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Houve um momento em minha
vida que cinema era mais sagrado do que missa.
Aos 14 anos de idade já
estava em processo de rompimento com a igreja pela falta de respostas às minhas
perguntas ou a não divulgação das verdades desejadas.
Depois de estudar em colégio
de padres e pela obrigatoriedade em assistir missas todos os domingos, acabei
achando tudo meio sufocante.
Sempre tive um lado
espiritual forte dentro de mim, mas que esbarrava nos dogmas e ainda ter que
engolir a tudo de modo obrigatório.
Frequentava então as missas
da paróquia de São Dimas na Vila Nova Conceição. Mas o que era imperdoável eram
os comentários jocosos das beatas sobre as roupas repetidas e risinhos de
deboches todos os domingos.
Tal comportamento acabou por
me levar a romper com essa rotina.
Estudei na Escola Meninópolis
(Brooklin) e no Colégio São Alberto (perto do Paraíso). Tentando buscar
respostas acabei por encontrar novos caminhos...
Morando no bairro de Vila
Nova Conceição, éramos bem servidos no quesito de cinemas.
Eram cinco salas de exibições
ao largo da mesma avenida: Cine Graúna -1960 (depois Chaplin), Cine
Guarujá (depois Excelcior), Cine Bruni Vila Nova-1966 (depois Cinelândia
II), Cine Vila Rica -1963 (depois Del Rey) e Cine Radar. No Brooklim havia
ainda o Meninópolis e na Joaquim Floriano, o Cine
Iguatemi.
Ao entrar adolescência, não
perdia uma matinê aos domingo. Com tal variedade de salas, dava até pra
escolher.
Nessa época, os meninos
andavam à caça nas matines especificamente para arrumar alguma namorada. Tentar
era parte do jogo. Os resultados nem sempre eram satisfatórios.
No escurinho do cinema todos
os gatos são pardos, então a ordem era atacar, enrolar ou puxar conversa mole e
aproveitando para oferecer Dropes Dulcora ou Mentex para suavizar qualquer
hálito. Se o papo colasse, era meio caminho andado. Quanto mais vivência,
melhor era o aprendizado. A ordem era arriscar sob pena de ficar sozinho.
Com os hormônios fervendo
éramos levados avante quase que sem perceber
Era a época da aproximação em
relação às garotas e vive versa.
Garotas e garotos tinham seus
medos e receios, mas também tinham vontades e desejos. Era a energia parecido
com um imã.
Iniciada a sessão, o escuro
dentro do cinema pouco dava pra perceber algum tipo de beleza. O que valia
mesmo era a paquera. Uma gracinha bem colocada poderia render o céu é o
infinito. Uma palavra mal colocada colocava tudo em risco.
Hoje sabemos que o bom humor
é a chave na paquera.
Aceito a gracinha, era o
sinal verde quase que imperceptível para seguir adiante...
Perguntas sobre o nome, onde
moravam e estudavam, se estava gostando do filme ajudavam a pavimentar a
conversa. Ficávamos a espreita de algum pequeno sorriso, que hoje sabemos que
poderia de incentivo ou nervosismo.
Mas ali nada disso era sabido
Depois de alguma conversa,
passava-se a segunda etapa, que era tentar aproximação das mãos.
A procura pelo contato das
mãos, calor delas acabavam por misturar as ansiedades.
As tentativas eram muitas. Os
resultados eram menores.
Mas quando davam certo,
corações quase pulavam de corpo de cada um.
Apertar a mão de uma garota
até então desconhecida era empolgante, gerava energia de calor, satisfação e de
bem estar.
Nas primeiras vezes, dava
vontade de querer parar o tempo e assim permanecer para sempre.
Amigos mais experientes já
usavam a técnica de posicionar o braço por cima da cadeira e do ombro da
menina.
Mas esse era um passo ainda
futuro.
Passávamos o filme inteiro a
esperar uma cena de amor para tentar algo mais arriscado, um beijo no rosto ou
nos lábios...
Para aquele domingo
escolhemos o Cine Excelcior, o filme não ajudava muito, passava Os Dez
Mandamentos com 4 horas de exibição, era cansativo, mas dava mais tempo para se
fazer diversas tentativas...
A sessão começou às 14 horas
e terminaria às 18.
Após muitas tentativas que
ocuparam quase 4 horas com poucos resultados, resolvemos ficar para tentar para
a sessão seguinte.
Fracasso total, pois o
público já era outro.
Ao invés de ir embora ficamos
indo pra cá e pra lá sem ter certeza do que fazer.
A lotação do cinema era de
600 lugares. Éramos em 4 amigos.
Depois de muito perambular
fomos novamente ao banheiro para fumar escondido.
Saindo do banheiro vimos algo
no chão. Era uma carteira que aparentava estar bem gordinha.
A intenção era gritar, mas
abafamos nossos gritos após abri-la.
Encontramos uma carteira com
quase Cr$ 400,00. A entrada para o cinema custava Cr$ 10,00.
Ao ver tanto dinheiro assim
ficamos excitadíssimos.
Resolvermos ficar sentados na
segunda fileira para observar se o dono estaria à procura.
Assim permanecemos por mais
uma sessão de quatros horas.
Aguardamos calados e ansiosos
durante todo esse tempo.
Fomos os últimos sair da
sessão ao final dessa sessão que terminou às 22 horas.
Na rua dividimos em quatro
partes a grana e fomos para o Chico Hambúrguer na Galeria do Bruni. Hambuguers ,
milkshakes, bananas splits... Comemos até não poder mais...
Depois compramos cigarros e
soltamos fumaças até cansar e ainda sobrou muito dinheiro que ficou para a outra
semana...
Mais tarde, disfarçadamente,
deixamos a carteira vazia, mas com todos os documentos na caixa do correio do
cinema.
Sim, foi errado.
Politicamente incorreto. Éramos jovens, imprudente e imaturos, mas
foi divertido.
Com o tempo a gente amadurece
e toma prumo.
Por Luigy Marques