Queria estar em casa, em companhia dos amigos, da família.
Perguntava-me em pensamento:
- O que estou fazendo aqui, meu Deus?!
Ou eu era um tremendo masoquista, ou um covarde que, incapaz de cometer o suicídio profissional de dizer um não, optara por agonizar e morrer de tédio naquela festa de fim de ano.
O Coordenador geral convidou a todos da equipe, os efetivos, estagiários e os contratados para passar o “Réveillon” em sua casa. Como dizer não à sua majestade, o “chefão”? Como dizer não a quem tanto nos elogiava e, ao mesmo tempo, nos confiava novas pesquisas? Como estar em um lugar, onde o antagonismo se fazia presente? Efetivos e contratados não se “bicavam”. Resignação, teu sobrenome é Natale! Menti a mim mesmo. E lá estava eu, a morrer de tédio, naquela mansão do Morumbi, preocupado apenas em como voltar para casa.
Uma festa artificial. Ali, tudo era “pelo social”. Tudo na base da “rasgação de seda” e elogios falsos. Gente polida e educada, fingindo afetividade e sentimentos inexistentes. A única afinidade que havia era a relação de trabalho que, por sinal, era muito desgastante e competitiva. Estar ali me lembrou a cena do baile do filme “A Dança dos Vampiros”, do Roman Polanski.
Sentado no meu canto, bebendo champanhe, via e ouvia a “fauna” a desfilar.
Uma “perua” comenta com a amiga que “estava de branco e que, para ter sorte e dinheiro no ano novo, estava com uma calcinha amarela... Não uma calcinha qualquer! – enfatizou – Era uma Victoria’s Secret”! Satisfeita, ela ouvia as exclamações invejosas da amiga. Banalidades, futilidades.
O “garotão” malhado exibia o seu duvidoso Armani... Com aquela costura e aquela linha de poliéster, só se o terno fosse um “Armênio”, dono da confecção de roupas masculinas lá do Bom retiro! Tudo pelo social.
Uma festa cheia de conversas vazias, risinhos, hálitos alcoólicos. Abraços de tamanduá e beijinhos ofídicos.
Uma estagiária jovenzinha, caindo de porre, comenta com a amiga: -“Você sabia que “Réveillon” é uma palavra francesa”?
Putz! Pensei comigo: “Não, sua anta! É uma palavra havaiana, como a sandália!... Ri de mim mesmo e da bobagem que pensara.
Perguntava-me em pensamento: ”O que eu estou fazendo aqui”?
Isolei-me. Bom comediante que sou, deixei o meu corpo expressar os sorrisos, as piscadelas e gestos. Refugiei-me em meus pensamentos.
“Réveillon”, palavra francesa... Não é que a constatação da “anta” levou-me a passear pelo ”réveillon” e pelos anos 60?
Lembrei aqueles anos, quando muitos achavam que era importante (outros achavam uma tremenda “viadagem”) falar Francês. Era chique! Afinal, era o idioma universal, idioma dos diplomatas e tudo neste país ainda era francês: Etiqueta, roupas, perfumes; literatura, teatro, cinema; Beauvoir, Genet, Sartre, Sorbonne. Revoluções por minuto... E virou moda a tradição do “Réveillon” francês: Ostras com Champanhe!
Automaticamente, olhei para a taça que estava ao meu lado, com o conteúdo ainda pela metade... Fingia que bebia. Não conseguia engolir aquele “champagne Veuve Clicquot”. O chefão oferecera a todos, ou a mim, um champanhe “arrolhado” (gôsto de rolha). Ahahahaa!... Se o champanhe estava assim, imaginem as ostras, se fossem servidas.
Pensava: “Estou rindo de quê? O que estou fazendo aqui, droga”?!
Estava nos meus últimos estertores da agonia. Queria estar em qualquer parte. Agarrado a uma bóia, no meio do oceano.
Comecei a vagar pelos meus “Réveillons” de antigamente, os tais “Rei-velhão”, como dizíamos a sorrir.
Queria estar naquele escritório da Rua Álvares Penteado, onde pela janela eu despejava toneladas de papéis picados sobre a rua... Queria de volta a energia, aquela egrégora de felicidade que envolvia o hoje Centro Histórico. Queria os abraços sinceros e despretensiosos, as palavras bem humoradas dos colegas de trabalho. Queria novamente sentir a seiva da vida (o centro da cidade) a correr em minhas veias. Eu era o dono do mundo! Podia tudo.
Queria do trabalho, voltar para casa e confraternizar-me com os amigos e vizinhos! Depois, em frente ao televisor, esperar pela Corrida de São Silvestre. E, meia-noite, ao finzinho da corrida, ouvir o toque das buzinas dos carros, os sons dos apitos e sirenes das fábricas; os nossos gritos de Feliz Ano Novo dentro de casa, pela rua e o nosso incessante correr aos portões das casas tocando insistentemente as campainhas... Era preciso fazer muito barulho para despertar, acordar o Ano Novo!
Então, uma pausa para a ceia. Sentar-se e devorar o pato ou o ganso com laranja. Mas, só depois de comer três bagos de romã (tradição vinda do Dia de Reis e agregada ao Ano Novo).
Como eu queria ter de volta os meus bailes de “Réveillon” do Juventus, do Palmeiras; queria de volta aquele baile tão especial no Palácio Mauá...
Pensava: “Se eu não sair daqui o mais rápido possível, pelas minhas próprias pernas, vou sair dentro um “rabecão”! Causa da morte: Um ataque fulminante de tédio”.
Meia-noite e meia, alguém resolve ir embora e pergunta: ”Alguém quer uma carona até a Av. Paulista?"
Eu disse que queria! Ufa!... Abençoei, do fundo do meu coração, aquela boa alma.
“Largado” na Paulista, sentia-me livre e feliz! Livre demais, feliz demais para tomar um táxi e ir para casa. Precisava de movimento.
A pé, desci a Rua da Consolação, rumo ao centro. Carros passavam e buzinavam. Passageiros anônimos desejavam a mim um Feliz Ano Novo. Eu retribuía.
Andando, seguia em frente. Na Xavier de Toledo, olho para a Rua 7 de Abril das minhas correrias de office boy, dos meus passeios. Vou seguindo. Viaduto do Chá, Patriarca, Rua Direita, Largo da Misericórdia... Na Misericórdia, olho para a Álvares Penteado. Com o meu coração apertado, lembrei dos dias que vivi ali. Naquela rua está o tudo de bom que fez com que até hoje a minha vida valesse a pena!
Na Sé, à espera de um táxi, percebo que naquele momento, juntos estávamos eu e a cidade. E todos os “Réveillons” que passamos. Percebi também que o meu “Réveillon” verdadeiro havia começado quando eu coloquei meus pés na Paulista! Eu como eu sou, a cidade como ela é, acabamos por ter, juntos, um grande e Feliz Ano Novo!
Às vezes é preciso andar. Vagar. Perder-se para encontrar a si mesmo...
A TODOS, UM FELIZ ANO NOVO!
Por Wilson Natale