segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Teatro de rua...arteiras...atrevidas...artistas

Tive uma infância privilegiada apesar da família grande e humilde, da qual me orgulho de fazer parte.
Na Rua Antônio Lobo, no bairro da Penha de França, fazíamos de tudo; além das brincadeiras tradicionais daquela época, como pega-pega, trepa-trepa, balança caixão, cantigas de roda, lenço atrás, passa anel, amarelinha, pula-pula, corda, quente ou frio, queimada, bicicleta etc, uma marcou por demais minha vida de criança, era o "teatro
de rua".
Para que tudo desse certo, fazíamos reuniões da turminha nos quintais e porões das casas; o porão da minha casa também era usado. Lá, planejávamos a história, as roupas, a platéia, o ingresso, o narrador, os artistas, os ensaios, o dia da apresentação, a confecção das roupas etc.
No dia marcado, as famílias pagavam pelo ingresso e traziam suas cadeiras colocando-as na calçada, no lugar da apresentação. O dinheiro arrecadado era para repor o que havíamos gasto com as roupas, que eram, na sua maioria, feitas de papel crepom mais os acessórios de cartolina, cola, linha, agulhas, purpurina, lantejoulas etc.
O mais interessante era que usávamos apenas as nossas habilidades e criatividade, os adultos não interferiam, fazíamos tudo sozinhos.
Nosso teatro era aplaudido pela platéia formada pelos nossos pais, tios, conhecidos e vizinhos lá da rua. A casa da Sonia era sempre a mais usada como camarim, lugar para a troca das roupas, e de lá saíamos para dar início à peça.
Que saudade da torcida para não chover, da crença na cruz de sal... Que saudade das roupas de crepom azul turquesa, chapéu de fada e varinha de condão... Que saudade dos sonhos de criança, dos contos de fadas e das cerejeiras do Japão.

Por Margarida Pedroso Peramezza

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Então eu sonhei com o Blog

Ontem, por incrível que pareça,
Eu tive um sonho maluco,
Que eu vou torcer como louco
Pra que jamais aconteça.

Sonhei com esse nosso Blog
E com todo nosso pessoal.
Porém, notei que no sonho
Não havia nada normal.

Sonhei ,se não me engano,
Vejam se não é dramático,
Que o Nelinho, o Miguel e o Lopomo
Eram corintianos fanáticos;
E quando perdiam as estribeiras,
Metiam o pau no Palmeiras.

Sonhei que o Bixiga
Era no bairro do Brás
E dali, se tinha uma Bela Vista
Até de Minas Gerais.


Nesse meu sonho, no entanto,
O grito de Independência
Não foi dado por Dom Pedro
E nem foi no Ipiranga.
Quem gritou, no meu sonho,
Foi a Marquesa de Santos.

A Brigadeiro Luiz Antônio
Tinha seu nome trocado.
Esse nome, no meu sonho,
Era Brigantonio Luiz Andeiro

E, até agora, depois de acordado,
Eu não sei quem foi o culpado.
Sonhei que na Rua José Bonificio,
Soltavam fogos de Artefácio


Também sonhei coisas lindas
Sonhei com a beleza do Blog
Com suas histórias bonitas,
Contadas com muito jeito
Postadas depois com carinho
Pela Sonia com muito talento
Acordei meio tonto;
Escrevi esse poema
Sentindo-me na Freguesia,
Mesmo estando em Lorena.


Por Arthur Miranda (tutu)

