quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Arrogância

Em 1954, ano do IV Centenário, dentre todas as festividades, houve um desfile de várias escolas de São Paulo, de outros estados e algumas convidadas do exterior. Todas mostrando suas fanfarras estridentes, coloridas e bem ensaiadas. Esse desfile passou pela Avenida Mercúrio, em frente ao Palácio das Indústrias e eu assisti com forte emoção, pois adorava (e ainda gosto muito) do som dos tímpanos, caixas e cornetas e o malabarismo da baliza à frente, com a batuta. Mas, bastante influenciado pelo cinema, leituras, músicas e tudo que se relacionava aos americanos, eu era um sonhador inveterado, vidrado em poder um dia ir pra lá. Como tinha (e tenho) parentes norte-americanos, esperava concretizar meu sonho. Aí, minha emoção chegou ao auge: no desfile, iria passar a fanfarra do Miami Jackson High School, famosa escola da Flórida, nos USA. Menino, que show aquelas meninas deram; uma verdadeira aula de como se faz esse tipo de desfile. Duas ou três balizas, o conjunto de caixas ritmando, os pistões, flautas e flautins, as matracas, tubas e chocalhos, tudo num conjunto formidável e um sincronismo exuberante. Lembro que as músicas eram populares, no ritmo ligeiro e estonteante de Nova Orleans.
Falando em bandas e fanfarras, lembro da que abrilhantava as procissões da igreja de São Vito, que percorriam as ruas da redondeza, Álvares de Azevedo (hoje Polignano a Mare), Assumpção, do Lucas, Fernandes Silva, Benjamim de Oliveira, da Alfândega, Cantareira etc. Nas da Semana Santa, quando o andor era de Cristo morto, eu sabia até o repertório: Marcha Fúnebre de Beethoven e a de Chopim. Nas de São Vito e Santo Expedito, em junho, o repertório era O Cisne Branco e as já c
onsagradas marchas de John Philip Souza. Na dos Santos Cosmo e Damião, em setembro, o repertório era variado, até Aquarela do Brasil saía.
Um pequeno detalhe acontecia na procissão do São Vito e Santo Expedito, era a disputa pra carregar o andor desses santos; desde os primórdios do século passado, já se usava o critério de uma espécie de leilão, os quatro que queriam carregar o andor de São Vito, pagavam um determinado valor que o leilão alcançava. Nos anos 40, apesar da guerra e a proibição de se falar em público, alemão, japonês e italiano (quanta bobagem, meu Deus) a procissão e os leilões seguiam como se nada houvesse. Nesta época, garoto, quando não estava atrás da banda e bem perto do tambor (por isso que até hoje não canso de ouvir o Bolero de Ravel), eu era um dos que carregavam um dos quatro lampiões que guarneciam o andor e
ouvia todos os leilões que se fazia nas periódicas paradas. O mestre-sala começava, sempre em polignanês, dialeto que é uma mistura de latim, árabe, grego e uma pitada de sarraceno, resultando daí um idioma que nem o próprio italiano entende. Quem entendia? Só nós, da terra ou descendentes. Traduzido, dava nisso: “Pili devot ca stane sote, quane mi a dê?” (Para os devotos que estão em baixo, quanto vocês me dão?” ). Os interessados se reuniam, sempre em quatro e os quartetos davam seus lances num valor, sempre acima do valor pago pelos que estavam carregando até então (uma nota preta, meu pai nunca quis entrar nessa), e o que vencia pegava o andor até o próximo quarteirão. Por que era no dialeto? Pra que ninguém que não fosse barês viesse a carregar o andor. Exclusivo da colônia, não era pra “frastiere” (forasteiro). Quem quisesse carregar um andor que fosse para o santo Expedito, que naquela época não gozava de tanto prestígio, como hoje.
Agora, impagável era ver a pose dos que venciam o leilão, comerciantes bem sucedidos na zona cerealista da Rua Santa Rosa, peixeiros do mercado central e outros. Mantinham o nariz empinado, pose típica de “capo mafioso”, mostrando a todos seus conterrâneos que eles conseguiram “fazer a América”.
Depois de várias queixas, o leilão passou a ser feito em português. Hoje, carrega quem quiser e sem a obrigação de pagar coisa alguma; e a imagem do santo é a mesma de mais de 100 anos e com apenas meio metro de altura. Relíquia de Polignano a Mare, província de Bari, sul da Itália.

Por Modesto Laruccia

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Chiappetta

Chiapetta, e agora ?
O que você fez comigo, amigo?
Me deixou morto de saudade, de tristeza.
E o que faço agora, nesta Jairo Góis?
Tento ressuscitar o barbeiro Pepito na sua frente?
Tento buscar a Douração Cubero? Vamos lá, rapaz.
Vou te encontrar onde? Na Adega do Braz?
Esquece a Castelões e a igreja; esquece...

O que vou fazer agora com este coração que fenece?
Vou mandar o Kassab passar com um trator
e acabar com nossa rua tão pura, agora tão escura;
Esta rua hoje sem iluminação, e sem nada,
não tem mais dia, nem noite, nem madrugada.
O que eu faço com essa Jairo Góis, amigo?
E te pergunto o que você fez comigo?
Te conheço há tanto tempo e ainda há pouco nos falamos na rua...
Um aceno feliz de amigos realizados e esperançosos.
Vou te ver logo amanhã; és um sol, ou prateado de lua.
Vou te ver logo bem cedo; és um dia sem traumas nem remorsos.
E, você vai assim, num fim de semana e nem me fala nada?
E, você me deixa assim, com a voz toda embargada?
Que até nem sai o que quero mais dizer, nem mais querer...
O que vou fazer com essa Jairo Góis, tão abandonada?
Amigo Chiapetta, nos falamos pouco, nos queremos tanto.

