Gostei muito do texto do Natale! Mas gostei tanto mesmo que acabei me inspirando, após um longo e tenebroso outono, seguido do inverno e resolvi também contar minhas experiências “cabeludas”.
Assim como ele, eu também fui agraciado com belos cabelos alourados, transformados num chuca-chuca sobre cachinhos, desde a minha mais tenra infância até por volta dos meus quatro anos, quando meu pai, corajosamente, nos levou, a mim e ao meu irmão, para o salão de barbeiro e mandou cortar no estilo americano. Sorte do meu irmão que, sendo mais novo que eu um ano e meio, usou os ditos chuca-chuca e cachinhos louros por menos tempo! O corte americano é aquele com a nuca e as laterais da cabeça raspados e na parte superior, com comprimento médio com topetinho. É também conhecido como corte militar.
Em casa, minha mãe esbravejava e minha avó resmungava pelos cantos. E as tias, quando chegavam, levaram tempo para esquecer a indignação sobre “o que haviam feito com os cachos do garoto?” O mais engraçado é que isso gerou uma rebeldia geral entre os meus tios, que também levaram os meus primos para cortarem os cabelos, saindo dos cabelos em cachos, ou daquele tigelão esquisito e ficamos todos com o corte americano mesmo. A mulherada da família esbravejava, mas naqueles tempos, quem “mandava nos meninos” eram os pais e assim vivemos todos em harmoniosa desarmonia.
Quando passei para o ginásio, substitui o corte americano pelo meio americano, aquele onde o barbeiro raspava apenas metade das laterais e da nuca, deixando um pouco mais de cabelo na cabeça. Parece que era uma espécie de acordo tácito entre os garotos: saindo do primário, já podiam ostentar o meio americano.
Tive uma passagem pelo seminário e durante esses anos, o corte padronizado para os seminaristas era o americano. Assim, meus cabelos regrediram aos tempos do primário, já que eu nada podia fazer, pois era um seminarista obediente e bem comportado. Mas quando saí do seminário...
Devido ao Elvis Presley, aos Beatles e aos Rolling Stones, e também ao Roberto Carlos e à turma da Jovem Guarda, uma silenciosa revolução estava em andamento nos usos e costumes da garotada da minha idade. Os cabelos cresciam, alguns mais, outros – como os meus – menos. Mas os cortes até então usados foram caindo em desuso e todos queriam seus cabelos mais parecidos aos dos seus ídolos.
E foi então que surgiu o Grande Sofrimento! Eu era dono de uma bela cabeleira alourada, só que era também ondulada e o “grito da moda” eram os cabelos lisos, escorridos, que nem cabelo de índio. Nem Gumex, Glostora, Brilhantina ou mesmo vaselina davam conta da deixá-los como queríamos. Daí surgiu então a solução caseira, que se espalhou pelos quatro cantos: touca de meia de seda. Quem não gostou muito foi minha avó, que pacientemente recortava em finas tiras as meias de seda desfiadas da minha mãe, transformava tudo em um novelo e, precursora da atual onda de reciclagem, fazia delas tapetes para as beiras das camas, banheiros e até mesmo cozinha. Era tapete de crochê, feito de meias de seda por toda parte!
O truque era simples: consistia em enrolar em volta da cabeça, com o auxílio de uma escova, os cabelos molhados que ficariam presos dentro de uma touca feita com as tais meias femininas de seda, até que secassem completamente. Depois eram virados para o outro lado, enrolados novamente com a escova e, mais uma vez, aprisionados pela poderosa touca de meia de seda, até ficarem lisinhos, como se todos fossemos descendentes de índios. Ou, hoje em dia, como se fossemos todos irmãos do Justin Bieber, só que menos mariquinhas – desculpem o texto não tão políticamente correto; não resistí. Mas não podia chover! Nem garoar! E eu que morava na velha Terra da Garoa, sofria bastante tentando evitar que meus lindos e lisos cabelos alourados ficassem eriçados como se houvessem levado uma descarga elétrica. Mas no fim tudo dava certo! Afinal, éramos jovens e ávidos por novidades.
Havia também a contracultura nacional, o movimento tropicalista surgido na década de sessenta, ao mesmo tempo em que surgiam os Beatles com o pop, a Bossa Nova e o Iê-iê-iê. Seus representantes mais famosos vieram da Bahia e surgiram com o Festival de Música Popular Brasileira, onde Caetano Veloso interpretou Alegria, Alegria e Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes, Domingo no Parque. Em seguida, o lançamento do disco Tropicália ou Panis ET circensis foi considerado quase como um manifesto do grupo. Além deles havia os mais bem comportados, como o Chico Buarque de Holanda, alimentado pela Bossa Nova, com canções que se aproximavam mais do samba e do cool jazz. E nessa salada toda, como estávamos vivendo em uma ditadura, vários artistas de cada movimento, tentavam mostrar seu inconformismo e seu protesto, mas nem todos conseguiram, sendo, alguns, exilados. Mas isso já é uma outra história – aliás, uma página negra da nossa história. E não cabe neste texto.
