segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O beijo


imagens da internet: Cine Metro; Praça Ramos (leiteria Paulista); Fonte das Lagostas

(Texto de 1995)
Cenário: A frente de um cortiço, no Bairro de “Desire”, em New Orleans.
Cena final - dramaticidade intensa.
Kowalski chora e grita desesperadamente:
- “Stella”!... “Stella”!... “Stellaaaaaaaaa”!...
A câmera se afasta lentamente para um plano geral.
“Fade” (escurece a tela). Aparece o “The End”…

Ahahahahahahaaaaaaaaaa!!!

Eu caio na risada. Não pelo filme, “Um Bonde Chamado Desejo”, que é trágico e amargo. Ri porque ele reavivou uma lembrança que eu nunca esqueci, esqueço e jamais esquecerei.
Peguei o controle remoto e rebobinei a fita.
Enquanto fazia isso fui garimpando retalhos de memória.
E não duvido que o fato de gostar de tudo que o Tennessee Williams escreveu, gostar da Viven Leigh e do Marlon Brando esteja ligado a esse pedaço do meu passado...
1960 – Eu tinha 12 anos e, acompanhado por adultos já frequentava os cinemas do Centro e, em uma dessas idas aos cinemas centrais, o personagem principal foi a minha amiga Drubrafka, cujo apelido familiar era “Koka”...
Um aparte:
A Koka veio pequenina, diretamente da Jugoslávia para o Brasil. Estudávamos no mesmo Grupo Escolar e continuamos a amizade pela vida a fora. Éramos amigos e vivíamos um na casa do outro. E nossas famílias acabaram por fazer amizade.
Vivíamos para cima e para baixo de mãos dadas, meio que agarradinhos um no outro. E, claro, trocávamos um milhão de beijinhos na face. Tudo muito ingênuo e espontâneo. Diziam os meus familiares e os dela que nós estávamos namorando. Se estávamos namorando, nem eu e nem ela sabíamos. Mas que havia alguma coisa entre nós, isso havia. Junto dela eu sentia algo estranho, gostoso, que não sabia definir. Fosse hoje, eu diria: “Estou apaixonado”!
Continuemos.
Eis que, num sábado, a mãe da Koka – e a Koka – veio à minha casa avisar aos meus pais que, no domingo cedo, me levaria ao cinema. Iríamos à matinê do Cine Metro, que estava apresentando, durante os domingos daquele mês o Festival Walt Disney. Íamos assistir “Cinderella”.
Antes das dez horas da manhã já estávamos na Cidade, passeando pelas ruas e olhando as vitrines (naquele tempo ainda fazíamos isso. Depois de 68, as vitrines foram escondidas atrás de portas de aço corrugado.).
Lá pelas onze horas estávamos fazendo um lanche na Leiteria Paulista, na Xavier de Toledo, quando apareceu um casal, amigos dos pais da Koka. A mulher estava eufórica. Comentou que iam ao Cine Rio Branco rever o filme “Um bonde chamado desejo”, filme que há muito não passava nos cinemas. Eufóricos também ficaram os pais da Koka. Adorariam rever o filme. Mas, o que fazer, pois a película era proibida para menores (18 anos). Pensaram, repensaram, confabularam e resolveram!
Colocaram, eu e a Koka, dentro do Cine Metro, com a recomendação que, quando terminasse a sessão, esperássemos por eles junto à bilheteria do cinema e lá se foram para o Cine Rio Branco.
Dentro do cinema fomos direto à “bombonière” comprar nossos doces preferidos e, em seguida, procuramos um bom lugar na platéia.
Começa a filme... Na penumbra a Koka se aconchega junto a mim e coloca a cabeça no meu ombro. Eu prendo a mão dela na minha e ficamos a ver Cinderella.
De repente, senti algo estranho. Algo além da minha eroticidade de pré-adolescente. Algo que ia de um sentimento puro e indefinido ao desejo. Era algo mais que sexo.
Vez ou outra a Koka levantava a cabeça dos meus ombros e me olhava nos olhos com os seus olhos azuis hipnóticos.
Senti um misto de agonia e ansiedade. E a maciez daquela mão entre as minhas, o perfume que emanava daqueles cabelos louros levaram-me à loucura.
Foi quando aconteceu o meu primeiro beijo dado em uma boca...
Com uma forte taquicardia e fora de controle seguro a cabeça da Koka entre as minhas mãos e dou-lhe um tremendo beijo na boca. Beijo correspondido... Eu tremia dos pés à cabeça.
Tá certo que o meu primeiro não foi bem um beijo. Foi mais uma trombada de lábios, um bater de dentes - doeu. Não foi bem um beijo, concordo... Foi mais um morder. Mas foi o primeiro. E, marcou-me para sempre, nesse beijo mal dado, o gosto da saliva quente - sabor dropes de hortelã e o calor dos lábios macios... Muito mal dado mesmo, esse beijo inesquecível.
Finda a sessão, saímos e ficamos a esperar os pais da Koka. Mas, estávamos nas nuvens. Impossível de se ficar parado. De mãos dadas, fomos olhar a Fonte das Lagostas, na Praça Júlio Mesquita, depois fomos à Praça da República, onde trocamos mais alguns beijinhos (a prática leva à perfeição) e voltamos para frente do Cine Metro. Lá estavam os pais da Koka, apreensivos, loucos da vida. Voltamos para casa ouvindo bronca sobre bronca.
Modo mais triste de se sair do paraíso dos sonhos para o inferno da realidade...
E ai? Alguém mais ainda se lembra do seu primeiro beijo? (risos)