Vivemos o mesmo mundo, sem tristeza nem derrotas.
Vivemos o mesmo sonho, sem angustias, nem saudades.
Somos o que somos; e no que faço, do que me deixaste, fica meu pranto.
Nas trilhas que percorremos, sem mapas e sem rotas,
sem projetos, sem remorsos, só serenas verdades.
Que fazer?
Faça agora teu caminho maior, na trilha em um novo plano.
Ilumine outros mundos com o fulgor de todos os seus sóis.
Só lhe peço que nos ampare e nos guie, amigo, todo dia, todo ano,
para que sempre sonhemos o melhor, com esta nossa saudosa Jairo Góis.


Por José Carlos Munhoz Navarro

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Domingos Ricardo Chiappetta


Com muito pesar, vimos comunicar o passamento de Domingos Ricardo Chiappetta, nosso amigo e participante deste bolg, bem como do site São Paulo minha cidade, como autor de textos sobre a cidade de São Paulo.
Chiappetta faleceu no último dia 07/01/2011, vítima de câncer. Registramos aqui nosso profundo sentimento de pesar e nossa solidariedade aos familiares.
Que Jesus o abençoe e que ele possa ter um despertar bem tranquilo, lá na espiritualidade.
Como homenagem ao nosso amigo Chiappetta, postamos um de seus textos.


O mercadão

O Mercadão, ou Mercado da Cantareira, foi na minha infância a menina dos olhos, como foi também, creio, de muitas pessoas nesta cidade de São Paulo, minha cidade. Em muitas oportunidades acompanhava meu nonno e também meu pai nas idas às compras que eles realizavam para culinária e gastronomia, com produtos estrangeiros, em diversas bancas, bem como os pescados, aqueles camarões gigantes, os leitões, os cabritos, frangos, as bistecas, os filés, enfim, as verduras fresquinhas que eram comercializadas no mercado das verduras, em frente ao Mercadão, onde os produtores eram os próprios que comercializavam; depois eram transportados por carregadores em seus carrinhos, de 2 pneus e altura de quase 2 metros. As caixas de tomates, para o molho tradicional para as massas, e o tomate para o molho e tempero para pizzas, pratos estes que eram preparados pela nonna Maria, a minha mãe Lucia, pelo papai Carmine Chiappetta, na querida e saudosa Cantina e Pizzaria Adega do Braz. Mas, os produtos expostos nas bancas e oferecidos para degustação, as azeitonas gregas, chilenas, os camarões secos, os queijos, as frutas secas, enfim, toda aquela maravilha, que até hoje é ponto turístico importante nesta cidade de São Paulo, 454 anos, mas não posso deixar de citar os sanduíches de mortadela, pastéis de bacalhau e toda gastronomia que impera naquele local que recebe milhões de turistas durante o ano; Empório Chiappetta, dos primos Eduardo, Leonardo, Alfredo, da tia Natalina, dos filhos e netos e bisnetos do tio Carlo e Carmine, das bancas dos Zuppo, dos Bianco, dos Capano, dos Saporito, dos Barones, enfim, todos fizeram a história e fatos para a grandeza desta cidade que é São Paulo, minha cidade, nesta oportunidade de divulgar nossas lembranças, de um dos lugares que marcou a infância, idos de 50, Mercadão, templo da gastronomia, culinária e turismo.

Por Domingos Ricardo Chiappetta

Bons amigos

"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.

Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!"

Estas palavras de Machado de Assis eu ofereço a todos os meus amigos do blog Memórias de Sampa, os que conheço pessoalmente e aos que só conheço através da internet, mas que talvez um dia eu terei o prazer de abraçá-los.
Saudações a todos.

Por Leonello Tesser (Nelinho)

domingo, 9 de janeiro de 2011

O guarda-roupa

Quando o assunto era televisão, só se falava na “Tiazinha”. Então fui ver se a tal Tiazinha estava com essa “bola” toda. Ri e disse a mim mesmo a frase batida: “Nada se cria. Tudo se copia”.
Ouvi um trecho da conversa do meu tio com os amigos:

