segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Roubaram minha linguiça

Aconteceu em uma Indústria Farmacêutica, na cidade de São Paulo, anos atrás.
Cinquenta e cinco funcionárias, que trabalhavam no setor de embalagens, levavam marmitas para almoçar. Todas as marmitas tinham suas marcações ou identificações e a copeira, Sra. Maria Alcinda, era a pessoa que diariamente cuidava do aquecimento destas refeições.
Chegava a tão esperada hora do almoço e a alegria de desfrutar o vapor, sob a tampa de alumínio, propiciando o aroma saboroso da mistura e da comidinha caseira, feita pelas mães.
Eis que o primeiro alarme quebra o momento de encanto:
- Roubaram minha linguiça. Tenho certeza que minha mãe colocou cinco pedaços de linguiça na minha marmita.
Rumores e lamúrias crescendo:

- Eram dois ovos estrelados. Eu mesma os preparei.
- O bife acebolado que disputei com meu irmão...
Quem seria o curioso meliante? Ladrão de mistura de marmita. Vejam só.
O ind
ivíduo que certamente se esbaldava com uma mistura variada, provavelmente à hora do jantar, porque não seria doido de usufruí-las no local do crime.
As embaladeiras, que não podiam abandonar seus postos na hora da produção, levantaram-se repentinamente, num uníssono de precisão, digno de apresentação de ginástica rítmica em abertura de olimpíadas.
O ladrão fora descoberto.
Ele não! Ela, a esquentadora de marmitas, Maria Alcinda que, naquele instante, se trancara no banheiro evitando talvez um linchamento.
Ninguém da fábrica conseguia deter a ira das “sem mistura”. Pedras atacando os vidros do banheiro, objetos atirados ao chão, inclusive computadores. Foi preciso chamar a polícia para salvar Maria Alcinda de uma grande sova.
Não sei o destino dela. Que mistura passou a saborear no almoço do xilindró (estará previsto por lei a pena para o roubo de mistura de marmitas?), ou se ficou sem refeição alguma, após ser demitida.
Uma coisa é certa: a partir deste dia, as funcionárias desta Indústria passaram a comer mais tranquilas, pois ninguém assaltava mais suas marmitas. No entanto, durante vários m
eses, tiveram um pouco menos de mistura, por conta do desconto no salário referente às despesas com os danos que provocaram, na tentativa de fazer justiça com as próprias mãos.
Esta curiosa história foi contada por um amigo, num momento de descontração. Todos pararam para ouvir o seu relato, narrado com ênfase e empolgação, revelando ainda a mesma expressão de espanto que deve ter demonstrado no dia do ocorrido.
Foi como assistir à cena e divertir-se com a imagem das “sem mistura”, indignadas, erguendo sua bandeira de revolta por seu tão suado e desejado almoço.

Por Vera Lúcia de Angelis

O Bixiga e eu - segunda parte

Por volta do ano de 1970, já com mais de vinte anos, acabei indo morar no Bixiga, na Rua Condessa de São Joaquim. Essa rua começa na Avenida Liberdade e termina exatamente em frente a um castelinho, na Brigadeiro Luis Antonio. Assim como o Teatro Paramount de minha infância, esse castelinho se somou às minhas referências do bairro. Construído também em estilo eclético, com toques art nouveau, surgiu dos sonhos de um italiano, no início do século XX (1907-1911). Tem até um minarete em estilo árabe! Sua história não é muito conhecida e, por isso, acabaram sendo criadas muitas lendas em torno desse casarão misterioso que passou muitos anos em total abandono.
O castelinho foi construído pelo arquiteto italiano Giuseppe Sachetti, para residência do médico Cláudio de Souza, um intelectual que ajudou a fundar a Academia Paulista de Letras. Em homenagem à sua mulher, ele batizou a residência de Villa Luisa, embora isso só tenha sido descoberto durante a última reforma, com o surgimento de um emblema com esse nome, próximo à entrada. Com a mudança da família para o Rio, o prédio entrou em decadência, mas mesmo após uma reforma cuidadosa, continua lá, fechado. Hoje é um prédio tombado pelo patrimônio histórico, ainda à espera de ser novamente hab
itado ou devidamente utilizado.
Uma das histórias que me contaram a respeito desse casarão era sobre a morte misteriosa de uma mulher, com detalhes escabrosos e muito sangue, que até hoje vaga por suas dependências não dando sossego a ninguém, motivo pelo qual ninguém ali reside, nem nenhum tipo de empreendimento comercial ali se sustente. Mas essas são histórias criadas pela imaginação do povo, sem nenhuma base de sustentação, apenas criando uma aura de mistério em torno de lugares como esse castelinho.
A rua onde morava não tinha nada de especial, a não ser uma pensão que durou muitos anos, se não me engano propriedade de um Sr. Arlindo. Ali moravam muitos jovens, estudantes ou trabalhadores e a comida servida era de excelente qualidade. Era, nos idos de 1970, um local seguro, com vários prédios com pequenos apartamentos, devido, principalmente, aos muitos estudantes que ali viviam. Ali acompanhei as obras de construção do metrô e várias modificações que foram acontecendo ao longo dos anos. Essa rua serve, ainda hoje, mais como elo da Liberdade com o Bixiga e os poucos casarões que resistem, nada têm de extraordinário, a não ser mostrar a decadência da área.

