluno descuidado fosse pobre e recebesse os materiais e uniforme doados pela Caixa Escolar, ele era massacrado. Sofria as maiores  humilhações.
O Curso de Admissão ao Ginásio foi feito conjuntamente com o 4º ano primário. Saia do Grupo almoçava e ia para Curso. Vivia morrendo de sono.
1959 - No Ginásio diurno, com exceção da calça curta, o uniforme era o mesmo do Primário. E podia-se usar em vez dos sapatos, tênis ou “Sete Vidas” azul-marinho da “Alpargatas”. No Ginásio noturno, ia-se com a roupa do trabalho. Usava-se apenas uma gravata com o emblema do ginásio.
Tanto de dia como de noite, na educação física, usava-se calção, camiseta, meia de cano curto e tênis. Não tinha essa de agasalhos.
Do ginásio ficaram “doces” lembranças: O Latim, exames orais, uma segunda-época... E uma suspensão por atitude indecorosa! Eu explico: Uma aluna chamada Amélia vivia “tirando uma” com a minha cara. Então eu comecei a cantar para ela (Bendito Monsueto!) “Amélia que era mulher de verdade, tirava o maiô e ficava à vontade”... A música pegou e todo o pessoal da nossa ala (6 classes) do noturno passou a infernizar a vida da Amélia.
 1963 - No Clássico ou Científico (fiz o Clássico) diurno usava-se o mesmo uniforme do ginásio. No noturno não havia mais a necessidade nem de usar gravata com o emblema da escola.
1966 - No Cursinho, uma beleza! Vista-se como quiser. E conspirava-se sobre tudo.
1967 - Na Faculdade, delícia. Só era proibido ir pelado! Conspirava-se ainda.
1971 – Pós Graduação. Uma “zona” deliciosa!
1972 - Depois da faculdade, do Pós, como é bom ser livre!...

Mas a Universidade da Vida não deixa barato. Obriga-nos a usar não um, mas todo o tipo de uniforme. E certas Faculdades dessa Universidade nos impõem o uso de máscaras...




Por Wilson Natale

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Porque hoje é sábado


imagem: cine Metro 1938


          Nos anos 60 o programa, aos sábados, de estudantes moradores de pensão, como eu, era mais ou menos padronizado. Depois de uma semana às voltas com aulas, trabalhos de pesquisa, biblioteca e estudos, dormíamos um pouco mais no final da semana. Se não houvesse compromissos com a namorada, nova soneca após o almoço. À noite o destino era o centro da cidade. Banho caprichado, barba bem feita, perfume barato e o terno já meio surrado, dirigia-me, de ônibus ou bonde, para as  proximidades da esquina famosa Ipiranga x São João, celebrizada na bela canção de Caetano Veloso.

           Os cinemas de minha preferência eram o Ipiranga, o Marabá ou Metro, sempre com a exibição de bons filmes. Havia ainda o Ritz, Brodway e Art Palácio na Avenida São João e o elegante Marrocos na Rua Conselheiro Crispiniano, e mais alguns, todos muito próximos um do outro. Ah! O chiclete Adams ou os dropes no bolso eram imprescindíveis.

Depois da sessão, uma passada pelo Salada Paulista ou pelo Bar Jeca para um reconfortante e saboroso lanche, acompanhado de 7UP (“Sevenup”) gostoso refrigerante da época. Comprava o jornal de domingo, já nas bancas, para ler no dia seguinte. A viagem de volta, sempre mais triste e cansativa, em que não se tem outro desejo senão o de chegar depressa ao quarto simples, mas limpo e confortável da pensão. Deitava-me ficava pensando, serenamente pensando, em algumas cenas do filme, na beleza e sensualidade das atrizes ou nas proezas do herói, para finalmente adormecer.

Relembro estas coisas tão ingênuas com profunda e suave melancolia, certo de que momentos como esses são irrecuperáveis. Quero e pretendo firmemente que eles não me tragam muita tristeza, nem amarguras incontroláveis, mas que sejam encarados simplesmente como doces e inesquecíveis lembranças de um tempo que já se foi.