Pascà: - “Você deixa tudo isso à mostra”?
Titio : - “Não mesmo! Escondo tudo no compartimento secreto do meu guarda-roupa.”
Arregalei os olhos e na minha cabeça formou-se um turbilhão de pensamentos – “Um compartimento secreto? Onde fica? O que será que o “zio” esconde lá?” Ardia de curiosidade.
O guarda-roupa foi sempre considerado um trambolho. Uma velharia
a ser despachada o mais rápido possível. Mas, quem iria querer um traste daquele? Ninguém. Por isso, ele foi ficando no quarto do meu tio Amedeo.
Hoje, o meu olho de conhecedor o define como uma antiguidade do início do século XX e acredito que alguém certamente pagaria uma fortuna por ele.
Para meus avós ele custou quase nada. Foi comprado numa casa de móveis usados e colocado no quarto do titio, na Mooca.
Era um móvel enorme, em dúbio estilo “Diretório”, de madeira de lei laminada em imbuia marchetada com madrepérola. Tinha duas portas, uma estreita e outra larga. Abaixo da porta estreita havia duas gavetas pequenas. Sob a porta larga, em cuja frente ficava um enorme espelho oval bisotado, havia uma gaveta grande. Os puxadores eram belíssimos: estrutura de bronze formando folhas de louro, sustentando “biscoitos” de alabastro. Mas, nos anos 50 este guarda-roupa era uma velharia que ninguém queira. E, como era de se esperar, nos anos 60 ele foi parar no depósito de algum grupo de assistência social.
Titio nunca iria contar onde ficava o tal compartimento secreto. Então, o jeito era eu mesmo xeretar no guarda-roupa e encontrá-lo.
Achei!!!
Examinando as gavetas percebi que algo estava errado. Olha que olha, notei que as laterais das gavetas eram altas e que o fundo das gavetas menores era normal, mas o fundo da gaveta maior era mais raso. Retiro o gavetão e descubro o compartimento secreto.
Num espaço de cerca de seis centímetros, entre o fundo do guarda-roupa e o fundo da gaveta, veio à luz todo o universo erótico do meu tio!
Ali, diante dos meus olhos, revistas de nudismo, naturismo; pequenos livretos franceses com fotos de sexo explícito. Livros de “leitura pornográfica”. Dois baralhos pornográficos. Maços de fotos de mulheres nuas em poses provocantes e, embrulhado em papel de seda, um maço de fotos de uma mulher que iria assombrar as minhas fantasias eróticas desde a pré-adolescência ao início da idade adulta. Fiquei fascinado por essa mulher. Mais tarde, soube-lhe o nome: Era Bettie Page – a mais famosa pin-up de todos os tempos!
Foto a foto, Bettie passou diante dos meus olhos. Sumariamente vestida, provocava mais eroticidade do que as fotos explícitas. Um mulherão com cara de menina (menina muito má, por sinal) ameaçando-me com o seu chicote, provocando-me com poses insinuantes... Convidando-me para algo que eu não sabia... Eu fui me perdendo nesse mundo novo e imaginário das sensações que não compreendia bem, enquanto o meu corpo respondia ao estímulo daquelas fotos.
Bettie Page, de repente, tornou-se a rainha do meu mundo interior.
Eu estava feliz nesse meu mundo, junto com a Bettie, quando o meu tio entrou no quarto. Um forte tapa na minha nuca fez Bettie Page desaparecer.
Sem poder gritar ou fazer escândalo, pois isso provocaria a descoberta dos seus pecadilhos, titio agarrou a minha cabeça e disse no meu ouvido tudo o que tinha direito. Olhou para a foto de Bettie que ainda estava em minha mão, tomou-a de mim e afastou-se. Ele ia dizer algo, mas calou-se magnetizado pela foto. Segundos depois, como se nada tivesse acontecido, ele olhou-me, abriu um sorriso e disse-me: “Chista femmena è da impazzire nu uomo!” (“Esta mulher é de enlouquecer um homem”).

Enquanto titio falava sobre a Bettie Page, fomos guardando tudo no compartimento secreto. Compartimento ao qual eu passei a ter livre acesso...
Nos anos 60, eu ajudava a colocar as coisas do meu tio no seu novo e moderno guarda-roupa. Riamos às lágrimas. É que o velho trambolho fora levado embora pela assistência social, vazio e sem ser desmontado. Mas, tio Amedeo havia esquecido de esvaziar o compartimento secreto. Ríamos ao imaginar a cara das “carolas” ao se deparar com toda aquela “immondizie” (imundície)...

Por Wilson Natale

sábado, 8 de janeiro de 2011

Passou batido



Pouco ou quase nada escrevi no ano passado.
Sobrava-me tempo, faltou vontade, ou seria o contrário? Ou, as duas juntas ?
Não sei. Diante de tantas interrogações, uma só afirmativa, pouco escrevi naquele já saudoso 2010.
Passaram sem menção tantas datas importantes, inclusive a antepenúltima do ano, certo 22 de dezembro.
Os amigos mais chegados juntavam-se ao povaréu. Uns, soltavam vivas, votos de felicitações; outros, invadiam as plataformas da antiga rodoviária, no final
da Duque de Caxias, declamando prosas, recitando. Tinham copos de bebida nas mãos; eu vi um litro de whisky, passando de mão em mão por ali. Naquela antevéspera de natal, todas as apressadas pessoas os olhavam admirados... uns, indignados, outros não, mas todos entenderam e perceberam as mensagens. Eu e Silvia, dentre todos os presentes, fingíamos que não era conosco e que aquele mundaréu de amigos não nos tinha acompanhado.
Mas, eles tinham nos acompanhado.
Tinham vencido a Duque de Caxias, a Rego Freitas, a Consolação. Tinham subido a Rebouças, passado pela Gabriel Monteiro da Silva, deixado a Groenlândia e nos acompanharam.
É certo que não nos encontraram na velha mercearia, fechada pela insensibilidade dos governantes da época. Tinham nos visto um pouco antes, na Rua Dinamarca, na querida e presente Igreja de São José, meu padroeiro e xará (bem apropriada esta palavra, atualmente tão esquecida).
No salão de festas, coquetéis e canapés se misturavam a abraços de felicitações. Amigos que há muito não se viam, outros que se conheceram naquela tarde noite, trocavam impressões, falando tão bem dela, nem tão bem de mim, mas, enfim, assim é a vida e ela poderia ter escolhido um sobrenome famoso (e rico) para esparramar seu eterno sorriso.
Porém, o que estava feito estava feito e agora, eram só fotos e fotos, sem vídeos, sem efeitos especiais, sem arranjos mirabolantes. Aliás, estamos falando de 1973, de um sonhador, tão rico em sonhos, quanto pobre em espécie.
Subo as escadas que ainda há pouco descera. Ouço as palavras do celebrante à minha frente, enquanto que, às minhas costas, sinto a igreja repleta. Não tivemos a música que ela queria (aliás, nem sei se música teve), pois o padre, cioso de sua posição, não permitiu que se tocasse “El dia que
me quieras”, pois onde já se viu tocar tango na igreja. Teimosia por teimosia, se não pode ser essa, que não seja nenhuma; e ele deve ter colocado qualquer outra, enquanto Silvia e eu cantarolávamos a nossa.
Ouço o sim mais importante da minha vida. Profiro o meu mais feliz, dente tantos e eternos “sins” que mutuamente nos presenteamos e presentearemos sempre.
Ah, como o tempo passa!
Vejo-me de pé, à frente de todos. A igreja lotada, aquela porta não se abria. O zum zum dos convidados era o mantra que se ouvia. O padrinho dela me atormentando que ainda dava tempo, que poderíamos sair de fininho pela sacristia, até que, por fim, a porta se abriu e com ela meu novo mundo se abriu também.
Tudo é alegria, tudo é ansiedade.
Mas, será que vai dar tempo de arrumar tudo para as 19:30 h? Afinal, hoje tem o dia do noivo, da noiva; mas, naquele tempo, meu dia de noivo começou às 6:30 h, entregando leite na mercearia e as 10 h fui até o Shopping Iguatemi (que chique, né?) comprar (ou tentar achar um sapato). No caminho encontro Silvia, que vinha a pé do cabeleireiro. Dizem que dá azar ver a noiva n
o dia do casamento; dizem... Se deu azar, foi bem legal esse azar.
Não posso me estender muito. Tenho que ainda ir até a Paulista, para acertar alguns detalhes com o noivo que casa um pouco antes que eu. Fui, acertei e quase não volto, pois meu velho (e bota velho nisso) e fiel (e bota crença nisso) Gordini, resolveu dar o ar de sua desgraça, perto do Parque Trianon e parou de vez. Resignado e atrasado, corro para o barbeiro (é assim que se faz hoje?), para que ele dê uma aparada nas melenas.
Voltei para a Faria Lima e entrei no Carlito e me atrevi a pedir a ele duas coisas: Se eu dormisse quando ele terminasse, que pudesse me acordar e que caprichasse no cabelo, que eu precisava ficar bonito naquele sábado. Quanto a acordar, tudo bem... Quanto a ficar bonito, ele perguntou se eu achava que o só o cabelo seria responsável pela minha feiúra. Não era.
Mas, ele fez o que pode e me acordou a tempo.
Enfim, como diríamos antigamente, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Ela sobreviveu a estes 37 anos de lutas, tropeços e vitórias sem fim e eu, o aquinhoado maior deste mundo, busco ainda fazer um pouco mais para continuar merecendo a ventura que é viver no conforto do amor eterno e saborear, com a mesma ansiedade do primeiro dia, quando volto
do trabalho e a encontro me esperando, numa calçada qualquer.
Aí, vem o vendedor de bilhetes de loteria, ou então quando vou pagar alguma conta na casa lotérica, me oferecer um bilhete, uma mega sena ou um bolão. Polidamente agradeço, dou uma resposta negativa e sigo em frente.
Nunca vou ganhar em loteria alguma. Eu já ganhei tudo que tinha que ganhar na vida.