TV Record e o Show do Dia 7

A televisão brasileira avançou em tecnologia e nos proporciona uma rápida resposta nas programações de entretenimento. Cenários virtuais, apresentadores impecáveis e as atrações gerais. São personagens entrevistadas, cantores famosos enfim, um séquito de novidades e tudo gravado em vídeo tape, devidamente editado, com algumas sequências já suprimidas por força de uma prévia censura e cronometragem de tempo.
Nas, agora modernas 'ilhas de edição', o diretor de programação é o único responsável pela inserção, manutenção ou corte de uma determinada sequência de programa, onde ele e alguns auxiliares técnicos definem e decidem o que deve ou não ser mostrado nas telas das televisões em cada lar.
É a cara do 'novo', da televisão em cores, da tecnologia avançada, que chega em nossos lares em tempo real e em apenas, um 'click'.
De passagem pelos canais de TV em minha casa, deparei-me com a reapresentação do programa 'Criança Esperança', da TV Globo, que já havia sido apresentado e, como de costu
me, gravado anteriormente e foi reprisado neste sábado, dia 21 de agosto, em sua programação vespertina.
O que não seria uma simples surpresa, causou-me uma pequena admiração pois, há algum tempo, não mais havia visto uma programação comemorativa de qualquer evento mais significativo como o 'Criança Esperança', ou outro qualquer, e com grande platéia.
Com uma enorme estrutura cênica montada no ginásio do Ibirapuera (acho que foi lá), o que se viu foi uma platéia dividida, onde a apatia de alguns foi suprimida pela pré-gravação de aplausos e ovações, dispensadas as tradicionais 'claquets' de animação.
O show se prestou para o que se pretendeu mas, ficou um vazio. A sensação de ainda estar faltando algo para a sua total concretização. Um quadro mais envolvente, um artista mais ansiosamente esperado, um suspense para o 'gran finale', não sei. Ficou, em mim, esta impressão e isso porque, de todos os shows televisivos a que assisti, todos eles tiveram desfecho emocionante ao seu final.
Na década de sessenta, a 'bola da vez' era a TV Record - Canal 7 que tinha sua programação imbatível e líder de audiência dentro e fora do tal chamado 'horário nobre'. Novelas, filmes, seriados, programas humorísticos (quem não se recorda da 'Família Trapo'), noticiários e as famosas propagandas (que muitos de nós chamávamos de 'reclame'), muitas vezes apresentados ao vivo pelas belas Idalina de Oliveira e Neide Aparecida, impecavelmente trajadas em seus vestidos bem rodados ou nos famosos 'tubinhos' acetinados e bem delineados, a seus corpos esculturais, complementadas em suas belezas, pela suave maquiagem facial e os arranjos dos cabelos. E olha que isso foi numa época em que a televisão era transmitida em preto e branco e 'ao vivo'.
Tupi - Canal 3, Nacional - Canal 5, Excelsior - Canal 9 eram as emissoras concorrentes da emissora que tinha um 'tigre' como mascote e penavam na disputa do ibope e, bem verdade que a TV Tupi tenha sido a pioneira, perdia em programação para a Record.
Dos muitos e vários programas que marcaram a trajetória da Record, posso citar um em especial. 'O Show do Dia 7'.
Programa de auditório e de variedades, tinha a sua apresentação em forma solene; era sempre apresentado em todo o dia sete de cada mês, chovesse ou não; suas últimas apresentações foram no antigo teatro Paramount (hoje, teatro Abril), na brigadeiro Luiz Antônio.
Foi um programa que, paralelamente ao 'Jovem Guarda', exibido nas
tardes de domingo e sob o comando de Roberto Carlos, disputava um público enorme em sua platéia. As cerimônias de apresentação ficavam sempre a cargo de um quarteto de apresentadores consagrados e de muita competência - Randal Juliano, Blota Junior, Sonia Ribeiro e Helio Ansaldo. Por vezes, Idalina de Oliveira ou Clarice Amaral também somavam no palco das apresentações.
Com uma programação artística bem elaborada, os 'sketch's' eram bem estudados e cada uma das apresentações artísticas eram bem ensaiadas, principalmente o corpo de baile que sempre apresentava uma nova evolução, com alguma coisa de novidade. Esta área era de responsabilidade do balé de 'Luciano e Luciane', contratados exclusivos da emissora.
Wilson Simonal, Elizeth Cardoso, Ataulfo Alves, Ciro Monteiro, Ivon Cury, Ronnie Von, Elis Regina, Jair Rodrigues, Zimbo Trio, Os Cariocas, Quarteto em Cy e muitos outros artistas, davam o brilho da festa de cada dia sete de cada mês e, invariavelmente, o 'gran finale' ficava a cargo do rei Roberto Carlos que, com boa parte da sua turma da Jovem Guarda, fechava com brilhantismo maior, um dos maiores espetáculos televisivos da televisão brasileira.
Perfilavam-se no quadro final Eduardo Araujo (sem a Silvinha, ainda), Trio Ternura, Trio Esperança, Golden Boys, Martinha, Os Vips, Leno e Lilian, o 'Tremendão' Erasmo Carlos e Wanderléa. Tudo isso era 'ao vivo' e com uma infinita possibilidade para uma 'falha nossa' ou uma gafe mais grave ou mesmo um sério 'problema técnico' e, apesar das transmissões serem em preto e branco, a definição da imagem era impecável - pelo menos para nós, lá no Bixiga.
Os cenários, muitas vezes tiveram um padrão monocromático pois, por ainda serem em preto e branco, as transmissões poderiam garantir um pouco da fidelidade do prata, do branco ou do preto que decorassem a cenografia. Outras cores também foram utilizadas mas, só quem estivesse presente no teatro poderia contemplá-las.
Hoje, as profusões de cores tomam lugar em cada vídeo, seja ele Plasma, LCD ou Led, ou simplesmente tubo de imagem em cores mas, o inusitado do princípio, com o engatinhar da tecnologia, nos remete às lembranças de outrora e à saga daqueles que fizeram a televisão brasileira um marco no universo das comunicações.
Neste meio século que nos separa da técnica para a nova tecnologia, me ocorre um
pensamento - o que será de nossa televisão daqui a mais cinquenta anos? Só o tempo poderá responder. Enquanto isso, ficaremos assistindo programas gravados em estúdios resumidos com o 'cromaquí' - que é tão somente o pano de fundo azul para a projeção de cenários computadorizados - e as 'claquetes' orientando algumas dezenas de participantes 'in off ' para, conforme orientação, rir, aplaudir, suspirar, admirar, etc e tal, como se platéia ali tivesse.
Você até poderá dizer que eu estou errado pois, programas de auditório ainda existem. Sei disso. Silvio Santos, Programa do Gugu, Domingão do Faustão, Eliana, Raul Gil, CQC e outros mais, são programas de auditório. Contudo, ainda não conseguiram o brilho e a envolvência que só o Show do Dia 7 proporcionava.
Saudades, fazer o quê?!


Por Nelson Assis

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Superstições - 1ª parte


imagem acima: Na barranqueira do Viaduto do Chá, está o Edifício Alexandre Mackenzie, que hoje abriga o shopping Light, antes era a sede da Brasilian Traction Light and Power Company Limited, ou simplesmente, "Light"


Os mais antigos sempre diziam: “A “Light” (Light & Power Co. – atual Eletropaulo) matou o Saci, a Mula sem cabeça e o Lobisomem...”

A iluminação pública dissipou as sombras e a escuridão de breu, que descia sobre a cidade nas noites antigas sem luz e nas noites iluminadas pela luz mortiça dos lampiões de gás . Era nas sombras que ficava o mundo dos fantasmas e dos seres fabulosos que assombravam as noites paulistanas.

Depois da “Light”, nas noites de Lua-cheia o Lobisomem, uivando, não vinha mais se esgueirando pelas sombras, arranhar as portas e janelas das casas. Nunca mais se ouviu falar das “almas penadas” que, gemendo e suspirando, caminhavam a esmo pelas ruas, buscando abrigo sob as figueiras centenárias que existiam nas praças da Paulicéia.

Nas noites escuras de tempestade não existia mais o temor de se olhar pela janela e enlouquecer ao ver a Mula-sem-cabeça bufando, cuspindo fogo e escoiceando o ar, como se estivesse sendo atacada por mil demônios.


Ríamos dos nossos avós que nos avisavam para que nunca saíssemos à rua e nunca olhássemos pela janela à meia-noite, na virada do dia primeiro para dois de novembro - dia de Finados. Era hora em que as “almas penadas” saiam em procissão pelas ruas da cidade. E era fato sabido que: Aquele que visse a procissão estaria nela no ano seguinte...

Aconselhavam-nos a fugir dos redemoinhos que se formavam pelas ruas nos dias de ventania. Era dentro deles que vinha, invisível, o Saci. Aquele que não fugisse do redemoinho, veria o Saci materializar-se diante de seus olhos, pedindo-lhe fogo e fumo para o seu pito. E, ai daquele que não tivesse fogo e fumo! Ficaria abobalhado por muitos dias.

A “Light” matou os seres fabulosos do nosso folclore. Expulsou as “almas penadas”. Mas não matou a superstição entranhada no inconsciente coletivo dos imigrantes que, oralmente, a transmitiam aos seus descendentes. Não que eu desse muita importância às superstições. Incomodava-me um pouco. Talvez fosse porque esse inconsciente coletivo fizesse parte do meu gene. Vai-se entender. Estava “no meu sangue”, não havia nada a fazer. E, afinal, “Yo no creo en brujas. Pero que las hay, las hay”!... (Eu não acredito em bruxas. Mas que existem, existem!)...

Sentado no degrau do meu portão, olhava extasiado para a enorme lua-cheia, cercada por um halo. “La spagnola” (Dona Consuelo), que passava pela calçada, vinha em minha direção e cobria os meus olhos com a mão, dizendo: “La Luna tiene cerco! Non la mire tanto, para qué no le tra
iga la muerte o la mala suerte”! (“A Lua tem halo! Não a olhe tanto, para que ela não lhe traga a morte ou a má sorte!”) Contou-me, Dona Consuelo, que toda vez que um círculo (halo) envolvia a Lua, grandes catástrofes podiam acontecer. Era uma Lua de mau-agouro. Anunciava morte na família, grandes perdas materiais, doenças. Enfim, anunciava todo o tipo de desgraças. E lá se foi “la spagnola” benzendo-se e murmurando fórmulas para exorcizar aquela noite agourenta. Eu estava terrificado. Olhava para a Lua com o canto dos olhos e dizia a ela em pensamento: “Me cago en la ostia se te miro otra vez!” (Me ca... na hóstia se te olho outra vez!)