"Porque hoje é sábado. 
Há um renovar-se de esperanças"

(Vinicius de Moraes)



Por Deraldo Mancini


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Memórias em flash back


música: Ney Matogrosso - Freguês da Meia Noite
Para ouvir, clique no play



Sou um viciado em TV, ou melhor, como diz minha companheira, do alto de sua intelectualidade, eu sou um fanático telespectador da Globo,  e ponto final.
Não discordo de sua opinião, mas tento argumentar que prefiro as variedades de programas bem produzidos aos entediantes e soporíficos filmes dos canais fechados, aos eternos programas de distribuição de dinheiro dobrados em forma de avião, ou ainda,aos programas religiosos (seja de que religião for) que tentam, de forma direta e inescrupulosa arrecadar cada vez mais doações, chegando a lotear espaços pós morte de cada fiel.
Bem, tergiversei, perorei dos grandes bifes (termo usado nos meios artísticos para identificar grandes parágrafos de um texto ou script), e não abordei o tema principal desta memória.
Vamos a ele.
Dias atrás, estava eu a praticar meu vicio de Globoespectador quando foi colocado no ar um comercial do novo CD de Ney Matogrosso, cantor que não me leva a ser um fã, mas não me desagrada de todo, principalmente pela qualidade das músicas de seu repertório. Prestei mais atenção ao comercial e à música nele inserida. Em certa parte da letra o autor faz menção a um restaurante que existia no Largo do Arouche, atrás do antigo mercado das flores.
Minha memória começou um trabalho de retrospectiva e me trouxe o nome desse restaurante, Le Casserole (pesquisei depois e confirmei não só o nome como a existência desse restaurante até os dias atuais, no mesmo local).
Esse restaurante (na verdade um bistrô) que, por sinal, nunca frequentei, fica no Largo do Arouche, quase na confluência deste com a Rua Vieira de Carvalho e a Avenida São João e na calçada fronteiriça do Hotel São Raphael.
Lembrei-me que na mesma calçada, ficava a Adega do Pedrinho onde eu, nas madrugadas de terças/quartas-feira e sextas-feira/sábado me locupletava com deliciosas feijoadas (as primeiras a saírem do fogo para aguardar a azáfama de famintos consumidores do horário de almoço. Também, se atravessássemos toda a extensão fronteiriça desse restaurante, sairíamos às portas da Cantina O gato que Ri, famosa por seus pratos italianos e preços módicos.
Essa letra, trouxe-me também muitas outras memórias, ente elas o Bar Leo, na Rua Aurora onde ao longo de alguns anos, eu consumi uns bons barris de chope claro, escuro ou mulatinho. Outra memória muito viva  é da Rua Vitória, onde no quarteirão entre o Largo e a Avenida São João, à porta de uma barbearia, Mulata (grande ritmista e integrante da famosa Escola de Samba Vai-Vai (desde a época em que ela era simplesmente um cordão carnavalesco), na sua cadeira de engraxate, todos os sábados  pela manhã dava um lustro especial nos meus sapatos bico fino, para que à noite eu fizesse boa presença nos bailes e gafieiras.
Tenho certeza que, com um pouco mais de esforço, esta memória poderia se prolongar quase que infinitamente, porém se assim fosse, ela iria avançar o espaço de outras possíveis memórias que, também, no seu devido tempo, deverão fazer parte  do meu acervo de rabiscos e memórias.
Vamos aguardar! Ah! A música que fez desencadear todo  esse jorro de palavras e lembranças é: FREGUÊS DA MEIA NOITE, de autoria do compositor Criolo, e a letra é esta:


Freguês da Meia-Noite

Em pleno Largo do Arouche

Em frente ao Mercado das Flores
Há um restaurante francês
E lá te esperei

Meia Noite

Num frio que é um açoite
A confeiteira e seus doces
Sempre vem oferecer
Furta-cor de prazer

E não há como negar

Que o prato a se ofertar
Não a faça salivar

Num quartinho de ilusão

Meu cão que não late em vão
No frio atrito meditei
Dessa vez não serei seu freguês

Meia Noite

Num frio que é um açoite
A confeiteira e seus doces
Sempre vem oferecer
Furta-cor de prazer

E não há como negar

Que o prato a se ofertar
Não a faça salivar

Num quartinho de ilusão

Meu cão que não late em vão
No frio atrito meditei
Dessa vez não serei seu freguês




Por Miguel Chammas

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Primeiro e derradeiro voo




(Um dia, ao passar pelo supermercado, perto de casa, deparei com um filhote de sabiá, se estrebuchando no chão e morrendo, em seguida. Dedico estes versinhos a esta pequena criatura)

Do alto da frondosa árvore, num aconchegante ninho,
o pequeno Bentinho, via sua mãe entrar, pela bandeira
aberta do supermercado... voltar, sempre com alimentos.
Observando, atentamente, mamãe, no bico, um sorrisinho.
Chegara a hora, aprender a voar, mamãe, sempre ordeira,
Pede a Bentinho que ensaie seus primeiros movimentos.