Por José Carlos Munhoz Navarro

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Macaco de auditório

Quando garoto, aos 14 anos e estudando no Brás, passava eu a voltar para o centro da cidade ao invés de ir para casa. Meu refúgio era a rádio Nacional de São Paulo PR-G 9. Seu estúdio tinha saído da Rua 24 de maio indo para a Rua Sebastião Pereira, praticamente no centro da cidade.
Ali eu ficava sentado, vendo grandes artistas ensaiarem. Ângela Maria, Agostinho dos Santos, a miss Brasil da época Marta Rocha, para quem não sabe dava uma de cantora também. E a sensacional estrela de São Paulo, Hebe Camargo, que embalou muitos corações, com aquele rostinho sensual, sobrancelhas grossas, cabelos escuros, abaixo do ombro.
Na rádio nacional a programação começava a esquentar às 11 horas da manhã com a parada de sucessos, apresentada por Helio de Alencar. Depois, vinha dona Rinsoleta, patrocinado pelo sabão Rinso. Um papinho rápido da Raquel Martins, para as donas de casa, preços da feira, alguma coisa de culinária. Depois dela, Valter Foster completava com a conversa do meio dia. Um papo de homem para homem. Pescaria, futebol, puladas de cerca, por ai.
Depois, vinha o que todo mundo esperava; o programa Manoel de Nóbrega. Vários quadros engraçados havia; Zé da bronca, Caçador e Águia Negra. Foi ai que surgiu o Ronald Golias. Ele fazia dupla com Carlos Alberto de Nóbrega. O programa finalizava com a escolinha de grupo em que Manoel de Nóbrega fazia o professor. Tinha vários comediantes sensacionais. Rona
ld Golias fazia o aluno escachado, Valter Ribeiro dos Santos era o japonês. Embora de japonês não tivesse nada. Era muito engraçado quando o professor (Manoel de Nóbrega) ao mandar calar a boca, dizendo: cale-se! A resposta dele meio “japonezada”:
- Já vai beber PARDARO. Ele queria dizer Pardal.
Aproveitando que eu sempre ia a Radio Nacional, minha mãe me mandava levar roupas para a Sarita Campos distribuir aos pobres. Ela tinha um programa que começava depois do programa Manoel de Nóbrega. E eu tinha que entregar nas mãos dela. Determinação de dona Orlinda.
Aos sábados, eu ia após o almoço assistir o programa “Galera do Nelson”, que era apresentado por Nelson de Oliveira. Era um musical onde apareciam bastantes cantores. Agostinho dos Santos estava em início de carreira, que ele começou no programa de calouros da radio América. Salomão faz justiça, apresentado por um jovem radialista que veio do interior (Santa Rita do Passa Quatro) Chamado Salomão Esper.
Na Galera do Nelson tinha sempre a presença da cantora Santista e Calunga, Joara Gonçalves, também Leny Eversong, uma loira de cabelos encaracolados, gordinha e que cantava divinamente, era outra que participava de todos os programas da PRG 9, rádio nacional.
Aos domingos a radio nacional transmitia os jogos de futebo,l com a equipe de Wilson Brasil, Jaime Moreira Filho, Edson França, Geraldo Tassinari, Helio Prioli e Milton Galdão. À noite, às 19 horas tinha o programa “A Felicidade Bate a Sua Porta”, que era apresentado por Raquel Martins no estúdio e Nelson Oliveira na Rua. Era um programa de prêmios patrocinado por UFE (União fabril Exportadora) e o produto mais comercializado era o sabão platino, tinha ta
mbém a linha de limpeza, etc. O Bairro a ser visitado já tinha sido sorteado na semana anterior. Raquel Martins sorteava o nome da Rua e Nelson de Oliveira ia do inicio ao fim para dizer de como começava e terminava a numeração. Ai, era feito o sorteio do numero e a casa sorteada, caso tivesse os produtos da UFE, ganhava todos os prêmios.
No caso de não haver o número, a casa de numeração anterior seria a visitada. Depois de uma entrevista com a moradora, vinha a estrela de São Paulo, Hebe Camargo, para fazer o encerramento do show.
Em 1953 o bairro do Brooklin foi sorteado, e a rua foi a Nebraska. Valeu à pena ver a Hebe Camargo de perto. Era muito linda.