Morando em local tão privilegiado, próximo ao centro, à avenida Paulista e, claro, ao coração do Bixiga, pude conhecer melhor a cidade de São Paulo e, também, participar das deliciosas festas da Achiropita, onde me empanturrava com a deliciosa macarronada ali servida. Também, frequentar as famosas cantinas do bairro e tive o enorme prazer de instruir-me nos seus diversos teatros, dando início à formação do adulto que estava por vir.
Foi ali perto, na Faculdades Metropolitanas Unidas, que me formei em Economia, dando início a uma carreira profissional que passou pela Comgás e por empresas ligadas ao Grupo Solvay. Foi ali que vivi minhas primeiras aventuras como adulto e onde me preparei para lançar os diversos vôos que me levaram para várias partes deste mundão de meu Deus. Mas sempre me trouxeram de volta ao local onde, ainda hoje, tenho um pequeno apartamento, agora ocupado por meus pais, bastante idosos mas que de lá não querem sair. Esse apartamento não é mais na Condessa, mas sim na Jaceguai, ao lado do Teatro Oficina.

Por Zeca Paes Guedes

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Memórias sexagenárias


Ela entrou, este ano, para a faixa dos sexagenários... Quem diria?
Quem é ela?
El
a sempre foi a pacificadora de casais brigados, sempre esteve presente entre filhos e mães nos dias especiais, sempre apareceu como preferida no meio da meninada, não importando o gênero, o sexo, a cor e, até, a religião.
Deixou muita mulher quebrar juras e promessas e muito homem babando como criança.
Volta a pergunta, quem é ela?
Antes de desvendar o mistério dessa 100% paulistana, vamos informar alguns detalhes técnicos e históricos:
Em 1925, vindos da Letônia (ex república da União Soviética) região banhada pel
as gélidas aguas do mar Báltico, desembarcaram no porto de Santos o médico David Kopenhagem e sua esposa, a ex pianista Anna Kopenhagem.
O casal, na sequência, veio para São Paulo. Aqui, sem emprego, passaram por muitas provações até que, num repente de muita inspiração, resolveram fazer dinheiro produzindo e vendendo o que já sabiam desde os tempos da Letônia, iniciaram, assim, uma pequena produção de marzipã – doce de amêndoas- muito comum na Europa.
Produziam o doce e David, colocava-os numa bolsa e saía para vende-los no centro da cidade. Em apenas um ano da venda de porta em porta, pode ele inaugurar, em 1929, uma pequena loja, na Ladeira Miguel Couto esquina com a Rua São Bento. Daí em diante, o sucesso foi companheiro constante desse casal.
Em 1950, depois de um projeto que não vingou, com a Igreja, para fabricação de waffers para as hóstias, os biscoitos produzidos passaram a servir a um novo projeto, esse sim vitorioso.
Foi desse projeto que se baseava em substituir a embalagem de um doce, que era feita em papel-manteiga, que nasceu a sexagenária a quem hoje eu homenageio. Nhá Benta passou a ser o doce coqueluche de São Paulo e, posteriormente, do Brasil.

O doce que, na versão original, era feito com marshmallow coberto com chocolate, hoje é encontrado, também, nas versões com morango, maracujá, chocolate, coco e crocante, sempre com cobertura de chocolate. Todas, podem crer, deliciosas.
Nhá Benta, rendo-lhe, nesta data, a minha mais sincera felicitação. Você, pode crer, esteve sempre presente nos meus dias.
No final desta homenagem, resta-me, apenas, recomendar moderação na ingestão dessa delícia, pois cada unidade tem, em média, 128 calorias.
Para quem não se incomoda com o crescimento lateral ou frontal, só me resta dizer ¨coma à vontade¨.

Por Miguel Chammas

Fazendo e empinando pipas

No meu tempo de garoto, anos 50, aqui na cidade de São Paulo, as pipas eram também conhecidas como quadrado ou papagaio. Para se construir essas peças voadoras, era preciso ter bambu, papel de seda, cola e linha. As varetas eram feitas de bambu, planta abundante na chácara da dona Ângela, ou no terreno em frente, onde morava a dona Virgínia, mãe do Dado. Quanto mais verde fosse o bambu melhor, o que facilitava o trabalho de confecção dos quadrados.
A garotada que morava na Rua do Porto e João Cachoeira, no Itaim, fazia quadrado
s de vários tipos, como o Peixinho, Barrilete e Maranhão. O peixinho era o mais fácil de fazer; Tinha o formato de um losango, onde se colocavam duas varetas em forma de cruz, com a vareta horizontal mais acima do meio da vareta vertical; depois, vinha a linha por toda a volta, que podia ficar em linha reta ou vergada, para facilitar sua permanência no ar, sem ficar balançando para os lados, em sentido vertical.
Podia-se, também, construir um peixinho sem as linhas em volta, para poder empinar sem o rabo que, naquele tempo, era feito de pano.
Alguns meninos preferiam usar só o papel, de preferência jornal, dobrado em V no horizontal, com um estirante nos bicos; Tinha o nome de Capucheta.
Já o barrilete era mais trabalhoso; Tinha uma vareta em sentido vertical e duas em sentido horizo
ntal, em tamanhos diferentes, de modo que a vareta horizontal que ficava na parte de cima era maior do que a que ficava em baixo. Esse quadrado ou Pipa não podia ser menor do que 40 centímetros. O rabo tinha que ser maior porque tinha mais força, principalmente quando os ventos eram mais fortes. O Barrilete era um quadrado que podia ser feito até com um metro de altura, mas tinha que ser empinado com barbante e o rabo tinha que ser feito com bastante pano.
Já o Maranhão, tinha o mesmo sistema do Barrilete, com uma diferença, o papel era colado tanto com goma arábica ou cola de farinha de trigo, na vareta horizontal de cima para baixo... a linha de cima ficava livre, onde se colocava um papel colado naquela linha e com vários cortes, como uma franja, que provocava um barulho como se fosse um zunido e quando se dava muita linha a ele, era justamente por ela que se sentia aquele zunido excitante. Pra laçar outros quadrados, os peixinhos eram os mais usados, porque seu formato facilitava faze-lo embicar, de cima para baixo, para executar o laço.
Mas, para ter sucesso nessa operação, o laçador tinha que ter a linha nº 24 e a c
erteza que o outro tivesse uma linha mais fraca, no caso a nº 50. Naquela época, não existia cerol; Para tentar cortar uma linha, colocava-se uma lâmina, do tipo Gillette, numa rolha amarrada na ponta do rabo, num esforço para conseguir fazer esta armadilha ir ao encontro da linha do outro quadrado que se queria cortar.
Correr atrás dos quadrados quando uma linha era cortada, não tinha o mesmo perigo de hoje porque, tanto no Itaim quanto em outros bairro de Sampa, ainda não tinha muitos carros transitando e, também, não havia muita fiação elétrica.