Por Wilson Natale


sábado, 19 de novembro de 2011

Maluco sem nenhuma Inspiração e ainda computador no braço

Estou aqui imóvel, mudo, parado, praticamente estacionado diante de um computador, mais parado e mais calado do que eu. Se falo, ele não responde. Se responde, eu não o ouço.
Eu, com o braço machucado, disfarço a dor que sinto e tento em vão escrever algo, um texto uma história, algo que possa enviar para que amigos leiam.
Mas... Continuo sentado, calado, como um cheque sustado, detido, interrompido, sem idéias na cabeça e assim, feito uma besta, escrevo o pouco que me vem a cabeça.
Penso em minha cidade, minha São Paulo querida, onde passei 38 anos de minha vida, de onde estou ausente por 35 anos, e quando as vezes a visito, vejo-a toda mudada.
Pego um ônibus e vou rodando pela cidade, em direção ao famoso bairro da Lapa, passo pela Turiassú e vejo o Palestra Itália, totalmente revirado, parece que uma bomba destruiu o estádio.
O ônibus Vila Penteado avança pela Rua Guaicurus, vejo estarrecido, pela janela do ônibus, vários quarteirões de casas todas vazias e pichadas, lugares que quando jovem muitas vezes andei , agora abandonados feito as ruas de uma cidade fantasma.
E assim, minha mente vai seguindo em frente, descrente de encontrar qualquer assunto, implorando igual a um mendigo, por alguma história, ou então, alguma idéia da memória desse meu computador super capaz, que armazena diariamente milhões de idéias, mas, também, é o maior idiota que eu conheço, porque não é capaz de escrever nada sem necessitar de mim.
Eu, querendo falar de São Paulo, por incrível que pareça só me vem o Corinthians na cabeça.
Gostaria de estar agora em São Paulo, andar pela Paulista, Brooklin, Vila Olímpia, Santo Amaro, Itaim, visitar o Mário, o Estan, o Aucideme, o Saidenberg. Ir até o Ipiranga bater um papo com o Nelinho, falar com a Margarida, a Bere, o Laer. Tirar a Praia Grande lá do litoral, trazê-la agora mesmo para a nossa Capital, junto com o Miguel também a Sonia, buscar o Zeca, o Falcon e toda a turma do encontro das Redondas .
Fazer um encontrão só de amigos que gostam de São Paulo, então mostrar para o Brasil inteiro que nós estamos hoje lado a lado. Porque essa Metrópole tão bonita, nesse Blog por todos nós muito querido, dia após dia vai unindo um pouquinho mais a gente.
Quero mudar de lugar o meu computador, talvez em outro canto eu não sinta tanto a dor no Braço, que agora até parece não estar doendo muito.
Abraço o meu computador nos meus braços e quando dou o primeiro passo, percebo que estou mesmo... COMPUTADOR

Por Arthur Miranda (tutu)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Hoje essa atitude agressiva é chamada bullying



O menino de óculos e seus dois irmãos iam todas as manhãs para a escola na Rua Pintassilgo, em Moema, onde estudavam desde o maternal, curtiam muito a escola e todos os amigos.
O menino de óculos, apesar da sua baixa visão, não media esforços para superar os obstáculos que surgiam no seu dia a dia, principalmente os referentes aos estudos. Contava com a colaboração da família e de um e outro amigo para a gravação de algumas aulas e dos livros de literatura. Com sabedoria e determinação foi criando mecanismos que facilitassem os seus estudos e nem as dificuldades foram obstáculos para que ele sempre se destacasse como um ótimo aluno.
No ano de 1980 especificamente, assim que o menino de óculos entrava na escola e se separava dos irmãos, o menino Henry vinha ao seu encontro gritando:
- Bom dia, quatro olhos.
Durante esse ano letivo Henry foi intensificando suas ofensas, passando a xingar e fazer terríveis imitações, mas, normalmente tudo isso era feito quando não havia colegas e professores por perto; enfim, tudo era feito covardemente.
O menino de óculos procurava se esquivar, não dar importância a tanta agressividade, mas aquilo tudo sem dúvida mexia muito com ele.
Um dia, durante o recreio, Henry resolveu sacanear, zoar de todas as maneiras o menino de óculos e, dessa vez, fez questão de fazer tudo na frente de todos que por perto estavam. Durante bons minutos repetiu insistentemente suas maldosas frases.
Alguns professores, alunos e seus irmãos, presenciando tudo aquilo, foram se aproximando... O menino de óculos, de cabeça erguida, caminhou lentamente em direção ao Henry e quando chegou bem perto, cara a cara, uma roda foi se formando
 e o menino de óculos esbravejou bem forte para que o menino maldoso e, quem sabe, o mundo também, pudesse ouvir:

-Tenho certeza que a partir de hoje você nunca mais vai sacanear alguém, quem sabe hoje você vire gente e passe a ter respeito pelo outro e, numa questão de segundo, lhe desvencilhou um único e certeiro soco. Os amigos e professores fecharam a roda, deixando o Henry de fora.