Ah! Os velhos tempos! Ainda me maravilho com essa capacidade que tínhamos em falar, em pensar, nos vários idiomas e dialetos que enchiam de sons a Mooca, a nossa rua...

Por Wilson Natale

Via Anchieta

Imagem acima: inauguração da Rodovia Anchieta em 1947 e, ao lado, Via Anchieta de agora.

No verão passado, tendo que ir à praia, como de costume peguei a Imigrantes. Mas ao chegar lá na frente, como era segunda-feira, as pistas estavam todas voltadas para São Paulo.

Que pena, pensei, tenho que ir pela Via Anchieta. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com a antiga Via sem muito trânsito e foi dando para eu observar todo o redor daquela estrada pela qual não passava há muito tempo.

Como são lindas as suas curvas... E depois de cada uma delas vem aquela vista maravilhosa da Serra, verde e cheirosa. Lá estava aquela cascata que eu via desde menina, os túneis que me encantavam e depois de uma curva a vista da cidade de Santos com o mangue. Todos no mesmo lugar.

Foi emocionante rever tudo isso e voltar àqueles tempos de menina.


Por Lourdes Cecilia Bove Ciavata

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Minha história mesclada à de Sampa – 3ª parte

Nossas casas’, talvez por serem relativamente grandes, sempre foram ponto de encontro da família. Era lá que se realizavam as festas de Natal, que eu esperava ansiosamente durante todo o ano. Para mim o momento mágico começava quando, no início do mês de dezembro, meu pai aparecia em casa com um pinheiro natural, que seria plantado numa daquelas latas de óleo, de 20 litros. Era quando a minha mãe tirava para fora as caixas que continham as bolas e enfeites para a árvore e, todos juntos, íamos colorindo o pinheiro com bolinhas de tamanhos variados, carinhas de Papai Noel, anjos variados, passarinhos, casinhas e toda a multiplicidade de enfeites de vidro fino como casca de ovo e brilhante como verniz que se espalhava pela árvore. Depois, aqueles festões dourados e a ‘neve’ feita com flocos de algodão. Por fim, emaranhar os galhos com os fios das lampadinhas coloridas e, agora, era só cobrir o latão que suportava o peso do pinheiro com um tecido vermelho e enfeitá-lo com um laço de cetim verde e, pronto! Era só ligar as lampadinhas na tomada e ficar maravilhado com a mágica beleza do Natal!

Depois de pronta e acesa a árvore, minha mãe preparava uma bela guirlanda feita com bolas coloridas e a prendia à porta de entrada. Chegava o momento em que meu irmão e eu pedíamos ao nosso pai para escrever a cartinha pedindo os presentes para o Papai Noel e, dia após dia, ficar na expectativa de ver se mereceríamos ou não ganhar aqueles brinquedos sonhados que, geralmente acabávamos ganhando.

As ruas e as lojas também se enfeitavam nessa época e, num sábado de dezembro, íamos todos até São Paulo para vermos os enfeites e os presépios das grandes lojas (Mappin, Mesbla, Pirani, etc.). Nada era tão feérico como hoje, mas havia muita magia pelo ar. As pessoas pareciam mais alegres e as crianças mal continham suas expectativas.

Na véspera de Natal, à tarde, começavam a chegar tios, primos e até alguns poucos amigos da família. Alguns traziam pratos prontos, outros garrafas de vinho e a mesa começava a ser montada para a ceia que era o ponto alto da festa. No ar, o cheiro dos assados se espalhando pela casa e os sons de risos e de conversas variadas, que se cruzavam e descruzavam, numa algazarra gostosa e de muita alegria. A criançada corria por todos os cantos, brincando, gritando, rindo, às vezes brigando e logo voltando a “ficar de bem”, pois era Natal e ninguém podia ficar “de mal” com ninguém nesse dia.

Quando era dado o sinal, geralmente pela minha avó, todos ocupavam seus lugares em volta da mesa engrandecida com o acréscimo de outra mesa e até de algumas tábuas, mas devidamente coberta por enormes toalhas coloridas e repleta das iguarias da época. À sua volta, todas as cadeiras da casa e alguns bancos, que eram tábuas sobre dois ou três bancos para caberem todos sentados. Ninguém se lembrava de que nessa data se comemorava o aniversário de Jesus e nenhuma prece era feita, talvez intimamente por uma ou outra tia mais religiosa. Depois de nos fartarmos com o banquete, finalmente chegava a hora mais aguardada pela meninada! Nessa altura, alguns dos mais novos já estavam dormindo ou morrendo de sono, mas resistindo bravamente à espera do ‘grande momento”.

No canto da sala, majestosa, a Árvore de Natal com suas lâmpadas pisca-piscando, com muitas caixas embrulhadas para presente espalhadas à sua volta. Que eu me lembre, nenhum de nós jamais se perguntou como aqueles presentes apareciam por ali. Para nós, o Papai Noel entrava enquanto estávamos distraídos e, se o víssemos, como castigo ele não deixaria os nossos presentes. Isso se dava sempre por volta da meia noite e era nesse momento que as mães começavam a separar as caixas e distribuir os presentes ‘deixados’ para os seus filhos. Era uma confusão de papel rasgado e amassado, laços de fita amontoados e gritos de surpresa e prazer com os presentes g
anhos. Depois de atingido o ponto máximo da festa, acabávamos nos rendendo ao cansaço e, embalados pela felicidade, nos entregávamos ao sono profundo para, no dia seguinte, brincarmos com nossos novos brinquedos.

Não sei quando os meus tios se retiravam, pois mesmo sendo grande, a casa não comportava todos para dormir. Meus primos eram espalhados em colchões pelo chão e ficavam lá em casa. Na manhã seguinte, alguns reclamavam a ausência dos pais, mas logo os esqueciam para brincar inocentemente. Por volta da hora do almoço, todos começavam a retornar. A mesa era recomposta, as comidas eram esquentadas e o banquete recomeçava. Era no almoço que um ou outro tio, uma vez meu pai, abusavam um pouco do vinho e acabava saindo um ligeiro bate-boca logo abafado pelos outros e, nada que uma boa soneca espalhados pelos aposentos da casa, não fizesse esquecer e tudo voltar às boas para o jantar, ainda feito com a reciclagem da ceia.

