imagens da internet: Cine Metro; Praça Ramos (leiteria Paulista); Fonte das Lagostas
(Texto de 1995)
Cenário: A frente de um cortiço, no Bairro de “Desire”, em New Orleans.
Cena final - dramaticidade intensa.
Kowalski chora e grita desesperadamente:
- “Stella”!... “Stella”!... “Stellaaaaaaaaa”!...
A câmera se afasta lentamente para um plano geral.
“Fade” (escurece a tela). Aparece o “The End”…
Ahahahahahahaaaaaaaaaa!!!
Eu caio na risada. Não pelo filme, “Um Bonde Chamado Desejo”, que é trágico e amargo. Ri porque ele reavivou uma lembrança que eu nunca esqueci, esqueço e jamais esquecerei.
Peguei o controle remoto e rebobinei a fita.
Enquanto fazia isso fui garimpando retalhos de memória.
E não duvido que o fato de gostar de tudo que o Tennessee Williams escreveu, gostar da Viven Leigh e do Marlon Brando esteja ligado a esse pedaço do meu passado...
1960 – Eu tinha 12 anos e, acompanhado por adultos já frequentava os cinemas do Centro e, em uma dessas idas aos cinemas centrais, o personagem principal foi a minha amiga Drubrafka, cujo apelido familiar era “Koka”...
Um aparte:
A Koka veio pequenina, diretamente da Jugoslávia para o Brasil. Estudávamos no mesmo Grupo Escolar e continuamos a amizade pela vida a fora. Éramos amigos e vivíamos um na casa do outro. E nossas famílias acabaram por fazer amizade.
Vivíamos para cima e para baixo de mãos dadas, meio que agarradinhos um no outro. E, claro, trocávamos um milhão de beijinhos na face. Tudo muito ingênuo e espontâneo. Diziam os meus familiares e os dela que nós estávamos namorando. Se estávamos namorando, nem eu e nem ela sabíamos. Mas que havia alguma coisa entre nós, isso havia. Junto dela eu sentia algo estranho, gostoso, que não sabia definir. Fosse hoje, eu diria: “Estou apaixonado”!
Continuemos.
Eis que, num sábado, a mãe da Koka – e a Koka – veio à minha casa avisar aos meus pais que, no domingo cedo, me levaria ao cinema. Iríamos à matinê do Cine Metro, que estava apresentando, durante os domingos daquele mês o Festival Walt Disney. Íamos assistir “Cinderella”.
Antes das dez horas da manhã já estávamos na Cidade, passeando pelas ruas e olhando as vitrines (naquele tempo ainda fazíamos isso. Depois de 68, as vitrines foram escondidas atrás de portas de aço corrugado.).
Lá pelas onze horas estávamos fazendo um lanche na Leiteria Paulista, na Xavier de Toledo, quando apareceu um casal, amigos dos pais da Koka. A mulher estava eufórica. Comentou que iam ao Cine Rio Branco rever o filme “Um bonde chamado desejo”, filme que há muito não passava nos cinemas. Eufóricos também ficaram os pais da Koka. Adorariam rever o filme. Mas, o que fazer, pois a película era proibida para menores (18 anos). Pensaram, repensaram, confabularam e resolveram!
Colocaram, eu e a Koka, dentro do Cine Metro, com a recomendação que, quando terminasse a sessão, esperássemos por eles junto à bilheteria do cinema e lá se foram para o Cine Rio Branco.
Dentro do cinema fomos direto à “bombonière” comprar nossos doces preferidos e, em seguida, procuramos um bom lugar na platéia.
Começa a filme... Na penumbra a Koka se aconchega junto a mim e coloca a cabeça no meu ombro. Eu prendo a mão dela na minha e ficamos a ver Cinderella.
De repente, senti algo estranho. Algo além da minha eroticidade de pré-adolescente. Algo que ia de um sentimento puro e indefinido ao desejo. Era algo mais que sexo.
Vez ou outra a Koka levantava a cabeça dos meus ombros e me olhava nos olhos com os seus olhos azuis hipnóticos.
Senti um misto de agonia e ansiedade. E a maciez daquela mão entre as minhas, o perfume que emanava daqueles cabelos louros levaram-me à loucura.
Foi quando aconteceu o meu primeiro beijo dado em uma boca...
Com uma forte taquicardia e fora de controle seguro a cabeça da Koka entre as minhas mãos e dou-lhe um tremendo beijo na boca. Beijo correspondido... Eu tremia dos pés à cabeça.
Tá certo que o meu primeiro não foi bem um beijo. Foi mais uma trombada de lábios, um bater de dentes - doeu. Não foi bem um beijo, concordo... Foi mais um morder. Mas foi o primeiro. E, marcou-me para sempre, nesse beijo mal dado, o gosto da saliva quente - sabor dropes de hortelã e o calor dos lábios macios... Muito mal dado mesmo, esse beijo inesquecível.
Finda a sessão, saímos e ficamos a esperar os pais da Koka. Mas, estávamos nas nuvens. Impossível de se ficar parado. De mãos dadas, fomos olhar a Fonte das Lagostas, na Praça Júlio Mesquita, depois fomos à Praça da República, onde trocamos mais alguns beijinhos (a prática leva à perfeição) e voltamos para frente do Cine Metro. Lá estavam os pais da Koka, apreensivos, loucos da vida. Voltamos para casa ouvindo bronca sobre bronca.
Modo mais triste de se sair do paraíso dos sonhos para o inferno da realidade...
E ai? Alguém mais ainda se lembra do seu primeiro beijo? (risos)
Por Wilson Natale



