O menino de óculos sou eu, Arthur , esta história tem 30 anos e essa atitude covarde do valentão e maldoso Henry, hoje tem um nome: bullying.
Por Arthur Minniti

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A data de 15 de Novembro


imagens extraídas da internet Rua 15 de Novembro, Praça Marechal Deodoro e Praça da Reública vista do terraço Itália.

A chuva cai, ininterruptamente, levando-me a longos momentos de reflexão, neste feriado de 15 de Novembro, recolhida em casa.
Volto aos meus tempos de menina, quando meu amado pai e meu avô materno nos contavam sobre estas datas especiais.
Meus irmãos e eu nos sentávamos no chão, ao redor deles, com verdadeiro bombardeio de perguntas sobre estas datas e por que algumas ruas de São Paulo levavam os nomes famosos e nomes com datas.
Lembrei-me quando perguntamos sobre a Rua 15 de Novembro e sobre a Praça Marechal Deodoro... Meu avô, leitor assíduo sobre tudo o que se referia à São Paulo, logo nos explicou sobre o levante político militar, ocorrido em 15 de Novermbro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista de governo no Brasil, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e, por conseguinte, pondo fim à soberania do imperador Pedro II. Foi, então, proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil e que esta proclamação havia sido na Praça da Aclamação, atual Praça da República, na cidade do  Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país.
Meu querido pai disse que nos levaria para vermos a Praça da República da cidade de São Paulo, a Praça Marechal Deodoro e também a Rua 15 de Novembro, inclusive nos dizendo sobre esta rua, que já teve vários outros nomes em outras épocas, mas que passou a ter o nome 15 de Novembro por ocasião da proclamação da reúplica.

Lá fomos nós. Meu pai e nós, de ônibus até o centro de Sampa. Ficamos meio decepcionados, pois lá na tal rua não havia nada que mostrasse tão grandioso evento. Mas, meu pai nos falava que era considerada a rua mais chique da cidade, onde se localizavam os principais bancos, além do comércio e cafés mais sofisticados.

Partimos depois para a Praça da República, que foi palco de manifestações importantes da história nacional notadamente com a eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932, no dia 23 de Maio, ao se manifestarem os paulistas contra a ditadura Vargas, frente à sede do partido governista (era o Partido Popular Paulista, ex- Legião Revolucionária, fundado pelos asseclas da ditadura.
Nosso passeio se estendeu até a Praça Marechal Deodoro e logo fomos perguntando sobre a tal estátua que meu avô já nos havia dito que se tratava do monumento a Luiz Pereira Barreto,  e que homenageava o grande médico e cientista. Considerado o descobridor do guaraná, o responsável pela industrialização da cerveja em São Paulo e o introdutor das primeiras safras de uvas destinadas à produção de vinho. Monumento inaugurado em 1929 foi concebido pelo artista italiano Galileo Emendabili, que colocou duas figuras de mulheres: uma fazendo referência à medicina e a outra à agricultura.
Já exaustos, voltamos para casa, novamente de ônibus e lembro-me que adormeci recostada no colo de meu pai.
Doces lembranças destes entes queridos que foram meu pai e meu avô, contando-nos gostosas histórias de nossa cidade amada.
Por Sonia Astrauskas

domingo, 13 de novembro de 2011

Praça 28



imagens da internet: Praça 14 Bis e Avenida 9 de Julho
Ayrton foi o cara mais divertido que já conheci numa agência de propaganda. Era o palhaço da turma. Simpático e bem vestido, à primeira vista, ninguém o diria. Mas, logo seu rosto, como de borracha, contraía-se em caretas surpreendentes e não dava mesmo para levar a sério.
Gozava com todo mundo; era produtor de TV, mas a sua real ocupação era inventar brincadeiras com o pessoal. Colocava sacos com talco sobre as portas, de modo que a pessoa que abrisse ficasse toda empoeirada. Organizava os disputados torneios de pebolim, na hora do almoço.
Montou um cineclube após o expediente, onde vi muita coisa boa, inclusive Cidadão Kane, de Orson Welles, O Silêncio e Morangos Silvestres, de Bergman. Mas, nem sempre tal nível era mantido; de vez em quando era mesmo uma fita pornô, em preto e branco.
Havia outra brincadeira, na qual pedia a um ingênuo para equilibrar uma moeda na testa, de modo a tentar derrubá-la num funil colocado abaixo, para ver se a moeda passava. Mas o funil estava tampado, e quando o coitado baixava a cabeça, recebia um jato de água do recipiente.
Fora isto, era sério e competente em sua função, que exercia com dignidade, coisa surpreendente no clima de corrupção, caixinhas e "bolas" que imperava entre os produtores da época.
Mas, sua principal característica eram habilidades extraordinárias; vertia lágrimas na hora que queria; soltava fumaça pelos ouvidos e bolhinhas de saliva pelo nariz.
Generoso, dava carona aos colegas pedestres, que iam para seus lados. Entrávamos na sua DKW e seguíamos a 9 de Julho afora, pois eu ia ficar na altura do Planalto Paulista. Nesse trajeto, passávamos pela Praça 14 Bis, onde a réplica do avião de Santos Dumont decorava seu canteiro central. O bom Ayrton proclamava então, com sua voz parecida com a de Ronald Golias: - Praça 28!
Essa grande figura já passou para o andar de cima, mas a praça ficou sendo, para mim, para sempre, 28. Mesmo desfigurada, com viaduto e passarela no meio, sem avião, não tem importância: é Praça 28, e acabou.
Por Luiz Saidenberg