Por Zeca Paes Guedes

Hospital Humberto Primo

Estávamos na metade da década de 50 quando eu cismei de brincar de touro, com um bode. Deveria ter ouvido o meu primo, Capuletta, que me disse: - “Não se meta a fazer aquilo que não sabe”. Mas, desobedeci e fui tourear o bode. Conclusão: Levei uma chifrada na coxa da perna esquerda.
Apesar de um corte de um centímetro e meio, não sangrava muito. Dona Lesse, nossa vizinha, me disse para eu ir ao hospital Humberto Primo. Me deu o endereço, pois já tinha ido lá e foi bem a
tendida.
O hospital ficava na Rua Itapeva, Bairro da Bela Vista, bem próximo à Avenida Paulista. Estando dentro do complexo hospitalar , vi que se tratava do hospital Matarazzo, que foi construído por um homem simples, vindo da Itália, com uma mão na frente e outra atrás, começou enlatando banha na cidade de Sorocaba e, depois, veio para São Paulo onde ergueu o maior complexo industrial das décadas de 40-50.
Com espírito socialista, ela tinha em mente que aquilo que ele ganhava vinha do povo, então, tinha que dividir com o povo parte do que ganhava; foi assim que ele construiu outro complexo. O complexo hospitalar. Estando lá, boquiaberto com tudo aquilo que via em termos de estrutura arquitetônica, comprovei que o atendimento, assim como o prédio, era muito bom. Foi feito assepsia do local e colocaram mercúrio cromo, depois, fizeram curativo com gaze e esparadrapo, em forma de cruz para fixar bem.

Quando pensei que estava tudo em ordem, virando as costas para o médico sem ao menos dizer obrigado, fui puxado pelo braço, ouvindo sua voz com um chiado de riso. -Aonde vai, garoto. Pensa que acabou? Vai tomar uma injeção, para que não infeccione e, também, a vacina antitetânica, como prevenção, valida por dez anos.
Pouco tempo depois, tive uma gripe, por conta de ter ficado muito no sereno; a gripe demorou a sarar e já estava ficando crônica. Voltei ao hospital Humberto Primo, ou Matarazzo e, depois de uma longa consulta, ficou diagnosticado que, além da gripe, eu estava com sintoma de sinusite e me receitaram buchinhas, como aquelas buchas de tomar banho e esfregar os pés, só que menores. Mergulhadas em água bem quente, elas soltavam uma espécie de gosma e pequenas sementes pretas. A ordem era inalar o
vapor, inspirando forte e expirando, para ajudar nos sintomas da sinusite. Segui a recomendação do médico à risca, até sair sangue do nariz. Ai, eu parei. O médico também percebeu, em mim, a falta de cálcio, prescrevendo o remédio Doceful Cálcio.
Daí para frente, nunca mais precisei ir a hospital algum.
35 anos depois, retorno ao hospital Matarazzo, não mais como paciente e sim, como visitante. Meu sobrinho Renato, de nove ou dez anos, estava com o coração bastante fraco. A solução era uma operação, considerada bastante delicada, diante do estado dele. Com aquele atendimento, o mesmo de anos anteriores, dava a esperança de dias melhores para o menino. Renato foi operado e seu restabelecimento era dos mais positivos. Os médicos diziam a Tânia, sua mãe. Fique tranquila, vai dar tudo certo. E deu. Quando ele já estava fora de perigo e as visitas já podiam ser feitas pelos demais familiares, fui até lá, visitá-lo.
Entrando pelo portão principal , me veio à mente o ano de 1955, quando lá estive, a primeira visita como paciente. O hospital era o mesmo, nada tinha mudado em sua arquitetura. Enquanto aguardava os outros familiares fazerem a visita ao Renato, andava pelos largos corredores de lajotas, que tinham sido de primeira qualidade, vindos da Itália. Já estavam desgastadas pelo tempo... Comecei a pensar sobre quantas e quantas pessoas por ali já deviam ter passado, em busca de sobrevivência. E mais: aquele não era um hospital público; era um hospital particular, mas que recebia de bom grado pessoas, gratuitamente. Depois ficou nas mãos do INPS. Na verdade, o hospital como um todo, estava pior do que meu sobrinho, enquanto ele estava cada dia mais em condição de receber alta, era o hospital que estava a caminho da UTI.
Pensava eu por que será que uma obra tão humanitária podia ficar tão desamparada assim? Alguém que estava por perto, vendo minha indignação, pois tinha falado justamente para ver se alguém se manifestava, respondeu na mesma hora: - Está na cara que há especulação imobiliária por aqui. E, quanto mais deteriorado ficar, melhor para eles. Quando não tiver mais como levar avante esse enorme complexo hospitalar, com alguns blocos já fechados, ficarão de posse do imóvel.
Tempos depois, passando pela Rua Itapeva, onde se localizava o hospital Matarazzo. O prédio ainda estava de pé, mas, praticamente apodrecido, com seu terreno cercado por madeirite, à espera de uma ação da justiça, que ia dar o veredicto final, sobre quem ficaria com o imóvel, com um fundo de pensão, a PREVI, que se apodera de, praticamente tudo, para revender a quem possa pagar para restituir o fundo.
“O hospital morreu”. Renato, não. Hoje ele é adulto, com bastante saúde, um me
tro e noventa de altura, já foi jogador de basquete e está vendendo saúde.
Já o hospital, se ainda está salvo, é pelo fato de estar tombado pelo patrimônio histórico (Condephate), o que impede sua implosão. Somente com a deterioração,com o apodrecer de tudo e ele vier ao chão, pela providência de Deus, é que alguém vai rir muito. Como sempre tem alguém que se aproveita da desgraça dos outros.
A minha indignação é também de Aldeneide e sua irmã, ambas como eu, um dia estiveram lá e foram muito bem atendidas. Juntamente com outras pessoas, das quais faço parte, a convite de Aldeneide, lutamos para a preservação dos prédios dentro daquele complexo, e que volte a ser um hospital. É difícil, mas não impossível.