Por Mário Lopomo

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Em Agosto tem um dia de todos os pais

Em Agosto tem um dia de todos os pais.
Do pai que é pobre
Do pai que é rico.
Do pai que sou eu
Do pai que é você
Do pai que não liga nem pensa nos filhos
Do pai que aos filhos dá toda atenção.
Faz tudo por eles, dá educação,
Pensando, com isso, em nossa nação.

Em Agosto tem um dia de todos os pais.
Do pai que vai bem, está empregado.
Daqueles que sofrem com o desemprego
Daqueles que tem em seu filho um apego.

Do pai que leva seus filhos à escola,
Do pai que aos filhos não dá muita bola.

Do pai carinhoso que ensina a lição.
Do pai apressado, que nem presta atenção
Do pai que é sem tempo, está sempre sem hora.
Do pai que sumiu, com a amante foi embora.
Do pai que assumiu,
Do pai que fugiu.
Do pai que honesto,
Do pai que é ladrão,
Do pai que está livre.
Do pai na prisão.
Do pai que é omisso e não paga pensão.

Em agosto tem um dia de todos os pais.
Do pai que dos filhos, recebe presentes.
Do pai que seus filhos, estão sempre ausentes.
Do pai que tem fé, do Pai que é ateu,

Do Pai que é meu, do pai que é teu
Do Pai que tá vivo, do pai que morreu.
Do pai que seu filho jamais conheceu
Do pai que Jesus disse que era o Pai Nosso.
do pai tão querido, de você que está vendo
do paizinho querido, de você que está lendo.
Do pai palmeirense, do pai corintiano.
Do pai são paulino, do pai que nada é,
Do pai que é santista por ser fã do Pelé.
Do pai que trabalha, da duro, faz planos.
E então quando chega o finzinho do Ano.
Mesmo sem ter nenhum Premio Nobel
Com o saco bem cheio, vira Papai Noel.


Por Arthur Miranda (tutu)

Meu Cadillac - bip bip

"Esta é uma das histórias que aconteceram comigo. Primeiro, foi a Suzy, quando eu tinha lambreta. Depois...", depois nada. Não sei quem foi Suzy e nunca tive uma lambreta. Mas, existe sim, uma história comigo e um certo 'Cadillac'.
Bairro do 'Bixiga', meados dos anos 60, estava eu trabalhando na mercearia de meu 'tio' Jabra Chaebo - que Deus o tenha em Sua Glória -, lá na velha e saudosa rua Santo Antonio.