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Terminal de Trem CPTM - Estação da Luz - São Paulo/Jundiaí Trem de Turismo

imagens cedidas pelo autor: Estação da Luz e Ferrovia CPTM - Santos/Jundiaí
Todo dia, naquela maldita hora
que martírio, que agonia
retornar, ir embora...
Desce a noite,
trazendo garoa e neblina

É gente que chega, é gente que vai...
Mas que importa tudo isso?
Importa ficar, permanecer e eternizar...

As horas não param, mas deveriam.
Relembrar momentos...
Bem bom viver,
E não ter receios,
Seus seios são belos

Quem sabe "lê" nas entrelinhas...
porém nada diz, nada fala, mas observa
Talvez nas estrelinhas... Talvez esteja escrito nas estrelas

O trem parte... Levando
e devolvendo pessoas e destinos
Esse trem também parte muitos corações,
sem perguntar, sem consentimento
O trem separa pessoas
e nunca para, mesmo que se peça

Trem que leva gente pra longe
Traga esse povo de volta...
Há corações a espera.

 

Por Luigy - Luiz Carlos Marques

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Loucos desde muito tempo


Nasci e me criei no bairro da Parada Inglesa, na zona norte da capital.
Desde pequenino eu me acostumei a vê-lo por lá. A principio sentia medo dele, mas depois, conforme fui crescendo me acostumei com ele e o medo foi passando. Seu nome era João, mas a gente o conhecia por João Louco ou João Sonho, porque ele tinha um grave problema intelectual. O João era enorme, forte como um urso, mas, totalmente inofensivo; fazíamos mais mal a ele que ele a nós, principalmente quando algum idiota dava-lhe bebida alcoólica, que interagindo com os fortes remédios que ele tomava, deixava-o lunático.
Já adulto, tive que me afastar do meu bairro, por conta da perseguição política, da qual fui vítima, era o tempo cruel da ditadura militar.
No final da década de setenta, já com a anistia, voltei ao meu bairro e o João continuava por lá.
Certo dia, no portão de minha casa, conversando com ele, em seu estado normal, digamos assim, descobri que o João era corintiano e naquele dia ele me surpreendeu. O homem sabia tudo do Corinthians, era uma enciclopédia ambulante do Corinthians. Os principais jogadores, os times mais famosos, os principais dirigentes, as principais datas, os principais títulos e por ai vai.
Mudei-me de lá e hoje não sei mais dele, não sei mesmo se ainda está entre nós, mas hoje, quando escuto a torcida do Corinthians gritando que somos um bando de loucos, lembro-me dele e chego à conclusão que louco somos há muito tempo.
Tai ou estava o João que não me deixa mentir.

Por Marco Aurélio Loureiro

domingo, 6 de novembro de 2011

Memórias saborosas


imagens extraidas do site da Cantina Veneta (www.cantinaveneta.com.br)

Recentemente, durante uma reunião de autores ao redor de várias pizzas, foi definido o local onde será realizada a nossa Festa de Confraternização Anual. Por minha sugestão foi escolhida uma tradicional Cantina de São Paulo, no bairro de M’Boi Mirim, a CANTINA VENETA.
Depois, já em casa, buscando detalhes para transmitir informações, minha mente foi tomada por um turbilhão de lembranças que vou tentar ordená-las e registrá-las neste texto.
A Cantina Veneta, conforme informações colhidas, foi inaugurada em 1957, eu, os demais DUQUES DE PIU-PIU, mais um grande amigo, o Pascoal, começamos a frequentá-la a partir de l958. 
Éramos assíduos frequentadores do Recreio das Carpas (Salão de Baile instalado na Cidade Ademar) e todos os sábados para lá nos dirigíamos em busca de horas agradáveis de dança e descontração. No principio, a reunião para irmos ao baile ocorria por volta das 20 horas, na Cantina do Natalino, na Rua Manoel Dutra. Ali, saboreávamos algumas pizzas e depois, devidamente alimentados, nos dirigíamos a Praça das Bandeiras para embarcar no ônibus da Breda, fretado para levar os bailarinos sem condução própria até o Salão.  Só não usávamos o ônibus quando o Pascoal, mecânico da EquipeTubularte, conseguia um carro emprestado.
Aí, então, nosso programa era alterado, nos encontrávamos por volta das 17 horas e íamos, no carro emprestado, até a Cantina Veneta. Chegávamos por volta das 18 horas, e, devidamente servidos de gigantescas caipirinhas, tomávamos de assalto a quadra de boccia, jogando diversas partidas até que um dos proprietários da Cantina viesse nos informar que a comilança poderia começar.
Famintos, devorávamos várias lasanhas, que eram e ainda são, servidas em cumbucas de barro e preparadas em forno de lenha, completamente polvilhadas de queijo ralado. Como acompanhamento, tínhamos um delicioso frango assado, servido ao molho de salsa (sensacional) e muita polenta frita, tudo regiamente regado com cervejas geladíssimas e, às vezes, de um vinho tinto.
Depois fartos, embarcávamos novamente no carro emprestado e partíamos em busca da música, da dança e de boas companhias femininas.
Bem, os Duques de Piu-Piu, foram namorando e casando e até mudando para o andar de cima, os bailes foram sendo abandonados, mas o que eu nunca abandonei, desde aquele longínquo ano de 1958 até este momento, foram minhas visitas à Cantina Veneta.
Ali levei minha namorada (depois esposa e hoje exposa), meus filhos, meus netos, minha atual e grande companheira e, agora, deverei levar meus pares de escritas.
O cardápio de nossa Festa de Confraternização deverá ser igual ao que eu sempre consumi na minha vida, assim como será igual o atendimento que sempre tive nessa Cantina.
Não tenho medo de que a sugestão dada foi a melhor escolha.
Agora, só nos resta aguardar o grande dia e depois comer, comer e beber, beber...