Chico Buarque, de importante família, iniciou sua carreira artística em parceria com Vinícius de Moraes e teve, em sua trajetória, contatos com Elis Regina, que venceu um festival com Arrastão, Nara Leão que interpretou a Banda, música vencedora do festival de 1966 e Jair Rodrigues, que interpretou Disparada, de Geraldo Vandré e que, por exigência de Chico, dividiu com ele o primeiro lugar no mesmo Festival. Chico tornou-se então uma das figuras mais importantes na música brasileira. Entretanto, por sua erudição e formação política, acabou se auto-exilando na Itália, onde continuou compondo. E se tornando mais conhecido e respeitado.
O grupo ligado à Tropicália tinha mais parentesco com os hippies, que surgiram nos Estados Unidos e ostentavam imensas e desgrenhadas jubas, roupas multi coloridas e colares e pulseiras em abundância. Tinham um estilo mais despojado, ou menos industrializado, mas aos poucos foram virando moda e, como tendência, esse novo colorido acabou nos guarda roupas da classe média que acabou engolindo e digerindo esse movimento – assim como todos os outros.
Eu não tinha muito a ver com os tropicalistas. Como bom rapaz de boa família e ex seminarista, era mais chegado aos modos de bom moço do Chico Buarque e minha ousadia chegava mais próxima dos rapazes da Jovem Guarda. E por falar em Jovem Guarda, eu era fã incondicional deles, indo aos domingos até a Rua da Consolação, assistir ao programa Jovem Guarda na TV Record.
Meus cabelos nunca chegaram ao tamanho dos cabelos do Ronnie Von, mas chegavam às golas das camisas. E ai de mim se os deixasse mais próximos dos ombros! Meu pai ameaçava levar-me à força ao barbeiro e mandar cortar americano! Como podem ver, o corte americano, com excessão de quando substituiu os meus cachinhos dourados, viraram ameaças assustadoras. Que acabaram se concretizando quando fui obrigado a servir ao exército e, assim, voltar ao maldito corte americano, ou militar, já que ambos eram a mesmíssima coisa.
Depois, fui um rapaz estudioso, trabalhador e bem comportado. Apenas aconteceu que, aos 23 anos, ocupando um cargo mais importante numa multinacional, fui aconselhado pelo meu chefe a deixar crescer a barba. Acontece que eu tinha uma cara de menino que não fazia juz às minhas responsabilidades nem à minha competência. E usei barba durante nove anos seguidos! Era uma barba sempre aparada e bem recortada, que me dava um trabalhão danado para manter. Aos 32 anos, cansado da minha barba, decidi cortá-la. Levei o maior susto! Não conseguia reconhecer aquele menino que me fitava do outro lado do espelho! Eu havia me tornado um adulto, mas a carinha continuava a mesma de um garoto no fim da adolescência. Mas continuei insistindo no “rosto lavado”, já que não precisava mais provar nada para ninguém. Eu já era, então, um dos mais novos e respeitados executivos de uma multinacional.
Voltei a deixar a barba crescer um pouco depois dos quarenta anos. Ela me deu uma expressão adulta e requintada. Mas em pouco tempo, raspei o rosto novamente, voltando à barba apenas após os 50 anos. Por pura preguiça mesmo! Afinal, ela havia embranquecido muito mais que os cabelos. E barba branca crescida, dá a impressão de desleixo.
Só que eu não era mais o jovem senhor de setenta quilos. A partir dos cinqüenta, comecei a engordar e, principalmente a barriga, a arredondar-se. Um dia, com minha barba branca bem aparada e recortada, os cabelos grisalhos devidamente cortados e uma bela camisa vermelha, saí para dar um passeio pela rua. Era dezembro e, parado em frente a uma vitrine, ouvi uma garotinha comentar com o namorado: “olha o Papai Noel!” Olhei para um lado, para o outro, para trás e novamente para dentro da loja. Nenhum Papai Noel à vista, Caramba! Era eu o bom velhinho! Desesperado com a surpreendente revelação do meu envelhecimento voltei rapidamente para casa e raspei a barba para nunca mais deixá-la crescer. Bem, quem sabe um dia... E os cabelos, passei a cortá-los com máquina quatro. Assim fico com aproximadamente 1 cm de cabelo sobre toda a cabeça e não preciso me preocupar com pentes ou escovas.
Agora, voltando ao Natale, entendo perfeitamente seus motivos para querer matar a Waldelice! Eu também tive meus motivos para querer matar, não a Waldelice, mas uma outra cabeleireira. Só que essa outra história vou deixar para contar em outra ocasião...
EM TEMPO: E por falar em gostar do texto do Natale, tenho o dever moral de dizer que cada vez mais estou gostando dos textos dos nossos amigos escritores. Até parece uma competição para ver quem escreve melhor dentro do Memórias de Sampa. E isso é o que de melhor poderia acontecer para todos...
Zeca Paes Guede



