O comércio varejista ficava bem em frente à rua Conselheiro Ramalho e, sempre à noite, por volta das sete horas, ou antes um pouco, eu o via passar. Lentamente e com uma imponência sem igual, desfilava por entre os automóveis comuns da época, ofuscando a todos com a sua beleza e majestade.
Sim, era ele, o 'Cadillac Fleetwood' do conde Francisco Matarazzo Junior que, por vezes, fazia aquele itinerário, sempre no mesmo horário e com britânica pontualidade.
Extasiava-me em admirá-lo, mesmo que por poucos momentos e rezava para que o trânsito se congestionasse, para que tivesse mais tempo de contemplar com os olhos, aquela maravilha mecânica.
Era uma maravilha americana, com um grande motor de muitos "hp's", câmbio automático, direção hidráulica e vidros acionados eletricamente. Bancos de couro, inteiriços à frente, na cor azul, contrastando com o azul clássico metálico da carroceria e vidros verdes. Pneus aro de quinze polegadas com faixas brancas delgadas e reluzentes calotas com o brazão 'Cadillac'. No banco traseiro, podia-se notar o conforto que desfrutava o seu nobre ocupante, o próprio conde 'Chiquinho'. Ao volante, assumia a posição um motorista com austera vestimenta, quepe e luvas, que fazia o veículo rolar pelos paralelepípedos da antiga rua, onde só se percebia o roçar dos pneus com o solo, em cadência ritmada.
O tio Jabra sabia de minha paixão pelo carro e sempre me dizia:
- Quer ter um igual? Estude e trabalhe, ou, faça como o conde, herde uma fortuna!
Nisso, ele tinha razão. Pois, para se ter uma máquina como aquela, só tendo muito dinheiro. Mas, eu me contentava só em olhar.
Cer
ta noite, já dispensado de minhas obrigações na mercearia, estava eu no balcão da farmácia do Álvaro, que ficava quase em frente à mercearia e, como de costume, alí também eu prestava alguns serviços auxiliares no despachamento de fregueses ou algumas entregas em domicílio quando, eis que freia bem em frente à farmácia, o belo Cadillac.
Veio conduzido só pelo garboso motorista do conde, que estava pelas imediações resolvendo alguns assuntos pessoais e passou pela farmácia, para comprar alguns medicamentos.
Não perdi a oportunidade e comecei a inquirí-lo sobre o carro.
Queria saber tudo sobre ele e, ao mesmo tempo, eu mesmo dava as respostas às minhas perguntas.
- Acho que não preciso dizer nada sobre o carro. Voce já sabe sobre ele... - disse-me atônito o motorista que, notando a minha ansiedade e expectativa, aproximou-me da enorme máquina e passou à detalhar mais precisamente cada pedaço do veículo.
Inebriado de alegria, acompanhei cada explicação do gentil e paciente motorista, que começou a apresentação pelo painel de instrumentos. E, que painel!
Depois, foi a vez do interior, com seus bancos e carpetes, iluminação interna, volante de direção, alavanca de câmbio e o grafismo da marca, nos painéis das portas, com as maçanetas e chaves de acionamento dos vidros, cinzeiros e travas.
O 'gran finale' ficou por conta do motor que, assim que o capô foi levantado, uma vertigem ótica me tonteou. Era uma maravilha de um belo motorzão de oito cilindros e seus componentes todos bem posicionados como num trabalho de arrumação exemplar. Até o abafador do carburador que, de tão grande, parecia uma frigideira enorme, destas que por aqui usamos para fazer uma deliciosa moqueca de peixe.
O motorista admirou-se de meu conhecimento mecânico e quis saber como um garoto de minha idade já tinha tanto conhecimento mecânico.
Falei-lhe que havia tido bons professores. Um deles foi o meu tio Rafael que, muitas vezes, à porta de nossa casa, brincávamos de adivinhar as marcas, modelos, ano de fabricação, tipo de m
otor e câmbio dos carros que por ali passavam. Era uma sabatina geral. Se errasse, tomava 'cascudo'. Se acertasse, recebia parabéns.
Terminada as apresentações feitas pelo simpático motorista, assume agora o volante e, com breve aceno, despede-se e faz suave arrancada, não antes de acender toda a parafernália luminária do 'rabo de peixe', que encandeia a rua e ofusca a vista de quem olha, principalmente quando freia.
Antes, prometeu-me que viria buscar-me para dar umas voltas nas redondezas. Coisa que não aconteceu. O conde era muito ciumento de sua preciosidade. E eu, fiquei só na vontade.
Ao longe, vejo a majestosa máquina seguir o seu rumo. Cá com os meus botões, faço-me um juramento: - 'Ainda terei um Cadillac. Ah, vou ter sim...'
Passados alguns anos e já com a idade de dezoito anos, adquiri, finalmente, o meu 'Cadillac'. Não era um 'Fleetwood' como o do conde. Era um 'Eldorado', 1952, conversível, na cor branca, com bancos bicolores em azul claro e branco e capota de lona branca. O preço? Uma bagatela de Cr$ 2.000,00 - dois mil cruzeiros -, resultado de minhas economias guardadas sob o colchão.
Serviu para a curtição da minha turma de colégio e alguns namoros mais assanhados mas, tive de vender por não ter carteira de motorista e, também, por não dispor de uma garagem
.
Meu Cadillac veio bem à calhar, com a música do Roberto mas, nunca precisei levá-lo à um oficina para reparos e nunca encontrei um 'Calhambeque' para trocar.
Hoje, só tenho um Ford Landau 1980, que nada fica à dever para um Cadillac, pois o custo-benefício é mais em conta.
Além dele, tenho outros exemplares. Só que em escala menor e enfeitam a minha estante.
Quanto ao Cadillac do conde, está em mãos de um particular que o encontrou estacionado em um posto de gasolina e o adquiriu através de uma troca. Gastou alguns muitos reais para restaurá-lo e hoje desfila orgulhoso pelas ruas de São Paulo.
Do conde, todos sabemos que faleceu em 1977. Do seu impecável motorista, não tenho notícias. Espero que esteja desfrutando de uma boa aposentadoria e relembrando os bons tempos. Eu, continuo apaixonado por automóveis e espero um dia completar a minha coleção de clássicos colecionáveis e ter um Cadillac de verdade.

P.S.: A marca 'Cadillac', é uma homenagem do povo americano ao fundador de Detroit - Michigan = 'Laumet Antoine de La Mothe Cadillac'


Por Nelson Assis







quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A voz da lua

Fazer caminhadas pelo bairro é um bom hábito. Faz bem aos ossos, tendões e coração.
Mas, vai mais além. Aguça a mente e a imaginação. Às vezes, ao passarmos pela primeira vez por um lugar, nada notamos. Mas , com a repetição, começam a surgir coisas insuspeitadas, que nada nos diriam de primeira. Uma pequena mo
dificação, um detalhe quase imperceptível e nos deparamos com as sombras do mistério, em pleno dia a dia.