Por Miguel Chammas

sábado, 5 de novembro de 2011

No Ipiranga, proibido para menores

Na década de 50, aqui no Ipiranga existiam alguns lugares proibidos para menores de 18 anos.
Na Estrada das Lágrimas havia uma casa conhecida como "Casa da Sinhá"; em São João Clímaco havia dois locais, um eu não me lembro o nome, mas o outro era chamado de Castelinho;  na Via Anchieta havia um cabaret de nome "Mito" (ficava onde hoje está situado o Colégio Regina Mundi);  no Sacomã ficava o Restaurante Paladar.
Não é preciso repetir o que nós, no início da puberdade, sentíamos quando os mais velhos contavam as suas aventuras vividas nesses locais; eu mesmo somente consegui conhecer o "Mito" já quase nos seus últimos dias, graças a um expediente pouco recomendável: um amigo conseguiu adulterar o ano do meu nascimento em uma carteira de escola, onde constava 1935 ele conseguiu transformar em 1933.
Naquele tempo não havia esferográfica e as carteiras eram preenchidas com caneta tinteiro, com um palito e algodão ele fez uma espécie de pincel e, molhando em amoníaco, apagou a parte superior do número 5, depois com uma caneta comum, molhou a pena no vidro de tinta azul e transformou  "3". Logo depois a carteira foi apreendida pela secretaria da escola, pois o funcionário estranhou a minha idade.
O porteiro do cabaret não foi capaz de reconhecer a alteração pois a pouca iluminação da rua dificultava a leitura do documento.- Bons tempos aqueles!

Por Leonello Tesser (Nelinho).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A noiva da festa junina

Morei na região de Vila Hamburguesa, que hoje se encontra incorporada à Vila Leopoldina.
Recordo-me que por volta de 1963, todos que moravam nos arredores ficaram contentes com a vinda da famosa caravana do “Peru que Fala”, do famoso Silvio Santos, para um terreno extenso que existia na esquina da Rua Nanuque com a Rua Schilling. Silvio Santos realizava seus shows com farta distribuição de prêmios, o que fazia a felicidade de todos!
Neste terreno também se instalavam circos e parques de diversões, com suas barraquinhas de quermesse. E lá íamos a passear com as amigas, esperando sermos contempladas com as músicas que saiam dos alto-falantes, que seria dedicada a algumas das moças, por alguém pelo qual batia mais forte nossos corações juvenis.
No mês de Junho, os três Santos também eram homenageados com as ditas festas juninas. Montavam-se barracas de brinquedos e jogos inocentes, regados com muita pipoca. Formava-se, então, a quadrilha, com os noivos que chegavam em uma carroça enfeitada com flores. O padre realizava o casamento, com encenação, como mandava o figurino (termo antigo).
O pai da noiva, sempre munido de sua espingarda, obrigava o noivo a aceitar a noiva, e em seguida saiam a desfilar pelas ruas ao redor. Na volta, todos dançavam ao som da música caipira, que ainda hoje é tocada nestas festas.
Infelizmente, nunca fui escolhida para ser a noiva, o que era uma satisfação para as escolhidas, já que se tornavam as participantes principais da festa.

Por Maria Thereza Marangoni

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Hoje é finados


HOJE É FINADOS
TUDO ACABADO,
NOSSO RIO JÁ SECOU,
O FOGO APAGADO,
A PONTE QUEBROU.
PRIMAVERA NO FIM
O SOL QUE ERA LINDO,
SUMIU NO HORIZONTE,
E ENTÃO VEIO A NOITE,
ESTENDENDO SEU MANTO
SÓ O RESTO DE ONTEM
FICOU.