Por Mário Lopomo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Manoel de Nóbrega - O criador da Praça

Em 1971, todo o elenco da Praça da Alegria estava reunido no Teatro da Record, na Rua Augusta, para os ensaios e gravação do programa. Além dos artistas e técnicos, contávamos também com a presença do censor federal que, naquela época, em plena ditadura militar, era presença obrigatória em gravações de programas de TV.

Presente todo o elenco de humor da Praça: Ronald Golias, Carlos Alberto de Nóbrega, Rogério Cardoso, Roney Rios, Maria Teresa e seu marido Floes, Murilo Amorim Correa, Borges de Barros, Consuelo Leandro, Simplício, Agnaldo Rayol, Walter Dávila, Viana Junior, Clayton Silva, Canarinho, Geraldo Alves, Durval de Souza, Cláudio Lupomo (o popular Toto), Valery Martins, Eu, e o grande criador e diretor da Praça, Manoel de Nóbrega.

Os ensaios seguiam com algumas paradas técnicas e outras provocadas pelo censor, o qual ia aos poucos retalhando todo o texto já decorado pelos atores e atrizes. Até que, um trecho em que uma atriz dizia que oferecia ao ator a pomba da paz, foi vetado pelo censor, que interpretou este trecho com
o ofensivo.

Nóbrega, então, questionou o porquê daquele corte, que arruinaria toda a intenção do texto. O censor, então, argumentou que o texto era de duplo sentido, pois a pomba em questão poderia ser a ave ou o órgão genital feminino e, segundo a sua opinião, os autores de humor sempre escreviam ou diziam as coisas com segundas intenções.

E assim, seguia o ensaio tenso, com os atores presos e sem a autenticidade necessária para uma boa interpretação (havia uma grande dúvida pairando no ar). Ensaiou-se a Velha Surda, o Mendigo, o quadro da Consuelo e seu marido Oscar, etc.

Até que, em novo confronto, levaram o censor a justificar mais um corte do texto, o qual argumentou que hoje estava ali para valer e iria cortar
tudo o que fosse preciso, mesmo que todo mundo metesse o pau nele... Nessa altura, Manoel de Nóbrega interrompeu a fala do censor e perguntou para ele como gostaria que fosse entendido por todos “mesmo que todo mundo meta o pau em mim”, nas primeiras ou segundas intenções.

Silêncio geral no ensaio; e este silêncio só foi quebrado pelos aplausos de todos os presentes.

A partir daquele momento, o ensaio foi direto até o seu final.

Por Arthur Miranda

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Memórias de um torresminho pururuca

Ano de 1968, eu e dona Cida, já havíamos nos mudado da casa de minha mãe e estávamos morando na Rua Maria José, 27.
A época era de vacas magras. Eu, sem emprego e ela, trabalhando pelos dois numa empresa de persianas, na Rua Augusta.
A grana era apertada, além do salário dela, o que pingava eram alguns
expedientes que eu fazia, um ou outro cachê teatral e nada mais.
Um dia, sem nada para fazer e ocupar o tempo, resolvi colocar meus atributos de mestre cuca para funcionar e, consultando os bolsos, percebi que tinha o suficiente para comprar uma barrigada de porco e preparar um pratarraz de torresmos (minha perdição até hoje).
Decisão tomada, fui em busca da matéria-prima, comprei, levei para a casa e comecei a preparar o quitute. Primeiro depilei a peça livrando-a de todos os pelos existentes, depois cortei a barrigada (estava linda e carnuda) em pequenos cubos e coloquei todos os pedacinhos em uma panela grande.
Consultei o relógio, eram quase 17h, tempo suficiente para que o acepipe estivesse pronto para a hora do jantar. Acendi o fogo e coloquei a panela devidamente tampada sobre ele.
Liguei a TV e comecei a assistir um programa qualquer. Lembro-me que a programação não estava conseguindo me entreter; fui até a cozinha, consultei a panela e vi que a banha começava a derreter.
Decidi, então, ir ao encontro da minha amada que já deveria ter saído da empresa e, pelo adiantado da hora, deveria estar na altura da Major Diogo, a caminho de casa.
Consultei novamente a panela e saí.
De fato, encontrei dona Cida na Rua Major Diogo, quase esquina com a Rua Dr. Ricardo Batista, e fomos caminhando para casa. No caminho, resolvi parar no Bar Urupês e comprar duas cervejinhas que seriam o acompanhamento líquido dos torresmos. Parei ainda na Padaria 14 de Julho, e comprei um pão de peito (pão italiano de forma redonda que os “oriundi” fatiavam de encosto ao peito) e, por fim, chegamos em casa.
Nossa casa era um apartamento tipo sobrado. Subimos a escada e, antes de concluir a subida, já sentimos um cheiro estranho no ar. Abrimos a porta da entrada e... Credo! Uma fumaceira nos envolveu totalmente.
Incêndio? Perigo? Nada me esclarecia.
Decidido, heroicamente entrei e atravessei o longo corredor que levava à sala e depois à cozinha, a fumaça era cada vez mais densa e o cheiro (fedor, para falar a verdade) era quase insuportável.
Só ao adentrar a cozinha pude verificar que a fumaça tinha início na panela do torresmo. Apaguei o fogo, destampei a panela e... Que decepção! Um monte de pedaços de carvão ressequidos e esfumaçados, grudados no fundo d
a panela.
Concluí que o nosso jantar tinha ido para as “cucuias”. Tudo por causa de um ato de carinho e cavalheirismo da minha parte.
O pior foi que o mau cheiro impregnou-se nas paredes e por um vários dias nos fez lembrar, enojados, da ocorrência.
Ah! Naquele dia o jantar foi pão italiano, uma salada de sardinhas de uma lata encontrada perdida no armário e cebolas que ainda existiam na geladeira. Tudo isso acompanhado de 2 cervejinhas geladérrimas.
Torresmo que era bom, ficou na saudade!