Numa das principais ruas que cortam o Brooklin chamado Novo ou Paulista, um sobradinho chamou nossa atenção. O que tinha ele? Quase nada. Pequeno, bem cuidado, com uma parreira cobrindo sua área externa.
Mas, da segunda vez que se passa ali, percebe-se que a porta está sempre aberta. E o portão, também. Caso raro, aqui em São Paulo. Às vezes, embalagens de alumínio com restos de comida, lixo, sinais de desleixo, na frente. Em outros dias, não... Tudo está varridinho.
Aí, um dia você começa a ver as pessoas que o habitam. E, a compreender. Vemos saindo dali uma senhora, quase bem arrumada, mas com toques exóticos: as roupas meio puídas, uma pelerine sobre os ombros, resmungando algo sozinha. E outras assim, homens e mulheres, com algum cuidado com a aparência, mas sempre com um algo estranho, a barba por fazer, as roupas como saídas de um brechó.
E, girando meio perdidos pelo bairro, num mundo à parte. Mas, sem incomodar ninguém, ou talvez pedindo, às vezes, um trocado, respeitosamente. Serão loucos, que se reuniram numa associação, talvez amparada por uma boa alma?
Quando falamos em loucura, a primeira associação é com pessoas alucinadas e perig
osas, a roupa em frangalhos, os gestos desabridos, a berrar sua insanidade aos quatro ventos.
Não é o caso. Talvez sejam apenas lunáticos, vivem normalmente parte de seu tempo, até sentirem os eflúvios e a voz da Lua, sussurrando em seus ouvidos.

Tentarão, como no filme de Fellini, ouvir a voz que vem dos poços? Mas os poços de São Paulo ficaram atirados para a periferia e, sem estes oráculos para se aconselharem, as pobres criaturas tentam manter seu equilíbrio no caos da grande cidade. Talvez a casinha como ponto de reunião lhes dê força e esperança, para enfrentar a loucura muito maior que reina nos semáforos, nos viadutos, nas grandes avenidas, onde o troar das máquinas abafa qualquer reflexão.
Ficamos surdos e insensíveis, mas não eles, sustentados pelas vozes de seu estranho mundo interior, que pode manifestar-se a salvo no espaço dessa minúscula casa do Brooklin Novo.

Por Luiz Saidenberg

Verdade ou imaginção?



Vendo a notícia sobre o lançamento do livro “Lendas Urbanas”, do autor Jorge Tadeu, pela Editora Planeta, na Bienal do livro 2010, que acontecerá de 12 à 22 de Agosto de 2010, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, Av. Olavo Fontoura, 1.209 - http://www.bienaldolivrosp.com.br -, lembrei-me de momentos assustadores que vivemos na escola primária.
Antigamente, as primeiras letras aprendíamos na escola que se denominava “escola primária”. Hoje, é o primeiro ciclo do ensino fundamental.
Este período de minha vida estudei no Círculo Operário, hoje Colégio João XXIII, na Rua José Zappi, na Vila Prudente. O complexo era composto pelo local onde ficavam as salas de aula e, também tinha outro prédio, onde funcionava a administração da escola e diversas outras outras salas, como o anfiteatro, onde estudávamos as aulas de música e ensaiávamos, os consultórios médico e odontológico.
Bem ao fundo deste complexo, tinha o convento das freiras que atuavam na escola e na paróquia local, a Igreja de Santo Emídio, as irmãs franciscanas de São José, que aceitaram
o convite para trabalhar na paróquia e nas obras sociais do Círculo Operário.
Certa vez, rumores de que o prédio da administração estava assombrado, botavam medo na criançada toda, até mesmo nos mais crescidos.
Ninguém tinha peito de passar pelos corredores sozinho, nem se atrevia a ficar lá depois das 18 horas, pois, segundo diziam, um vulto feminino vagava por lá.
Alguns diziam que era mesmo um vulto igual ao da Santa, cuja estátua ficava bem ao lado do anfiteatro, perto da secretaria, outros, que era uma mulher de branco, com véu.
Era um medo geral. As mais incríveis histórias ouvíamos durante o recreio, ou na entrada e saída das aulas.
Tínhamos, obrigatoriamente, que passar pela avaliação do dentista e do médico, periodicamente e, quando preciso, passar pelos cuidados dos mesmos. O atendimento era marcado no período escolar e, tanto era de manhã quanto de tarde. A secretaria fechava às 18 horas, mas, quando o atendimento demorava um pouco mais, os médicos ficavam com os pacientes que, após terminarem, tinham que passar pelos corredores vazios e escuros, até chegarem na porta de saída. Bastava sair e bater a porta para ela se fechar.
Sempre ouvíamos as horripilantes histórias de quem ficava até mais tarde em atendimento e depois dava de cara com a fantasmagórica figura, saindo correndo e gritando de medo, até a rua.
Certa ocasião, foi minha vez de ser atendida pelo dentista, justamente às 17:30 horas. Odiei isso, mas, não pude recusar e tive de ir. O dentista demorou à bessa, terminando o atendimento por volta das 18:30 h. Agradeci, meio a contra gosto e fui em direção à saída. Eu sabia que teria de passar pelo longo corredor até a porta, abri-la e, depois, bater para fechá-la.
Ao passar pelo corredor meio escuro, à meia luz, vi um vulto entrando em uma das salas. Vi que era a saleta de orações das freiras. Minha vontade era sair correndo, sem olhar para trás, mas, nunca fui covarde e, mesmo com meus 10 anos de idade, enfrentei meu próprio medo e segui, calmamente, pelo corredor. O vulto passou nov
amente e foi para a sala em frente, voltou e entrou novamente na saleta de orações. Me pareceu ser uma freira...Respirei fundo e fui em direção à saleta, talvez movida pela curiosidade e sem deixar de sentir medo, espiei pela porta entreaberta...
Lá estava ela...um vulto diáfano, em posição respeitosa, mãos postas em oração, flutuando em frente ao pequeno altar...
Ela olhou para mim e fez um sinal de silêncio, com o indicador sobre seus lábios angelicais.
Mesmo em êxtase, respeitei e saí, deixando a porta entreaberta como encontrei.
O medo passou na hora e fui embora, emocionada. Não sabia se o que tinha visto era real ou foi imaginação. Só sei que vi...Não contei para ninguém, pois sei que não acreditariam. Mais tarde, contei para minha mãe e para minha avó. Algum tempo depois, contei para o padre, em confissão...Ele me deu uma penitência de 100 “Pai Nosso” e 100 “Ave Maria”, que eu deveria fazer ajoelhada, lá na igreja de Santo Emídio...Creio que ele não acreditou em mim. Mas, fiquei com bolhas nos joelhos, isso sim.
Hoje, depois de tantos anos estudando o espiritismo, posso compreender a visão que tive em minha infância. Tive muitas outras, mas, isto são histórias para outras ocasiões.
Muita paz!