É DIA DE CHORO
CRUEL SINFONIA
SÃO PAULO PARADO
DE CHUVA ALAGADO
NÃO HA ALEGRIA
E NO ENTANTO É FERIADO
DIA DE FINADOS.
UM CLARÃO LA NO CÉU
NOVO DIA ANUNCIA,
E COM ELE ALEGRIA
DE PODER TER VOCÊ
PERTINHO AO MEU LADO.
DE NOITE E DE DIA
NESTE TRISTE FERIADO.

VOCÊ QUE É NATAL
PERFEITA ALEGRIA
É A VOLTA É A IDA
POR MIM TÃO QUERIDA
MINHA SANTA CEIA
É O SANGUE VERMELHO
QUE CORRE NA VEIA
É UM PARTO DE LUZ
É A MÃO QUE CONDUZ
É O GRANDE PRESENTE
QUE ATÉ MESMO AUSENTE
ME FAZ TÃO CONTENTE
ME ENCANTA E SEDUZ.

E VEM O DEZEMBRO
NASCENDO DE NOVO
DEPOIS O ANO NOVO
ALEGRIAS EM DOBRO
VOU RESSUSCITAR.
VOLTAR E TE AMAR,
VOCÊ QUE É SÓ LUZ,
O RIO QUE CONDUZ,
E EU QUERO FICAR
PRÀ SEMPRE AO SEU LADO
APESAR DO FINADOS,
EU QUERO VIVER.

Por Arthur Miranda (Tutu)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Ministério da Saúde informa: Trabalhar feito louco faz bem pra saúde!


Meu nome é Joaquim Ignacio, sou Técnico de Enfermagem aposentado e acho melhor explicar logo que diabo de texto estou tentando escrever. Estou imaginando falar sobre meus últimos empregos e a luta que foi minha vida. Vou pedir desculpas antecipadas por, a partir de agora, escrever na 1ª pessoa.

De repente as luzes se apagaram. Gritos, palavrões, ameaças de quebrar tudo, “...funça vai morrer!”
Os plantões no Hospital Central do Sistema Penitenciário, no Carandirú, podiam ser tudo, menos monótonos; nós, os ‘funças’ (funcionários), vivíamos com os nervos à flor da pele – perdão pela frase clichê; clichê, mas a única que pode definir corretamente a maneira pela qual passávamos aquelas 12 horas do plantão, pois o medo de uma rebelião, ou fuga em massa dos reeducandos da Penitenciária, ou da Detenção e invasão do hospital, era permanente. Os médicos, a maioria residentes da área de Infectologia, eram provenientes do Emílio Ribas e viviam ainda mais assustados do que a gente; examinavam os pacientes em suas celas enfermarias, acompanhados de ASPs (Agentes de Segurança Penitenciária), armados de fuzil ou pistola. As médicas sofriam ainda mais devido àqueles temores femininos, medo de estupro, de homicídio. Muitas passavam o plantão chorando, apavoradas, maldizendo aquelas horas, com medo de tudo, com nojo de vômitos, sangue, fezes. Confesso que, pelo menos da parte dos pacientes, fisicamente, não havia nada a temer; eram todos soropositivos para HIV e 90% deles estavam morrendo. Os 10% restantes, melhoravam, recebiam alta do hospital, voltavam para seus ‘barracos’ (celas) na “Penita” ou na Detenção, se entupiam de drogas, não cumpriam as medidas terapêuticas e acabavam por voltar para o hospital, já prontinhos para serem plantados em alguma cova rasa da vida (ou da morte).

HISTORIAS E ESTÓRIAS
Acredito que a maioria das pessoas não faz idéia de quanto ganha um profissional de Enfermagem em São Paulo. Não sabem, né? Pois eu digo: a remuneração é uma miséria, daí a necessidade de 2 e, às vezes, 3 empregos. Claro que eu, pai de 5 filhos, atolado em contas para pagar até a hipófise, não poderia fugir à regra; na ocasião eu trabalhava no Ambulatório do “Leite Paulista” no Brás, no Hospital Sabóia do Jabaquara e no Hospital Central do Sistema Prisional. Não me perguntem como é que eu dava conta de 3 empregos e alguns bicos que apareciam vez ou outra, que até agora eu não sei explicar, mas, nunca dei mancada, nunca faltei a nenhum plantão, mesmo porque eu precisava; meu filho mais velho estudava na UNESP, em Franca, e eu mandava dinheiro e meus vales refeição para ele que não conseguira emprego na cidade; ajudava os outros filhos pagando colégio, cursinho e o diabo à quatro. A Dona Odete, minha amantíssima esposa, também segurava uma barra; já não tinha mais o salão de beleza que fundara, devido a um enfisema pulmonar adquirido graças aos compostos químicos usados para tintura de cabelos, permanentes e procedimentos correlatos. Então, aprendeu a fazer apliques de cabelos, mega hair (acho que é esse o nome da técnica), e conseguia tirar algum dinheiro com essa ocupação, o que nos ajudou muito.
Um dia eu percebi que ia travar e saí de férias no Saboya, precisava ter uma noite de sono normal, nada de cochilar por uma hora, ou menos, em cima de caixas de soro, dentro de salas de material contaminado, nada de atender uma ala semi-intensiva com mais de 40 leitos, sem condições nem de parar para urinar ou beber água; essas coisas tinham de ser feitas naquele tempinho reservado ao descanso. Gostei de estar em casa e resolvi que não morreria por ter apenas 2 empregos, portanto, ”adeus Saboya”.
Fiquei apenas com o Leite Paulista e o Hospital da cadeia e, eventualmente, dava aulas para cursos de formação de Atendentes de Enfermagem, mas isso era café pequeno.
Uma bela noite, quando cheguei para o plantão, alguém me avisou: - Fica esperto Joaquinzão! Os homis começaro a mandar a bandidagem barra pesada prá interná ca gente.
- Mas aqui só tem aidético, fulano. Aonde vamos por essa gente? Isso é um perigo, meu!
- Us cara num qué nem sabê. Diz que hospitar é hospitar. Diz que vai virar hospitar gerar...

