
Em 1954, ano do IV Centenário, dentre todas as festividades, houve um desfile de várias escolas de São Paulo, d
e outros estados e algumas convidadas do exterior. Todas mostrando suas fanfarras estridentes, coloridas e bem ensaiadas. Esse desfile passou pela Avenida Mercúrio, em frente ao Palácio das Indústrias e eu assisti com forte emoção, pois adorava (e ainda gosto muito) do som dos tímpanos, caixas e cornetas e o malabarismo da baliza à frente, com a batuta. Mas, bastante influenciado pelo cinema, leituras, músicas e tudo que se relacionava aos americanos, eu era um sonhador inveterado, vidrado em poder um dia ir pra lá. Como tinha (e tenho) parentes norte-americanos, esperava concretizar meu sonho. Aí, minha emoção chegou ao auge: no desfile, iria passar a fanfarra do Miami Jackson High School, famosa escola da Flórida, nos USA. Menino, que show aquelas meninas deram; uma verdadeira aula de como se faz esse tipo de desfile. Duas ou três balizas, o conjunto de caixas ritmando, os pistões, flautas e flautins, as matracas, tubas e chocalhos, tudo num conjunto formidável e um sincronismo exuberante. Lembro que as músicas eram populares, no ritmo ligeiro e estonteante de Nova Orleans.
Falando em bandas e fanfarras, lembro da que abrilhantava as procissões da igreja de São Vito, que percorriam as ruas da redondeza, Álvares de Azevedo (hoje Polignano a Mare), Assumpção, do Lucas, Fernandes Silva, Benjamim de Oliveira, da Alfândega, Cantareira etc. Nas da Semana Santa, quand
o o andor era de Cristo morto, eu sabia até o repertório: Marcha Fúnebre de Beethoven e a de Chopim. Nas de São Vito e Santo Expedito, em junho, o repertório era O Cisne Branco e as já consagradas marchas de John Philip Souza. Na dos Santos Cosmo e Damião, em setembro, o repertório era variado, até Aquarela do Brasil saía.
Um pequeno detalhe acontecia na procissão do São Vito e Santo Expedito, era a disputa pra carregar o andor desses santos; desde os primórdios do século passado, já se usava o critério de uma espécie de leilão, os quatro que queriam carregar o andor de São Vito, pagavam um determinado valor que o leilão alcançava. Nos anos 40, apesar da guerra e a proibição de se falar em público, alemão, japonês e italiano (quanta bobagem, meu Deus) a procissão e os leilões seguiam como se nada houvesse. Nesta época, garoto, quando não estava atrás da banda e bem perto do tambor (por isso que até hoje não canso de ouvir o Bolero de Ravel), eu era um dos que carregavam um dos quatro lampiões que guarneciam o andor e
ouvia todos os leilões que se fazia nas periódicas paradas. O mestre-sala começava, sempre em polignanês, dialeto que é uma mistura de latim, árabe, grego e uma pitada de sarraceno, resultando daí um idioma que nem o próprio italiano entende. Quem entendia? Só nós, da terra ou descendentes. Traduzido, dava nisso: “Pili devot ca stane sote, quane mi a dê?” (Para os devotos que estão em baixo, quanto vocês me dão?” ). Os interessados se reuniam, sempre em quatro e os quartetos davam seus lances num valor, sempre acima do valor pago pelos que estavam carregando até então (uma nota preta, meu pai nunca quis entrar nessa), e o que vencia pegava o andor até o próximo quarteirão. Por que era no dialeto? Pra que ninguém que não fosse barês viesse a carregar o andor. Exclusivo da colônia, não era pra “frastiere” (forasteiro). Quem quisesse carregar um andor que fosse para o santo Expedito, que naquela época não gozava de tanto prestígio, como hoje. 
Agora, impagável era ver a pose dos que venciam o leilão, comerciantes bem sucedidos na zona cerealista da Rua Santa Rosa, peixeiros do mercado central e outros. Mantinham o nariz empinado, pose típica de “capo mafioso”, mostrando a todos seus conterrâneos que eles conseguiram “fazer a América”.
Depois de várias queixas, o leilão passou a ser feito em português. Hoje, carrega quem quiser e sem a obrigação de pagar coisa alguma; e a imagem do santo é a mesma de mais de 100 anos e com apenas meio metro de altura. Relíquia de Polignano a Mare, província de Bari, sul da Itália.