Por Miguel Chammas

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Tempus fugit!

Este texto de Gentil Gimenez nos foi enviado pela Suely Schraner e, embora não tenha referência sobre a cidade de São Paulo, que é o perfil deste blog, decidimos postá-lo por sua qualidade.


Tempus fugit! O tempo foge! Não importa se na beleza latina dos versos de Virgílio ou se nas letras de uma música famosa da banda Yes, com um espaço de vinte e cinco séculos entre aquele e esta. Não importa o idiom
a, o lugar ou a circunstância, mesmo que sem pompa. O sentido do tempo não muda, não se abala,
brinca apenas, como um menino travesso e irreverente. O tempo foge pelas linhas sinuosas da vida, passa por charmosas avenidas, pelos becos escuros e sujos, pelos labirintos e pelos buracos, ora deixando rastros, ora apagando pistas, às claras ou de tocaia. Tripudia soberano sobre o pastor e as ovelhas, sobre os telhados e os porões, sobre a intocável e a meretriz, sobre o moço e o velho. Irrequieto, não há pântano, cordilheira, nem floresta, por mais virgem, que o detenha. O tempo voa! Com as asas da mariposa ou com a velocidade da luz. Qualificar o tempo é impossível. Todos os adjetivos, todos os verbos, todas as palavras, mesmo que juntas e emparedadas como fortalezas, não conseguem definí-lo. Segurá-lo, então, nem em sonhos! Mágico, ilude a retina enquanto a foto acontece, como se possível fosse prendê-lo refém no papel Kodak, no chip de memória ou na tela do computador; misterioso, abrevia em meros segundos dores antigas, mas perpetua por uma eternidade os segundos impulsivos e desordenados de um orgasmo; intrigante, instiga de forma inefável o filósofo e o poeta que passam o tempo na tentativa de decifrar o tempo; dissimulado, dá a resposta ao físico sobre a relatividade das coisas, mas muda as perguntas para que o tempo seja consumido em busca de novas respostas, como um moto perpétuo, sem começo, nem fim, sem dó, nem piedade, sem pé, nem cabeça; romântico, mata de ardores os amantes no fogo letal da paixão, mas permite a imortalidade aos amores de Tristão e Isolda, aos amores de Dulcinéia pelo cavaleiro andante, aos amores de Eurídice, envolta no sono de Orfeu. O tempo não pára, nas tintas fortes do poeta-cantor,
morto em tão pouco tempo. “Oh tempo, oh costumes”, definhava-se o senador romano Cícero em suas imprecações contra Catilina. “Oh tempo, oh costumes”, corrói-se o executivo atrevido na Quinta Avenida, na busca frenética de lições de administração de tempo, para procurar inverter a ordem bíblica que provavelmente assim ficará em um moderno testamento: “há tempo para tudo, tempo para colher primeiro, tempo para semear depois.” Ah, quantas laudas pode se escrever sobre o tempo, mas quanto pouco tempo temos para tanta pretensão. O que fazer então? Sentar com o tempo, traçar as cláusulas de uma coexistência pacífica com ele. Talvez “domá-lo” de uma forma marota, que nem ele perceba. E viver com ele, ao seu lado, andando juntos. E subtrair do tempo, o seu melhor. Surrupiá-lo, como ele faz conosco. Como fazem aqueles que vivem muito, que vivem bem, não necessariamente em termos de longevidade ou em termos materiais. Como fazem aqueles que devotam tempos longos a causas soberbas, como ao amor, à família, à amizade, ao trabalho, à arte, à leitura, à escrita, à poesia e à prosa, ao culto dos autores e cantores que amenizam nossa existência, ao petisco e ao vinho, à tagarelice e tudo o mais que possa ser uma boa causa para se consumir um bom tempo. Como fazem aqueles que se dedicam a causas mais profanas, mais encobertas, como os amantes, mas igualmente causas inerentes e necessárias aos poros de cada ser humano, pois infeliz aquele que não encontra tempo para amar, em todos os sentidos e em toda a plenitude, se possível. Como faz aquele que, como outro poeta famoso, Horácio, aproveitava cada dia, vivendo-o como se cada dia fosse uma parcela de uma eternidade findável. Curta cada dia, poeta! Aproveite o dia, poeta! Carpe diem!