**********
Um preso saudável fazia o papel de faxineiro, atendente e preparador de cadáveres; estava naquele esquema de 3 dias trabalhados, 1 dia a menos na pena. Nunca soube seu nome, mas seu apelido era Bronquite. Um dia, o Bronquite me chamou num cantão: - ...siguinte, ‘seu’ Joaquim! Tô pedindo prá vortá prá Casa de Pedra (penitenciária). Us cara tão bolando uma fuga no dia da visita e vai sobrá prá muita gente, iscrusive prá mim!... Fica ligeiro...
Sorte minha que no dia da visita eu estaria de folga, pensei. Naquela noite, conversando com Dona Odete, contei a conversa que tive com o Bronquite e fui logo ouvindo um discurso:
- Ignacio, isso não é emprego! No começo vocês só cuidavam de aidéticos, o que eu já acho um perigo do c... Agora estão cuidando de bandido com dor de dente, calo, caspa, quer dizer, prá essa corja o hospital é um spa! Qualquer dia desses eles avançam em vocês e fazem reféns ou matam alguém... Sai dessa merda de emprego!...
À noite tive pesadelos, sonhei que morria atravessado por um estoque numa rebelião na cadeia... Quando amanheceu, liguei para o Leite Paulista pedindo para o meu colega da noite cobrir parte de meu plantão na parte da manhã, que eu iria me atrasar um pouco. Fui para a Av. São João, na Administração Penitenciária e pedi demissão.
Mais tarde, fiquei sabendo que muitos presos conseguiram fugir do hospital simplesmente pulando muros, após abrirem buracos nas paredes das celas-enfermarias. Nenhum dos meus antigos colegas fora molestado ou ferido...
Em 1999 me aposentei gloriosamente, firme, forte, saudável graças a Deus.
Durante muitos anos eu vivi à base de descargas de adrenalina. Trabalhei na USP em plena época da ditadura, no HC, nas clínicas de Neurologia e MI (Moléstias Infecto-contagiosas), com suas doenças sem nome e desconhecidas (AIDS já estava grassando e era uma síndrome desconhecida), na Siderúrgica Aliperti, no meio do fogo, de minério derretido à 1600 graus, respirando monóxido de carbono 12 horas por dia... Passei por tudo isso e nunca me queixei de nada.
Foi parar com tudo e infartar... Sejamos sinceros: dá prá entender?

Por Joaquim Ignacio de Souza Netto

domingo, 30 de outubro de 2011

Meus ilustres desconhecidos "conhecidos"

imagens abaixo extraídas da nternet: Ponteira da Igreja Ordem Terceia de São Francisco; carros estacionados em frente à Loja Baruel; fachada da Galeria Metrópole; fachada do Paribar.

 
Oh! “Zé Prequeté”,
Tira bicho do pé
“P’rá comê” com café
Na porta da Sé.