Por Mário Lopomo


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Na carteira e no pátio

Amarcord - (Io me raccordo). Inesquecível filme de Fellini, com tipos antológicos como professores. Quando penso nos que tive, faço sempre uma ligação com aqueles tipos fellinianos.
Eram outros tempos; ali o que contava era o ensino público. Escolas particulares eram menosprezadas. Bem, haviam ótimos colégios particulares, nem todas eram moleza, mas, algumas delas sim, o que originava este boato.
Então, se você queria ensino e disciplina rigorosos, nada como uma boa escola pública, de preferência com nome ilustre.
F requentei uma destas, no interior. Na verdade, frequentei mais de uma, pois mudávamos seguidamente de cidade, como uma tribo de ciganos. Mas, em Campinas, estudava na mais tradicional, pela qual passaram muitos personagens famosos, daqueles que dão nomes às ruas.
Nas suas veneráveis escadarias, fotos com professores e formandos notáveis pendiam das paredes, em grandes quadros escuros. Era um espetáculo assustador, subir sob os olhares de censura daqueles vultos severos.
Mas, tinha de enfrentar os professores reais, ainda mais rigorosos, ou, pelo menos, aparentavam isto. Tinham status e pose de luminares do ensino, considerando-se infalíveis e omniscientes. Io me raccordo:
- Sampaio, professor de português, implacável, incapaz de um sorriso. Cultor da nobiliarquia, só fazia chamada oral para alunos com nomes quatrocentões, pronunciando lentamente, como se saboreasse - "Augusto Frederico Novaes de Camargo Barros!" Se você fosse um Zé das Couves, tinha boa chance de nunca ser chamado, o que não deixava de ser uma vantagem.
- Galvão, de latim, idoso, magro e meio gagá, com seus ternos sempre negros e colarinhos puídos. Era casado com uma hedionda professora de português, com quem tive de passar um ano, Mercedes. Galvão gastava seu latim, sem que ninguém lhe desse atenção, fato de que não se dava conta.
Uma única vez escapou à sua rigidez, contando uma piada, para espanto dos alunos - "vocês sabem a diferença entre um paulista e um paulistano?" Ninguém sabia. -"ora, um paulistano é um paulista com um nó no rabo!" Quiá,quiá,quiá! A classe caiu na risada. E Galvão, furioso – "silêncio, seus imbecis! Silêncio!"
Agora, eu lamento o pobre Galvão, fosse hoje em dia, tentaria ser o melhor aluno da classe! Ainda assim, lembro o início de "De Bello Galico", de César: - Galia est omnia divisa in partes tres, primae Vercingetorix regnat...
- O violento Von Stuck, de educação física, que em seus maus dias fazia os alunos passarem por um "corredor polonês", levando pancadas da enorme "medicine ball" por todos os lados...
Nem tudo era essa dureza e mau humor. Havia Maria Helena, professora de geografia. Passeava sua beleza morena entre os alunos embevecidos, com os hormônios pipocando à flor da pele, um oásis naquele mundo de mestres carrancudos e enrugados.
Com a morte de meu pai, viemos para São Paulo. Aqui, no curso noturno no Roosevelt da R. Gabriel dos Santos, a pressão era bem menor. Ainda haviam alguns mestres durões e rabugentos, mas, a maioria, se solidarizava com os alunos, alguns já cansados da jornada diária de trabalho, tendo ainda de acordar cedo no dia seguinte.
Ainda assim, foi um ótimo curso. Sempre estudei melhor quando sentindo-me respeitado e tendo mais incentivo dos professores. Lembro-me agora, com espanto, da severidade e antipatia com que éramos tratados pelos antigos "luminares". Como é que podia? Hoje não dá para acreditar.
Fellini que o responda.

Por Luiz Saidenberg

Memórias Garrafais

Sou, orgulhosamente, brasileiro e paulistano, mas, minha descendência ajudou a forjar minha personalidade. Sou neto de sírios, por parte de pai; meu avo materno era italiano, melhor ainda, napolitano. A nacionalidade da minha avó materna, que não cheguei a conhecer, era russa e foi criada desde muito pequena na França.
Assim sendo, sou uma salada internacional, em se tratando de formação sanguínea. Vem daí a minha característica artística, deve ter vindo da parte italiana, e a minha queda comercial da parte síria. Todo esse preâmbulo eu fiz para iniciar o relato desta minha memória.
Os anos eram os primeiros da década de 50; eu morava, como muitos já sabem, na Rua Augusta 291. Já contei, também, que a casa era antiga, de pé direito muito alto e, agora, acrescento uma informação, ela tinha um porão com mais de um metro de altura, utilizado para guardar tranqueiras, coisas obsoletas, livros antigos, garrafas e litros vazios que eram bastante importantes naquela época. O porão ocupava a totalidade da área construída e, na sua parte fronteira, tinha pequenas janelas resguardadas por grades de ferro e ficavam a pouco mais de 30 centímetros do piso da calçada fronteiriça.
Nos primeiros compartimentos desse porão, eu, meu irmão e meu primo, havíamos delimitado o nosso reino de fantasia. Ali brincávamos, guardávamos nossos poucos brinquedos oficiais e os muitos brinquedos de faz-de-conta que construíamos.
Como um verdadeiro Rei, por ser o mais velho, eu não permitia aos demais componentes daquele reino a ultrapassagem para as demais dependências daquele escuro porão. Para lá, só um verdadeiro e heróico rei poderia fazer incursões e eu as fazia e, nessas minhas explorações, eu dava vazão não só ao meu espírito aventureiro, mas, também, ao meu espírito de comerciante.
No meio desse porão, ficava o depósito de garrafas e litros vazios.
A mim cabia, então, a importante tarefa de transportar essas preciosidades até as janelinhas frontais do porão e, depois, na primeira oportunidade, já na calçada, resgatá-las com cuidado, e oferecê-las no empório que ficava na esquina da Rua Caio Prado com a Rua Augusta, para o “seu José”, proprietário do estabelecimento, que as comprava de muito bom grado.
As verbas obtidas nessas transações eram aplicadas em doces, sorvetes e ingressos para as matinês do Cine Odeon, para assistir aos seriados de Dick Tracy, O Cobra, e os filmes de Esther Willians, Doris Day, Fred Astaire e muitas outras celebridades.
Essas aventuras financeiras duraram muito tempo. Eu até pensava que elas não teriam mais fim. Um dia, sem mais nem menos, minha fonte de rendas foi descoberta. As garrafas, já em fase terminal, assustaram minha mãe, minha tia e meu avô.
A falta das garrafas já transacionadas promoveu uma grande surra neste que lhes escreve e, como castigo, um mês sem cinema e guloseimas.
Hoje, ao me lembrar do caso tenho mais convicta ainda, a certeza de que não tive a mínima culpa em toda a estória... A culpa foi devido, totalmente, à minha descendência oriental.