Bentinho, sapeca, vivo e esperto, já quer voar direto.
“Primeiro, tente bater as asinhas,” Bentivenha aconselha.
Bentinho, em seu limitado saber, “eu vi a senhora voar...”
Manhã linda, ensolarada, Bentivenha sai em vôo correto,
Em busca de mais alimento, Bentinho, não é só palha,
que vai satisfazer o pequenino, que quer um vôo tentar.


Apenas o bater de asinhas, não faz um pássaro liberto,
Mirando a bandeira  do supermercado, lembrando mamãe,
Bentinho, enche o peito, ainda com casquinhas de ovo.
Vai mostrar pra mamãe que ele também voa, e é esperto,
Começa a bater as asinhas, vê a bandeira, ele se empenha.
Não vê... bandeira fechada, vai de encontro ao vidro polido
e cerrado, trágico final de vida, num triste e verdadeiro
PRIMEIRO VOO, DERRADEIRO.




Por Modesto Laruccia

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Novos velhos tempos da "Dita"




(- “Encosta ai! Documentos na mão” !)

Eu conservara os meus documentos com amor e carinho até o mês de março de 64. Até então, tudo parecia novinho em folha.
Nos meus tempos do Primário não havia Carteira de estudante. Era somente o Boletim que levávamos para casa, no fim do mês, para que os pais assinassem e, no dia seguinte, o devolvíamos. Então, o único documento que eu usava era o Registro de Nascimento. E o usava quando ia sozinho às matinês dos cinemas do bairro, para provar que era maior de 10 anos, ou quando viajava com meus pais para o litoral, ou para o interior. E, como eu ia muito às matinês, para preservar o Registro de Nascimento original, meu pai me presenteou com uma segunda via.
Nos tempos de Ginásio eu tinha a famosa Caderneta de Estudante: de identificação, presença, notas e observações. Mas, como era fácil falsificar a data de nascimento (Um palito, com algodão na ponta, embebido em água sanitária, passado levemente sobre o ano escrito e ele desaparecia. Deixava-se secar e, depois era só escrever um novo ano. Então se podia ter 14 ou 16 anos.), alguns cinemas exigiam também o Registro.
Depois, a Carteira de Trabalho do Menor substituiu o registro. Exceção feita a Carteira escolar que nos dava direito a pagar meia-entrada.
Mas, em 31 de março de 64 (Na verdade, 1º de abril – “dia da mentira”.) acontece o “glorioso”, o “libertador” golpe militar que deu origem a uma Ditadura violenta que não tinha nada de “redentora”...
Fins de 1964 - Minha Carteira de Trabalho do Menor estava um “bagaço”.  A Carteira de Estudante então estava na iminência de desfazer-se, despencar. O Registro então, todo puído!É que, “por dá cá aquela palha”, os “milicos” nos paravam constantemente e, de maneira grosseira e descuidada, examinavam os nossos documentos.
No meu caso, pela altura e por aparentar mais idade do a que tinha, a coisa ficava mais complicada quando eu era abordado pela PE (Polícia do Exército).  –“Cadê o Certificado de Alistamento Militar”?... Não tinha e nem tinha idade para tê-lo. Então começava a demorada e minuciosa “olhada” nas carteiras de trabalho e estudante. E, claro, no registro de nascimento. Comparado os três documentos eu ouvia o famoso “Está liberado! Pode ir”!...
De março a outubro de 64, eu já havia “detonado” mais três  vias de registro de nascimento (Na verdade, 3ª, 4ª e 5ª vias). Chegara o momento de  tirar a Carteira de Identidade.
Aos 16 anos, muito feliz, eu segurava a minha novíssima Carteira de Identidade, emitida em 03 de novembro de 1964, em São Paulo – SP., nos Estados Unidos do Brasil, hoje República Federativa do Brasil. Viva!