Nessa quadrinha do século XIX, a molecada imortalizou o negro forro por idade que esmolava sentado nas escadas, à porta da velha Sé de São Paulo.
Zé Prequeté foi apenas mais um entre os tantos ilustres desconhecidos “conhecidos” que o antecederam e os que vieram após ele.
O século XX, nas suas décadas, também teve a sua cota de ilustres desconhecidos “conhecidos”...
ANOS 60/70: Eu - o Office Boy - comecei a viver São Paulo no seu todo. Com o tempo, passei a perceber certas particularidades por vezes tão desconcertantes desta cidade tão próspera. Observando, descobri uma multidão anônima que parecia transitar invisível aos olhos do povo. Dentre esses anônimos alguns se destacaram ao ponto de fazer parte do dia-a-dia dos transeuntes e da história da cidade. E eu, nas minhas andanças conheci muitos desconhecidos que se tornaram ilustres:
O TÍSICO – Por anos ficou sentado à porta da Ordem 3ª de São Francisco. Magérrimo, aparentando mais idade do que realmente tinha, recitava versos clássicos, poesias dolentes entre os acessos de tosse e os escarros de sangue. Era um declamador nato! O povo o rodeava e ao sair deixavam-lhe boas esmolas. Ficou famoso. Mas não somente pelo dom de declamar. Descobriu-se que ele era viciado em drogas. Que a sua tísica era fingida e a tal cusparada sanguinolenta era provocada por uma agulha, com a qual ele disfarçadamente, feria a própria gengiva.
O LEPROSO: Esmolava na esquina da Direita com a Sé, junto aos tapumes de demolição da antiga “Casa Baruel”. Depois, ora no Largo da Misericórdia, ora na Praça Patriarca ele implorava pela caridade exibindo a sua dor e a perna coberta com uma bandagem suja a revelar sangue e pus. Implorava pelo óbolo que ajudaria a comprar sua caríssima medicação. Passa o tempo e ele não melhorava. A polícia vai atrás e descobre o engodo. Um dia os policiais chegaram de repente e para escândalo dos transeuntes, meteram-lhe o cassetete na perna enfaixada, arrancaram a espessa bandagem e trouxeram à luz o gambito perfeito do “pobre leproso”.
Mas, nem só de expedientes fraudulentos ou escusos viviam os ilustres desconhecidos. Muitos pareciam mais a saltimbancos ou saídos da Commedia dell’Arte. Anônimos que às vezes, com falcatruas rocambolescas, encenavam uma tragicomédia de sobrevivência e nunca a tragédia de suas vidas.
DIANA: Catava papel. Seu reduto era o Largo Sete de Setembro. Era uma mulher negra, alta e esguia que insistia em usar pó-de-arroz branco e um incrível batom vermelho a delinear-lhe a boca sem dentes. Uma rosa de plástico enfeitava-lhe os cabelos ruins e armados. Faceira e cheia de dengos, vivia fazendo lanche com os advogados e contínuos do Fórum. Mas era “movida a álcool” e, quando tomava todas e mais algumas, “pirava” de vez. Gritava, xingava, ameaçava as pessoas; tirava a roupa toda e ficava desfilando. Quando alguém tentava se aproximar para “cobrir-lhe as vergonhas”, ela tirava da boca uma gillette – coisa de puta velha – e ameaçava. Só sossegava quando chegava a viatura da Ronda da Sé. Diana adorava os policiais. Então se recompunha, vestia-se e fazia “caras e beicinhos” para eles, toda sedutora. Um dia desapareceu.
RITA BISCATE: Viciada em cheirar éter. “Fazia a vida” na Sé. Seu “ponto” era na porta do Santa Helena e, as vezes, na porta do bar que ficava nos baixos do Ed. Mendes Caldeira, na esquina da Sé, com a Irmã Simpliciana (Stª. Teresa). Parecia uma garotinha. Era despachada, bem-falante e adorava a molecada. Vinha rindo ao nosso encontro, sempre dizendo a velha frase: “Estudante paga “meia” e boy também ”! Matava-nos de rir quando dizia a sua frase preferida: “Vamos lá, minha gente. Estou em fim de feira. A xepa é mais barata”!
PÉ-NA-COVA: Era um pedinte que transitava pelos restaurantes e bares da Avenida Ipiranga, São Luís e Galeria Metrópole. Vinha aplicar o “golpe da receita médica”, dizendo-se “cardíaco, epilético, asmático, diabético”. Ríamos dizendo a ele: “Meu amigo, você está morto e não sabe”!
VÓ: A figura mais doce e terna que conheci. E a farsante mais perfeita que conheci! Era quase octogenária, vinha na madrugada, apoiada em uma muleta, a oferecer flores aos freqüentadores do Arpeje – na São Luís; do Lecco, do Barroquinho - na Galeria Metrópole e do Pari Bar. Figura enternecedora e cativante a nos oferecer botões de rosas que não ousávamos recusar. Doía no coração ver aquela senhora lutando para se sustentar. Mas... Mas um dia, para variar, veio a polícia e esclareceu tudo. VÓ tinha uma “capivara” que media metros e que vinha de décadas. Nela constava todo o tipo de “trambiques”, golpes, “contos do vigário”, “suadouros”,etc. E VÓ foi presa, representado a doce velhinha florista, cujas flores eram roubadas pelos “pixotes”, lá no Largo do Arouche.
PAGANINI: Uma figura digna de um filme de Murnau. Intitulava-se “violinista incompreendido”. Circulava pela Dom José Gaspar, onde, na calçada em frente ao Pari Bar costumava dar “audições”. Vez ou outra se exibia nas escadarias do Municipal. Ele era um “virtuose” psicopata a assassinar a obra dos grandes mestres e os nossos ouvidos. E, como um inquisidor, torturava magnificamente o pobre e nobre violino. Morreu atropelado na Vieira de Carvalho...
Eis ai alguns ilustres desconhecidos que eu “conheci”. Alguns, entre os tantos, que dariam páginas de histórias. “Conhecidos” entre aspas porque conheci-lhes o Existir e não o Ser. Comprei-lhes a farsa que representavam e não a vida que viviam... Pena. As décadas passaram e, como disse o pesquisador Affonso A. de Freitas, eles “desapareceram na voragem do Tempo”.
Em silêncio, como a não querer nada, eles entraram por todas as portas desta São Paulo e aconteceram por um ano, uma década ou mais. E, pelas mesmas portas saíram em silêncio, deixando suas marcas na cidade e nas lembranças de cada um.

Por Wilson Natale