Por Miguel Chammas

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Cicatriz e o Circo

Perguntado por meu filho, Fernando, sobre a origem da cicatriz que ostento no outrora saliente bíceps do braço direito, fui, de imediato, levado a um fato ocorrido no início dos anos 60.
Ouvíamos ao longe o som da banda e, logo, perfilava ao longo da rua, ainda de terra batida, o desfile dos astros. O homem de perna de pau, os anões, os palhaços, a banda e o que mais queríamos ver os animais, capitaneados pelo rei Leão e o gigante Elefante.
Era o Circo Stankowich, que desfilava pelas ruas de Itaquera, anunciando sua chegada para mais uma temporada.
O circo, como em todos os anos, era armado no campo do Elite, ali onde meu amigo Cebolinha derrubou o helicóptero com uma pedrada.
Na época, as grandes atrações do Circo eram os animais selvagens e, circo que prestava, tinha que ter leões, elefantes, ursos, tigres. O domador juntamente com o casal de trapezistas, eram os principais astros do espetáculo.
Pois bem, um dos canais de marketing do circo era a entrega, nas escolas do bairro, de um convite para cada criança assistir à primeira matine. É claro que o convite era só para a criança, os pais teriam que pagar.
Naquele dia, recebemos na classe os convites e mal podíamos esperar o final da aula, pois seria certo cortar caminho no retorno para casa e andar mais um quilômetro para passar no circo e ver os animais.
Tocou o sino de fim de aula e lá fomos nós, em disparada, até o campo do Elite. À distância o cheiro inconfundível dos animais já denunciava a presença das feras naquele local.
Os bichos estavam quietos. O elefante acorrentado por um dos pés a uma tora enterrada firmemente no gramado. O leão cochilava e mal abria os olhos, demonstrando um grande cansaço pela viagem e o
tédio de passar a vida naquela jaula fétida, de não mais que 4 metros quadrados, já nem ligava para as moscas. O tigre andava, ou melhor, virava-se de um lado para outro, também dentro de sua diminuta jaula.
As crianças, boquiabertas, admiravam as feras e, ao meu lado, estava o Tampinha, apelido do Elvélcio (melhor que seja Tampinha), pois era um garoto de estatura bem menor que os demais de sua idade, porém, maior que todos, quando se tratava de aprontar alguma. Fomos, por fim, visitar o animal de menor prestígio, o Urso Pardo, que estava bastante ativo em sua jaula, excitado pelo agito da garotada.
Não sei qual o motivo, se bem que, para o Tampinha, não havia razão ou motivo, ao chegarmos perto da jaula do Urso (mais tarde vim saber que era um urso fêmea), o Tampinha me empurrou de encontro à jaula. O animal não teve dúvidas e agarrou meu braço, puxando-o contra as grades. Por sorte, o tratador estava ao lado e cutucou o animal com um gancho de servir alimento aos bichos. Dois cortes superficiais e um furo profundo até o osso foi o resultado do ataque. Muito sangue e, para mim, o pior, meu agasalho novo rasgado, o que seria motivo para levar uma surra de minha mãe.

Fomos diretos para a farmácia do seu Barreiros, que limpou bem os ferimentos e deu um ponto de latinha no furo maior. Depois de uma injeção antitetânica, que doeu mais que a patada do urso. Fui conduzido para casa pelo administrador do circo. Ganhamos uma permanente para assistir a todos os espetáculos, de graça e no camarote.
Tampinha continua lá, em Itaquera, e todo final de semana eu o vejo com seu carrinho de amolar facas, ostentando o sorriso de um único dente, o canino esquerdo inferior, que me faz lembrar a presa de um urso.

Por Marcos Falcon

Memórias de um Juiz de Paz - II

imagens: Paróquia Imaculada Conceição; Paróquia Santa Cândida; Igreja Nossa Senhora Aparecida; Igreja São João Clímaco


Em minhas andanças, na época em que exerci a função de Juiz de Paz, no cartório do Ipiranga, tive a oportunidade de conhecer os padres de algumas igrejas do bairro.
Na paróquia de Santa Cândida o vigário era o Padre Vicente, com quem tive longas conversas a respeito da nossa religião católica.

Na paróquia da Imaculada Conceição, da Av. Nazaré, o vigário era o Padre Castilho, um homem bonachão, que contava várias histórias do tempo em que ele esteve em Roma (infelizmente ele faleceu no mês passado).
Na igreja de Nossa Senhora Aparecida o vigário era o Padre Mário,
hoje falecido, um homem enérgico e de poucas palavras, mas nos atendia sempre com amabilidade.
Na paróquia de São José eu tive grande amizade com o Padre Aléssio, jovem e alegre, esse pároco me ensinou muita coisa; o pai dele morava em Santa Catarina e, de vez em quando, enviava um litro de cachaça, da boa, curtida em ervas. No sábado, antes da cerimônia do casamento civil, ele me conduzia à cozinha da paróquia e me servia um gole da cachaça (depois eu tinha que mascar um chiclete de hortelã para que os noivos não sentissem o bafo, na hora do "sim").
Um capítulo especial é para o pároco da igreja de São João Clímaco; Padre Beno era o seu nome; esse homem trabalhava 18 horas por dia, atendia pessoas até as 23 horas da noite, na sacristia, tentando resolver os problemas das pessoas que o procuravam. Muita vezes, deixava até de se alimentar. Uma vez, ele me disse: "Leonello, ser padre é muito fácil, o difícil é ser sacerdote". Lutou muito para manter a igreja em condições, pois o bairro era pobre; chegou a ser ameaçado de morte por jovens drogados, mas, com paciência e carinho, conseguiu recuperar muitos deles. Infelizmente, faleceu muito cedo. Sem dúvida, foi uma grande perda.


Por Leonelo Tesser (Nelinho)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Meu quintal na Freguesia do Ó

Meu quintal na Freguesia era enorme,
isso na década de cinquenta.
Tinha sapos, tinha grilos, gafanhotos e pererecas,
tinha minhocas, tinha aranhas,
formiga então, tinha à beça.
Tinha patos e galinhas, tinha gansos,
Até mesmo uma marreca.
Tinha mamão, jabuticaba,
e eu nunca saia de casa,
para comprar uma goiaba.

São Paulo era tão gostoso
e o meu quintal, uma festa.

Não havia asfalto na rua,
e para não levantar poeira
o pessoal da prefeitura sem raio e sem trovão
trazia uma chuva fininha,
passeando de caminhão.
deixando a terra ensopada
e aliviando o verão.
Ah! como era gostoso o cheiro da terra molhada,
a garotada descalça corria... Pelas calçadas,
Era a festa da molecada.

E quando chegava São João
muita gente fazia festas.
Eram fogos, foguetes, balões,
muitos estouros de Rojões.
Bombinhas por todo lado.

Para essas festas bonitas,
todo mundo era convidado
para comer batata assada,
pipoca, queijo com goiabada,
amendoim torradinho, um saquinho com pinhão,
canjica, arroz doce, o esperado quentão.
muitas broas de fubá.
São Paulo daquele tempo
Muita saudade me dá.
Não faz muito tempo não,
São Paulo tinha nas ruas
bonde aberto e camarão.

Todo mundo jogava bola,
tinha campos pra todo lado.
Quase não tinha ladrão.
Tinha o homem da prestação,
leiteiro e até padeiro no portão.
O salário era pouco, mas a vida era mais barata.
Tudo na base do vintém
e até para ir á Santos a gente pegava um trem.


Minha São Paulo ainda é gostosa,
mudou muito, é verdade, ficou enorme, moderna.
Novas pontes viadutos,
Que às vezes nem a reconheço,
olhando-a de minha janela.
Tenho até dificuldades de andar pelas ruas dela,
mas, continua bonita e também acolhedora.
E, mesmo eu estando longe, continuo como criança,
Sentindo paixão por ela.


Por Arthur Miranda (tutu
)

“BAGNANDO IL FU CARMINE” - Mooca,1956.