Eu tinha uma Cédula de Identidade! O Registro de Nascimento fora finalmente aposentado. Mas, na prática, mudou quase nada. Facilitou sim, para os “milicos” que, quando me “enquadravam” exigiam impudicamente que eu lhes exibisse a minha Identidade, a Carteira de Trabalho e  de Estudante. Só faltavam pedir a Carteira de Cadastro da CMTC que me dava direito aos passes de ônibus...
Naqueles “dias maravilhosos” da ditadura, a conversa nas casas eram as mesmas: “Filho, você vai sair”?  “Vou!”  “Pegou tooodos os documentos”?  “Peguei, sim”...  “Pegou meesmo, meu filho”?  “Orra, mãe! Para com isso! Eu não sou retardado”!  “Falo para o seu bem, filho. Se “eles” lhe prendem, adeus ”!...
E “vivas” à ditadura que foi aumentando o fardo do povo e o fardo dos nossos bolsos, acrescentado mais documentos!
Em 1965, entre os documentos apresentados aos “omi” e aos “milicos” estreei o meu mais recente documento: o Certificado de Alistamento Militar. Certificado que não me agradava nada, diante da perspectiva de me transformar em um “reco”.
Em março de 1966, tive em mãos a minha primeira Carteira Profissional como maior e o Título de Eleitor. E fiz parte da lista dos convocados excedentes do Exército. Fui lá, no Cambucí, prestar o Juramento à Bandeira e retirar o meu Certificado de Reservista de 3ª categoria. Fiquei tão feliz que cheguei à minha casa gritando: “Allelluiah”! E, embora nunca gostando de dirigir, vale comentar aqui, que é desse ano a minha Carteira Nacional de Habilitação.
1968 foi o ano das “RPM” (revoluções por minuto). Era chegar ao Centro à noite e ouvia-se a miúdo: “Encosta ai, para averiguação”!... “Identidade? Confere! Profissional? Confere! Estudante? Confere! Reservista? Confere! Eleitor? Confere!”... Perdia-se um tempão reservado àquilo que pretendíamos que fosse uma noitada  ou fim-de-semana feliz! E, muitas vezes éramos premiados: em intervalo de poucos minutos, mais adiante, “encostávamos para mais uma averiguação”.
Em 1969 – tempos do AI5 - a coisa ficou preta. Vez ou outra, com ou sem os documentos éramos convidados a fazer um “tour” dentro de um “camburão”. Íamos à delegacia, para uma averiguação mais detalhada. Pelos nossos nomes procuravam por “capivaras” (fichas criminais), via telefone com o DOPS. Passavam-se horas até ouvirmos o tal “nada consta”. Sem um “desculpe pelo incômodo”, nos mandavam embora.
Em uma dessas “viagens”, um policial da Civil nos aconselhou a pedir um Atestado de Idoneidade. Mais que depressa tratei disso!
E o atestado funcionou muitas vezes. Mas não era um salvo-conduto. Com ou sem documentos, com ou sem atestado fui parar na delegacia... Para averiguação. Quase cheguei a ficar “sócio” da antiga delegacia da Rua Frei Caneca e amigo do meu xará, o delegado, que “tão bem” nos recebia... Ahahahahaaaa!
Mais tarde a ditadura soltou o faminto “Leão” do IR. Mais um “troço” pra carregar. Agora tínhamos CIC ou CPF ou CPJ...
E caminhei eu, caminhamos nós pela ditadura levando nos bolsos todos os documentos a que tínhamos direito. Documentos tão usados e manuseados que necessitavam de segundas e terceiras vias. E o mais importante: As velhas Carteiras Profissionais deterioradas,  remontadas, rearranjadas com cola ou fita “Durex” ficaram guardadas em gavetas preservando os velhos registros dos empregos que tivéramos...
2011 – Saio às ruas carregando os meus documentos: Crachá, Identidade, CPF, Cartão do Plano Médico, Cartão magnético para a condução... Vou andando, com aquela sensação de bolsos vazios e a impressão de haver esquecido algo... Logo nossos bolsos vão ficar mais vazios com a nova Cédula de Identidade que englobará todos os outros documentos.