Por Sonia Astrauskas

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O flato

Na sequência prioritária das prerrogativas dos idosos, foi declarada a liberdade de flatuar a vontade, desde que seja ao ar livre ou num ambiente arejado onde o único fator relevante seja o ruído, ou o som melodioso que caracteriza a procedência.
Nessa condição, quatro amigos de longa data, todas as tardes, depois de um restaurador café e um bom cochilo, empreendem uma saudável caminhada à sombra de frondosas árvores, algumas frutíferas, no parque Continental, localizado nas proximidades de suas casas, zona oeste de São Paulo, próximo à USP e divisa com Osasco.
Alzira, 68 anos, seu marido, Lamartine, 72, Letícia, 66 anos e Demétrio, seu marido, 69, todos aposentados, é o quarteto que, com poucas falhas, diariamente fazem esse passeio
, há vários anos. Além de amigos, são compadres, hoje avós, com filhos e netos já na adolescência, tendo um batizado o filho do outro, caracterizando uma sólida amizade onde prevalece um franco e rico entendimento e camaradagem ilimitada, dentro do maior respeito, fatores raros nos dias de hoje, só possível no Continental, bairro estritamente residencial.
Apesar dessa empatia, o que eterniza essa amizade são as opiniões e os gostos dos quatro, totalmente diversos, um do outro, sempre democraticamente aceitas, mesmo sem a devida concordância. Logo após o término da copa, empreenderam um destes passeios.
Na impossibilidade de evitar ou impedir, Lamartine solta um sonoro peido, provocando gargalhadas nos três e, depois, nele mesmo. Depois dos risos e comentários, estabelecem que, nestas circunstâncias, haverá uma certa tolerância entre os quatro, podendo, cada um, exteriorizar segundo suas necessidades e vontades, cuidando para quando ocorrer o e...vento estejam só os quatro, o que não é muito difícil pois o contingente de andarilhos no parque Continental, próximo a divisa com o município de Osasco e também com a USP, (Universidade de São Paulo) ocorre, com maior frequência, na parte da manhã. Os assuntos e papos diários são de natureza as mais diversas e, quando ocorre de alguém libertar um peido, interrompe-se o assunto tratado e brincam para saber quem foi o autor e estabelecer o tom, prolongamento e classificar, na escala musical, a nota a ser dada.
Pois é; O que sempre prevalece é essa decantada preocupação com os que estão em evidência, diz Lamartine, a mídia, ávida de sensacionalismo, corre atrás de fofocas, sem se preocupar muito com ética, respeito e, o que é pior, sem entender nada de futebol. Essa última copa
foi um festival de badalações, pra cima dos ídolos.
· É verdade, intervem Letícia, vocês lembram quando os jornalistas e reportes que cobriam as copas e todos acontecimentos esportivos, eram especialistas no assunto, não se atreviam a comentar outras atividades, aprimorando sempre seus conhecimentos pra despertar em seus leitores maior ... - de repente um ruído familiar interrompe o papo, um belíssimo petardo, daqueles segredados pra ocorrências especiais.
* Adivinhem quem foi? Conclama Demétrio; Esse parece ter sido a “1812”, de Tchaikovsky, o rufar dos canhões, na apoteose do tema.
* Pra mim foi a Letícia, arrisca Alzira, só ela tem o poder de um petardo.
* Errou, querida Alzirinha, sou um pouco gordinha mas essa foi de quem está habituado à gororoba da pesada, como uma feijoada e hoje é quarta-feira e o Lamar não deixa por menos, não é, seu Lamartine....
*Acertou, clama trinfante Lamartine, e a feijoada que você preparou estava um deslumbre. Em tod
o caso, não foi nada disso que vocês estão divulgando; Foi algo assim parecido com Fogos de Artifício, do Hayden, se tanto.
Deram boas gargalhadas e continuaram.
Como estava dizendo, retoma o papo Letícia, vocês lembram da época em que pra tudo existia um especialista, e que especialista!... Eram jornalistas que, ao sair da faculdade, já tinham assegurado seu segmento, com estágios sólidos que lhes davam garantia de uma colocação. Agora... - De repente, um novo estampido... Desta vez um silvo bem fininho, como um som de violino, mais ou menos, com pequenas interrupções.
*Ahh, esse é da Alzira, berra Demétrio, o tipo de pizzicato, que Benjamin Briten utilizou na sua Simpl Sinphoni. Ninguém consegue uma nota como o dela... notaram a harmonia sincopada, a estrutura do pontilhado dando ênfase à beleza da mensagem sonora? Isso só se consegue com um apuro e dedicação e...
* Acertou, confessa Alzira, a perfeição exige anos de treinamento e anus bem afinado... - Logo em seguida todos caíram na mais gostosa gargalhada. Continuam no papo, desta vez sobre política, eleições, mensalão e coisas do gênero quando outro estampido, esse curto, seco e grave.
· Bingo, esse é do Demétrio, grita Letícia, só ele consegue imitar o som dos tímpanos da Marcha Fúnebre do Wagner.
Programando para a área da USP o próximo, o passeio termina na maior alegria, com gozação nos parâmetros absurdos que norteou as tiradas a respeito da única manifestação natural do animal, racional ou não, ficando pra esse último o prazer e a liberdade de disparar a qualquer hora e lugar, indiferente se a fragrância for de Chanel n. 5 ou de charneca mista de suínos, bovinos ou equinos.