Sempre lembrei desse fato. Mas, o tempo incumbiu-se de fragmentar e tornar confusos os acontecimentos daquele dia fatídico. Fatídico para o Seu Cármine, claro! Então, nada melhor do que minha avó - testemunha ocular, minha mãe - contando a realidade do fato e meu tio para preencher as lacunas de forma hilária e irreverente.
Seu Cármine, um quarentão forte – a imagem da saúde - estava de férias. Não tendo o que fazer, lá pelas nove horas da manhã, foi ao bar encontrar os amigos (amigos que, segundo a mulher do Cármine, eram uns vagabundos, que não queriam nada com o “batente” e uns aposentados que passavam a vida “enchendo a cara”). Foi lá, tomar umas “birra” e jogar dominó. Às dez horas, depois de tomar muitas cervejas e comer, pelo menos, um quarto daquele gorgonzola delicioso, tão fedido que faria um gambá se apaixonar, ele levantou-se da cadeira muito pálido, tentou dizer algo e desmoronou. Caiu ao chão. Estava inconsciente. Um dos amigos correu até o consultório do clínico geral, que ficava a dois quarteirões abaixo, para buscar “u dottore”.
O médico, ao chegar, não se espantou ao encontrar o Seu Cármine estatelado no chão. Contou aos presentes que o defunto foi seu paciente. Um péssimo paciente, por sinal. Desobediente! E que, na última consulta (tinha mais de dois meses), avisou-o que se ele continuasse nessa vida de “Pau d’água”, descuidando da pressão alta, comendo “feito u
m porco”, acabaria por morrer de cirrose ou enfarto. Pediu-lhe que fizesse alguns exames. Mas, não é que “o bèstia” (o animal) do Cármine desapareceu do seu consultório! Não fez os exames e, como se via, não parou de “encher a cara”!
Falava tudo isso, enquanto examinava demoradamente o Seu Cármine, em busca de sinais de vida. Nada! O declarou morto. Não havia mais nada a fazer, a não ser ir ao consultório, preencher a declaração de óbito. Aconselhou, aos amigos do falecido, levá-lo para casa, assim evitariam que o Cármine fosse levado, pelo “Rabecão”, ao necrotério e poupariam muita dor e transtornos à viúva. Ele, por sua vez, declararia que a morte “ocorreu em sua casa, etc, etc”... Um dos amigos acompanhou o médico até o consultório para pegar a declaração e ir ao Cartório fazer o Atestado de Óbito. E, claro, pagou também a conta do médico.
No bar, resolveram levar o Seu Cármine para casa. Mas como fazer isso? O único jeito que encontraram foi colocar o defunto sentado em uma cadeira, amarrá-lo ao encosto com uma toalha de mesa e carregá-lo. O dono pede ao ajudante que fique no balcão e, junto com três amigos do falecido, levaram o dito para a sua casa.
A
distância entre o bar e a casa era pouca. Mas o Seu Cármine era fortão, pesadão. Era preciso parar, descansar um pouco e revezar a posição. Sacudiram tanto o defunto que ele começou a babar uma secreção que fedia a cerveja e gorgonzola... Os que passavam pela rua divertiam-se com aquela cena. Aqueles que conheciam a fama de beberrão do agora defunto, morriam de rir e faziam piadinhas. Um deles, rindo, grita: “Povo! Vamos nos ajoelhar. Pois, carregado em seu andor, está passando São Cármine, o padroeiro dos beberrões”! Nós, as crianças, atraídos por aquela “novidade”, seguíamos os carregadores, em singular procissão.
Chegam ao portão da casa do Seu Cármine. Põem a cadeira no chão e tocam a campainha. Dona Edmèa atende.
Abrindo a porta, ela depara-se com aquela cena grotesca. Arregala os olhos e uma vermelhidão sobe-lhe do pescoço às faces. Estava possessa! Encara o marido e começa a gritar: “Seu filho da P...! Seu pedaço de m...! Não basta me envergonhar, chegando em casa toda a noite, trançando as pernas, cantando, incomodando a vizinhança? Não, não basta! É preciso chegar em casa, assim desse jeito, carregado em pleno dia, desmaiado de tanto beber! Você quer me matar de vergonha? É isso que você quer, desgraçado? É isso?!... Ah, mas não vai não! Antes eu mato você, seu m...!” Descontrolada, abriu o portão, cerrou o punho e avançou contra Seu Cármine. O dono do bar segura a mão da Dona Edmèa e fala alto aos amigos: ““Cazzo”! Que “mancada”! Ninguém avisou a esta pobre mulher que o marido morreu”?
Não. Ninguém a avisara.
A vermelhidão desapareceu das faces de Dona Edmèa. Seu corpo, tenso, relaxou de vez. Ela deu um grito apavorante e desmaiou. Que fazer, meu Deus? O dono do bar, amparando Dona Edmèa, diz aos outros que fossem chamar as vizinhas. E foram. Logo, a rua ficou cheia de mulheres – a turma do vinagre e dos sais aromáticos. Correram para a casa de Dona Edmèa e deram de cara com o Seu Cármine, morto, amarrado à cadeira. Gritos de susto, a princípio, depois, as lamentações, as lágrimas e por fim, a Razão que pedia que se socorresse a viúva. Os homens, acompanhados pelas vizinhas, levaram a viúva para dentro da casa. Era preciso cuidar dos vivos... E, o Seu Cármine ficou lá na calçada babando, exalando odores de “birra” e gorgonzola. Logo o levaram para dentro e o deitaram na cama.
A casa de Cármine e Edmèa virou um pandemônio, um hospício onde um mundo de mulheres gritando ordens, mandava e desmandava. Um ir e vir sem chegar a lugar nenhum. Aparece o amigo com o formulário do óbito e homens foram à funerária tratar do velório.
Dona Edmèa, que havia saído do desmaio direto para a realidade, estava em choque. Viu as vizinhas a esvaziar a sala e viu as cadeiras (a maior parte emprestadas pelos vizinhos) serem dispostas ao longo das paredes, para que se montasse a “pompa fúnebre” (aparatos do velório). Só ficara a poltrona onde ela estava. Confusa, olhou para a sala vazia, olhou para as mulheres e cons
tatou que não havia tido um mau sonho: O seu (até pouco tempo, um traste imprestável) amado Cármine estava morto! Deu um grito gutural, semelhante a uma fera ferida e enlouqueceu de dor. Levantou-se e começou a andar de um lado a outro, beliscando forte o próprio braço. Jogou-se ao chão, batia com os punhos no assoalho. Levantou-se e, desesperada, começou a gritar o nome do marido, puxando os próprios cabelos.
