imagem: vacinação contra gripe asiática em 1957
(Fim dos anos 50)
Noite. Adormeci na poltrona, assistindo a um
episódio de “LASSIE”. Fui acordado por minha mãe que me dizia: “Vá dormir na
cama”! No televisor, Lassie corria e latia. Sem me interessar pelo fim do
episódio, levantei-me e fui para o meu quarto ouvindo a minha “nonna” dizer à
minha mãe: “Com sono, a essa hora? Tem coisa errada com esse menino!”
Minha mãe respondeu. Achava que eu estivesse
resfriado...
Manhãzinha de frio. Levantei-me mais a contragosto
do que costume para ir à escola. Eu, normalmente um devorador, consegui comer
apenas uma fatia de pão com manteiga e beber meia “tazza” (xícara) de café com
leite.
O caminho da escola parecia alongar-se. Mais eu
caminhava, mais a escola parecia distante. O corpo doía, a garganta ardia e a
respiração ofegante dava-me um cansaço fora do comum. E que calor! Tirei o
pulôver. Suava.
A primeira parte da aula foi uma agonia. Não
conseguia prestar atenção ao que a professora dizia. A minha miopia acentuou-se
mais e as letras no quadro negro pareciam dançar. Nos meus ouvidos um zumbido
enlouquecedor. O meu corpo parecia estar pegando fogo... E que cansaço, meu
Deus! De repente o calor que sentia começou a alternar-se com um frio
excessivo.
Soa a campainha. Hora do recreio. Levantei-me da
carteira e fui para o pátio, andando como se carregasse o mundo nas costas.
Sentei na mureta para recuperar o fôlego. Pensei em comprar um refrigerante
para matar a forte sede que eu sentia, mas a cantina parecia tão longe e o
cheiro da sopa que era servida aos alunos e que sempre abria o meu apetite
desta vez embrulhou-me o estômago. É. O melhor é ficar sentado e não fazer
nada. Meu “nonno” sempre dizia que para certas situações, a inércia era o
melhor remédio.
Fim do recreio. E lá vou eu de volta à classe a
passos lentos. No corredor uma professora olha para mim e fica assustada.
Aproxima-se e põe a mão na minha testa e diz: “Meu Deus, você está ardendo em
febre!” Leva-me pela mão até a diretoria. Ouvido o “diagnóstico” da professora,
a diretora avalia a minha situação.
Conclusão: Acompanhado de uma servente da escola
cheguei à minha casa. A servente entregou o bilhete da diretora e foi embora.
Entrei, fui direto para o meu quarto e desabei na minha cama, sem tirar o
uniforme. Minha “mamma” e minha “nonna” foram até mim muito apreensivas.
Despiram-me e me enfiaram num pijama de flanela.
Minha mãe, boa conhecedora do filho que tinha,
começou a me metralhar no dialeto napolitano: “Que porcaria você andou comendo
dessa vez? Não disse para você não abusar dos sorvetes? Mas não! Você nunca me
ouve. É nisso que dá quando você me desobedece. Fica doente...” Minha “nonna”
pediu que minha mãe se calasse: “Calada, Annamaria! De moleques eu entendo”.
Matriarca cansada de guerra, mãe de vinte filhos (dois pares de gêmeos)
valendo-se de sua autoridade e experiência, disfarçando a apreensão com um
otimismo forçado, aproximou-se de mim. Disse-me com um sorriso nos lábios: “A
vedé cos’accade cu té.” (Vejamos o que está acontecendo contigo). Examina que
examina. Nada! Vovó “diagnosticou” apenas o óbvio: febre alta. Desistiu e pediu
à minha mãe para ir buscar o farmacêutico, lá na Rua Bresser.
O farmacêutico entrou no quarto e começou o exame.
Meteu a espátula na minha boca e examinou as minhas amídalas e garganta. Ficou
um tanto apreensivo. Começaram as perguntas sobre os sintomas. Eu respondi.
Ele, então, enfiou o termômetro debaixo do meu braço.