Por Wilson Natale

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Memórias de um assassinato



imagem: a casa do texto, na Rua 21 de Abril, Brás - tempos atuais

Dia 26 de Maio de 1940, nascia na Maternidade São Paulo o primogênito do casal Tereza e Alfredo Chammas.
Primeiro filho de seus pais, primeiro neto de seus avós (paternos e maternos) e primeiro bisneto  de sua bisavó, uma   senhorinha de mais de sessenta anos na época, portadora de uma deformidade na coluna vertebral e com uma protuberância acentuada do lado esquerdo do corpo.
Por decisão de sua bisavó Joana Sito, a Dona Joaninha, como era costume da colônia italiana, ganhou uma infinidade de nomes na pia batismal.
 Miguel, em homenagem a seu tio avô, Salvador, homenageando seu avô, e Gabriel, em louvor a seu anjo da guarda.
Miguel cresceu no meio de parentes que o amavam e mimavam em excesso até que, 4 anos depois de seu nascimento, veio ao mundo seu irmão Antonio Carlos. O recém chegado, por ser novinho,lógico, arrebanhou atenções   especiais,principalmente da Dona Joaninha.
Anos se passaram e os dois continuavam sendo mimados e bajulados por todos da família Sito que os tinha  inteirinhos, uma vez por semana, às 5ª Feiras,quando sua mãe saia da Rua Augusta onde moravam e ia visitar seu pai e sua avó lá no Brás, na Rua 21 de Abril, quase esquina com a Rua Bresser.
Ali o Dr.Salvador residia e mantinha seu consultório  de prático dentista  e  seu laboratório de protético.  Era uma casa antiga onde ele e o irmão reinavam e traquinavam à vontade no quintal onde as atrações principais eram uma ameixeira de frutos dourados e melados, uma goiabeira produtora de enormes e vermelhas  frutas de sabor inigualável, mesmo verdes, e uma parreira que produzia lindos e vermelhos cachos de uvas.
Além disso, na rua onde ainda podia-se brincar, tinha as passagens obrigatórias do  vendedor de biju com sua infalível e sonora matraca de uma argola, do vendedor de sorvete em sua carrocinha amarela e vermelha puxada por um cavalo branco ou, ainda, do homem com o rebanho de cabras a vender leite fresquinho e apetitoso.
Tinha, ainda, algumas casas antes da casa do meu avô, a quitanda onde corríamos para gastar os centavos ganhos de “nonna” ou “nonno” comprando lindos e saborosos pedaços de coco conservados em um vidro com água, ou mesmo doces e bugigangas várias.
Ora muito bem, depois de tão extenso preâmbulo, vamos ao que interessa, ou seja, a narrativa da memória que originou esta crônica, o referido assassinato.
Estavam Miguel e o Carlinhos (forma familiar com que tratamos até hoje meu irmão), brincando na sala aos pés da nonna que estava sentada em sua cadeirinha entre a mesa e a cristaleira.
Quem sabe influenciados pelo ambiente do consultório dentário e do laboratório de próteses brincavam de médico e enfermeiro e a paciente, sem dúvida, era a nonna.
Depois de minutos da brincadeira, Miguel, empunhando um lápis de ponta afiadíssima, decidiu aplicar uma injeção na paciente e, sem qualquer outro aviso, lascou a ponta do lápis na perna da nonna que, assustada, quem sabe com a dolorosa pontada, mexeu a perna e pronto, quebrou a afiadíssima ponta, tendo permanecido encravada em sua perna um bom pedaço de grafite.
Aos brados de “assassino” “assassino” ela tentava extrair o pedaço de grafite da perna e, não conseguindo, continuava a gritar na sua voz fraquíssima, ”assassino”!
Dona Tereza acorrendo à “cena do crime”, depois de tratar da nonna, desinfetando o local e acalmando-lhe os nervos, foi até o ”assassino” e aplicou-lhe a merecida pena pelo crime cometido. Uma surra de tapas nos fundilhos que, garanto, doeram muito.
 Doeram tanto que até hoje, ao lembrar-se do castigo, Miguel evita sentar-se e termina este texto digitando em pé as últimas palavras.