Por Gentil Gimenez

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Meu" sabiá

Croc, croc ! Toda manhã ele me saúda, com seu conhecido piado. Retribuo estalando a boca, é minha forma de chamá-lo e estimulá-lo a descer. E lá vem o Plínio.
Voa confiante do muro, passa para o galho mais próximo do ipê e espera que eu troque o pratinho de frutas, na árvore. É um velho amigo. Escrevi sobre ele há três anos. Mal viro as costas, já está tomando seu desjejum.
"Plínio, o Jovem", como o apelidou minha esposa, quando ainda pequeno e pouco emplumado sabiá, vinha com a mãe ao mesmo ipê, para ser alimentado por ela.
Creio que seja o mesmo, com o desembaraço que espera toda manhã, o meu aparecimento. Segundo soube por meu filho, os sabiás vivem muitos anos, às vezes mais de vinte. Então, aqui está nosso querido Plínio.

Comecei com "Meu" sabiá. É verdade que, infelizmente, pessoas ignorantes mantêm esses bichinhos em gaiola, para ouvir seu belo canto, que deve ser de tristeza, pois só se fazem ouvir na época da reprodução, na primavera.
O "meu", não. É absolutamente livre, livre, como dizem, como um pássaro! E nem posso chamá-lo de meu. Provavelmente, eu sou mais dele que ele de mim. Eu sou dele, e dele é todo o Reino dos Céus, todo o espaço e a exuberante natureza. Sou um pobre bicho da Terra, desajeitado, de movimentos limitados, preso pelas pesadas pernas ao chão, enquanto seus limites são ditados pela força de suas asas.
É uma grande honra sua preferência pela nossa casa, e particularme
nte pelo jardinzinho, onde aprendeu a exercitar seu vôo e seu direito à liberdade, da qual todo pássaro deveria gozar. Outras aves vêm nos ver, mas nenhum com tanta familiaridade. Afinal, ele é da casa, mesmo!
Que Plínio, agora não tão "Jovem", viva muito mesmo, e continue a visitar todas as manhãs a nós, que somos apenas humanos. O jardinzinho jamais seria o mesmo, sem ele.
Até amanhã, caro amigo!

Por Luiz Saidenberger

domingo, 2 de janeiro de 2011

Trianon, amor e moqueca

Antes de minha partida para a mágica terra da Bahia (isso lá pelos finais de 1973), tinha por costume passear na Avenida Paulista, admirando os poucos casarões que ainda se mantinham em pé, resistência incólume de uma época dos senhores barões do café, industriais, novos ou velhos ricos que ali se instalaram. A arquitetura era de um bom gosto inigualável em todas as épocas. Eram mansões, palacetes, vilas que frequentemente tinham a assinatura de algum grande engenheiro estrangeiro e seguiam a tendência européia do "art-noveau" e do pós "bélle-èpoque" que eu não me cansava de admirar.
Quando me cansava, seguia para o parque Trianon, recanto de mata preservada, com uma fauna e flora surpreendente, em pleno coração financeiro da paulicéia. Gostava de admirar as preguiças em suas lentidões, penduradas nos galhos das árvores, os peixes nos lagos artificiais no centro do parque, a ponte de madeira sobre a Alameda Santos, que divide o parque em duas metades.
O velho parquinho infantil, onde também brinquei nas balanças, gangorras e escorregadores, junto com outras crianças e suas babás (eu ia só), enfim, me divertia. Graças a Deus ainda há quem preserve aquele espaço natural da "natureza" (vale a redundância) e nenhuma "cabeça pensante" não teve idéias maquiavélicas contra ele (será?).
Foi também lá, na Paulista, que conheci a minha primeira esposa e num rápido romance me casei, não sem antes de um brevíssimo namoro, tendo o Trianon por cenário.
A dona Elisia (esse é o nome dela) trabalhava como doméstica de um casal de idosos residentes no Conjunto Nacional (eram judeus) e tinha muita liberdade, dado à sua extremada responsabilidade e atenção que denotava ao casal. Na verdade, tinham-na como se fosse uma filha.

