Com um litro
de Pernod
Fils a tiracolo e um amigo com
sua garrafa de Cinzano, subimos a
Rua Augusta, completamente “tocados”, em direção à Avenida Paulista.
Era 31 de
dezembro de 1967.
O plano era passar
o dia no sítio dos Andradas, da família da minha então namorada.
Iciamos
nossa jornada etílica na Galeria Ouro Fino, devidamente calibrados, rumo ao
topo.
No caminho,
paramos para dar um abraço no amigo Valdomiro
de Deus, o artista plástico primitivista, que teve a audácia de pintar um quadro
da Sagrada Família, vestindo Jesus com uma bermuda e Sua Mãe, de mini-saia.
Valdomiro também
usava mini-saia, cabelo à lá Black Power
para chamar mais ainda a atenção. Acabou sendo capa do Jornal da Tarde.
Nesse dia
Waldomiro estava meio atacado; deveria estar escondendo alguma gata e não
estava pra muita conversa. Ao “sacar” o assunto, levantamos acampamento, desejando
a ele um feliz 1968, sem saber que este seria o ano mais complicado para os
brasileiros.
Ele morava
num quartinho onde funcionava também seu atelier, ao lado do HI-FI, o santuário das músicas
importadas, que municiava a guerra das rádios Excelsior e a Difusora, na época.
Entre goles de Pernod e Cinzano nos colocamos de novo em marcha.
No caminho, paramos na
Alameda Itu, endereço da turma que nos abrigava naquele tempo, para abraçar os
amigos Vadinho, Magôo, Sandra e Dulce, todos embarcados na viagem rumo a Marrakech
e pra lá de Bagdá...
Ali ficamos o tempo suficiente
para dar um abraço geral na galera, seguindo em frente, só parando no
cruzamento da Augusta com a Paulista, esperando a chegada do Ano Novo. E ali
permanecemos, tomando nossos drinques, em ritmo de conta gota, até esvaziar a
garrafa.
À meia noite em ponto,
nos abraçamos e a todos que passavam por ali. Fizemos uma algazarra junto com o
buzinaço de quem passava. Algumas pessoa lançavam serpentina e confete nos
passantes. Nos divertimos um bocado.
Duas horas mais tarde, o
fígado do meu amigo acusou fragilidade...
Seu estado era terrível.
Totalmente fora de si, ele se postava de forma ereta, para logo em seguida seu
corpo pender para a frente fazendo as mãos encostarem no chão, mas sem cair.
Logo retomava a posição de sentido, para depois pender o corpo para frente,
encostando as mãos no chão. Ficou assim se repetindo durante uns 30 minutos.
Sua postura parecia um polichinelo, variando do dramático ao hilário.
Quando me dei conta eram
quase 4 horas, quase amanhecendo, me lembrei que ainda tinha o dia cheio pela
frente, no sitio.
Nesse momento, ouço uma
voz: “sujei nas calças”. Caraca. Era tudo o que eu não queria ouvir.
Rapidamente deu pra
sentir que alguma coisa tinha acontecido.
Assim como um incenso,
aquilo tinha tomado conta do ar.
Me deu pânico. Como iria
levar o cara pra casa, todo travado e ainda por cima, com “a mala cheia”.
Precisava encontrar uma
solução para o caso e também na minha ida para o sitio.
O ‘’perfume” estava cada
vez mais triste, difícil de aguentar.
Com muito custo,
consegui encontrar um taxi que topasse a empreitada.
Falei com o motorista,
que ele havia vomitado e precisava levá-lo para sua casa na avenida Santo
Amaro. Após discutirmos o preço e com uma boa gorjeta, ele topou.
Coloquei-o no banco de
trás do Ford Mercury, deixando todas
janelas abertas e fui na frente, com o nariz pra fora.
Chegamos ao prédio que
ele morava.
Apertei a campainha. Assim
que a porta se abriu, vi a figura do pai do meu amigo que perguntava: O que
havia acontecido?
Expliquei, enroladamente,
que havia bebido umas doses a mais e coisa e tal... daí o estrago.
Ajudei-o a entrar até o
meio da sala. O pai dele disse que iria colocá-lo no banho...
Em seguida, virei as costas
e cai no mundo.
Passei o dia no sítio, extremante
preocupado com o desenrolar da história, pois ambos éramos menores de idade.
Não consigo me lembrar
de nada do sitio, somente das felicitações que recebia: Feliz ano novo, Feliz
1968, quando faria 18 anos.
Ainda bem que tudo isso
agora é passado.
Feliz ano novo para
todos !
Um feliz 2@12 para nós
todos
Por Luigy Marques