Por Modesto Laruccia

Bixiga e eu - primeira parte

Minhas primeiras lembranças do Bixiga vêm do início da década de 1950.
Meu pai já trabalhava no Banco da América, no Edifício Martinelli e, em todos os finais de ano, o banco fazia uma grande festa para os filhos dos funcionários, com distribuição de presentes, brincadeiras e guloseimas. Não tenho certeza, mas me parece que foi no ano do quarto centenário (1954) que a grande festa foi realizada no Cine Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luis Antonio.

E, pela primeira vez ouvi o nome “Bixiga”, denominando um bairro, o que muito me intrigou, pois em minha cabecinha infantil, bexiga era um balão de borracha, que demandava muito trabalho de nossas bochechas e trazia muitas alegrias com suas cores.
E lá fomos nós para aquele “palácio” enorme e luxuoso, onde passamos um dia divertido que deixou lembranças para o resto de minha vida. Ganhei alguns presentes, mas o que mais gostei mesmo foi o do “Pequeno Construtor”, com peças de madeira colorida para “construir” casas, prédios, ou o que minha imaginação criasse. Ali também conheci a Coca-Cola, um refrigerante escuro, dentro de uma garrafinha cheia de curvas, mas com um gosto forte e do qual não gostei nem um pouco. Por muitos e muitos anos continuei preferindo o Guaraná ou a Soda Limonada, que aparecia em nossas mesas nos finais de semana ou nos dias de festa.
O Cine Teatro Paramount foi inaugurado em 1929, na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, bem no início do “Bixiga”, ou Bela Vista. Foi o primeiro cinema sonoro da América Latina e seu palco enorme, cheio de recursos moderníssimos fizeram dele, durante muito tempo, um modelo para todos os demais teatros do país. Seu estilo eclético, mais para o neo clássico, revela bem o gosto dominante na época, com bonitos detalhes arquitetônicos e muito, muito espaço! Podia receber até 2.000 espectadores, oferecendo ampla visibilidade de qualquer lugar! Claro que tudo isso só vim a saber muito tempo depois.
Naquele dia só queria mesmo a diversão, com os palhaços, os shows e as brincadeiras. E depois da abertura dos presentes, na saída do teatro, fizemos um passeio de carro subindo a Brigadeiro até a Avenida Paulista, de onde seguimos para casa felizes da vida com aquele dia que era esperado o ano inteiro, quase tanto quanto o próprio Natal.
O Cine Teatro Paramount foi palco de grandes eventos, o maior deles, sem dúvida, o Festival de Música Popular Brasileira transmitido pela TV Record, onde, Edu Lobo e Capinam venceram o de 1967 com Ponteio e Sérgio Ricardo, vaiado ao apresentar Beto Bom de Bola, quebrou o violão no palco e o arremessou contra a platéia. Tom Zé, em 1968 apresentou São Paulo, Meu Amor e Caetano Veloso cantou Alegria, Alegria – entre tantos outros intérpretes que por ali passaram.
Em 1969, grande parte de suas instalações foram destruídas por um incêndio, o que ocasionou a paralização de todas as atividades, retomadas anos mais tarde com diversas salas pequenas de cinema e, depois, com a grande e criteriosa reforma que o transformaram no atual Teatro Abril, palco de grandes superproduções com a vinda para o Brasil de grandes musicais.

Por Zeca Paes Guedes

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Memórias de esquisitices

Hoje lendo textos de amigos, tive a memória voando lá para o final década de 50 e resolvi escrever sobre isso.
No final dessa década, eu tinha sido admitido, por interferência do meu amigo, irmão e compadre, o finado Antonio Settani, nos escritórios da Comercial e Importadora Restinga, para substituí-lo uma vez que ele havia sido transferido para gerenciar a fábrica que estava instalada na Avenida Celso Garcia, 6.090.
Essa empresa era uma laminadora de ferro para construção que trefilava lingotes de diversas bitolas em barras de ferro 3/16¨.