Por Modesto Laruccia
e outros estados e algumas convidadas do exterior. Todas mostrando suas fanfarras estridentes, coloridas e bem ensaiadas. Esse desfile passou pela Avenida Mercúrio, em frente ao Palácio das Indústrias e eu assisti com forte emoção, pois adorava (e ainda gosto muito) do som dos tímpanos, caixas e cornetas e o malabarismo da baliza à frente, com a batuta. Mas, bastante influenciado pelo cinema, leituras, músicas e tudo que se relacionava aos americanos, eu era um sonhador inveterado, vidrado em poder um dia ir pra lá. Como tinha (e tenho) parentes norte-americanos, esperava concretizar meu sonho. Aí, minha emoção chegou ao auge: no desfile, iria passar a fanfarra do Miami Jackson High School, famosa escola da Flórida, nos USA. Menino, que show aquelas meninas deram; uma verdadeira aula de como se faz esse tipo de desfile. Duas ou três balizas, o conjunto de caixas ritmando, os pistões, flautas e flautins, as matracas, tubas e chocalhos, tudo num conjunto formidável e um sincronismo exuberante. Lembro que as músicas eram populares, no ritmo ligeiro e estonteante de Nova Orleans.Falando em bandas e fanfarras, lembro da que abrilhantava as procissões da igreja de São Vito, que percorriam as ruas da redondeza, Álvares de Azevedo (hoje Polignano a Mare), Assumpção, do Lucas, Fernandes Silva, Benjamim de Oliveira, da Alfândega, Cantareira etc. Nas da Semana Santa, quand
o o andor era de Cristo morto, eu sabia até o repertório: Marcha Fúnebre de Beethoven e a de Chopim. Nas de São Vito e Santo Expedito, em junho, o repertório era O Cisne Branco e as já consagradas marchas de John Philip Souza. Na dos Santos Cosmo e Damião, em setembro, o repertório era variado, até Aquarela do Brasil saía.Um pequeno detalhe acontecia na procissão do São Vito e Santo Expedito, era a disputa pra carregar o andor desses santos; desde os primórdios do século passado, já se usava o critério de uma espécie de leilão, os quatro que queriam carregar o andor de São Vito, pagavam um determinado valor que o leilão alcançava. Nos anos 40, apesar da guerra e a proibição de se falar em público, alemão, japonês e italiano (quanta bobagem, meu Deus) a procissão e os leilões seguiam como se nada houvesse. Nesta época, garoto, quando não estava atrás da banda e bem perto do tambor (por isso que até hoje não canso de ouvir o Bolero de Ravel), eu era um dos que carregavam um dos quatro lampiões que guarneciam o andor e
ouvia todos os leilões que se fazia nas periódicas paradas. O mestre-sala começava, sempre em polignanês, dialeto que é uma mistura de latim, árabe, grego e uma pitada de sarraceno, resultando daí um idioma que nem o próprio italiano entende. Quem entendia? Só nós, da terra ou descendentes. Traduzido, dava nisso: “Pili devot ca stane sote, quane mi a dê?” (Para os devotos que estão em baixo, quanto vocês me dão?” ). Os interessados se reuniam, sempre em quatro e os quartetos davam seus lances num valor, sempre acima do valor pago pelos que estavam carregando até então (uma nota preta, meu pai nunca quis entrar nessa), e o que vencia pegava o andor até o próximo quarteirão. Por que era no dialeto? Pra que ninguém que não fosse barês viesse a carregar o andor. Exclusivo da colônia, não era pra “frastiere” (forasteiro). Quem quisesse carregar um andor que fosse para o santo Expedito, que naquela época não gozava de tanto prestígio, como hoje. 
Agora, impagável era ver a pose dos que venciam o leilão, comerciantes bem sucedidos na zona cerealista da Rua Santa Rosa, peixeiros do mercado central e outros. Mantinham o nariz empinado, pose típica de “capo mafioso”, mostrando a todos seus conterrâneos que eles conseguiram “fazer a América”.
Depois de várias queixas, o leilão passou a ser feito em português. Hoje, carrega quem quiser e sem a obrigação de pagar coisa alguma; e a imagem do santo é a mesma de mais de 100 anos e com apenas meio metro de altura. Relíquia de Polignano a Mare, província de Bari, sul da Itália.
Por Modesto Laruccia










