Por Miguel Chammas

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Minha vedete



imagem: Wilma Palmer

Tinha quase 8 anos e fazia uma visita rotineira à minha avó paterna, íamos lá uma vez por semana.
No começo dos anos 70 telefone em casa era coisa rara. No prédio da minha vó, nos Campos Elíseos, só a Dona Filó tinha um. Ligação internacional, então, era pior ainda; caríssima e difícil de fazer. Para ligar ou receber uma chamada do exterior, falava-se com a telefonista solicitando a conexão e aguardava-se horas.
Naquela noite, nenhuma ligação era esperada. De repente a campainha do apartamento tocou e uma das filhas da tal Dona Filó anunciou que uma chamada de Portugal seria completada em instantes.
Subimos meu pai, minha tia Cibele e eu para a casa da vizinha. Papai, que não falava com a tia Wilma há mais tempo, pegou o aparelho e ficou esperando ouvir a voz dela. Minutos que duraram uma eternidade.
Súbito, completou-se a chamada. A fisionomia dele se transformou e a tensão tomou conta do ambiente. Todos olhávamos para ele, tentando entender sua perplexidade. O mistério se desfez quando, sem emitir qualquer som, olhou para sua irmã e seus lábios desenharam: A WILMA MORREU...
Minha tia entrou em choque. Naquele instante, com meu primeiro contato com a morte, deixei de ser criança. Tomei-a pela mão, levei-a até o elevador e descemos ao primeiro andar. Nem precisei pedir que ela aguardasse no corredor, simplesmente larguei sua mão e fui até a porta do apartamento chamar minha mãe e contar para ela o que presenciara. Daquele momento em diante não me lembro de muitas coisas, só da tristeza que tomou conta de todos e da preocupação em encontrar um médico para tranquilizar minha avó antes de lhe contar sobre a morte de sua filha.
Lembrei-me disso hoje ao saber da morte de Virgínia Lane. Assim como ela, minha tia era uma vedete. Usava o nome artístico de Wilma Palmer.
Ela era linda, perfumada, alegre e espalhafatosa. Seus olhos verdes brilhavam e fascinavam a todos, assim como suas gargalhadas.
Mais nova que as pioneiras Virgínia Lane, Elvira Pagã e Luz Del Fuego, fazia parte da segunda geração daquelas mulheres especiais, corajosas, que enfrentaram todo o preconceito de serem atrizes no começo do século passado. Elas estão indo embora, como foram Marly Marley, Renata Fronzi, Anilza Leoni, Wilza Carla, Salomé Parísio, Mara Rúbia.
Outras, como Carmem Verônica, Berta Loran, Ilka Soares e Eva Todor ainda brilham às vezes na telinha; muitas estão esquecidas, esperando serem chamadas pelo Walter Pinto para fazer um espetáculo lá no céu.
Cabe aqui um preito de gratidão ao Silvio de Abreu. Recentemente, na novela de época Jóia Rara da Globo, ele homenageou as “meninas”, todas com mais de 75 anos, inclusive com a derradeira participação da Virgínia Lane mostrando suas pernas que encantaram Getúlio Vargas.
Tia Wilma se foi há quase quarenta anos, no auge de sua carreira. Acabara de gravar um disco – Carnaval co Wilma Palmer, vendido até hoje em Portugal -, fazia shows no Casino Estoril e retornava para sua casa em Lisboa quando sofreu o acidente de carro que ceifou sua vida. Tinha se mudado para Portugal em 1956 e só vinha ao Brasil em férias.
Quando estava por essas bandas, pedia que lhe ensinasse a falar “brasileiro”. Pequeno, me divertia explicando que Casa de Banho era Banheiro e que eu não era um puto e tampouco um miúdo, mas sim um menino.
Lembro da última vez que nos despedimos em Congonhas, ela embarcando num avião da TAP com quatro enormes hélices. Quantas lágrimas. Um prenúncio, talvez.
Ela viveu intensamente, enfeitiçou o Conde de Barcelona, andou sobre elefantes, fez safári na África, namorou o famoso clavadista de Acapulco Raul Garcia Bravo e brilhou nos palcos.
Talvez, para ela, a morte prematura tenha sido melhor que o ostracismo que suas colegas do Teatro de Revista enfrentaram nos anos de decadência desse gênero. A vida de artista não é fácil. Viver não é fácil.
Às vezes ponho pra tocar suas músicas e choro ouvindo sua voz. Um choro diferente daquela noite que conheci a morte, um choro de saudades daqueles tempos.





Por Marcello Pizo Moreira Martins