Tempos depois, com a venda da empresa para o Grupo Pontal, o Toninho foi transferido para os escritórios do Grupo e eu, na cola dele, fui assumir o seu cargo de gerente da laminadora, agora batizada como Alpont. Para melhor ilustrar esta narrativa, hoje, depois de todos esses anos, depois de todas as mudanças de urbanização, no local ainda existe uma empresa do ramo, a Ferro e Aço N. S. de Fátima.
Bem, vamos deixar de digressões e voltar ao tema principal de minha narrativa. Desde muitos anos, antes de eu ser admitido na Restinga, mesmo antes do Toninho ser transferido para a Gerência da Fábrica, um funcionário já exercia, ali, as funções de mestre (hoje Gerente de Produção), seu nome, Nicola Mastropietro, conhecido popularmente como Pedro.
Conhecedor profundo de todas as mumunhas da profissão, homem de coração boníssimo, morador da Vila Ré e bastante meu amigo. Esse era o Pedro que eu conheci naquela empresa.
Almoçávamos juntos, todos os dias, numa padaria logo depois do pontilhão da Central do Brasil. Éramos verdadeiramente dois bons garfos e, na hora do almoço, não nos fazíamos de rogados, batí
amos pratos dignos de espanto.
Às vezes, nas segundas-feiras, o Pedro fazia uma surpresa e trazia para o almoço quitutes que dona Lidia, sua esposa, havia preparado no domingo. Ora era uma generosa porção de pés e rabinhos de porco, ora uma rabada, ora uma galinha ao molho pardo e coisas que tal.
Numa segunda-feira normal, quando cheguei à fábrica, o Pedro me disse com euforia: - Migué, se prepara que o almoço hoje é especial.
Assim sendo, fiquei na expectativa, à espera da hora de saborear o quitute por ele trazido. Como de costume, um pouco antes da hora da bóia, tomei um trago da pinga especial que mantinha guardada no cofre e esperei servir o almoço.
O Pedro, todo cheio de salamaleques, chegou com as marmitas já quentinhas e abriu-as. Nelas estavam o tradicional arroz, o feijão de caldo grosso e perfumado e uma carne ensopada
com batatas de aparência convidativa. Informou, então, que iríamos comer um coelho preparado com todo o capricho.
Não tive dúvidas, ataquei a comida como se fosse a última refeição da minha vida. Comemos, ele e eu, até nos fartarmos. Terminada a refeição, o Pedro levantou-se, pegou um dos compartimentos da marmita, que havia ficado até então fechadinho e, dizendo-me ser a hora da sobremesa, aproximou a marmita para bem perto e a abriu, ao mesmo tempo em que soltava estrondosa gargalhada.
Dentro dela, devidamente acondicionada, estava a cabeça do gato que transvertido de coelho nós havíamos almoçado.
No primeiro minuto levei um susto, mas depois, sopesando a delícia do almoço, aplaudi a surpresa e fiz com que ele prometesse uma nova refeição idêntica para muito em breve.
Foi mais uma das esquisitices gastronômicas que vivi em minha existência.

Por Miguel S. G. Chammas




O menino do Jaçanã

É tarde eu já vou indo preciso ir embora, té manhã. Mamãe quando eu, sai, disse: - bichinho não demore em Braçanã. Este é um trecho da música de Luiz Vieira, composta no inicio dos anos 1950. Ouvindo a música, percebi que uma palavra contida na letra, se parecia com o nome de um bairro da zona norte da cidade de São Paulo, o Jaçanã.
Ai,
me lembrei do menino do Jaçanã, meu colega de escola SENAI, do Brás. Era Sebastião (Tião) que morava no bairro do Jaçanã.
Órfão de pai e filho de empregada doméstica, Tião tinha orgulho da sua mãe, que não se preocupava em arrumar outro homem e se dedicava ao trabalho, para dar a ele uma vida melhor.
No curso profissionalizante, Tião optou pela marcenaria e, na parte teórica, fazia o curso correspondente a um ginásio naqueles anos, 1954-55-56. Com poucos recursos, ia estudar com roupas ganhas ou feitas por sua mãe, quando chegava do serviço. Camisas de algodão que, de vez em quando, ganhava das patroas, por estar com muito uso por seus maridos, muitas vezes grandes para o porte físico do filho.
Quando não, eram camisas feitas de saco de farinha que, às vezes, tinha a logomarca da SANBRA (sociedade algodoeira do nordeste brasileiro) ou do açúcar União. Como não podia deixar de ser a gozação era grande por parte dos alunos que não tinham os mesmos problemas financeiros em suas famílias.
Tanto na parte prática como na teórica, ele era muito bom e suas notas estavam acima dos demais; Nem era de ficar sempre de olho nos livros ou cadernos. Sebastião não era de f
icar estacionado. Quando terminou o curso no SENAI, foi trabalhar na firma que o financiou nos três semestres que ele ficou na escola SENAI. Trabalhava de dia e, à noite, ia estudar mais, pois queria ser um doutor. Anos mais tarde, o encontrei no centro da cidade. E, depois daquele... puxa quanto tempo! Ele disse que ia até a Praça João Mendes.
Vou ao fórum levar essa petição, que precisa ser protocolada ainda hoje, sem falta. Então, percebi que o velho amigo de escola, o Tião, agora era chamado de Dr. Sebastião Rodrigues da Silva.

Por Mário Lopomo