Nesse tempo de espera, minha “nonna” começou a
palpitar sobre a medicação: Quem sabe, uma Cibalena, um Melhoral para baixar a
febre. Talvez, um supositório... Eu então, levantei a cabeça, arregalei os
olhos, e gritei a todo pulmão: “Nu cullo mio, nissu’mmetterà niente!” (No meu
traseiro ninguém vai enfiar nada!) Rindo, o farmacêutico retirou e consultou o
termômetro: quase 40 graus! Olhou para minha avó e disse: Pode chamar “u
dottore” (o médico) para confirmar. O menino está com a Gripe Asiática!
O médico que atendia as famílias do quarteirão veio
e confirmou o diagnóstico. E avisou que “a Gripe Asiática era uma epidemia.
Portanto, contagiosa”. Enquanto falava, virou-me, abaixou a minha calça e
aplicou a mais dolorosa injeção que jamais tomei na vida. Enquanto o líquido
penetrava, eu fazia a “trilha sonora”: Gritos, choro e uma enxurrada de
palavrões... O médico escreveu a receita, avaliou o tempo de repouso e foi
embora.
Depois
de quatro dias, eu já estava em pé. Fraco, “um bagaço” , mas em pé! Porém, como
o médico me havia prescrito uma semana em repouso eu tive que ficar em meu
quarto para evitar a recaída, ou contaminar os outros.
E a Gripe Asiática derrubou muita gente. As ruas
ficaram praticamente desertas de crianças. Saia-se apenas, por necessidade. Em
todo o mundo milhões de pessoas morreram por causa dessa gripe, ou porque ela
agravou outros problemas de saúde.
Na minha casa a Asiática fez um estrago. Meu irmão
foi o caso mais grave: durante dois dias delirou presa de uma febre de 40
graus, que não cedia. Ele era vigiado dia e noite, temendo-se uma convulsão. O
terceiro a cair foi o “nonno”. Sentiu-se mal na rua e foi parar no
Pronto-Socorro. Diagnosticado e medicado, voltou para casa para curtir a Gripe.
Papai e mamãe, sem maiores problemas, passaram pelos incômodos e desconfortos
da Gripe Asiática.
Tio
Amedeo sentiu-se mal no trabalho. Seu corpo doía tanto que ele ficou travado.
Chegou em casa carregado pelos colegas de trabalho. Assim que entrou e me viu,
começou a me xingar e amaldiçoar por eu ter trazido a peste para dentro de
casa. Prometeu-me, logo que se curasse, iria chutar o meu “rabo” até o fim do
mundo.
Vovó foi a última a cair. Mesmo febril, com dores no
corpo, insistia em arrastar-se pela casa a fazer o serviço. Foi preciso ameaçar
amarrá-la na cama, interná-la na quarentena Santa Casa, se não se cuidasse.
Rendeu-se.
Antes não tivesse se rendido! Vingava-se por estar
presa ao leito impedida de cuidar dos afazeres da casa e de nós. E de seu leito
de convalescente, não permitia que o dia-dia da casa fosse interrompido. Aos
gritos, em dialeto napolitano, dava ordens. Exigia que lhe prestassem contas
sobre tudo. Até a chegada da Asiática, nunca vira a “nonna” de cama. E, entre
seus mandos e exigências nós íamos resistindo bravamente. Afinal era a “nonna”!
Era a mulher que dirigia a nossa casa – nossas vidas - com experiência e
sabedoria. E nós, nos sentíamos perdidos sem ela.
Assim como veio, a “maledetta” Gripe Asiática se
foi, sem deixar marcas ou sequelas importantes. Não deixou saudades, mas deixou
lembranças. Pelo menos para mim.
Zio Amedeu não chutou o meu traseiro até o fim do
mundo. Assim que melhorou foi até a edícula, onde eu estava engraxando os
sapatos. Agarrou-me por trás, levantou-me do chão e enfiou-me no tanque cheio
de água, onde as roupas estavam de molho...
Por Wilson Natale