Eu a conheci em uma festa de aniversário no Itaim Bibi e passamos a namorar, imediatamente. A Lia (esse o seu apelido) é uma cozinheira excepcional (principalmente da culinária baiana). Em um de nossos vários encontros ela me perguntou se eu gostava de moqueca de peixe.
Disse-lhe que não conhecia tal comida, mas não me oporia em experimentar. Qual não foi a minha surpresa quando, num determinado dia da semana (não me recordo qual), ela surge na entrada do Trianon portando um embrulho que fazia evidenciar uma travessa com algo ainda quente e, me olhando fixamente, disse: "Agora você vai comer uma moqueca baiana, atolada na pimenta...".
Minha surpresa dissipou-se ali, quando sentamo-nos num dos bancos de pedra, próximo a uma estátua de Brecheret por testemunha e, ao desembrulhar o tal pacote, lá estava a mais suculenta e saborosa moqueca de peixe à baiana.
Tal iguaria merecia um acompanhamento à altura, e foi o que fiz. Num salto, fui até o Terraço Fasano e adquiri uma garrafa de vinho tinto (o mais barato, em face de minha "dureza") e que, depois de relatado ao gerente, que achou interessante a história, presenteou-me, não sem antes conferir a veracidade do fato, o que foi feito pelo seu garçom.
Mesa posta (ou melhor, banco posto), a travessa com a moqueca, o vinho, dois copos (da Nadir Figueiredo, gentilmente cedidos pelo Fasano e que foram devidamente devolvidos), faltou o principal. Prato e talheres. Mas não estávamos nem aí para esse detalhe, digamos crucial. Perguntei se haveria problema em comermos com as "mãos", e ela disse que não. Então... "mãos" à obra, literalmente.
Comíamos e bebíamos o vinho quando dois policiais militares aproximaram-se e nos aplicaram um sermão daqueles. Quem passava por ali se detinha para ver o desfecho do "enquadramento". Os policiais ainda não tinham se "tocado" na moqueca (pensavam que era um lanche qualquer), quando um deles perguntou o que era que comíamos. Respondi-lhes: "Moqueca de peixe à baiana... quer experimentar?" Não me dei conta do atrevimento do meu oferecimento, mas o praça não se fez de rogado e experimentou uma boa "mãozada" da moqueca e, pasmem, ele gostou e ainda incentivou seu colega a experimentar, o que foi feito sem maiores cerimônias.
Os guardas experimentando, nós (eu e a Lia) também comendo e a pequena aglomeração de pessoas apreciando o banquete (muita gente ali com água na boca). Quando o policial se deu conta e viu o burburinho de pessoas, deu ordem de "circulando...", e nos dispensando com a advertência de que ali não era lugar para refeições, mesmo que fosse tal refeição tão gostosa como aquela (e tava, viu!). Permitiu-nos o término do banquete, com outra advertência (mais branda, ainda) que, de uma próxima vez, procurássemos um local mais apropriado e que não nos esquecêssemos de convidá-los (isso dito em surdina). Deu-nos seus nomes e os dias em que prestavam plantão por lá.
Infelizmente não houve outra moqueca de peixe à baiana (pelo menos lá no Trianon, não).
Terminamos o nosso jantar a dois (com as mãos meladas pelo dendê da moqueca, somada à farofa), recolhemos os restos (só sobraram as espinhas), fomos nos lavar no aquário mais próximo e acondicionamos o que fosse descartável em uma lata de lixo qualquer da redondeza, o que invaria
velmente atraiu alguns gatos vadios da região.
Voltamos a sentar no mesmo banco, agora para digerir a refeição e uns poucos amassos (com cuidado para não causar indigestão convulsiva), quando, lá ao fundo, os dois policiais estavam retornando de sua ronda pelo parque. Cruzados os nossos olhares, e num misto de entendimento recíproco, adiantei-me em antecipar o convite para a próxima moquecada em local e hora a serem previamente estabelecidos (o que, infelizmente para os policiais, não aconteceu).
Fim da noitada, levantamo-nos e nos dirigimos para o Conjunto Nacional, para que Lia fosse descansar, não sem antes passar pelo Fasano e devolver as "taças" da Casa Nadir Figueiredo, acompanhado de um singelo agradecimento de nossa parte. O Fabrizio Fasano (acho que foi ele mesmo) ficou admirado de nossa aventura e nos elogiou muito (mas não nos convidou para uma noite de massas em seu restaurante, que pena), parabenizou-nos pelo feito, achando ele que aquilo seria uma coisa do outro mundo, nos incentivando a sempre exercermos essa liberdade.
Como havia dito anteriormente, outra moqueca no Trianon nunca mais. As próximas que se sucederam foram preparadas em solo baiano e devidamente degustadas em uma mesa de uma sala de jantar, desta feita com o resultado de nossa efêmera união: nossos filhos.

Nota: Apesar de hoje estarmos separados, mantemos uma aproximação respeitosa e, ainda hoje, nos deliciamos com as moquecas de dona Lia, recordamos esse episódio maluco e rimos bastante.

Por Nelson Assis

sábado, 1 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo!


Feliz Ano bom

Esta época do ano parece realmente mágica. O Natal, principalmente, é como se agitasse uma varinha mágica sobre todas as pessoas do mundo e todos ficam mais serenos, mais pacificadores, mais generosos e tudo fica mais bonito.
Entendo que o Natal é mais que uma simples data; ele pode e deve ser comemorado por todos aqueles que entendem seu significado e que possam fazer deste evento aquela oportunidade de reflexão, de renascimento e de tomada de atitudes positivas. Afinal, nosso estado de espírito se modifica com a chegada do Natal. Mas, por que esperar pelo natal para agirmos assim, mais solidários e mais propensos a “amar uns aos outros”?
Como seria bom se todos pudessem ser mais tolerantes e fraternos em todo o ano!
Tenho pensado em tantas coisas... E o que está em nossas mãos fazer para que sejamos mais felizes e para que o mundo se transforme? Isto é ainda um grande desafio.
Sinto tanta saudade dos meus tempos de menina, lá na Vila Prudente, em nossa Rua Umuarama... No natal e principalmente no ano novo... Quan
do a criançada saía pelas ruas da vizinhança e ia desejar boas festas para as famílias... Batiam à porta das casas e diziam a frase decorada: Boas festas e feliz ano bom! Era comum o anfitrião retribuir com um pequeno óbolo... Uns trocados em dinheiro ou uma guloseima (rsss)...Quanta saudade! Não pelo dinheirinho que juntávamos e nos sentíamos muito felizes, mas, pelo gesto de generosidade e de boa convivência que as pessoas mantinham e primavam por manter a tradição, recebendo as crianças, não as maltratando nem as enxotando. Ficavam alegres e se sentiam abençoadas por receber as crianças em seus lares; entendiam que elas eram um símbolo, que representavam o Menino Jesus e não as rejeitavam. Só os mais rabugentos é que batiam a porta em seus rostos. Mas, elas nem ligavam e iam correndo tocar em outra casa.
Meu pai reservava uns trocadinhos e já nos dava, logo pela manhã do dia 1º de Janeiro... Meu avô também, nos dava um bom dinheirinho.

Hoje em dia nada disso acontece. No da 1º de Janeiro as crianças dormem até mais tarde, acompanhando seus pais que também foram dormir tarde (ou cedo, sei lá).
Os tempos mudaram e a tradição foi se perdendo... Os costumes são outros. Ficou a saudade daqueles tempos e as doces lembranças da Infância querida.
Tomara ainda possamos ver as crianças como algo bom e ensinar a elas o que de melhor pudermos para que possam ser adultos justos, corretos e felizes.
Feliz Ano Novo! Boas Festas!
2011 repleto de paz!

Por Sonia Astrauskas