Rechaçava qualquer aproximação. Queria o seu adorado Cármine! Batia na cabeça com os punhos fechados, arranhava o rosto e chamava pelo marido. De repente, ela parou no meio da sala e desandou a gargalhar, histericamente. Agarrou uma vizinha e começou a gritar: “É brincadeira, não é? Como vocês puderam fazer isso? Fazer uma brincadeira de tão mau gosto, suas putanas”! E ria. Dona Fina e minha avó empurram a Dona Edmèa de volta a poltrona. Ela debate-se, resiste. Vovó deu-lhe uma tremenda bofetada na face e disse: “Cármine está morto! Conforme-se”! “Se não acredita, venha vê-lo. Está lá no quarto”.
No quarto, Dona Edmèa desesperou-se mais ainda. Jogou-se sobre o corpo do marido e começou a gritar: “Cármine, por que você fez isso comigo?” – chorava sentido – “Por que, quando eu estava dizendo aquelas besteiras lá no portão, você não me mandou calar a boca e me disse que você estava morto e não bêbado, “mio bello”? Por quê?”
Chorava copiosamente e, ora apertava-se contra o marido, ora esmurrava-lhe o peito. E o defunto babando... Dona Edmèa, cansada, parecia ter-se acalmado, aceitado a realidade. Chorava baixinho, acariciando a face do marido. Mas, quando vovó e Dona Fina tentaram tirá-la de cima do marido, ela começou tudo de novo. Foi preciso chamar as outras vizinhas para tirá-la de lá. Foi preciso que Dona Fina andasse dois quarteirões e trouxesse o médico para dar “um sossega leão” na Dona Edmèa. Sob o efeito calmante da injeção, ela relaxou. Ficou catatônica por um tempo e logo adormeceu na poltrona.
As vizinhas, então, puderam relaxar. Falando baixinho entre si, esperavam pela
funerária.
Nesse instante, irrompe na sala a Carmelona. Entrara na Rua Guarapuava, vinda do trabalho, quando soube da notícia pelos moleques. Emocionadíssima, com os olhos cheios de lágrimas, cumprimentou a todos e caminhou em direção à Dona Edmèa. Rápido, a Dona Anunziatta levanta-se e barra Carmè, dizendo: “Não faça isso, pelo amor de Deus! Não “mi” acorda ela”! Você não sabe o inferno que nós passamos com “essa daí”. “Deixa “ela” sossegada, senão vamos ter outro espetáculo.” Carmelona concordou e foi sentar-se. Depois de um tempo calada, respirou fundo e falou. “Coitadinha da Edmèa. Os homens já vieram lavar e vestir o defunto?”... Pronto! Instalou-se o pânico entre as vizinhas. Ficaram loucas.
Dona Fina diz: “Pu... que la mer...! E agora? E agora, o que fazer, Dio Santo?! Onde vamos encontrar um putano que faça isso?” Nervosa e irritada acrescenta: “ Esse traste do Cármine “mi” tinha que morrer de repente, pela manhã, no meio da semana! Justo quando todos os homens estão trabalhando... Não dá para esperar a volta dos amigos. Vamos nós, dar o banho naquele pedaço de asno!”
Dona Fina, Dona Anunziatta, vovó, mamãe e Carmelona dirigiram-se ao quarto. Lá, concluíram que não dava para levar o Cármine ao banheiro. Não é que o putano era mais pesado que um porco cevado! Banho mesmo era impossível. Então resolveram dar-lhe um bom “banho de gato” ali mesmo.
Com grande esforço, tiraram o Seu Cármine da cama e o colocaram no chão, sobre o congóleo. Enquanto despiam o defunto, Carmelona foi pegar um balde com água, o sabonete, uma bucha e toalhas.
Lavavam o corpo e conversavam entre si. Lamentavam a pobre Edmèa que, sem filhos, ficara sozinha no mundo. Estava sem arrimo. Ainda bem que ela era nova. Não era nenhum “bagulho” e poderia refazer a sua vida. Dona Fina, apreensiva, preocupava-se com a situação financeira de Edmèa: “Será que esse traste está regularizado com a Previdência? E as prestações do Montepio? Estariam em ordem? Minha mãe acrescenta que, graças a Deus, a casa estava quitada e que Dona Edmèa, com sua máquina de ponto “ajour” ganhava um bom dinheiro. Teria com que se sustentar, até que tudo se normalizasse. Dona Anunziatta falava às vizinhas e ao defunto: “Imbecile” (imbecil), agora você está contente. Morreu de “cara cheia”! Agora você está ai, com essa cara de bos..., enquanto a sua mulher está lá na sala, “acaba da” e sem forças para continuar vivendo... Esse traste não merecia a mulher que tem!”
Falavam, falavam, enquanto enxugavam o corpo do Seu Cármine. Só Carmelona pouco falava. Em resposta a tudo que ouvia, resumia o seu comentário à frase “Coitada da Edmèa.”
Incomodada de tanto ouvir “Coitada da Edmèa”, Dona Fina volta-se para Carmelona e diz: “Você está me irritando. Não tem outra coisa para dizer?” Carmelona, com o olhar fixo no defunto, cutuca Dona Fina e aponta a genitália do Seu Cármine. Dona Fina olha e exclama: “Coitada da Edmèa!!!” E chama a atenção das outras para o “cavicchio” (pênis) do falecido.
Todas exclamam ao mesmo tempo: “Coitada da Edmèa!” Riem um risinho abafado, trocam piscadelas maliciosas. E a conversa em voz baixa torna-se “picante”, obscena. Entre risinhos, “Dio Santo!” e “porca miséria!” falavam da bela “verga” do Cármine, de como a Edmèa era “bem servida” e que “outro” igual seria difícil de encontrar.
Vovó, sorrindo e ironizando, fala com Seu Cármine: “É, meu caro Cármine. Tanta “minhoca” fazendo um monte de filhos e você, com essa “cobra” não fez nenhum”.
Tinham acabado de colocar o defunto de volta na cama e vovó estava pegando um vidro de perfume na penteadeira para espargir sobre o Seu Cármine quando Dona Edmèa entra no quarto. Estava zonza, letárgica. Olhou para vovó e lhe disse: “Não faz isso! O Cármine é alérgico a p
erfume. Nem eu uso. Está ai só de enfeite”.
Vovó abraça a Dona Edmèa e fala: “Agora, o perfume não pode lhe fazer mal, minha querida. E é melhor o perfume de flor de maçã do que o cheiro do Cármine “perfumando” a sala. Venha. Agora você precisa escolher a roupa para vestir o seu marido”.
Minutos depois, lá estava o Seu Cármine de cabelo penteado, lambuzado de brilhantina, vestido no seu terno preto de risca de giz, deitado na cama à espera da pompa fúnebre. Dona Fina olha para o defunto, benze-se e comenta com Dona Anunziatta: “Que lindinho! Com esse terno parece até um mafioso”!
Chega a funerária. Seu Cármine é levado para a sala e inicia-se o velório. E, nas 24 horas que se seguiram, o assunto principal entre as comadres e carpideiras foi a genitália do falecido Cármine...

- Coitada da Dona Edmèa!

Por Wilson Natale